sábado, 27 de agosto de 2022

vibrações

só os italianos para fazer coisas dessas...

sempre que estou no sul e que vou a umas lojas de roupa, sobretudo no inverno, fico animada e entusiasmada. porque gosto de cores vivas e estou bem servida. preciso delas ainda mais quando o tempo está cinzento, para compensar e ficar mais animada. e com mais energia. se calhar parece completamente maluco e surrealista, mas algumas cores fazem-me sentir mais vibrante. estou consciente disso desde a minha infância e já sei o que usar e o que não para ter o melhor desempenho possível (sim, sim, ainda não estou a alucinar completamente, mas podia ser uma questão de tempo ;) ).

o problema é que nos países do norte, ou pelo menos nos que ficam cinzentos durante uma grande parte do ano, quase toda a roupa parece querer passar desapercebida e misturar-se com o ambiente. um enfoque que parece o oposto do meu. há pretos, cinzentos, azuis marinha, castanhos, beges,  verdes escuros. o desespero... preto detesto e nem é uma cor para mim. é uma falta de cor. os cinzentos a não ser que fossem muito mais claros, ficam-me muito mal. os azuis marinha são elegantes, mas nem sempre quero sentir-me tão sombria. evito os castanhos porque me fazem parecer com uma árvore e fundiam-se com o meu cabelo então acabava por parecer uma mancha sumida. quanto aos beges, não percebo a ideia de coisas neutras, nem o quero ser, e dão me um ar completamente doentio, a fundir-se com o pigmento amarelo da minha pele. o verde é outra vez a história das árvores, mesmo se há uns poucos matizes que acho elegantes. mas um verde nunca conseguiria fomentar-me.

ao entrar nas lojas no porto e em turim sentia o meu coração vibrar. estava em sintonia com o que via. com os vermelhos, os cor de rosa, os roxos, os azuis, todos muito intensos. munido assim, consegue-se aguentar melhor a falta de luz. e o frio. tem-se a impressão de ter ficado, nem que seja parcialmente no verão. e de já estar preparado para o verão a vir. no final das contas. o verão é a única coisa que me interessa. deve haver um erro na minha bagagem genética. ou algo assim. porque se contam em milhares os quilómetros que separam o lugar onde moro e o lugar onde mora o meu coração. a direção é para o sul :)

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

cebolas

contrariamente às aparências, globalmente, não gosto de relações que se fazem num instante. à velocidade máxima. sem cinto apertado. a saltar as etapas todas. a tornar tudo demasiado intenso. em demasiado pouco tempo. a passar de nada para tudo. do silêncio para uma cacofonia de emoções. da tepidez para a queima. do desconhecimento para a intimidade. em que se despe tudo duma vez. sem ficarem mistérios. nem segredos. nem desconhecidas. nem curiosidades. nem surpresas. tudo exposto. servido num prato só. quando não é preciso fazer esforço nenhum. compromisso nenhum. quando não sobra mais nada para se descobrir. não vejo piada nenhuma nisso. e se já se foi ao fundo no início qual era o motivo para ficar?

não me percebam mal, e bem sei que é uma dualidade e paradoxo que, se calhar, só consegue funcionar na minha cabeça e não faz sentido para ninguém de fora. paciência. vai continuar assim. porque não é que não gosto de saltar etapas. de me relacionar muito rápido. de fusionar sobre temas comuns sem barreiras. sem não ditos. sem esconder nada. de fazer coisas intensas. de dar um mergulho na intimidade com alguém que acabei de encontrar cinco minutos antes. é muito engraçado. e divertido. muitas vezes é mais fácil falar de coisas intrínsecas e profundas com desconhecidos que não nos vão julgar a través do que já sabem sobre nós. mas para mim, e só o percebi agora, esta impetuosidade é uma maneira de sondar a grandeza potencial dum relacionamento. uma maneira de antecipar como vão ser as coisas. até que ponto de entendimento ou de cumplicidade podemos chegar. mas uma vez que já tenho uma ideia, quero retroceder. 

não me interessa saltar todas as etapas duma vez. matava todo o encanto. quero levar tempo. esperar. conhecer. descobrir o significado da paciência. despir camadas na ordem mandada pela lei. uma de cada vez. e com pausas. proporcionar. criar laços. domesticar. cumprir rituais. ter saudades. aprender a valorizar. regar a relação. ver a pessoa tornar-se especial. fundir-se cada vez ainda mais. descobrir coisas sobre mim no processo. verificar o que continua a ter mais valor para mim. ficar sempre curiosa. sempre ávida. sempre surpreendida. 

acho que é um elemento, uma face da minha personalidade, que apanha quase todos os recém encontrados desprevenidos. pareço não cumprir as expetativas. pelo menos a ver a zanga ou a desconcertação do pessoal. mas assumo sempre e nunca escondo quando dou a volta para trás. bem sei que deixo a impressão de ser completamente extrovertida. e sou-o. mas só em certas áreas. e só durante uns momentos. quando passam prefiro dar-me ao trabalho para conhecer a pessoa. saborear os momentos. prosseguir lentamente. porque um caminho, quando já se o conhece de antemão e não reserva nenhuma surpresa, nem vale a pena ser apanhado. para quê quando já se sabe tudo?...

terça-feira, 9 de agosto de 2022

ponderações

fazem um

gosto de mergulhar nos ambientes à volta. parar tudo o que faço para apalpar o momento. sentir as suas partículas. saboreá-lo. fundir-me com ele. deixar-me absorver. descobrir os pormenores. o sol na cara. o vento no cabelo. o calor (de preferência) absorvido na pele. os cheiros soprados pelo ar a dançar suavemente no nariz. os olhos a perderem-se nas cores. nas luzes. nos movimentos. nas formas. no horizonte. a vibrar ainda mais com cada inspiração. a alcançar mais e mais fundo. a tentar tocar na essência das coisas. a parar no tempo e espaço. a questionar tudo que não está nessa altura. a pegar com as mãos nos espaços entre os silêncios. acariciando-os. medindo-os. observando-os. a deixar cair as palavras na água, que seja um rio ou um mar. para que marcassem um caminho de volta. caso o momento fosse tão bom que se quisesse voltar para o viver outra vez.

esta observação intensifica sempre as experiências. torna-as inesquecíveis. informativas. descoberidoras. únicas.  cheias de nuances. de detalhes. podem imaginar o meu espanto quando olho em rededor de mim, para ver se há alguém que também esteja a sorver toda essa beleza. não há. sorver belezas parece uma atividade pouco popular. observar também. ficar silencioso, curioso e devagar também. a que prefere dedicar-se a maior parte das pessoas? a ajustes de cabelo ou de roupa para tomar posições dignas das estrelas de hollywood. a contorções quase malabarísticas do corpo para adotar as acima mencionadas posições. a selfies desesperadas como se o mundo estivesse a acabar e que fosse preciso gravar cada gesto para as gerações futuras. a ver coisas insensatamente no telemóvel. a comer. a beber. a ver coisas insensatamente no telemóvel outra vez. a tirar roupa porque está demasiado calor. a repor roupa, porque no final das contas, não está tanto calor. telemóvel outra vez. a queixar-se do tempo, das circunstâncias, da cara que se tem na selfie. outra vez o telemóvel. a querer sentar-se tranquilamente para descansar. a comer. telemóvel de novo..

é preciso abstrair-se de toda essa cacofonia de barulhos, imagens e movimentos para se poder concentrar no que importa realmente. para valorizar onde se está. o que se vê. como se sente. imunizar-se contra tudo o que distrai. isolar. deixar atrás. muitas vezes as melhores coisas na vida fazem-se em solidão. paciência.