terça-feira, 27 de outubro de 2015

algo mais?

vou fazer a revisão técnica do carro.

pela primeira vez faço-a com um dia de atraso por causa das férias que decidi tomar com pouca antecedência e com um milhão de coisas para serem tratadas antes de me ir embora. o carro não entrou na lista das prioridades mais imediatas.

só posso concordar
aproveito da situação para fazer um milhão de perguntas ao homem. o que está a controlar exatamente e como. o que acontece quando a policia nos apanha e vê que não fizemos a revisão dentro do prazo. como proceder quando ele decide que o carro está num tão mau estado que precisa de reparações antes de receber o tal selo da revisão aprovada. fico bastante admirada com a resposta à minha última pergunta. sorrir para eu prolongar o prazo duma semana. respondo que não vai ser exequível porque não faço sorrisos débeis para obter coisas das pessoas. desta vez é ele que fica admirado com a minha resposta.

é uma destas coisas contra as quais tenho sempre lutado. não percebo esse conceito de receber tratamentos preferenciais por causa dos sorrisos que se faz ou dos ares que se tem. sei muito bem que o mundo está baseado nisso e que quase todos o fazem duma maneira mais ou menos hábil. e que é supostamente algo ao que ninguém dá muita importância. mas eu dou. acho isso abusivo das pessoas. insultador à inteligência dos interlocutores. arrogante para com os menos afortunados na área do aspeto físico. brincador de baixo nível. uma ferramenta tão injusta que nunca deveria ser usada. uma sugestão de algo que nunca vai acontecer. todos o sabem, claro. se calhar os mais ingénuos até acreditam. mas mesmo ao saberem-no, todos caem na fantasia agradável da promessa ilusória que os tira da monotonia do quotidiano. e gozam da sensação do poder que têm a decidir se querem ou não, durante uns segundos, agradar à pessoa, acreditar na promessa, sucumbir ao irrealizável.

o ilusório não é a minha praia. sempre paguei todas as minhas multas e esperei pacientemente em todas as filas. e acho que vou continuar assim. não sugiro coisas que não tenho intenção de cumprir. deve também haver pessoas na vida que parecem não ter graça nenhuma e levar tudo demasiado a sério ;) 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

o eu

acho o silêncio, a majestade, a quietude e a frescura dos templos inspiradores. e
bagan, birmânia
incitadores à reflexão. séculos de desenvolvimento espiritual carregam no ar. a sabedoria é palpável. está-se rodeado pelo que mais importa na vida. só é preciso decifrá-lo. a sensação de pequenez, a andar descalça no escuro dos corredores poeirentos, perante algo de tão grande e soberbo, é inefável. esta paz que incita a olhar-se por dentro. a questionar. a acertar caminhos. a responder mais uma vez à pergunta quem se é. pelo menos para as pessoas que se a fazem. percorro os últimos meses. pergunto-me o que podia ter feito melhor. se perdi tempo com pormenores. se foquei bem a energia. como posso corrigir os meus erros para que não aconteçam no futuro. o que queria voltar a fazer.

os meus pensamentos vagueiam até um artigo que li há duas semanas no público, enquanto estava num aeroporto. perguntaram ao andrea petrini, um escritor, jornalista e curador de eventos gastronómicos italiano, quando estava em lisboa, como era que os restaurantes lisboetas se podiam distinguir e fazer com que reparassem neles? uma pergunta velha como o mundo. todos queriam conhecer sucesso numa área que interessa. acertar nas medidas dos seus ingredientes. tais como alquímicos experimentados. uma pergunta com uma resposta só. e que parece óbvia e cliché. mas muitas vezes são as coisas mais simples que são as mais difíceis a ver, atingir, aperfeiçoar. o petrini respondeu que, simplesmente, sendo como eram. parece banal, não parece? mas o ser humano tem geralmente a tendência para querer preencher as expetativas das outras pessoas. ou sonhar com ser completamente diferente. são poucos os que não estão com medo de se enfrentarem. a maioria das pessoas está envergonhada consigo mesma. queria ter o que não tem ou ser o que não é. acha-se não suficientemente inteligente, divertida, esbelta ou bonita. prefere esconder-se e fingir.

