quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

tubarão

sorte ou escolha?
há dias assim. tudo está a correr bem. extremamente bem. os pulmões parecem preencher-se com mais ar. o passo torna-se mais leve. alguns dos nossos quilos (que sejam a mais ou não) parecem desmaterializar-se. tem-se a impressão de estar com mais força e energia. de conseguir alcançar tudo. de ter baldes cheios de entusiasmo à nossa disposição. de conseguir transportar montanhas. de ser o dono do mundo, brilhante, irresistível.

estes dias devem ser valorizados. são raros. na maioria do tempo, tem-se a impressão de estar com a cabeça por debaixo da água. a lutar. a ser ultrapassado pela realidade. a não deixar marca nenhuma. a falhar.

é a vida. success, is how we cope with disappointment

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

blue what?

segundo a imprensa e a internet, hoje é o dia mais triste do ano. estamos fartos de tudo. é o meio do inverno, faltam luz e dinheiro, estamos constipados e não cumprimos as resoluções do ano novo. um círculo vicioso criado por pessoas que pelos vistos não têm coisas mais interessantes para fazer do que inventar teorias duvidosas.

devo dizer que nessas condições supostamente pouco propícias, porto-me surpreendentemente bem. de vestido vermelho sem mangas, cheia de energia e de muito bom humor.

deve ser porque o azul nunca fez parte das minhas cores preferidas. e há poucos matizes que me ficam bem.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

kamikaze

há encontros que marcam. personalidades que saem do comum. indivíduos com zelo e um certo je ne sais quoi. irresistíveis na sua confusão e petulância. insolentes. quebradores de regras. desrespeitadores de princípios. tal o meu taxista que chegou atrasado.

ao ouvir que tínhamos só uma hora para atravessar a cidade toda na altura do pior trânsito, pediu-me que eu deixasse imediatamente de falar com ele porque ele ia focar-se na condução. e no acelerador. seja. um senhor distinto, de cabelo branco, mais provavelmente na casa dos 70 anos. a conduzir com a fantasia e a despreocupação de alguém que faz as coisas pela primeira vez na vida.

passamos com o vermelho (às vezes, é a única coisa que se pode fazer), viramos na esquerda da faixa de direita (com a janela aberta e o meu taxista a gritar temos de apanhar um avião em 20 minutos a todos os motoristas que nos estavam a insultar), praguejamos um bocado (peço desculpa, mas às vezes, faz tanto bem), demos 130 (acho que aqui o limite deve ser 120), e acabamos por chegar em 55 minutos.

sugeri que como eu ainda tinha tempo, dava para recomeçar a manobra.

acho que, entre o de lisboa a me recomendar livros e o desta vez, tenho muita sorte com os taxistas.

domingo, 4 de janeiro de 2015

no woman's land

num almoço de fim de semana em houston, na altura em que os gémeos - o john e a sophia - tinham 3 anos. a conversa é sobre as diferenças entre homens e mulheres.

job: e todos sabem que as mulheres vão sempre juntas à casa de banho.

os meus olhos encontram os azuis em tons de cinzento da aleks, mergulham nos
gosto de estradas pouco frequentadas
25 anos da nossa amizade a procurar um tal facto. nunca aconteceu. desde que tenho a capacidade e a perícia necessária para ir à casa de banho sozinha, nunca lá fui com uma mulher. nem percebo o impulso, nem consigo adivinhar qual poderia ser o propósito. nem vou tentar perceber. era uma perda de tempo. é como colocar rodelas de limão num copo de água - estraga o gosto da água e não tenho a mínima ideia porque alguém achou que era a melhor combinação para a beber. prefiro ir à casa de banho sem mulher. sorrimos. eu respondo que nunca lá fomos juntas.

john (o olhar muito sério e o tom de voz prestável): queres ir à casa de banho comigo?

aleks: mas não meu filho. isso faz-se com uma outra rapariga.

sophia (a sorrir): eu sou uma rapariga! queres ir à casa de banho comigo?

há propostas que simplesmente não se recusam.

*

mas tenho uma pequena predilecção para usar as casas de banho masculinas. é mentira. a minha predilecção é enorme. é porque há sempre filas para as casas de banho femininas. que eu não percebo. de quanto tempo é que se precisa para fazer xixi? tirar a parte da roupa que precisa ser tirada - 15 segundos; fazer xixi - 15 segundos; repor a roupa - 15 segundos; lavar as mãos - 15 segundos. mesmo ao acrescentar 1 minuto para as pessoas que não gostam de se apressarem, toda a manobra não devia levar mais de 2 minutos. então como é que se explicam as filas?

a primeira vez que usei a casa de banho masculina foi por questão de necessidade. a fila para a casa de banho feminina na  filarmónica era tão longa que nem uma hora era suficiente para lá entrar. e eu só tinha uma pausa de 15 minutos. gostei. o lugar até parecia abandonado, não havia ninguém, a calma e o silêncio reinavam. não havia nenhuma razão lógica para esperar numa fila. nunca realmente percebi porque é que as casas de banho não podiam ser mistas. qual era o espanto? só uma vez me aconteceu que um homem protestasse ao ver-me entrar. a maioria parece bastante divertida e curiosa quando me encontram nos lavatórios.

se calhar, a ideia do john não era tão má. apetecia-me muito mais ir para a casa de banho com um homem do que com uma mulher ;)