terça-feira, 21 de junho de 2016

a sério?

zonas de desconforto
nunca percebi essa história de uniformes, de códigos de vestuário. no caso das forças de segurança e de profissões de salva-vidas até faz sentido. na altura de perigo para a vida é importante conseguir imediatamente localizar uma pessoa que possa ajudar. também nas profissões em que se suja muito compreendo. e nessas que se exerce no meio da multidão, tipo aeroporto ou hotel. não estou a dizer que gosto, mas é verdade que também impõe alguma ordem. mas no resto dos casos é uma abstração total para mim. essa ideia de parecer fazer parte dum todo, ser um, personificar a empresa, não me convence. nem interessa. matar a individualidade? a criatividade? para quê? quando passo tempo em empresas em que todos parecem usar (ou até usam) o mesmo modelo de fato, de camisa, de gravata/cachecol, de meias (?), de cuequinhas (?) e as mesmas cores etc. tenho a impressão de estar num filme de ficção científica e pergunto-me sempre se todos também recebem cada manhã, a chegar ao trabalho, um comprimindo para suprimir as emoções e lhes fazer ficar ainda mais parecidos uns com os outros...

achei sempre que esses códigos eram feitos por pessoas frustradas e complexadas. quem é que tem tempo, energia e jeito para se interessar pelo comprimento da roupa ou na altura duns saltos de outras pessoas? deve-se realmente não ter mais nada para fazer. pessoalmente, nem me interessa se as pessoas usam roupa interior. tenho coisas mais palpitantes para fazer na vida. percebo a parte do elegante. percebo a parte do fácil porque já não é necessário verificar se todos os empregados estão a ser suficientemente representativos. percebo que muitos gostem do facto de não ter de ponderar o que vestir. mas eu não me sinto confortável a usar roupa que não escolhi. não me sinto confortável a fazer coisas que não escolhi. e o não me sentir confortável tem um impacto sobre o meu bem-estar. e a qualidade do meu trabalho. então é realmente o que querem? o que importa mais?

a minha história de abusos de dress codes é comprida, irrequieta, cheia de insolências e mentiras (é que qualquer argumento é bom para fugir a essas regras débeis). às poucas vezes que trabalhei para a conta de outrem, no início olhei  sempre para o regulamento interno. mais exatamente para o capítulo do vestuário (tenho pouco interesse por regulamentos de todo género; vejo-os como limites mais que outra coisa). é que gosto de quebrar as regras conscientemente. é mais divertido que fingir que ups, não sabia, não li, não tinha nenhuma ideia. e também para ver que absurdos é que achavam que eu ia cumprir. saltos não mais altos que 5cm. o meu professor de desenho de sapatos, que trabalhou dez anos na itália (a terra dos sapatos), costumava dizer que não havia coisa pior que usar um salto médio e que nessas alturas já era melhor não usar salto de todo. obedeço a essa regra com uma dedicação e uma meticulosidade religiosa. é uma das poucas que sigo cegamente. deve bem haver alguma.

no ano passado uma pessoa com quem eu trabalhava queixou-se ao diretor que os meus vestidos eram demasiado curtos e os meus saltos demasiado altos. que eu era a própria incarnação da indecência. eheheh. até me senti lisonjeada. não sabia que alimentava tantos interesses (ou mais exatamente ciúmes...). porque teria sido incapaz de dizer o que usava a pessoa que se tinha queixado. mas a parte ainda mais interessante é que nem o diretor me deu qualquer reprimenda nem os outros empregados, que sabiam que a pessoa tinha apresentado uma queixa, se atreveram a dizer-me que uma tal situação tinha ocorrido. uma colega acabou por contar-me tudo no dia em que lhe disse que o diretor passou um bom momento a fitar os meus sapatos. pelos vistos todos estavam com medo de mo dizer. fiquei muito dececionada. teria adorado ter uma conversa tão absurda. perguntar o que a minha roupa tinha a ver com as minhas competências. ou a falta delas. desde quando era assim que se as julgava. e, finalmente, teria adorado que me pedissem para a mudar. porque a resposta teria sido fora de questão. não sou as compras no supermercado. não se pode escolher as peças que mais apetecem. sou um conjunto. um todo que só se segue a si próprio. um complexo indesmontável. devo respeitar que haja pessoas que se queiram identificar com uma empresa? muito bem. respeitem que eu queira identificar-me comigo. e só comigo.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

vox populi?