não posso pronunciar-me sobre como é que as outras pessoas tratam dos seus eus. como os definem, se os ouvem ou fazem calar, onde é que os posicionam na dinâmica do universo. só posso falar de mim. e o meu eu é muito importante. não sei se isto se explica com o meu egocentrismo, individualismo, caráter insólito ou outra coisa. mas é um facto. e com o passar do tempo percebi que todas as tentativas, empreendidas pelas outras pessoas, para o fazer calar ou tentar subvertê-lo, incomodavam-me muito. incomodavam-me desde sempre. mas levei algum tempo para perceber que era essa a razão do meu desconforto. ou pelo menos do facto de não me sentir eu própria. para estar confortável, devo poder fazer as coisas à minha maneira. tudo o que o impõe é uma ingerência no meu eu. sou extremamente territorial. com o meu corpo, as minhas ideias e os meus bens (sobretudo o meu carro; o leszek diz sempre que o meu carro e eu temos uma relação sexual). intromissões no meu território, que só a mim deveria dizer respeito, são algo que já não tolero. passei os meus anos 20 a tolerá-las e nunca me senti bem com isso. até me sentia abatida e miserável. como se alguém tentasse tornar-me numa outra pessoa. contra a minha vontade. porque gosto imenso de ser eu. e de só ser eu.

por isso agora só uso a roupa que me apetece (com algumas adaptações culturais quando estou a viajar), continuo a dizer o que penso e fico ainda mais intransigente, quando se trata de comunicar às pessoas que sou um pacote e ou me aceitam como sou ou podem mandar-me profissional ou pessoalmente à merda, porque já sei muito bem com o que estou confortável e com o que não, então as únicas expetativas que tenciono preencher são as minhas.

não sei se é nisso que estava a pensar o petrini, mas faço-me distinguir de certeza. e todos reparam em mim. mas nem me aquece nem arrefece. sou como sou.

domingo, 18 de outubro de 2015

v de vermelho

:)))
o tempo em que morava em nova iorque e estudava desenho de moda ensinou-me muito. mesmo que fosse bastante difícil, como todos os inícios, sobretudo no estrangeiro e sem conhecer ninguém. aprendi modos de tratar da realidade, de pensar e de priorizar. abandonei a procura da perfeição por falta de tempo. solidei a confiança que tenho em mim. comecei a levar-me ainda menos a sério. tornei-me mais leve. e descobri as minhas inspirações.

uma das coisas que mais me comovem é as cores. apercebi-me disto a preparar pranchas de tendências e tirar fotografias ou fazer colagens. não gosto de roupa nem de compras mas ligo muito às cores que uso. e que me rodeiam. sou esteta. aprecio matizes vivos e bem distintos. vão com a minha personalidade. sou alguém de quem se gosta ou que se despreza, por causa da minha impertinência, desrespeito das regras e outras excentricidades. e do facto que digo sempre o que penso, sem embelezar. incomoda quase todos. para resumir, dificilmente deixo as pessoas indiferentes.

não gosto de preto. nem de castanhos. nem de cores demasiado claras (com a exceção do branco) ou demasiado escuras (com a exceção do azul marinha). não me ficam bem. detesto o verde. o amarelo, os beges e os tons pastel confundem-se demais com a minha pele e dão-me um ar doente. também são demasiado neutrais. não sou alguém que gosta do neutral. nas cores e na vida. prefiro adorar ou odiar. a neutralidade faz-me sempre pensar na indiferença. e quando não quero lutar por algo, podia não existir.

não acredito no poder, no simbólismo das cores e em todas essas merdas. sei que cores preferidas são uma coisa de rapariga, mas como isto faz parte da minha profissão, tenho uma desculpa. devo confessar uma predilecção que tenho desde os meus 15 anos. o vermelho. adoro. há quem diga que é demasiado agressivo. mas para mim, quando algo existe também em vermelho, é sempre uma pequena vantagem. a usar roupa vermelha, sinto-me mais inteligente, mais perspicaz, mais divertida, mais encantadora, mais linda, mais energética, capaz de mover montanhas e alcançar o inalcançável. só roupa branca me dá poderes parecidos, mas numa escala muito menor.

