domingo, 25 de setembro de 2016

supostamente inesperado

vous ne connaissez rien de la vie. vous pouvez tout attendre d'elle. savez-vous quelle a été ma faute? de ne plus en attendre rien... ne désespérez jamais de la vie. andré gide

recantos encantadores
gosto de falar com pessoas, e nem sei que palavra exatamente usar agora para as descrever para que nem soe presunçoso nem pejorativo, então vou dizer que as que tiveram menos sorte na vida. a níveis diferentes. por razões diferentes. e que fazem trabalhos que são qualificados por muitos como de merda. e que são consideradas invisíveis. insignificantes. não do mesmo nível (nunca percebi como se conseguia determinar esses níveis... nem quem se achava ter o direito de os definir e de depois qualificar quem pertencia onde...). não suficientemente inteligentes ou cultas. pouco interessantes. as que nem se quer ver, nem notar. nunca percebi porquê. merecemos todos o mesmo respeito. independentemente do número de línguas que falamos ou do dinheiro na conta. e nunca se consegue prever de quem se vai poder aprender.

na verdade, a vida é bem irónica. muitas vezes é com estas pessoas que aprendemos mais que com as supostamente inteligentes, cultas, interessantes, viajadas, sofisticadas etc. porque não perderam o sentido do que era realmente importante na vida. porque têm opiniões que não ficaram poluídas pelo poder ou pelo prestigio. porque conseguiram ficar humildes, fieis a si próprias. porque sabem valorizar gestos de simpatia e de carinho. porque têm um olhar de fora para todo esse mundo do qual ficaram excluídos. do qual se sentem excluídos. porque chamam as coisas pelos nomes. porque não perderam os reflexos humanos por causa de conivências sociais. ou outras merdas. porque não estão com medo do que os outros vão pensar delas.

e isso vale mais que todos os livros que se leu, que todas as viagens que se fez, que todas as experiências profissionais que se teve e que todas as influências que se tem. ou que se acha ter.

sábado, 17 de setembro de 2016

i de inevitável

ver com olhos bem abertos
sou muito intuitiva. não tenho paciência para estudar detalhes. nem olhar meticulosamente para pormenores. chega-me adivinhar em que direção tudo vai prosseguir. com o passar do tempo aprendi a confiar, quase cegamente, nesta intuição. a ouvir-me com muita atenção. a reparar em todos os sinais que desviam do caminho. sobretudo porque todas as vezes que não o fiz, que decidi ser só racional, que achei que estava a exagerar com os meus pressentimentos negativos ou com as luzes vermelhas que se acendiam na minha cabeça, acabou por resultar em fracassos de tamanhos diversos. acompanhados pelo mesmo pensamento: então tinha razão de desconfiar... ou de questionar. 

costumo pedir opiniões às pessoas. também gosto. não porque não sei o que quero fazer. nem porque tenciono necessariamente segui-las. mas porque a ser intuitiva sou demasiado rápida nos meus pensamentos. julgamentos. procedimentos. e consciente do facto que sem ter analisado a situação, posso não ter visto elementos pertinentes. a esperar que não seja que os tenha omitido, mas, no fundo, nunca se sabe. a ouvir o que os outros pensam do assunto, tenho uma visão mais completa, mais exaustiva das coisas. e posso tranquilamente seguir o que me passa pela cabeça. já não é que não analisei as diferentes hipóteses.

mas aprendi também a notar mais uma coisa. quando me sinto completamente perdida, quando peço opiniões a mais, quando pareço não saber o que quero, significa que estou a tentar esforçar-me a fazer algo que não me corresponda de todo. que não concorde com a minha maneira de ser. é quase como se fosse uma chamada desesperada, a suplicar que alguém me dissesse que estou a errar completamente. que me empurrasse na direção certa. mas sou a única pessoa capaz de o fazer. às vezes leva mais tempo. às vezes menos. mas é um alivio enorme chegar a perceber que me tinha desalinhado demasiado de mim. e que bom descobrir-me de novo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

