quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

o top 5 quando se está com a cabeça debaixo de água

felizmente há muito tempo que não estou, mas é sempre bom relembrar o que serve nessas alturas.

1. sexo (sempre o melhor remédio para tudo, quase independentemente das circunstâncias)

2. usar um soutien de renda vermelho (não sei porquê, com cuequinhas vermelhas não funciona. cuequinhas vermelhas nem me aquecem nem arrefecem. são com a suíça - neutrais - e a não provocar grandes comoções)

3. chocolate (o quente parece mais confortador e sofisticado nos momentos difíceis - já se está mal, então uma migalha de sofisticação serve, mas em versão bolo ou tablete também consegue fazer milagres)

4. correr (para limpar a cabeça, adquirir perspetivas novas e relativizar tudo)

5. raspar as pernas (dá um sentido de realização tremendo, só comparável ao que se atinge quando se está a passar roupa a ferro, com a exceção que quando se está abatido, não apetece tanto passar roupa)

domingo, 27 de dezembro de 2015

(des)obrigações

seguir ou não seguir padrões?
ultimamente ouvi dizer que era preciso fazer coisas das quais não se gostava (e não estou a falar de trabalho ou do estado da alma que se tem quando se está a pagar contas pela internet, mas das complicações e meandros das relações humanas) quando as circunstâncias ou as expetativas o mandavam. era? realmente? devo discordar. não o vejo assim. e nem sinto preocupação nem pressão por isso. também não percebo realmente como é que se as pode sentir. deve faltar-me um chip social, uma função que me faz identificar com um grupo, com um bem coletivo, com expetativas médias, com funções sociais, com um padrão definido por sociólogos e adorado por psicólogos. devo ser anormal. mas não vamos chorar por isso. há coisas bem piores que acontecem.

essa mentalidade e essa necessidade de corresponder e de se afirmar aos olhos dos outros é algo que oficialmente não percebo. não encaixa na minha visão da vida. não sei como se consegue chegar a um ponto em que se quer fazer o que as outras pessoas fazem só para não parecer diferente. em que o medo de ser diferente empurra a fazer idiotices e ilogismos só para não se sentir excluído do grupo das pessoas fixes. nunca fiz parte dele. e há mais de 20 anos que isso já nem me aquece nem arrefece. deveria importar-me com o que as pessoas acham de mim só porque as ciências humanas definem o homem como um animal gregário? atribuem-lhe pulsões com as quais não me consigo identificar? não chega. há coisas mais importantes. o que me interessa é a minha opinião sobre o assunto. as minhas expetativas. a minha visão. porque sou a única pessoa que está na minha cabeça. e não quero arrepender-me por ter escolhido coisas erradas. pelo menos encaixo lindamente no pré-definido egocentrismo humano. que é uma realidade, quer se queira ou não. se calhar sou mais associal de que anormal. também não vamos chorar por isso.

só tenho uma vida. e quero decidir sozinha. definir sozinha. abdicar sozinha. inventar as minhas definições do fixe. e modos de prosseguir, de fazer. e se eles não corresponderem (e na maioria dos casos não correspondem) às definições geralmente aceites, paciência. não vou chorar por isso. conheço muito bem o preço a pagar e mesmo assim, vale a pena. ao seguir as pessoas, cegamente, em desacordo com o que se é e o que se pensa, perde-se muito. perde-se quase tudo. estraga-se quase tudo. honestidade. sinceridade. auto-estima. paz interior. satisfação. esperanças. amor próprio. morre-se milímetro por milímetro. torna-se insensível. amargo. desiludido. pisa-se nos sonhos que se tinha. sufoca-se com o ar que se respira.

prefiro não ser fixe.

sábado, 12 de dezembro de 2015

luzes dum farol

há poucas pessoas brilhantes. mas realmente brilhantes. com a mistura perfeita de
make that difference
profissionalismo e de empatia, excelentes no que fazem mas também capazes de notar o lado humano das pessoas. e tocar nele. a não se levar demasiado a sério. humildes. inteligentes. pacientes. calmas. seguras. apaixonadas pela vida. serenas. a saber quanto valem sem a necessidade de o manifestar. a não se sentirem ameaçadas por tudo o que é diferente. a ficar admiradas perante as migalhas quotidianas da vida. e a aproveitar cada situação para conhecer, aprender, saber mais, expandir horizontes, experimentar sensações e coisas novas.

conseguem guiar-nos, sem dar a impressão de o fazer. não nos dizem como prosseguir ou o que escolher. não ficam à espera de explicações. não julgam. não insistem. não impõem nada. não questionam. não exigem. mas a expor o seu modo de pensar e os seus valores, a salientar o que é realmente importante, a colocar os pontos de interrogação nos lugares certos e estratégicos, indicam-nos caminhos. clarificam tudo. fazem-nos. empurram delicada e firmemente na direcção certeira. ou mais exatamente, somos nós que decidimos e escolhemos seguir essa direcção sozinhos. fazem perceber quem somos. e de que valores não queremos abdicar. o que queremos da vida. como o atingir. inspiram. escutam. ensinam. animam. ajudam-nos a crescer. e a melhorar.

conhecer pessoas assim é sempre um prazer enorme. e uma sorte.

