quinta-feira, 22 de julho de 2021

sem companhias

recarregar as baterias
há umas coisas que se calhar não têm nada extraordinário em si próprias, mas deixam-me completamente eufórica. ficar sentada fora a pensar ou escrever numa noite quente e silenciosa que faz ressaltar os sons da natureza. andar na praia ou num lugar de onde se consegue ver o mar (se for na praia só torna a experiência mais intensa) a fazer dançar os pensamentos na linha do horizonte. olhar para o peso do céu estrelado a sentir a própria pequenez e insignificância. acordar num quarto climatizado só para sair dele e banhar no calor do dia a começar que acaricia a pele. andar pelas ruas duma cidade que não conheço no verão sem nunca tirar o mapa da mala, guiada pelos meu pensamentos e as cores  do lugar.

todas essas coisas têm um denominador comum. a solidão. não é que me faz ficar surpreendida ou dá a impressão de ter feito uma descoberta qualquer. já sei há muito tempo que para me recompor, para fazer balanços, para arranjar planos, para medir o meu pulso emocional preciso poder andar e ter espaço, luz, calor e retiro. é o equilíbrio mágico. a combinação milagre e mais eficaz. um cocktail esquisito que me deixa transportar montanhas e fazer o impossível. adoro falar. adoro compartilhar. adoro estar com pessoas. preciso de momentos gregários todos os dias para me sentir feliz e quieta. mas, paradoxalmente, o que me faz ficar mais eficaz e mais de acordo comigo própria é a solidão. 

sem ela, nada era possível. não conseguiria aguentar estar acompanhada constantemente. não teria nem a intimidade nem o tempo para analisar tudo o que me passa pela cabeça. não conseguiria dispor de espaço suficiente para falar comigo própria e para me ouvir. são dois estados completamente contraditórios, mas que em mim se compõem num tudo, mesmo que possa não fazer sentido. um não podia existir sem outro. a criatividade e a motivação quando estou sozinha vêm das pessoas. as interações e o equilíbrio quando estou com pessoas vêm da solidão. é impossível dizer que parte tem um papel mais importante. mas é possível dizer que preciso de ambos todos os dias para me sentir realizada. e com energia. é um estado intrínseco que levei tempo a aprender a gerir. e conciliar. porque o mais pequeno deslizo na proporções causa explosões e torna infeliz. então vou continuar a fazer malabarismos com solidões e multidões, mesmo que seja incompreensível dum ponto de vista lógico ;)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

assimetrias solares

amanhãs inesperados
acho a simetria chata. óbvia. demasiado bem arranjada. sem nenhum encanto. sem riscos. sem desenvolvimentos inesperados. pouco criativa. insuficientemente misteriosa. não estou a dizer que não pode ser bonita. pelo contrário. mas além da beleza, não inspira a fazer explorações. incita uma curiosidade limitada. não põe a questionar. não alimenta a sede de fazer de outra maneira.  não faz valorizar ao máximo o que se tem. 

adoro o verão. o sol. o calor. a praia. o mar. as temperaturas em cima dos 28 graus fazem-me ficar extasiada. eufórica. dão-me a impressão de conseguir levantar montanhas. de ter ainda mais energia. de ser mais leve. mais perspicaz. mais divertida. tornam as dificuldades muito mais aguentáveis. convidam a desafios. estimulam intelectualmente.

e claro que preferia ter este tempo todos os dias. com uma exceção. as ilhas. cá, mesmo no meio do verão e do calor, há outras regras. o vento traz coisas diversas. e inesperadamente. pode-se começar com nuvens e chuva para eles desaparecerem uma hora mais tarde e o dia continuar como se elas nunca tivessem existido. ou uma trovoada pode rebentar de repente no meio duma tarde ensolarada. se prefiro a instabilidade do tempo à estabilidade? claro que não. mas gosto da humildade que o imprevisível traz. a não ter algo todos os dias tem-se a garantia de não o tomar por garantido.

e gosto também da indomabilidade das ilhas. do facto que, no fundo, nunca se consegue prever tudo. planear tudo. há sempre variáveis que ficam fora do controlo. um encanto um pouco selvagem. rústico. trémulo. que se esconde e reaparece quando lhe apetecer.  sem se preocupar com o politicamente correto. ou com as expetativas. livre. despreocupado. egoísta. a dançar no ritmo do vento. a desaparecer no brilho do sol. a mergulhar na espuma das ondas. a reaparecer só para desatar a rir. e perder-se outra vez.