o vermelho é tudo o que sou - destaca-se, não chega a meio termos, choca com as outras cores, não é politicamente correto, toma decisões, provoca, explode, faz a vida com paixão. somos feitos um para outro.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

o que se faz para agradar às pessoas

a passar tempo em culturas diferentes, perguntei-me muitas vezes como era julgada fisicamente, a não corresponder aos padrões de beleza locais em vigor. a lindeza é tantas coisas. físicas e mentais. é interessante perceber o que pode ser visto como belo em função da bagagem da pessoa. nesta altura geográfica, tenho o cabelo de textura estranha e cor errada, a pele clara, que até é o sonho de muitas mulheres, mas exponho-a a muito sol e curvas a mais. não sei se isto atrai por exotismo ou desencoraja por não apresentar os parâmetros desejados.

la beauté sera convulsive ou ne sera pas. andré breton
mas a julgar pelo número de mulheres a me dizer que sou linda, a pegar na minha mão e a pedir uma fotografia comigo, tenho uma resposta. dessas três coisas, é difícil dizer o que detesto mais - que me digam que sou linda, que me peguem na mão ou que queiram uma fotografia comigo. mas o que posso fazer perante tanta gentileza e sorrisos? sorrio à minha volta e dou a mão. e nem posso dizer que detesto. noutras circunstâncias detestava.

mas é tão pouco para fazer ficar felizes tantas raparigas. acho que quando se trata das coisas que detestamos, depende sempre de quem é que as pede.

domingo, 11 de outubro de 2015

das coisas esquecidas, nas terras dos monges budistas

gosto da ásia. imenso. foi um amor quase à primeira vista (não acredito em amores à primeira vista, mas não importa). esta aventura começou há mais ou menos quinze anos, antes da monika se ter para cá mudado. o krzysiek e eu tínhamos seis semanas de férias, ambos entre dois empregos. queríamos visitar a espanha e portugal, mas um só bilhete de comboio ilimitado para a península ibérica já custava os olhos da cara, sem falar do resto, então decidimos procurar outra coisa. a mãe duma amiga da monika, que tinha um agência de viagens, e já lá tinha mandado a monika com amigas, falou-nos em tailândia. porque não? uma amiga, também a trabalhar numa agência de viagens encontrou uma oferta muito vantajosa para passar duas semanas na tunísia num hotel de quatro estrelas. o problema é que a mim, não me interessa de todo passar as férias a repousar o rabo numa espreguiçadeira a contemplar de longe uma piscina (nas piscinas não entro. mesmo michael phelps admitiu lá fazer xixi.). é cruelmente chato. felizmente, o krzysiek estava a sonhar com grandes aventuras. optámos pela tailândia.
angkor wat às 5.40 de manhã

desde o primeiro dia adorei. a energia vibrante e interminável. as cores intensas (porque é que os europeus devem ser tão cinzentos, sobretudo no inverno? já há razões suficientes para se ficar deprimido sem isso.). os sabores acres e distintos. a comida excelente e tão picante que faz explodir o paladar. o ar pegajoso que embrulha a pele. a humidade louca que invade tudo, incansável. as túnicas dos monges budistas que piscam de açafrão no meio da multidão na rua. o desassossego constante nas ruas e nas estradas. nenhuma regra de trânsito parece ser respeitada, mas não significa que não há regras. a zoeira incessante das pessoas, dos tuk-tuks, dos bichos. os serviços e comércios abertos 24 horas. a sensação de estupidez quando se entra num mercado em que não se conhece metade das frutas e legumes. as três perguntas clássicas quando se conhece uma pessoa - idade, estado civil, existência de progenitura. os chinelos que, na maioria dos países (mas não no cambodja, porque lá me explicaram que parecia mais desarrumo do que outra coisa), ficam em frente da loja, casa ou banheiro. a cortesia, gentileza, prestabilidade, meiguice e flexibilidade das pessoas. na asia, tudo pode sempre ser arranjado. não há situações irresolúveis. seja reparar o pneu do autocarro sozinho no meio da noite e quase sem luzes, pedir algo que não faça parte da ementa dum restaurante, ou negociar o preço final das compras (e ambos os lados ficam contentes, porque a fineza dos bons negociadores é sempre valorizada e admirada). tudo isto na europa não existe. e nos estados unidos é feito só parcialmente e com pouca sutilidade.