domingo, 6 de dezembro de 2015

dia na vida dum stalker

a perseverança deveria ser engarrafada e vendida 
um meu conhecido costuma dizer que as pessoas não nos podem ignorar indefinidamente. que há sempre uma altura em que são obrigadas a parar. por desistência, por preguiça, por quererem ser deixadas em paz, se calhar até por ficarem impressionadas com a nossa resiliência. não importa realmente. o essencial é que parem.

há muitos anos li uma entrevista com o jack nicholson onde ele contava os inícios dele como actor. nessa altura compartilhava um apartamento com o dustin hoffman a quem disseram na escola de actores que nunca ia ser um bom actor. o dustin passava horas na cozinha a fazer o papel duma bola de bilhar e quando o jack lhe perguntava o que contava fazer, ele respondia try harder. adoro essa mentalidade.

não me acontece querer largar tudo? acontece. mais ou menos mil vezes por semana. mas isso não é razão suficiente para eu desistir. é só um pensamento que passa pela cabeça quando estou farta de tudo. algo que se liga quando as coisas estão a demorar demais. ou não correr como eu queria. nem o escuto nem lhe presto muita atenção. faz parte do pacote. não importa. é uma ninharia.

devo dizer que é - peço desculpa pelo egocentrismo - uma destas coisas de que gosto mais em mim. não abandono. quando quero alcançar algo, não se me pode desencorajar. torno-me surda à opinião das outras pessoas. vou a contracorrente. fico sozinha contra todos. só me escuto a mim. mando todos à merda porque as minhas escolhas não lhes dizem respeito. e sempre atinjo os meus objetivos. e pago também o preço deles.

claro que não funciona com debilidades - não me vou tornar jogadora profissional de tenis, porque sou velha demais. acho que se trata mais de ultrapassar barreiras. vencer as próprias fraquezas. mostrar quanto conta a força do caráter. quanto se pode decidir só. o que se tem para dizer. os sacrificios que se faz. a dedicação que se alimenta.

não se deve ser particularmente importante para fazer grandes coisas. só basta crer. e acreditar. o resto é canja. ou quase.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

e se o pai natal existisse?

uma aluna de dez anos perguntou-me hoje se eu acreditava no pai natal. porque ela acreditava, mas muitos colegas da turma diziam que ele não existia. e ela não queria que fosse verdade. hesitei no que dizer. perante coisas frágeis, esperanças e crenças, castelos de nevoeiro e tudo o que é invisível aos olhos, não se estraga tudo num gesto só. era uma acção com demasiadas consequências. imprevisíveis. a longo prazo. são coisas que já não se conseguem reconstruir outra vez. nem esquecer. nem desaprender. é como com a confiança - quando se a perde, já é impossível tê-la duma maneira tão cega outra vez. ou se calhar mesmo de todo. é estranho que se possa destruir tanto com tão pouco. com uma palavra ou até com um olhar. respondi que acreditava.

ganhar pureza
e não menti (que os puristas da verdade se fodam). claro que não acredito que haja um homem de barba branca e chapéu cor da coca-cola a distribuir prendas no fim do ano. mas deve-se olhar para o panorama completo. acredito na pureza. na inocência. na sinceridade. na simplicidade. na beleza. nas grandes aspirações. na generosidade. nos gestos pequenos, destinados a fazer melhorar o quotidiano. independentemente da forma que tomem. e de como ingénuos pareçam. e acho que ninguém tem o direito de os destruir. ou desprezar. ou denegrir. ou dizer à pessoa de parar.

são poucos os que encontram caminhos povoados com ideias puras. e que têm a força de deixar por atrás a mediocridade diária. então não se pisa nas flores que se encontra no chão.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

por falta duma melhor ideia para passar a tarde

li hoje um artigo sobre um homem acusado de pedofilia que se fazia passar por
coisas que surpreendem...
adolescente de 17 anos e conseguia convencer raparigas de 13-15 anos encontradas nas redes sociais para se despirem em frente do computador e se dedicarem a 'outras atividadas sexuais' (sempre me tenho perguntado o que este termo significava exatamente). ah, e tudo isso em mais ou menos 48 horas desde o primeiro contacto. disseram que esse tempo era suficiente para as raparigas já desenvolverem sentimentos pelo tal rapaz. assustador, não é? é difícil dizer que parte assusta mais.

não sei de quanto tempo era preciso para um desconhecido me convencer a despir-me em frente dum computador, mas de certeza nem 480 horas chegavam (e acho que nessa altura a pessoa já se tornava mais conhecida de que desconhecida, então não contava realmente). e isto não só por eu não fazer parte de nenhuma rede social. nem por ser particularmente pudica. simplesmente, há coisas que não se fazem por amor próprio e vontade (ou necessidade) de não se tornar completamente vulnerável (ou mandar foder a sua vida). também por saber onde se colocar limites.

as adolescentes de hoje em dia parecem não ter amor e carinho. pedem a desconhecidos fortuitos confirmação do seu valor. e acedem a fazer tudo ou quase tudo para se sentirem aceites, valorizadas, bonitas, queridas etc. é uma coisa de adolescente (com a exceção que eu passei por essa etapa muito mais cedo e a chegar aos 16 anos percebi que já não precisava que ninguém me confirme nada, mas eu nunca faço as coisas como manda a lei porque é demasiado chato). mas é também uma coisa da sociedade virtual em que vivemos. sem contacto directo, tudo parece muito menos ameaçador. faz-se coisas extremas. salta-se etapas. desnua-se fisica e mentalmente. não se escuta a voz da razão. nada de mau pode acontecer. nada é palpável. parece sempre haver uma tecla delete que permite apagar a realidade. e recomeçar do zero.

mas não há. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

rodeada por só mulheres...