as coisas que me fazem ficar calada

sou faladora. gosto de conversar com desconhecidos. de estabelecer contactos pessoais. de não ver nas pessoas só prestadores de serviços, formas no fundo da imagem. de contar a minha vida. ou pelo menos alguns detalhes dela. o que poucos sabem é que falo muito de algumas coisas para não ter de falar de outras. sei muito bem onde quero a atenção. e onde não a quero. o que estou disposta a mostrar e o que prefiro esconder. sou direta, mas não sempre transparente. o meu jardim secreto, há poucas pessoas que entram nele. mas é assim que gosto das coisas. adoro compartilhar por escolha, mas também adoro calar. preciso dum espaço que seja só para mim. em que não tenho de explicar ou justificar nada. e, (in)felizmente vou à contracorrente com a lógica geralmente adotada. abordo sem pestanejar assuntos que quase todos acham pessoais, mas
contornar o óbvio
recuso-me a falar de outros de que todos falam. vejo esses temas como uma invasão total da minha privacidade. não percebo porque é que deveria querer falar neles. como é que se pode ingerir tanto na intimidade duma pessoa.

e, para mim, por louco que possa parecer, mais falo num assunto ou numa pessoa, quanto menos é importante para mim. mais é importante, menos falo. as minhas grandes amizades, os meus grandes amores nunca senti realmente a necessidade de os compartilhar em detalhes. a não ser que seja com a pessoa em questão. não preciso de as medir com palavras. de as descrever. de as embelezar. de me valorizar por as ter. não as quero poluir com nada. ou despir demais. ou tirar o lado sagrado dum segredo compartilhado entre só duas pessoas. há algo extremamente bonito e frágil na discrição. no pudor. no silêncio. no não-dito. nos sorrisos cúmplices. no brilho nos olhares que se cruzam. nos olhos que são os únicos a saber. é poesia.

uma conhecida perguntou-me há pouco se uma tal e tal pessoa era feliz por tal e tal motivo. olhei para ela com incredulidade. é que já nos conhecemos há muito tempo e eu ficava à espera de um pouco mais de perspicácia da parte dela. respondi que não sabia porque era introvertida e não falava de tais assuntos com as pessoas, eheheh...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

quem queres ser?

be yourself; everyone else is already taken. oscar wilde

o que escolhes?
uma conhecida explicou-me ultimamente, de maneira muito entusiasmada, o funcionamento duma aplicação de encontros. quando lhe perguntei se realmente achava que as informações e fotos lá fornecidas eram verdadeiras e correspondiam aos homens em questão, respondeu que claro que não. e concluiu que era mesmo por isso que era um conceito muito fixe. e tão divertido. podia-se ser tudo o que se queria. acolhi essa constatação com alguma consternação. e incompreensão. completa. porque é que alguém quereria perder tempo e energia para ser alguém quem não era? nunca percebi essa ideia.

porque a realidade virtual parece poder conseguir um dia substituir a realidade real? houve muitas inovações que pareciam fazer um dia desaparecer produtos mais antigos, mas nunca aconteceu. o cinema não substituiu a televisão, a televisão não substituiu a radio, mesmo que se pensasse numa altura que pudesse ser assim. porque desta vez não se trataria de substituir um produto, mas muito mais. mesmo muito mais. a realidade doi. é um processo em que o nosso caminho está delineado por experiências negativas. por perdas. pelos nossos esforços de lutar contra elas. o mundo virtual livra-nos de tudo isso. não tem consequências. nem perigos. é bonito. fácil. não decepciona. tira frustrações. oferece inumeráveis hipóteses de recomeçar do zero. é tão bonito, porque não existe. é só uma simulação. uma cópia. um falso presente. uma fuga.

tenho sempre achado muito mais interessante ser quem se é. oferece mais variedade. mais opções. menos banalidade. torna mais livre. tenho o nariz refeito. uma cicatriz feia depois duma operação na infância. a tendência para ser demasiado independente e querer fazer tudo sozinha. e não vejo porque deveria querer fingir que não sou assim...