segunda-feira, 21 de julho de 2014

uma cerveja?

acho importante manter boas relações com as pessoas que prestam serviços. é mais agradável assim. e mais pessoal. gosto do pessoal. então conto a minha vida ao meu sapateiro, ao meu vendedor no mercado e ao meu carpinteiro. sim, sou do tipo de pessoas que têm sapateiros, vendedores, esteticistas, carpinteiros, opticistas, taxistas e outros. não conto muitos detalhes mas troco impressões com eles, pergunto como está o negócio, peço conselhos profissionais... todos se riem de mim; dizem que não percebem como posso dedicar tanta energia e tempo a algo de completamente insignificante. mas para mim não é uma despesa de energia. pois, sou a pessoa que todos contactam quando precisam ver um profissional recomendado. acho que devia começar a pedir comissões pelas recomendações.

ultimamente decidi renovar uma cadeira que usava em menina na casa dos meus avós. não tanto para me sentar porque acho que caia em pedaços com os meus 57 quilos, mas porque faz parte da decoração da casa. hoje o meu carpinteiro, um senhor encantador e delicado na casa dos 60 anos que faz um ótimo trabalho, ligou-me para que eu a viesse levar. deixei algum dinheiro quando a entreguei, mas estabelecemos que se custasse mais, eu pagava quando a recuperasse.

eu: devo pagar mais?
ele: como quiser.
eu: não sou eu o carpinteiro não sei quanto é. não sei quanto vale o seu trabalho.

ele não diz nada. olha para mim confuso.

decido tomar a iniciativa (adoro tomar a iniciativa): quanto mais devo pagar?
ele: não sei. se calhar como por uma cerveja.
eu: significa quanto? porque eu não bebo cerveja, não gosto, então não tenho nenhuma ideia de quanto custa.
ele: eu também não bebo cerveja e não sei quanto custa.

deixei o que achei conveniente e despedimo-nos contentes, cada um por um motivo diferente.

domingo, 13 de julho de 2014

e se ionesco fosse italiano?


corniglia, cinque terre
não se pode não gostar da itália. as paisagens são de tirar o fôlego, as cidades vibrantes e cheias de história, a comida uma poesia, a gente prestável e barulhenta, o estilo às vezes ostentatório demais mas sempre uma referência na moda, o sol a aquecer como manda a lei, o tempo devagar e suspendido num ar saturado de calor, o vento a levar sussurros duma herança imperial, as cigarras incansáveis na sua procura da perfeição, a maresia a envolver e intoxicar.

quando há mar, é sempre uma pequena vantagem. quando há praia, é ainda melhor. pelo menos para mim. um meu ex-namorado costumava dizer que eu tinha areia nas veias em vez de sangue. adoro fixar o horizonte sem fim, um azul confortante, inspirar a maresia até me sentir mais leve e eufórica, caminhar na longe da praia perdida nos meus pensamentos. por isso, tenho as unhas sempre feitas, estou perfeitamente depilada e com a celulite reduzida ao mínimo para estar pronta para ir à praia 365 dias por ano. caso a ocasião se apresente, também levo sempre um biquíni de viagem (primeiro escrevi 'viajo sempre de biquíni'; deve ter sido um erro freudiano).

a última vez que lá fui, também tive de apanhar um comboio no mesmo dia em que apanhava o avião de volta. foi uma viagem cheia de emoções porque parámos no meio dum campo durante mais de duas horas, primeiro para que os passageiros dum comboio que se avariou pudessem juntar-se a nós e continuar a viagem, e depois não sei porquê. ninguém me conseguia responder a esta pergunta. a comprar os bilhetes desta vez, lembrei-me disso e hesitei, mas como não viajava sozinha e os meus companheiros não compartilhavam as minhas dúvidas, acabamos por comprar a volta pelas 15.00 com três horas de comboio a fazer antes para chegar a milão. no dia anterior, enquanto estávamos à espera, numa plataforma cheíssima de turistas (sobretudo americanos e escandinavos), do comboio local em vernazza para voltar a manarola, entre os anúncios intermináveis e repetíveis que informavam sobre a interdição de atravessar trilhos, ultrapassar a linha amarela quando um comboio passava, deixar bagagens sem supervisão etc, houve um, discretamente formulado em italiano e só passado uma vez, que revelou uma greve ferroviária a começar no mesmo dia às 21.00 e a durar 24 horas. tive um déjà vu digno do matrix. decidimos que era preciso partir ainda mais cedo no domingo.