... há erros a não dar e gafes a não cometer:

além da menstruação e das mamas, há
poucas coisas que temos em comum
1. chegar de saltos altos e vestido curto enquanto todas estão de sapatos rasos e 80% delas têm pelo menos vinte quilos a mais

2. parecer ter 20 anos a menos que todas enquanto só se tem 10 

3. recusar-se a mostrar a carta de condução quando todas querem comprovar a idade acima mencionada

4. comer lasanha de carne enquanto quase todas são vegetarianas

5. não querer falar de manicuras, tratamentos, produtos e não sei o quê durante mais do que um minuto

6. não fingir interesse quando elas louvam os méritos dos filhos e contam as viagens dos maridos

7. dizer que não se quer comprar o mesmo tipo de casaco que elas já têm numa das lojas supostamente mais cobiçadas da cidade

8. falar pouco por achar propósitos fúteis e superficiais uma perda de tempo

9. ficar com um ar espantado ao vê-las entusiasmar-se, gritar, arrebatar, beijar objetos, extasiar-se, tornar-se muito verbal a jogar um jogo onde o nível intelectual requerido deve ser o duma criança de cinco anos

10. sonhar com uma coisa só - conseguir sair de lá tão depressa quanto possível

alternativamente, pode-se também não socializar com mulheres, o que parece muito mais simples. não me lembro quando foi a última vez que me tinha sentido tão fora do lugar, então é realmente a evitar.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

conversas absurdas

às vezes, quando escuto as conversas das outras pessoas às escondidas ou por acaso, digo-me que devo vir dum outro planeta. hoje:

1. o rapaz francês na mesa do lado estava a responder, num inglês com sotaque que apontava para a nacionalidade dele, a perguntas, feitas por duas raparigas, sobre todas as companheiras sentimentais e sexuais que teve.

2. as raparigas a provar a roupa na cabina ao lado da minha estavam a debater se uma delas podia comprar umas calças porque não sabia que maquilhagem e acessórios ia poder usar com essas calças. 

3. no mercado do bairro, duas velhinhas estavam a insultar-se porque não conseguiam concordar sobre qual tinha chegado primeiro à fila.

nesta última situação já não consegui aguentar o absurdo. nem reter-me. voltei-me e perguntei às duas senhoras se realmente não tinham outra coisa para fazer do que poluir verbalmente o ambiente por um tal pormenor. como estava de chinelos, mini-vestido e casaco cor-de-rosa fluorescente e que todos já estavam a escrutinar-me com uma mistura de incompreensão e apreensão, acho que por uma vez teve algum peso - ambas as senhoras calaram-se. consegui passar o resto da minha estadia na fila num silêncio quase absoluto. que bom!

domingo, 8 de novembro de 2015

no telefone

sou muito má para responder aos números que não conheço em geral. mas ainda mais nos fins de semana. considero que se alguém não me conhece, não tem motivo nenhum para me chatear a cabeça. não faço parte duma lista de doadores de órgãos então não tenho nenhuma obrigação moral para responder no meu tempo livre. mas como ontem alguém passou o dia a telefonar com muita insistência e continuou hoje, acabei por atender.

eu: sim?

ele (pelos vistos decepcionado porque o meu sexo, idade aparente ou timbre não encaixou nas expetativas): eheheh acho que liguei um número errado.

eu: acha?

ele: pois... acho. a senhora mora no número 36 da rua x?

(pelos vistos alguém lhe deu o meu contacto, porque é a rua onde moro)

eu: e tem o meu número de telefone apontado no número 36?

ele: não.

eu: se calhar é porque moro no número 38?

ele: sim! quando é que posso passar aí?

eu, bastante divertida pela pergunta: nunca. não se apresentou. não me disse porque é que estava a ligar, nem porque está a fazer todas essas perguntas, então de certeza não há nenhum plano para nosvermos.

ele: quero controlar a central de gás.

eu: então desculpe. esqueci-me de ligar a minha função de clarividência antes de atender o telefone. e não lhe ensinaram a dizer bom dia e apresentar-se?

(...)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

algo mais?

vou fazer a revisão técnica do carro.

pela primeira vez faço-a com um dia de atraso por causa das férias que decidi tomar com pouca antecedência e com um milhão de coisas para serem tratadas antes de me ir embora. o carro não entrou na lista das prioridades mais imediatas.

só posso concordar
aproveito da situação para fazer um milhão de perguntas ao homem. o que está a controlar exatamente e como. o que acontece quando a policia nos apanha e vê que não fizemos a revisão dentro do prazo. como proceder quando ele decide que o carro está num tão mau estado que precisa de reparações antes de receber o tal selo da revisão aprovada. fico bastante admirada com a resposta à minha última pergunta. sorrir para eu prolongar o prazo duma semana. respondo que não vai ser exequível porque não faço sorrisos débeis para obter coisas das pessoas. desta vez é ele que fica admirado com a minha resposta.

