segunda-feira, 28 de setembro de 2015

r de responder

quando as pessoas não respondem aos meus emails, é como acenar com uma capa vermelha em frente do touro. dá-me raivas gigantescas. não percebo essa falta de cortesia, essa ignorância, esse cagagísmo. quanto tempo é que se leva para responder a um email que já se leu? 30 segundos? não preciso que me escrevam poemas ou litanias. um sim ou um não bastam. ou uma carinha. e todas essas desculpas de merda que ouço mais tarde quando conheço a pessoa que não respondeu - respondi, mas não recebeste, ia responder mas o cão ficou doente, o computador avariou-se, o mundo acabou, ou a minha preferida - não sabia que era um email que precisava duma resposta. não sei o que insulta mais a minha inteligência. preferia ouvir que a pessoa não tinha intenção nenhuma de responder. pelo menos tinha o mérito de ser honesto.

não quero que concordem comigo por omissão. ou discordem por omissão. ou que me mandem à merda por omissão. quero ser mandada à merda pessoalmente, com tudo o que isso implica. é um prazer. faço parte dos 3% da população que adoram a confrontação. que vivem a confrontação. que a respiram com cada milímetro de ar que ingurgitam. que se animam com ela. são desafios encantadores, sobretudo quando o adversário é digno desse nome. não tenho paciência nenhuma para falar com pessoas que são passivo-agressivas. mata o prazer todo desde o início. não gosto de confrontação só para impor a minha vontade ou ganhar a disputa. gosto da emoção. do esforço intelectual. da energia criada pelo choque entre as ideias. da caça. da competição. da inteligência da outra pessoa. da conciliação eventual.

detesto situações não resolvidas, suspensas no tempo e espaço, sem intenção de tocar nelas porque são incómodas demais. detesto quando pessoas adoptam atitudes de gatos - ao colocar a cabeça debaixo da mesa, acham que estão perfeitamente escondidas e já ninguém as consegue ver. não quero fingir que nada aconteceu. que o problema não existe. quero lutar para o resolver. investir tempo e energia. vencer dificuldades. dar barraca. aprender com os erros. crescer emocionalmente. porque enquanto se luta pelas coisas, significa que ainda importam. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

o que não se apaga

diz-se que as primeiras vezes sempre doem. ou pelo menos que são as que doem mais. sobre tudo quando se perde alguém. não tenho a certeza que sejam só as primeiras vezes. as coisas estão frescas demais para eu conseguir julgar objetivamente. sei que o passar do tempo faz relativizar. que apaga muito. que torna triviais assuntos que outrora eram importantes. mas não sei se tem o poder de apagar tudo. acho que há feridas que doem sempre, mas a dor evolui. torna-se diferente. deixa de paralisar. deixa respirar. deixa pensar em outras coisas. continuar o caminho.  só se faz ressentir de vez em quando. lateja quando menos se espera, provocada por pormenores. ou quando se fica à sua espera.

uma realidade demasiado real
cada vez que topo com estupidez, com indelicadeza, com hipocrisia, com doblez, sinto saudades da hanna. ou quando passo em frente do nosso restaurante tailandês preferido. ou da hamburgueria favorita dela. ou quando me sinto julgada. ou quando vejo sabrinas ou vestidos com laços, mesmo que normalmente eu ache os laços débeis, feios e demais e que não usasse sabrinas mesmo que me pagassem uma fortuna, porque um sapato sem salto alto que não seja um chinelo nem uma sapatilha de ginástica não merece existir. mas agora passo tempo a olhar para essas coisas de que não gosto. com emoção. 

