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| zonas de desconforto |
achei sempre que esses códigos eram feitos por pessoas frustradas e complexadas. quem é que tem tempo, energia e jeito para se interessar pelo comprimento da roupa ou na altura duns saltos de outras pessoas? deve-se realmente não ter mais nada para fazer. pessoalmente, nem me interessa se as pessoas usam roupa interior. tenho coisas mais palpitantes para fazer na vida. percebo a parte do elegante. percebo a parte do fácil porque já não é necessário verificar se todos os empregados estão a ser suficientemente representativos. percebo que muitos gostem do facto de não ter de ponderar o que vestir. mas eu não me sinto confortável a usar roupa que não escolhi. não me sinto confortável a fazer coisas que não escolhi. e o não me sentir confortável tem um impacto sobre o meu bem-estar. e a qualidade do meu trabalho. então é realmente o que querem? o que importa mais?
a minha história de abusos de dress codes é comprida, irrequieta, cheia de insolências e mentiras (é que qualquer argumento é bom para fugir a essas regras débeis). às poucas vezes que trabalhei para a conta de outrem, no início olhei sempre para o regulamento interno. mais exatamente para o capítulo do vestuário (tenho pouco interesse por regulamentos de todo género; vejo-os como limites mais que outra coisa). é que gosto de quebrar as regras conscientemente. é mais divertido que fingir que ups, não sabia, não li, não tinha nenhuma ideia. e também para ver que absurdos é que achavam que eu ia cumprir. saltos não mais altos que 5cm. o meu professor de desenho de sapatos, que trabalhou dez anos na itália (a terra dos sapatos), costumava dizer que não havia coisa pior que usar um salto médio e que nessas alturas já era melhor não usar salto de todo. obedeço a essa regra com uma dedicação e uma meticulosidade religiosa. é uma das poucas que sigo cegamente. deve bem haver alguma.
no ano passado uma pessoa com quem eu trabalhava queixou-se ao diretor que os meus vestidos eram demasiado curtos e os meus saltos demasiado altos. que eu era a própria incarnação da indecência. eheheh. até me senti lisonjeada. não sabia que alimentava tantos interesses (ou mais exatamente ciúmes...). porque teria sido incapaz de dizer o que usava a pessoa que se tinha queixado. mas a parte ainda mais interessante é que nem o diretor me deu qualquer reprimenda nem os outros empregados, que sabiam que a pessoa tinha apresentado uma queixa, se atreveram a dizer-me que uma tal situação tinha ocorrido. uma colega acabou por contar-me tudo no dia em que lhe disse que o diretor passou um bom momento a fitar os meus sapatos. pelos vistos todos estavam com medo de mo dizer. fiquei muito dececionada. teria adorado ter uma conversa tão absurda. perguntar o que a minha roupa tinha a ver com as minhas competências. ou a falta delas. desde quando era assim que se as julgava. e, finalmente, teria adorado que me pedissem para a mudar. porque a resposta teria sido fora de questão. não sou as compras no supermercado. não se pode escolher as peças que mais apetecem. sou um conjunto. um todo que só se segue a si próprio. um complexo indesmontável. devo respeitar que haja pessoas que se queiram identificar com uma empresa? muito bem. respeitem que eu queira identificar-me comigo. e só comigo.