é uma destas coisas contra as quais tenho sempre lutado. não percebo esse conceito de receber tratamentos preferenciais por causa dos sorrisos que se faz ou dos ares que se tem. sei muito bem que o mundo está baseado nisso e que quase todos o fazem duma maneira mais ou menos hábil. e que é supostamente algo ao que ninguém dá muita importância. mas eu dou. acho isso abusivo das pessoas. insultador à inteligência dos interlocutores. arrogante para com os menos afortunados na área do aspeto físico. brincador de baixo nível. uma ferramenta tão injusta que nunca deveria ser usada. uma sugestão de algo que nunca vai acontecer. todos o sabem, claro. se calhar os mais ingénuos até acreditam. mas mesmo ao saberem-no, todos caem na fantasia agradável da promessa ilusória que os tira da monotonia do quotidiano. e gozam da sensação do poder que têm a decidir se querem ou não, durante uns segundos, agradar à pessoa, acreditar na promessa, sucumbir ao irrealizável.

o ilusório não é a minha praia. sempre paguei todas as minhas multas e esperei pacientemente em todas as filas. e acho que vou continuar assim. não sugiro coisas que não tenho intenção de cumprir. deve também haver pessoas na vida que parecem não ter graça nenhuma e levar tudo demasiado a sério ;) 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

o eu

acho o silêncio, a majestade, a quietude e a frescura dos templos inspiradores. e
bagan, birmânia
incitadores à reflexão. séculos de desenvolvimento espiritual carregam no ar. a sabedoria é palpável. está-se rodeado pelo que mais importa na vida. só é preciso decifrá-lo. a sensação de pequenez, a andar descalça no escuro dos corredores poeirentos, perante algo de tão grande e soberbo, é inefável. esta paz que incita a olhar-se por dentro. a questionar. a acertar caminhos. a responder mais uma vez à pergunta quem se é. pelo menos para as pessoas que se a fazem. percorro os últimos meses. pergunto-me o que podia ter feito melhor. se perdi tempo com pormenores. se foquei bem a energia. como posso corrigir os meus erros para que não aconteçam no futuro. o que queria voltar a fazer.

os meus pensamentos vagueiam até um artigo que li há duas semanas no público, enquanto estava num aeroporto. perguntaram ao andrea petrini, um escritor, jornalista e curador de eventos gastronómicos italiano, quando estava em lisboa, como era que os restaurantes lisboetas se podiam distinguir e fazer com que reparassem neles? uma pergunta velha como o mundo. todos queriam conhecer sucesso numa área que interessa. acertar nas medidas dos seus ingredientes. tais como alquímicos experimentados. uma pergunta com uma resposta só. e que parece óbvia e cliché. mas muitas vezes são as coisas mais simples que são as mais difíceis a ver, atingir, aperfeiçoar. o petrini respondeu que, simplesmente, sendo como eram. parece banal, não parece? mas o ser humano tem geralmente a tendência para querer preencher as expetativas das outras pessoas. ou sonhar com ser completamente diferente. são poucos os que não estão com medo de se enfrentarem. a maioria das pessoas está envergonhada consigo mesma. queria ter o que não tem ou ser o que não é. acha-se não suficientemente inteligente, divertida, esbelta ou bonita. prefere esconder-se e fingir.

não posso pronunciar-me sobre como é que as outras pessoas tratam dos seus eus. como os definem, se os ouvem ou fazem calar, onde é que os posicionam na dinâmica do universo. só posso falar de mim. e o meu eu é muito importante. não sei se isto se explica com o meu egocentrismo, individualismo, caráter insólito ou outra coisa. mas é um facto. e com o passar do tempo percebi que todas as tentativas, empreendidas pelas outras pessoas, para o fazer calar ou tentar subvertê-lo, incomodavam-me muito. incomodavam-me desde sempre. mas levei algum tempo para perceber que era essa a razão do meu desconforto. ou pelo menos do facto de não me sentir eu própria. para estar confortável, devo poder fazer as coisas à minha maneira. tudo o que o impõe é uma ingerência no meu eu. sou extremamente territorial. com o meu corpo, as minhas ideias e os meus bens (sobretudo o meu carro; o leszek diz sempre que o meu carro e eu temos uma relação sexual). intromissões no meu território, que só a mim deveria dizer respeito, são algo que já não tolero. passei os meus anos 20 a tolerá-las e nunca me senti bem com isso. até me sentia abatida e miserável. como se alguém tentasse tornar-me numa outra pessoa. contra a minha vontade. porque gosto imenso de ser eu. e de só ser eu.

por isso agora só uso a roupa que me apetece (com algumas adaptações culturais quando estou a viajar), continuo a dizer o que penso e fico ainda mais intransigente, quando se trata de comunicar às pessoas que sou um pacote e ou me aceitam como sou ou podem mandar-me profissional ou pessoalmente à merda, porque já sei muito bem com o que estou confortável e com o que não, então as únicas expetativas que tenciono preencher são as minhas.

não sei se é nisso que estava a pensar o petrini, mas faço-me distinguir de certeza. e todos reparam em mim. mas nem me aquece nem arrefece. sou como sou.