é um buraco no peito. uma ausência de matéria. algo que cá deveria estar, mas desapareceu. palavras a flutuar na cabeça, a envolver tudo mas nunca ficar. uma comoção interior ao saber que nenhum amanhã existe. um desamparo desolador. coisas que nunca foram vividas. sentidas. tocadas. uma saudade inapagável. 

a dor nunca se vocifera para não fazer escapar as lembranças. enrola-se. domestica-se. alimenta-se. para um dia deixar lugar ao sorriso, mesmo que seja só durante um instante. uma infinitesimalidade. uma migalha. um sorriso ao pensar em tudo que foi tão bom. tão inesquecível. tão esquisito. e que dá lugar à dor outra vez. mas também à força. força que vem de facto de ter vivido algo de muito especial que nos transformou para sempre.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

que giro...

estou a entrar num centro comercial por uma porta giratória.

em frente de mim - um casal com dois filhos. um menino de se calhar seis anos, gordo (ok, talvez só rechonchudo, mas com um potencial evidente de se tornar gordo num futuro bastante próximo) e cabeludo (o tipo de cabelo liso, meio comprido e abundante) e uma criança de se calhar dois anos, com algo de branco na cabeça que quase lhe tapa os olhos e torna o sexo indefinido e indefinível.

o menino toca na porta de vidro. a porta para.

ele começa a rir-se. os pais ficam entusiasmados.

a porta arranca depois dum soluço solitário. o menino toca-a de novo.

ela para, ele ri-se, eles entusiasmam-se. o soluço. o suspenso no universo perante a genialidade suposta da progenitura. uma pasmaceira absurda. o arranco.

o processo repete-se. parece cada vez mais intenso e mais exclusivo.

devo lembrar-me de entrar por uma porta estandarte no futuro.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

a sustentável leveza do ser

www.acababem.com
era bastante jovem quando tomei a decisão de ficar fiel a mim própria. de nunca abandonar as coisas nas quais acreditava, independentemente das circunstâncias e das pressões. acho que foi uma das decisões que mais me formataram. requeria escolhas que ninguém percebia; pareciam erros, loucuras, oportunidades falhadas, mas nunca foram. é que sempre tenho tido uma visão bastante clara de para onde queria ir e por onde ia passar. e isto raramente encaixava na visão da vida da maioria das pessoas.

mas mesmo assim, o envelhecer leva coisas cujas existência eu nem suspeitava nem esperava. acho que o processo todo começou há alguns quatro anos. difícil dizer porque nessa altura. se calhar foi um número suficiente de experiências que me promoveu para o nível de energia superior. ou atingi um ponto de desenvolvimento emocional (todavia, quando mando tudo e todos à merda, tenho mais a impressão que se trata de estagnação ou recuo emocional, eheheh). houve um momento em que me apercebi que comecei a perder peso. que já tinha perdido tanto. isto é, peso mental. ganhei uma leveza incrível. um distanciamento tremendo. uma libertação ainda maior do que as pessoas pensam de mim, do que dizem sobre mim, do impacto das escolhas delas em mim.

muda tudo. oferece perspetivas novas. aguça o sentido de humor. torna a pessoa mais soberba. ensina a aperfeiçoar o não se tomar por sério. a fazer a diferença entre o que vale a pena e o que não. a não perder tempo. ou energia. a não desesperar. faz brilhar a pessoa por dentro. sentir-se mais em harmonia com a vida. não se importar com o que não pode ser mudado. contornar obstáculos sem perder esperança. não procurar os melhores modos de fazer, quando simplesmente chega só fazer. não perder o objetivo final da vista. ficar bem na sua cabeça. abandonar sem se arrepender os que nos pisam. deixar coisas para atrás. calar quando as palavras não valem mais que um silêncio.

