ao recusar opção depois de opção na agência funerária, percebi que não devia ser o tipo de cliente habitual. conseguia ouvir nas salas ao lado outras pessoas debaterem preços, durabilidade de flores, detalhes mais elegantes, vídeos do funeral e outras coisas cuja existência eu nem suspeitava até hoje. tudo isso me deixava indiferente.
não percebo a instalação na dor. as músicas que fazem chorar. a foto da pessoa desaparecida a contrastar com a realidade. a estética escolhida demasiado minuciosamente. a celebração com todos num momento em que só apetece estar sozinho e em paz. a gravação do momento para sempre na cabeça.
para mim tudo isso é treta. os detalhes quanto quer que custem não compensam a perda. detesto a ostentação de quanto a pessoa supostamente valeu para nós que isso só se consegue medir no coração e não na carteira. e se precisamos demonstrar com a carteira é fruto da nossa culpabilização. no final das contas não muda nada que as flores sejam brancas, amarelas ou que não as haja de todo.
gosto de ter um máximo de privacidade e de anonimidade nas minhas dores. é só assim que elas permanecem puras e honestas. e acho melhor concentrarmo-nos no presente, nas pessoas vivas que estão connosco porque aí ainda podemos ter um impacto.