a chegar à pensão, fui ter com o simone, o nosso anfitrião, para tentar de antecipar a dimensão do desastre. explicou-me que a lei italiana mandava que uma parte das conexões fosse garantida. passamos mais de 30 minutos na página de trenitalia a procurar que comboios iam sair para milão. como manarola é uma aldeia pequenina primeiro precisava-se apanhar um comboio local até monterosso o la spezia, e só depois um intercidades. se bem que houvesse dois comboios regionais para génova que paravam em manarola de manhã, decidimos que era melhor apanhar um em la spezia porque ia haver mais hipóteses. seja. era preciso comprar os bilhetes o mais rapidamente possível, porque depois o simone ia-se embora e precisávamos dele para poder imprimi-los. optamos pelo das 6.38 (sic). uma vez os bilhetes comprados online (o que levou uma eternidade e quase precisámos pedalar para que a internet funcionasse mais depressa), só sobrava encomendar um táxi. nessa altura, a situação, que achámos quase resolvida, complicou-se consideravelmente. porque o que fazem todas as pessoas sensatas num sábado em fim da tarde? de certeza não trabalham. e pareceu que na ligúria só havia taxistas sensatos. trinta minutos mais tarde, depois de termos tentado ligar todos os serviços de táxis da região e deixado muitas mensagens nos voice mails deles, ninguém tinha ligado de volta. o colega do simone lembrou-se que conhecia alguém que não era oficialmente taxista, mas oficiosamente trabalhava como tal (porque é que isto não nos surpreendeu?). só não conseguia lembrar-se do nome do rapaz. nem tinha o número dele. alguns telefonemas depois, estabeleceu-se que um certo davide que trabalhava no hotel marina piccola de certeza tinha o número do taxista não-oficial. não tínhamos o número do marina piccola. começou-se a procurar. entretanto o simone encontrou um cartão de visita dum serviço de táxis que se anunciava aberto 24h por dia. ligamos, cheios de expetativas desnecessárias. uma voz informou-nos de maneira seca e cortês que não havia ninguém disponível para atender a nossa chamada. claro. encontrou-se o número do marina piccola e enquanto estávamos a marcá-lo, o telefone tocou. era um dos serviços. reservámos um táxi pelas 5.45 na barreira que marcava a entrada da aldeia (manarola é composta duma única rua pedonal; os carros devem estacionar numa área entre duas barreiras. só os habitantes podem ultrapassar a primeira de carro. quanto à segunda, só os carros de entrega). num momento de lucidez surpreendente, dado as circunstâncias confusas, pedi ao simone o número do nosso serviço. just in case. o simone assegurou-me que agora o táxi não podia não vir. jantámos felizes e adormecemos a ver um outro jogo chato.