tive sempre a impressão que o passar do tempo trazia mudanças positivas. mas não que eram tantas. e o melhor ainda está a vir. para resumir a história - acho que estou como o vinho de porto, quanto mais velho melhor ;)

sábado, 5 de setembro de 2015

conversas com sol e sal

há alguma disparidade entre a minha bagagem genética e geográfica. algo que correu ligeiramente errado. ou pelo menos não exatamente bem pensado. mas sempre achei o valor da genética sobrevalorizado. nunca percebi essa pressão social para ter filhos biológicos. não há um número suficientemente alto de crianças sem família? se quer bem a todas as crianças do mundo ou só às suas? quanto à geografia, os transportes contemporâneos permitem fazer milagres, então decidi não me preocupar com ela. só me sinto levemente deslocada. paciência. gosto de temperaturas acima dos 30 graus. fazem-me levantar eufórica de manhã e com tanta energia que até conseguia levantar montanhas. eu sei que a maioria das pessoas entorpecem com o calor, mas não é o meu caso. é mesmo tudo ao contrário. é como roupa vermelha - a usá-la, sou capaz de tudo. 

no sul, de que gosto tanto, as manhãs são devagar. o sol leva timidamente a sua cabeça debaixo das camadas de sal e areia em que dorme. até com vergonha por ter brilhado com tanta intensidade no dia anterior. em pequeno, disseram-lhe que não era bom procurar muita atenção. mas o que ele pode fazer enquanto só está a tentar fazer o seu trabalho o melhor que consegue? leva tempo para dissipar as nuvens, a gozar da sua mandriice, a se deleitar com ela. os pensamentos já estão a vadiar, avançar taciturnamente até a noite, mergulhar nos copos de sangria de vinho branco com morango - gosta muito de morangos, da cor deles que complementa a sua - que se vai beber com amigos para descansar e trocar impressões sobre o dia. que coisa celsa! como se está a sentir subitamente leve! sacode a cabeça, suspira a pensar em todas as tarefas que ainda deve cumprir antes, engole as últimas migalhas do pastel de nata que caíram no seu colo - não gosta de gastar comida - acaba de um gole só o resto do leite, espreguiça-se, respira fundo até sentir a maresia penetrar nos recantos mais longínquos dos pulmões, já se sente mais pronto para enfrentar o dia. tira o telemóvel do bolso traseiro - é a hora de chamar o vento, que pelos vistos esqueceu-se mais uma vez de colocar o seu alarme. ah esse vento e a sua desatenção aos detalhes...

nada de tal como um chazinho e uns bons bolos
para melhorar a conversa
um sul do que gosto imenso é portugal. para citar tabucchi, que me arrependo muito de não ter conhecido porque compartilhámos uma paixão que poucos compreendem, portugal faz parte da minha bagagem genética. não tenho nenhuma ideia de onde vem esta afinidade e porque é que não se manifestou mais cedo, mas cá está. se calhar porque é uma dessas coisas para as quais precisamos crescer. ou porque, por ter crescido entre duas culturas, acabei por não me identificar com nenhuma. mas cá estar tem em si algo de quase mágico. a gentileza, a disponibilidade, o carinho e a dignidade das pessoas. as descobertas gastronómicas duma grande subtileza, devido às ótimas recomendações dos empregados de mesa. um cuidado e um devagar meticulosos ao cumprir as tarefas. os pequenos-almoços tomados na pastelaria da esquina da rua onde todos se cumprimentam e conhecem. o mar que cega com a sua azulez soberba. o vento que leva um sabor libertador do mar, que dá a impressão de se ficar mais jovem, e faz explodir o coração com todas as promessas que faz. o tempo que para nas vilas e nas aldeias e até parece se soltar no ar. o sal na pele, uma camada fina e quase invisível mas que envolve tudo. o preto da roupa das senhoras mais velhas, a esconder nas suas complicações notas de fado, vestígios de canela e partículas de saudades que ficaram lá atrapalhadas ao flutuarem no ar. uma água bem fresquinha bebida debaixo dum chapéu de sol. a luz, que expõe tudo sem compaixão nenhuma, fraquezas e beleza, sem diferenciar. a chamada muda de horizonte a prometer um amanhã melhor. como é que se pode não gostar disto?

