segunda-feira, 30 de novembro de 2020

licornes e arcos-íris

ilusões sensoriais

uma rapariga que ultimamente tem passado do ensino para o setor privado depois de muitos anos de atividade profissional comentou comigo que as primeiras experiências foram muito dececionantes. porque acreditava nas pessoas e achava que a agir com integridade ia ser tratada com integridade. o que aconteceu? numa formação de vendas ela quis fazer um projeto com dois gajos com quem normalmente trabalhava. eles primeiro disseram que sim, mas no dia seguinte mudaram de ideia porque preferiam trabalhar com outra pessoa com mais experiência. um desejo bastante legítimo, quando se está a aprender, acho eu. mas depois se calhar a minha opinião vale pouco porque acho que as pessoas com quem trabalho são só colegas. raramente tornam-se amigas. mas já aconteceu. regra geral, dá-me igual que elas gostem de mim ou não. mas precisam respeitar o meu tempo. e o meu trabalho. enquanto aos casulos protetores, não fazem bem a ninguém porque distorcem a visão da realidade e as respostas potenciais.

os momentos pouco íntegros, raros são os que não passaram por eles. que seja trabalho roubado, mérito não reconhecido, tarefas ou horários de merda, decisões tomadas sem o nosso conhecimento e contra nós, comentários inapropriados, promoções recusadas, despedimentos injustos, trabalhos não oferecidos porque alguém tinha mais cunhas, foi para a cama com a pessoa a tomar a decisão, ou vendeu-se duma outra maneira qualquer... a lista parece interminável. umas dessas coisas são mais putas do que outras. mas é sempre mais saudável assumir que podem acontecer a qualquer momento para termos um plano b. para sabermos o que fazer. para não perdermos o equilíbrio. e para conseguirmos manter a nossa integridade (pelo menos os que estão interessados em mantê-la).

porque o facto de alguém nos tratar com pouca retidão não exclui duas coisas. primeiro não toca à nossa integridade. não significa que temos de reciprocar da mesma maneira. perder os nossos valores. comportar-se como as pessoas que nos rodeiam. há níveis aos quais nunca é preciso descer. mas mantermo-nos intactos, não é sinonimo de cegueira e de ingenuidade. é preciso notar e adaptar palavras e comportamentos. mas não a cinicamente fazer o mesmo. é perfeitamente possível partir a cabeça de alguém a ficar fiel aos nossos valores. um não elimina o outro. tudo depende da importância que lhes damos. 

então quando a rapariga disse que agora ia precisar tornar-se filha da puta para se ser competitiva, discordei. porque somos nos que escolhemos o nosso modo de estar. só em circunstâncias extremas é que às vezes fica ditado por elas. para lidar com filhos da puta, não é preciso agir como eles. mas é preciso minuciosamente definir o próprio território. e quando for transgressado, sempre causar danos suficientes para eles nunca terem a ideia de tentar uma segunda vez. no fundo o machiavelli é que tinha razão. e tudo isso com mais ou menos classe. porque é sempre agradável gostar do que vemos no espelho. pelo menos eu gosto.