domingo, 18 de outubro de 2015

v de vermelho

:)))
o tempo em que morava em nova iorque e estudava desenho de moda ensinou-me muito. mesmo que fosse bastante difícil, como todos os inícios, sobretudo no estrangeiro e sem conhecer ninguém. aprendi modos de tratar da realidade, de pensar e de priorizar. abandonei a procura da perfeição por falta de tempo. solidei a confiança que tenho em mim. comecei a levar-me ainda menos a sério. tornei-me mais leve. e descobri as minhas inspirações.

uma das coisas que mais me comovem é as cores. apercebi-me disto a preparar pranchas de tendências e tirar fotografias ou fazer colagens. não gosto de roupa nem de compras mas ligo muito às cores que uso. e que me rodeiam. sou esteta. aprecio matizes vivos e bem distintos. vão com a minha personalidade. sou alguém de quem se gosta ou que se despreza, por causa da minha impertinência, desrespeito das regras e outras excentricidades. e do facto que digo sempre o que penso, sem embelezar. incomoda quase todos. para resumir, dificilmente deixo as pessoas indiferentes.

não gosto de preto. nem de castanhos. nem de cores demasiado claras (com a exceção do branco) ou demasiado escuras (com a exceção do azul marinha). não me ficam bem. detesto o verde. o amarelo, os beges e os tons pastel confundem-se demais com a minha pele e dão-me um ar doente. também são demasiado neutrais. não sou alguém que gosta do neutral. nas cores e na vida. prefiro adorar ou odiar. a neutralidade faz-me sempre pensar na indiferença. e quando não quero lutar por algo, podia não existir.

não acredito no poder, no simbólismo das cores e em todas essas merdas. sei que cores preferidas são uma coisa de rapariga, mas como isto faz parte da minha profissão, tenho uma desculpa. devo confessar uma predilecção que tenho desde os meus 15 anos. o vermelho. adoro. há quem diga que é demasiado agressivo. mas para mim, quando algo existe também em vermelho, é sempre uma pequena vantagem. a usar roupa vermelha, sinto-me mais inteligente, mais perspicaz, mais divertida, mais encantadora, mais linda, mais energética, capaz de mover montanhas e alcançar o inalcançável. só roupa branca me dá poderes parecidos, mas numa escala muito menor.

o vermelho é tudo o que sou - destaca-se, não chega a meio termos, choca com as outras cores, não é politicamente correto, toma decisões, provoca, explode, faz a vida com paixão. somos feitos um para outro.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

o que se faz para agradar às pessoas

a passar tempo em culturas diferentes, perguntei-me muitas vezes como era julgada fisicamente, a não corresponder aos padrões de beleza locais em vigor. a lindeza é tantas coisas. físicas e mentais. é interessante perceber o que pode ser visto como belo em função da bagagem da pessoa. nesta altura geográfica, tenho o cabelo de textura estranha e cor errada, a pele clara, que até é o sonho de muitas mulheres, mas exponho-a a muito sol e curvas a mais. não sei se isto atrai por exotismo ou desencoraja por não apresentar os parâmetros desejados.

la beauté sera convulsive ou ne sera pas. andré breton
mas a julgar pelo número de mulheres a me dizer que sou linda, a pegar na minha mão e a pedir uma fotografia comigo, tenho uma resposta. dessas três coisas, é difícil dizer o que detesto mais - que me digam que sou linda, que me peguem na mão ou que queiram uma fotografia comigo. mas o que posso fazer perante tanta gentileza e sorrisos? sorrio à minha volta e dou a mão. e nem posso dizer que detesto. noutras circunstâncias detestava.

mas é tão pouco para fazer ficar felizes tantas raparigas. acho que quando se trata das coisas que detestamos, depende sempre de quem é que as pede.

domingo, 11 de outubro de 2015

das coisas esquecidas, nas terras dos monges budistas

gosto da ásia. imenso. foi um amor quase à primeira vista (não acredito em amores à primeira vista, mas não importa). esta aventura começou há mais ou menos quinze anos, antes da monika se ter para cá mudado. o krzysiek e eu tínhamos seis semanas de férias, ambos entre dois empregos. queríamos visitar a espanha e portugal, mas um só bilhete de comboio ilimitado para a península ibérica já custava os olhos da cara, sem falar do resto, então decidimos procurar outra coisa. a mãe duma amiga da monika, que tinha um agência de viagens, e já lá tinha mandado a monika com amigas, falou-nos em tailândia. porque não? uma amiga, também a trabalhar numa agência de viagens encontrou uma oferta muito vantajosa para passar duas semanas na tunísia num hotel de quatro estrelas. o problema é que a mim, não me interessa de todo passar as férias a repousar o rabo numa espreguiçadeira a contemplar de longe uma piscina (nas piscinas não entro. mesmo michael phelps admitiu lá fazer xixi.). é cruelmente chato. felizmente, o krzysiek estava a sonhar com grandes aventuras. optámos pela tailândia.
angkor wat às 5.40 de manhã