ainda não atingi um ponto de saturação com o arroz de tamboril e a sericaia (orgasmicamente boa, a sericaia - não percebo o espanto das pessoas quando uso estas palavras, que supostamente não encaixam no politicamente correto. todos gostam de ter orgasmos, certo? então achar a minha comparação escandalosa é hipocrisia pura). nem sei se será possível. então se calhar ainda não é a altura de voltar. vou cá ficar. indefinidamente :)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

xx

nos homens, não percebo poucas coisas - a falta de integridade/colhões, o egoísmo, as ideias pouco viáveis em situações difíceis e, às vezes, a lentidão a perceberem as coisas.

um dos atributos de feminidade que adoro
nas mulheres, é uma lista que não acaba. acho que se elas fossem equipadas com um manual de instruções, tinha um milhão de páginas. e dava informações contraditórias. então ninguém teria a paciência de o ler. por isso resulta na mesma se nada de tal existe.

nem sei por onde começar perante a complexidade da minha incompreensão. não percebo os interesses, os passatempos, as preocupações, as inseguranças, os métodos, a imprevisibilidade, o raciocínio (ou mais exatamente a falta dele), a irracionalidade, os não ditos. detesto trabalhar com mulheres. elas dizem querer o a, mas na verdade querem o b e, secretamente, esperam que se adivinhe que sonham com o c. peço desculpa, mas não estudei  clarividência. entanto, quando me pedem o a, faço o a e elas ficam zangadas comigo. adoro trabalhar com homens. tenho a certeza que querem o a quando mo pedem, faço o a e todos ficam contentes.

tenho sempre passado mais tempo com homens do que com mulheres. temos mais assuntos em comum. e uma construção mental mais semelhante. tenho sobretudo amigos homens. sim, eu sei que a amizade entre homens e mulheres não existe. que cada homem quer ir para a cama com uma mulher que acha atraente. e se não a acha atraente, é só uma questão de tempo para ele querer ir para a cama com ela. seja. não vamos mudar a natureza. nem chorar por isso. vamos dizer que dentro desse padrão consegui construir muitas relações com homens pelos quais não estive sexualmente atraída e fui sempre muito clara sobre isto. mas se na cabeça deles isto não estava claro, já não é um problema meu. um mínimo de egoísmo ainda não matou ninguém na vida.

não consigo identificar-me com a imagem de mulher ditada pelos médias, pela imprensa, pela indústria cosmética, ou pelas mulheres mesmas. detesto ir ao cabeleireiro. não gosto de malas. nem de roupa (se pudesse, passava todos os dias de biquíni). nem de maquilhagem (porque é que deveria querer colocar produtos na minha cara? estão a sugerir que não tenho um aspeto suficientemente bom sem?). nem de jóias. de manhã fico pronta em vinte minutos, duche e pequeno almoço incluídos. não falo quando vejo bola. não faço chantagens emocionais. não tenciono mudar ninguém (era uma perda de tempo e energia). digo sempre o que quero sem muitas subtilezas.

mas o que me faz desesperar ainda mais é o facto que, com a idade, quase todas as mulheres parecem cair numa ou noutra forma de loucura, de estranhez, de obcecação, de irracionalidade, de perdição. uma fé quase religiosa na infalibilidade de algo em que baseiam as vidas delas. um porto duvidoso em que se escondem para retomarem forças. um retiro que lhes dá um propósito, indica um caminho. e para o qual querem converter a humanidade toda. e se não for a humanidade toda, pelo menos as pessoas ao redor delas. ou pelo menos a família. estraga muito as relações familiares. não percebo como é que elas não se dão conta disso. como é que se pode ser tão cego? e querer pagar um tal preço? em nome de quê? duma merda que não importa? é importante conseguir priorizar na vida. valorizar ideologias duvidosas mais do que a própria família, é uma loucura. falamos dessa situação com a monika e decidimos que só conhecemos uma mulher que conseguiu desobedecer à regra. ou duas. é bastante assustador.

já lhe disse que se isso acontecesse a mim, queria que ela me matasse imediatamente.