estávamos na barreira às 5.35. a saber que se o táxi não chegasse a horas, não havia hipótese de chegarmos
numa rua de corniglia...
a tempo para apanhar o nosso comboio. se houvesse comboio. às 6.00 liguei para o serviço de táxis da estação. surpreendentemente atenderam imediatamente. o homem assegurou-me que o nosso táxi tinha saído. como o sabia? porque o denominado carro número 29 não estava na paragem dos táxis. e significava que estava a caminho. claro. a pergunta era: a caminho de onde? às 6.10 vimos a primeira pessoa na rua - um homem de barba branca que andava a passear o cão. saudámo-lo. às 6.20 liguei outra vez para o serviço. outra vez atenderam imediatamente. o homem assegurou-me que o táxi estava a caminho. pois sugeriu de maneira pouco discreta que se calhar o táxi tinha chegado e estava à minha espera e era eu que não o via. perguntei-lhe se podia mandar outro táxi. respondeu que ia ver, desejou-me um bom dia e desligou. às 6.30 decidimos que era completamente absurdo esperar pelo primeiro ou segundo táxi porque nem um nem outro ia chegar. ou pelo menos nem um nem outro ia chegar a manarola. resolvemos tentar apanhar o comboio local das 7.28 em manarola. mas quando estávamos a beira de descer até a estação, a monika teve uma ideia brilhante. enquanto estávamos a debater sobre o que fazer, vimos o homem de barba branca voltar com o cão do passeio, entrar num carro estacionado perto e instalar o cão no chão do lugar do pendura. a monika disse que íamos perguntar-lhe se ele não ia a la spezia. não ia. mas contei-lhe toda a nossa história e perguntei se não nos lá podia levar. olhou para nós e disse 'só vou levar o cão a casa' e desapareceu na parte da rua que era protegida pela barreira. quando voltou cinco minutos mais tarde sem o cão, desta vez usava óculos para conduzir. estava a levar a missão a sério. quando chegámos, por volta das 7.00 e depois dos 25km, à estação de la spezia, o homem não queria aceitar dinheiro de todo, mas insisti. nunca percebo quando as pessoas dizem que não conseguiam dar algo a alguém porque a pessoa em questão não o queria. quando se quer dar, dá-se. é tão simples.

na estação reinava uma confusão italiana. astutamente, todos os guichés da bilheteira e da informação estavam fechados. não havia nenhum empregado. por isso nenhum dos passageiros manifestava descontentamento ou se queixava. qual era o propósito? perguntei ingenuamente a algumas pessoas se não havia um aluguer de carros de aberto. num domingo de manhã? decidimos que o mais importante era apanhar um comboio qualquer que nos levasse na direcção de milão. o das 7.12 para génova era o primeiro. vimos que o comboio já lá estava. mas nem era o caso do maquinista, nem do resto do pessoal. uma mulher assegurou todos que esse comboio estava na lista dos 'garantidos'. um homem sugeriu que se calhar isso significava que o comboio ia estar fisicamente presente na estação, era o que era garantido e só isso. perguntei se alguém sabia se havia um comboio que já tinha saído da estação dessa manhã. ninguém sabia. muito pontualmente, às 7.12, anunciaram que o comboio tinha sido anulado. resolvemos optar pelos intercidades, porque havia mais hipóteses que não fossem anulados. devia haver um às 7.00 mas já tinha 60 minutos de atraso e outro às 8.00, mas já tinha 70 minutos de atraso. a outra questão era: comprar ou não comprar bilhetes novos para um outro comboio. mas como não se sabia que comboio não ia ser anulado, despesas adicionais faziam pouco sentido. anunciava-se mais e mais comboios anulados. fui mesmo perguntar quanto custava um táxi para milão - a lei da oferta e da demanda funcionou bastante bem - a quantia tornou-se astronómica. o comboio previsto às 9.00 foi anulado. decidimos tomar o pequeno almoço e esperar pelo comboio previsto às 8.00. chegou. não anunciado nem que fosse uma vez. subimos na primeira carruagem possível. informei o condutor que não tínhamos os bilhetes certos, mas ele não pareceu muito impressionado com essa noticia. no fim das contas, não passou para controlar bilhetes de todo, mais provavelmente porque sabia que quase todos estavam na mesma situação e que era demasiado trabalho arranjar a situação de todos os viajantes. tentámos dormir, mas houve um grupo de pessoas que mal se conheceram e três minutos mais tarde já estavam a trocar emails e números de telefone e a combinar encontros, e falavam tão alto como se quisessem socializar com toda a gente no comboio. os italianos... c'è poco da dire

chegámos a milão às 11.00. almoçámos bem num restaurante da estação. pagámos muito pouco pelo táxi para ir para o aeroporto. fizemos lá compras muito frutuosas. chegámos a casa na hora prevista e vimos a final. parece que, para um dia que se anuncia mau e absurdo correr bem, basta encontrar de manhã um homem a passear o cão e mostrar-se generoso para com ele. e tudo muda!