dono da situação
uma das perguntas às quais todas as pessoas devem responder a si próprias numa altura ou outra é para quem vivem. quem escolhem ouvir. cujas expetativas vão preencher. quem querem ser na vida. não profissionalmente, não socialmente, não humanamente. mas egocentricamente. nas suas cabeças. definir-se assim faz parte de se tornar adulto. ensina responsabilidade. faz tomar decisões das quais não se gostava no início. obriga a deixar para atrás pessoas que não nos tratam como manda a lei. faz olhar para a realidade tal como é, sem embelezar nem suavizar. sim, deixa um sabor amargo na boca. mas já não se perde. só se a limpa depois para que seja o mais aguentável possível. também para conseguir esquecer-se temporariamente dele.

todos chegamos à conclusão quem somos. mais cedo ou mais tarde. não acredito que não se o saiba. é só que a maioria das pessoas prefere fingir que nunca aconteceu. começa a acelerar o passo, olha numa outra direção e espera que os outros não tenham notado nada. ou mente sobre o que descobriu. escolhe viver uma ilusão. ser outra pessoa. impõem-se limites. regras. fantasias. em nome de quê? duma paz interior? duma acertação geral? duma sensação de fazer parte dum tudo? dum medo de dececionar, sobretudo a si próprio? preferem ser falsas. acham isso um menor mal. julgam oferecer o melhor de si. optam por esconder as partes que acham feias. ou vergonhosas. e quando a fachada cai, o que sobra? nada.  nicles. zero. é que tudo isso vale pouco quando não se tem a coragem de se assumir.

eu sei, é tão fácil dizer tudo isso quando não se vive dramas verdadeiros que se pudesse querer esconder. mas o problema é que, ao resguardar algo, é a pessoa que o faz que qualifica sozinha o tal algo de vergonhoso. indica que tem razão para o fazer. predefine o que acha indesejável. diminui-se sem que lho peçam. pede desculpas antes do tempo. conclui sem nunca apresentar argumentos. sinaliza algo de errado, de mau, de impróprio. mas esse errado, esse mau e esse impróprio começam na sua cabeça. e ditam isso aos outros. torna-as presidiarias sem muros. cria obstáculos invisíveis. arruína a noção que têm de si próprias.

é difícil sentir-se rejeitado pela sociedade. é difícil saber que não se tem as mesmas oportunidades. é tentador fazer-se passar por alguém de quem todos gostam. que todos admiram. que muitos desejam. mas a pior coisa que pode acontecer é rejeitar-se a si próprio. é definir-se confins. é achar que não se tem direito a algumas coisas. é abandonar-se. é não gostar incondicionalmente de si. é não ousar ser quem se é. é não viver a sua vida. para mim é o maior drama. porque ao fazê-lo, indicamos a todos que não valemos a pena. que somos uma vergonha.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

um. dois. três.

dal momento che l'amore e la paura possono difficilmente coesistere, se dobbiamo scegliere fra uno dei due, è molto più sicuro essere temuti che amati. niccolò machiavelli 


nunca acreditar nas aparências
uma conhecida ligou-me hoje, quase a chorar, porque as pessoas do trabalho que ela achava leais, acabaram por não o ser. que surpresa...

primeiro, não sei lidar muito bem com as pessoas que choram. o meu reflexo é sempre dizer para elas se acalmarem e só depois voltarem a falar comigo. vejo as lágrimas como símbolo de desespero irremediável. um sinal que já não há mais nada para fazer. que a situação é irresolúvel. por isto, em situações que não sejam verdadeiras tragédias, são uma perda de tempo e de energia.

segundo, não percebo o espanto quando se descobre, supostamente de repente, que as pessoas são traiçoeiras. claro que o são. tudo serve para esconder os seus complexos e inseguranças. para lhes dar a importância que não têm. e um sentido de poder efémero e tão pérfido como elas mesmas. a vida é feita assim. não há nada para fazer. só se deve estar adequadamente preparado para isso.

terceiro, fico surpreendida perante a reticência a trabalhar com essas cobras. partir-lhes a cabeça no momento em que pela primeira vez estão a tentar foder-nos ou desfazer-se de nós, é um prazer incrível. uma delícia. tratá-las de exatamente a mesma forma. e pisar nelas. para que percebam. aprendam. fiquem com medo. é um jogo. um divertimento. e só tem uma regra - ser primeiro e parecer capaz de tudo.