sábado, 31 de maio de 2014

a felicidade é coral

um meu caríssimo amigo casa no próximo fim de semana. a primeira vez que falámos nisso, apresentou-me a situação duma maneira completamente descontraída e simples, como só (ou quase só) um homem consegue fazer.

ele: aceitavas assinar o meu registo de casamento?
eu: vais casar e queres que eu seja a madrinha do teu lado?

(ainda não tive o prazer de conhecer a noiva por causa de muitos quilómetros que nos separam, então ela de certeza não podia querer ter-me por madrinha)

ele: vou. quero.
eu: bem.
ele: então vais ter de vestir roupa coral.
a minha bóia salva-vidas
eu: ???
ele: é a cor principal do casamento.
eu: o quê?

(já tenho poucos conhecimentos na matéria de casamentos, porque é algo que nunca ficou na minha lista de tarefas para esta vida; mas tenho ainda menos conhecimentos na matéria de pedidos absurdos

ele: pois...
eu: foste tu que inventaste essa cena?
(...)

eu: é obrigatório?
ele: não vou insistir.

regra geral, tenho problemas com fardas. e códigos de vestuário. ir a contracorrente é sempre um prazer. gosto imenso. isto, acrescentado ao facto que sou bastante insubordinada, faz com que não use coisas de que não gosto. e a roupa nem reflete quem sou, nem as minhas competências profissionais, então não percebo muito bem a importância disso tudo. ninguém me vai fazer crer que a felicidade duma pessoa possa depender da cor do meu vestido. além disso, acho que para se ter um bom aspecto/ser sensual/transpirar charme precisa-se de estar confortável e fiel a si mesmo. não tenho nada contra o facto de agradar às pessoas, sobre tudo quando são queridas. mas dentro do razoável. e não consiga encontrar nenhuma razão viável que fizesse encaixar a cor da minha roupa neste razoável. por isto, eu de coral, não é exequível.

mas para fazer prova de boa-vontade, decidi investir num acessório coral para fazer ressair o azul-marinho do meu vestido. como vem com cinto, optei por encontrar um coral. tenho muito pouca prática na compra de acessórios, porque sou minimalista, então já posso dizer que é uma façanha. fui a um milhão de lojas. cintos não parecem estar de moda neste verão. ou não há de todo na colecção ou são alegremente pretos e castanhos. e com adornos horrorosos. depois de duas horas abandonei a ideia.

mas a frustração e o cansaço dissiparam-se como por magia quando uma amiga se ofereceu para me emprestar um cachecol coral. pelos vistos, uma fracção infinitesimal da minha felicidade (a de já não ter de percorrer uma infinidade de lojas à toa e em vão) depende da cor, não do meu vestido, mas do meu cachecol. paciência!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

fora da caixa

temos sempre uma ideia sobre o que a nossa vida devia ser. ou sobre o que queríamos que fosse. claro, muda com o tempo e com as experiências, mas cá está - palpável e definida. independentemente da forma que tem. e das nossas dúvidas. não significa que sabemos sempre tudo. muitas vezes  sabemos o que não queremos. e já é muito.

nunca pensei que um dia ia começar um blogue. tenho querido escrever, mas não gosto de compartilhar as
fora da caixa
minhas histórias com muitas pessoas. tive uma discussão com os meus alunos há alguns dias sobre o facto se se escrevia para deixar vestígios. responderam que sim, e não só livros, mas também facebooks, twitters, 
emails e outros. vivemos numa época em que todos parecem obcecados com a ideia de deixar marcas, mesmo que sejam completamente absurdas, triviais e infinitesimais. quantidade antes de qualidade. acumulação de palavras antes de sentido. vazio emocional antes de modéstia. insignificância antes de respeito. exposição antes de conhecimento. vestígios não são realmente a minha praia. sei que ar tenho de biquíni e isto chega. não vejo porque é que o podia ou devia querer compartilhar com a metade da humanidade. gosto de ser anónima. de fazer coisas para as pessoas pelo prazer de as ver sorrir e sem que saibam de quem isso vinha. 

mas ultimamente, tenho a impressão de ter perdido o meu espírito de aventura. por causa de rotina? por falta de situações ou pessoas inspiradoras? por uma precipitação de preocupações quotidianas? estava a pensar que se precisava evolver e avançar na vida. a estagnação não traz nada de bom. na minha escola de desenho de moda diziam sempre que se era mais criativo quando se pensava 'fora da caixa'. que se precisava perder inibições e medos para se tornar melhor. e livre. decidi que era a altura de passar mais tempo fora da minha. e aqui estou.

a questão da língua do blogue não o foi realmente. tenho gostado da escrita de tabucchi desde o seu primeiro livro que li, mas foi só mais tarde que descobri que ele e eu tínhamos a mesma paixão - o português. uma língua que eu queria aprender durante anos. um ritmo de respiração que ainda não domino completamente, mas espero lá chegar um dia. o devagar das letras. a duração das pausas entre as palavras. a precisão e a meticulosidade da pontuação. é como chegar a um porto. sentir a terra firme debaixo dos pés. as nuvens e obscuridades da vida de repente dissipadas. uma comunhão das almas. algo bastante importante para mim que me sentia sempre dividida entre o francês e o polaco. então vou escrever com um milhão de erros mas não tenciono preocupar-me com isto. gosto de fazer erros. é o que faz crescer na vida.

quanto ao título, não tem nada a ver com comida, mas com escolhas. achei sempre que para conhecermos bem precisávamos saber que limites temos. do que se aceitava abdicar. o que se podia perder na vida. e com o que se queria ficar, independentemente do preço. para saber o que se espera de si mesmo e das outras pessoas, para poder evolver como pessoa, é preciso definir-se. atestar. escolher. mesmo que sejam coisas pequenas.

hoje parece um bom dia para se começar blogues, mudar de vidas, enfrentar desafios. sentir a frescura e a incerteza do desconhecido no ar. uma brisa no rosto. um sabor salgado da maresia na boca (pelo menos para quem goste do mar). uma estrela que pisca duma luz laranjada e calmante. uma beleza indelével, inefável, tão frágil que se dissipa com o suspiro mais leve. uma solidão que se torna confortante. 


"People will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel".

RIP Maya Angelou