desde o primeiro dia adorei. a energia vibrante e interminável. as cores intensas (porque é que os europeus devem ser tão cinzentos, sobretudo no inverno? já há razões suficientes para se ficar deprimido sem isso.). os sabores acres e distintos. a comida excelente e tão picante que faz explodir o paladar. o ar pegajoso que embrulha a pele. a humidade louca que invade tudo, incansável. as túnicas dos monges budistas que piscam de açafrão no meio da multidão na rua. o desassossego constante nas ruas e nas estradas. nenhuma regra de trânsito parece ser respeitada, mas não significa que não há regras. a zoeira incessante das pessoas, dos tuk-tuks, dos bichos. os serviços e comércios abertos 24 horas. a sensação de estupidez quando se entra num mercado em que não se conhece metade das frutas e legumes. as três perguntas clássicas quando se conhece uma pessoa - idade, estado civil, existência de progenitura. os chinelos que, na maioria dos países (mas não no cambodja, porque lá me explicaram que parecia mais desarrumo do que outra coisa), ficam em frente da loja, casa ou banheiro. a cortesia, gentileza, prestabilidade, meiguice e flexibilidade das pessoas. na asia, tudo pode sempre ser arranjado. não há situações irresolúveis. seja reparar o pneu do autocarro sozinho no meio da noite e quase sem luzes, pedir algo que não faça parte da ementa dum restaurante, ou negociar o preço final das compras (e ambos os lados ficam contentes, porque a fineza dos bons negociadores é sempre valorizada e admirada). tudo isto na europa não existe. e nos estados unidos é feito só parcialmente e com pouca sutilidade.

fico cada vez mais humilde perante a dignidade das pessoas a cumprirem as tarefas mais simples e rudimentares. o sério com o qual as desempenham. a atenção, o cuidado, e a dedicação que investem nelas. o apreço e a modéstia que mostram. deixa-me com nós na garganta. que se possa valorizar tanto coisas que noutras alturas geográficas se tornaram há muito tempo evidentes e adquiridas. que se faça tanto esforço porque é o que é exigido e sem grandes esperanças. não se tem o luxo de escolher. de recusar. de ter chiliques. aceita-se o que a vida traz. com um sorriso na boca e sem se queixar. independentemente das dificuldades, privações e injustiças. o muito que se consegue fazer do pouco que se tem. a criatividade. o valor que se dá às coisas em que o ocidente nem pensa. e cá, destacam-se.  surpreendem. comovem. fazem parar. oferecem outras perspetivas. abrem os olhos. uma pureza despida de hipocrisia, de cobiça, de egoísmo.

a procurar na internet uma pensão em bagan, vi algo que me fez sorrir. electricidade durante 24h. faz relativizar tudo, não faz? deixa perceber como, na maior parte do tempo, preocupamo-nos com coisas que não importam. e tomamos por garantido o nosso quotidiano porque não temos de lutar por ele. está servido num prato. podemos ficar contentes. amuar. ignorá-lo. tentar mudá-lo. temos uma infinidade de escolhas que ocupam todo o nosso tempo e energia. não aproveitamos as situações. não as valorizamos. esquecemo-nos do pouco que é realmente importante. não temos humildade porque achamos que as oportunidades vão nos ser oferecidas indefinidamente. e se não houver amanhã?

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

desatenção

as pessoas já não sabem escutar. não conseguem. não querem. não lhes interessa. ficam perplexas quando não se lhes pede participação nenhuma. só silêncio. e atenção. uma armadilha. a inércia já não parece o estado mais natural do corpo. as mãos, quando não estão a segurar num tablete/telemóvel ou a acariciar o teclado do computador, tudo isso feito com uma veemência compulsiva, ficam perdidas no espaço. sentem-se completamente burras. querem fazer algo. participar. ocupar-se. custa-lhes muito ficarem quietas. chegar a um estado em que não se devem focar em nada. e o silêncio faz focar em muita coisa.

o nosso eu, quando não está ocupado com si mesmo, quando não está a arfar-se com a sua própria soberba, quando não se afoga no seu esplendor, quando deve parar durante alguns segundos ou minutos o processo fastidioso e cativante que é a compartilha das micas do nosso deslumbramento através de redes sociais (o que comemos, fizemos, onde fomos, com quem e porquê; difícil imaginar nem que seja uma pessoa que não quisesse conhecer esses pormenores; como se possa não estar interessado em nós, somos o centro do universo, não somos? tudo gravita porque lhe damos a força necessária. sem nós, nada existia.) com a humanidade inteira, também fica perdido. porque o silêncio a faz parar. questiona-a. duvida dela. exige um estado de conforto que se consegue atingir consigo mesmo para depois poder dar toda a atenção a outra pessoa. parece uma das coisas mais perigosas do mundo. um risco que não se pode correr. podia custar demais.

é bastante desolador que nesta altura em que a comunicação parece abundar em todos os lados, seja o que é mais difícil para se encontrar. debaixo de superficialidades egocêntricas não sobra mais nada. estamos bombardeados por mensagens, conversas, telefonemas. o mundo parece querer compartilhar tudo connosco. uma ilusão. nunca tínhamos sido tão sós. as duas coisas que parecem mais naturais e óbvias na comunicação, o tempo e a atenção, tornaram-se as duas coisas mais dificilmente encontráveis. até ficamos gratos quando as presenciamos. uma tristeza inefável.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

r de responder

quando as pessoas não respondem aos meus emails, é como acenar com uma capa vermelha em frente do touro. dá-me raivas gigantescas. não percebo essa falta de cortesia, essa ignorância, esse cagagísmo. quanto tempo é que se leva para responder a um email que já se leu? 30 segundos? não preciso que me escrevam poemas ou litanias. um sim ou um não bastam. ou uma carinha. e todas essas desculpas de merda que ouço mais tarde quando conheço a pessoa que não respondeu - respondi, mas não recebeste, ia responder mas o cão ficou doente, o computador avariou-se, o mundo acabou, ou a minha preferida - não sabia que era um email que precisava duma resposta. não sei o que insulta mais a minha inteligência. preferia ouvir que a pessoa não tinha intenção nenhuma de responder. pelo menos tinha o mérito de ser honesto.

