quinta-feira, 30 de junho de 2022

cultivar o jardim

para o patrick. 

porque há coisas que mesmo quando acumulam pó, ficam exatamente na mesma. 

supervisão do status quo

sempre achei a amizade mais importante do que o amor. porque é mais pura, duma certa forma. autossuficiente. não complica nada. não destorce raciocínios. não faz confusão. não traz as mesmas expetativas. não requer muitos ajustes. nem adaptações. não arrisca o que se tem. nem quem se é. não pede compromissos. deixa as duas pessoas terem as vidas que escolheram. mas acompanhando-se uma à outra. delimitadas, mas próximas. separadas, mas juntas. autónomas mas ligadas.

o leszek incutiu em mim há muito tempo que era preciso cuidar dela. investir tempo. dinheiro, se for preciso. mas sobretudo esforço. e vontade. para manter o que já se criou. para desenvolver laços. para não se perder de vista quando mares e continentes separam. não significa que todas as amizades vão sobreviver o passar do tempo. não significa que todas vão acabar por valer a pena. não significa que não podemos mudar de opinião quem são os nossos amigos. mas temos sempre de fazer o melhor que conseguimos, para não perder as pessoas mais próximas de vista.

bem sei que dizem que há amizades diferentes. que cada uma tem um papel. e que nem sempre precisa ser o de nos desenvolvermos. de nos tornarmos numa melhor versão de nós. de ajudar a ultrapassarmos os momentos chave da nossa vida. isto foi sempre a minha visão da coisa, por isso tive sempre alguma dificuldade a decidir o que fazer com algumas amizades da infância, em que crescemos a velocidades diferentes. em que acabamos por não compartilhar uns valores. em que não sentia que fosse puxada para cima, mas sim, para baixo. em que me sentia julgada por ser diferente. parece que essas amizades servem de refúgio. um lugar de compreensão e de conhecimento do passado que alivia. conforta. mas não tem nenhum objetivo em si. ainda não consigo dizer se quero ficar com elas ou não.

mas acho que o tipo mais fascinante são as amizades que eu chamava de não localizadas nem no tempo nem no espaço. em que, independentemente de quanto tempo passou sem nos vermos ou sem falarmos, não faz diferença nenhuma. acabamos por nos valorizar de exatamente a mesma maneira. e, parece, que a última conversa foi cinco minutos antes. e não cinco meses antes. ou mais. estas amizades são como os nossos lugares preferidos. independentemente de quantas vezes os visitamos, o prazer é sempre o mesmo. a felicidade do reencontro tem a mesma frescura. o conforto do entendimento apanha-nos outra vez desprevenidos. é como se fôssemos parar no porto habitual em que não tivemos há muito tempo. e mesmo que muita coisa possa ter mudado a sensação, o prazer e a cumplicidade são sempre as mesmas.