sábado, 12 de setembro de 2020

complexo de diretor geral

a olhar para as contas das pessoas no linkedin flutuo sempre entre o espanto e o arrepio. fico admirada porque não percebo o estado da mente atrás das letras. das palavras. das funções. a corrida desmedida e desenfreada dos egos. o conforto irrisório dos rótulos. o onanismo inteletual dos títulos. a humildade e o distanciamento para si próprio pisados com cada batida de tecla. cada fórmula vazia. cada complexo a gritar para ficar no centro das atenções. quase todos são diretores. presidentes. proprietários. gerentes. chefes. incluso os que têm uma atividade própria e não contratam ninguém. onde é que estão então as pessoas que são geridas e presididas? nem parecem existir. se não existem, não são precisos gerentes. qual é o encanto de se ser 'diretor de absolutamente nada'? nunca vou perceber...

de todas as coisas que existem na vida, as pessoas parecem preocupar-se com o que há de mais fútil.  de mais vazio. de mais presunçoso. interessam-nas aparências. comparações com outros. prestígio reconhecimento. coisas das quais se possa ter ciúmes. desejos de atenção e de admiração. impérios de inveja e incerteza que procuram desesperadamente a validação das próprias decisões, escolhas, existências. tenho uma má notícia. essa validação nunca vem de fora. porque quando a interna não chega, é algo que a externa nunca vai conseguir preencher. que também ela é avaliada pelo nosso interior. e já que o interior não se desenrasca consigo próprio, que bem é que podia resultar duma tal valorização? a soma de mil coisas sem merecimento continua sempre a ser zero. independentemente do ponto de vista. independentemente do título que tem. independentemente da ilusão de bem estar que parece oferecer. 

quem somos tem a ver com como atuamos na vida. como nos comportamos. como tratamos as outras pessoas. quem somos quando ninguém olha. o caráter que desenvolvemos. os valores que seguimos. o (des)equilíbrio que temos na cabeça. é um certificado que não pode ser obtido (e depois mediocremente publicado nas redes sociais...) em nenhum curso. é uma experiência que começamos do zero todos os dias. em que temos a escolha perpétua de conseguir ou falhar. um tipo de mito do sísifo, se calhar um pouco menos binário. a maneira de que a vida nos testa todos os dias. a verificar quanto estamos comprometidos com quem somos. quanta integridade temos. qual é a nossa definição de rectidão. onde está o nosso ponto de honestidade. se sabemos quanto valemos e por isso calamos. ou se não o sabemos e precisamos de toda a atenção e toda a confirmação externa para obter uma migalha de reafirmação que, se calhar, valemos algo.