não quero que concordem comigo por omissão. ou discordem por omissão. ou que me mandem à merda por omissão. quero ser mandada à merda pessoalmente, com tudo o que isso implica. é um prazer. faço parte dos 3% da população que adoram a confrontação. que vivem a confrontação. que a respiram com cada milímetro de ar que ingurgitam. que se animam com ela. são desafios encantadores, sobretudo quando o adversário é digno desse nome. não tenho paciência nenhuma para falar com pessoas que são passivo-agressivas. mata o prazer todo desde o início. não gosto de confrontação só para impor a minha vontade ou ganhar a disputa. gosto da emoção. do esforço intelectual. da energia criada pelo choque entre as ideias. da caça. da competição. da inteligência da outra pessoa. da conciliação eventual.

detesto situações não resolvidas, suspensas no tempo e espaço, sem intenção de tocar nelas porque são incómodas demais. detesto quando pessoas adoptam atitudes de gatos - ao colocar a cabeça debaixo da mesa, acham que estão perfeitamente escondidas e já ninguém as consegue ver. não quero fingir que nada aconteceu. que o problema não existe. quero lutar para o resolver. investir tempo e energia. vencer dificuldades. dar barraca. aprender com os erros. crescer emocionalmente. porque enquanto se luta pelas coisas, significa que ainda importam. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

o que não se apaga

diz-se que as primeiras vezes sempre doem. ou pelo menos que são as que doem mais. sobre tudo quando se perde alguém. não tenho a certeza que sejam só as primeiras vezes. as coisas estão frescas demais para eu conseguir julgar objetivamente. sei que o passar do tempo faz relativizar. que apaga muito. que torna triviais assuntos que outrora eram importantes. mas não sei se tem o poder de apagar tudo. acho que há feridas que doem sempre, mas a dor evolui. torna-se diferente. deixa de paralisar. deixa respirar. deixa pensar em outras coisas. continuar o caminho.  só se faz ressentir de vez em quando. lateja quando menos se espera, provocada por pormenores. ou quando se fica à sua espera.

uma realidade demasiado real
cada vez que topo com estupidez, com indelicadeza, com hipocrisia, com doblez, sinto saudades da hanna. ou quando passo em frente do nosso restaurante tailandês preferido. ou da hamburgueria favorita dela. ou quando me sinto julgada. ou quando vejo sabrinas ou vestidos com laços, mesmo que normalmente eu ache os laços débeis, feios e demais e que não usasse sabrinas mesmo que me pagassem uma fortuna, porque um sapato sem salto alto que não seja um chinelo nem uma sapatilha de ginástica não merece existir. mas agora passo tempo a olhar para essas coisas de que não gosto. com emoção. 

é um buraco no peito. uma ausência de matéria. algo que cá deveria estar, mas desapareceu. palavras a flutuar na cabeça, a envolver tudo mas nunca ficar. uma comoção interior ao saber que nenhum amanhã existe. um desamparo desolador. coisas que nunca foram vividas. sentidas. tocadas. uma saudade inapagável. 

a dor nunca se vocifera para não fazer escapar as lembranças. enrola-se. domestica-se. alimenta-se. para um dia deixar lugar ao sorriso, mesmo que seja só durante um instante. uma infinitesimalidade. uma migalha. um sorriso ao pensar em tudo que foi tão bom. tão inesquecível. tão esquisito. e que dá lugar à dor outra vez. mas também à força. força que vem de facto de ter vivido algo de muito especial que nos transformou para sempre.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

que giro...

estou a entrar num centro comercial por uma porta giratória.

em frente de mim - um casal com dois filhos. um menino de se calhar seis anos, gordo (ok, talvez só rechonchudo, mas com um potencial evidente de se tornar gordo num futuro bastante próximo) e cabeludo (o tipo de cabelo liso, meio comprido e abundante) e uma criança de se calhar dois anos, com algo de branco na cabeça que quase lhe tapa os olhos e torna o sexo indefinido e indefinível.

o menino toca na porta de vidro. a porta para.

ele começa a rir-se. os pais ficam entusiasmados.

a porta arranca depois dum soluço solitário. o menino toca-a de novo.

ela para, ele ri-se, eles entusiasmam-se. o soluço. o suspenso no universo perante a genialidade suposta da progenitura. uma pasmaceira absurda. o arranco.

o processo repete-se. parece cada vez mais intenso e mais exclusivo.

devo lembrar-me de entrar por uma porta estandarte no futuro.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

a sustentável leveza do ser

www.acababem.com
era bastante jovem quando tomei a decisão de ficar fiel a mim própria. de nunca abandonar as coisas nas quais acreditava, independentemente das circunstâncias e das pressões. acho que foi uma das decisões que mais me formataram. requeria escolhas que ninguém percebia; pareciam erros, loucuras, oportunidades falhadas, mas nunca foram. é que sempre tenho tido uma visão bastante clara de para onde queria ir e por onde ia passar. e isto raramente encaixava na visão da vida da maioria das pessoas.