fico cada vez mais humilde perante a dignidade das pessoas a cumprirem as tarefas mais simples e rudimentares. o sério com o qual as desempenham. a atenção, o cuidado, e a dedicação que investem nelas. o apreço e a modéstia que mostram. deixa-me com nós na garganta. que se possa valorizar tanto coisas que noutras alturas geográficas se tornaram há muito tempo evidentes e adquiridas. que se faça tanto esforço porque é o que é exigido e sem grandes esperanças. não se tem o luxo de escolher. de recusar. de ter chiliques. aceita-se o que a vida traz. com um sorriso na boca e sem se queixar. independentemente das dificuldades, privações e injustiças. o muito que se consegue fazer do pouco que se tem. a criatividade. o valor que se dá às coisas em que o ocidente nem pensa. e cá, destacam-se.  surpreendem. comovem. fazem parar. oferecem outras perspetivas. abrem os olhos. uma pureza despida de hipocrisia, de cobiça, de egoísmo.

a procurar na internet uma pensão em bagan, vi algo que me fez sorrir. electricidade durante 24h. faz relativizar tudo, não faz? deixa perceber como, na maior parte do tempo, preocupamo-nos com coisas que não importam. e tomamos por garantido o nosso quotidiano porque não temos de lutar por ele. está servido num prato. podemos ficar contentes. amuar. ignorá-lo. tentar mudá-lo. temos uma infinidade de escolhas que ocupam todo o nosso tempo e energia. não aproveitamos as situações. não as valorizamos. esquecemo-nos do pouco que é realmente importante. não temos humildade porque achamos que as oportunidades vão nos ser oferecidas indefinidamente. e se não houver amanhã?

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

desatenção

as pessoas já não sabem escutar. não conseguem. não querem. não lhes interessa. ficam perplexas quando não se lhes pede participação nenhuma. só silêncio. e atenção. uma armadilha. a inércia já não parece o estado mais natural do corpo. as mãos, quando não estão a segurar num tablete/telemóvel ou a acariciar o teclado do computador, tudo isso feito com uma veemência compulsiva, ficam perdidas no espaço. sentem-se completamente burras. querem fazer algo. participar. ocupar-se. custa-lhes muito ficarem quietas. chegar a um estado em que não se devem focar em nada. e o silêncio faz focar em muita coisa.

o nosso eu, quando não está ocupado com si mesmo, quando não está a arfar-se com a sua própria soberba, quando não se afoga no seu esplendor, quando deve parar durante alguns segundos ou minutos o processo fastidioso e cativante que é a compartilha das micas do nosso deslumbramento através de redes sociais (o que comemos, fizemos, onde fomos, com quem e porquê; difícil imaginar nem que seja uma pessoa que não quisesse conhecer esses pormenores; como se possa não estar interessado em nós, somos o centro do universo, não somos? tudo gravita porque lhe damos a força necessária. sem nós, nada existia.) com a humanidade inteira, também fica perdido. porque o silêncio a faz parar. questiona-a. duvida dela. exige um estado de conforto que se consegue atingir consigo mesmo para depois poder dar toda a atenção a outra pessoa. parece uma das coisas mais perigosas do mundo. um risco que não se pode correr. podia custar demais.

é bastante desolador que nesta altura em que a comunicação parece abundar em todos os lados, seja o que é mais difícil para se encontrar. debaixo de superficialidades egocêntricas não sobra mais nada. estamos bombardeados por mensagens, conversas, telefonemas. o mundo parece querer compartilhar tudo connosco. uma ilusão. nunca tínhamos sido tão sós. as duas coisas que parecem mais naturais e óbvias na comunicação, o tempo e a atenção, tornaram-se as duas coisas mais dificilmente encontráveis. até ficamos gratos quando as presenciamos. uma tristeza inefável.