mas mesmo assim, o envelhecer leva coisas cujas existência eu nem suspeitava nem esperava. acho que o processo todo começou há alguns quatro anos. difícil dizer porque nessa altura. se calhar foi um número suficiente de experiências que me promoveu para o nível de energia superior. ou atingi um ponto de desenvolvimento emocional (todavia, quando mando tudo e todos à merda, tenho mais a impressão que se trata de estagnação ou recuo emocional, eheheh). houve um momento em que me apercebi que comecei a perder peso. que já tinha perdido tanto. isto é, peso mental. ganhei uma leveza incrível. um distanciamento tremendo. uma libertação ainda maior do que as pessoas pensam de mim, do que dizem sobre mim, do impacto das escolhas delas em mim.

muda tudo. oferece perspetivas novas. aguça o sentido de humor. torna a pessoa mais soberba. ensina a aperfeiçoar o não se tomar por sério. a fazer a diferença entre o que vale a pena e o que não. a não perder tempo. ou energia. a não desesperar. faz brilhar a pessoa por dentro. sentir-se mais em harmonia com a vida. não se importar com o que não pode ser mudado. contornar obstáculos sem perder esperança. não procurar os melhores modos de fazer, quando simplesmente chega só fazer. não perder o objetivo final da vista. ficar bem na sua cabeça. abandonar sem se arrepender os que nos pisam. deixar coisas para atrás. calar quando as palavras não valem mais que um silêncio.

tive sempre a impressão que o passar do tempo trazia mudanças positivas. mas não que eram tantas. e o melhor ainda está a vir. para resumir a história - acho que estou como o vinho de porto, quanto mais velho melhor ;)

sábado, 5 de setembro de 2015

conversas com sol e sal

há alguma disparidade entre a minha bagagem genética e geográfica. algo que correu ligeiramente errado. ou pelo menos não exatamente bem pensado. mas sempre achei o valor da genética sobrevalorizado. nunca percebi essa pressão social para ter filhos biológicos. não há um número suficientemente alto de crianças sem família? se quer bem a todas as crianças do mundo ou só às suas? quanto à geografia, os transportes contemporâneos permitem fazer milagres, então decidi não me preocupar com ela. só me sinto levemente deslocada. paciência. gosto de temperaturas acima dos 30 graus. fazem-me levantar eufórica de manhã e com tanta energia que até conseguia levantar montanhas. eu sei que a maioria das pessoas entorpecem com o calor, mas não é o meu caso. é mesmo tudo ao contrário. é como roupa vermelha - a usá-la, sou capaz de tudo. 

no sul, de que gosto tanto, as manhãs são devagar. o sol leva timidamente a sua cabeça debaixo das camadas de sal e areia em que dorme. até com vergonha por ter brilhado com tanta intensidade no dia anterior. em pequeno, disseram-lhe que não era bom procurar muita atenção. mas o que ele pode fazer enquanto só está a tentar fazer o seu trabalho o melhor que consegue? leva tempo para dissipar as nuvens, a gozar da sua mandriice, a se deleitar com ela. os pensamentos já estão a vadiar, avançar taciturnamente até a noite, mergulhar nos copos de sangria de vinho branco com morango - gosta muito de morangos, da cor deles que complementa a sua - que se vai beber com amigos para descansar e trocar impressões sobre o dia. que coisa celsa! como se está a sentir subitamente leve! sacode a cabeça, suspira a pensar em todas as tarefas que ainda deve cumprir antes, engole as últimas migalhas do pastel de nata que caíram no seu colo - não gosta de gastar comida - acaba de um gole só o resto do leite, espreguiça-se, respira fundo até sentir a maresia penetrar nos recantos mais longínquos dos pulmões, já se sente mais pronto para enfrentar o dia. tira o telemóvel do bolso traseiro - é a hora de chamar o vento, que pelos vistos esqueceu-se mais uma vez de colocar o seu alarme. ah esse vento e a sua desatenção aos detalhes...

nada de tal como um chazinho e uns bons bolos
para melhorar a conversa
um sul do que gosto imenso é portugal. para citar tabucchi, que me arrependo muito de não ter conhecido porque compartilhámos uma paixão que poucos compreendem, portugal faz parte da minha bagagem genética. não tenho nenhuma ideia de onde vem esta afinidade e porque é que não se manifestou mais cedo, mas cá está. se calhar porque é uma dessas coisas para as quais precisamos crescer. ou porque, por ter crescido entre duas culturas, acabei por não me identificar com nenhuma. mas cá estar tem em si algo de quase mágico. a gentileza, a disponibilidade, o carinho e a dignidade das pessoas. as descobertas gastronómicas duma grande subtileza, devido às ótimas recomendações dos empregados de mesa. um cuidado e um devagar meticulosos ao cumprir as tarefas. os pequenos-almoços tomados na pastelaria da esquina da rua onde todos se cumprimentam e conhecem. o mar que cega com a sua azulez soberba. o vento que leva um sabor libertador do mar, que dá a impressão de se ficar mais jovem, e faz explodir o coração com todas as promessas que faz. o tempo que para nas vilas e nas aldeias e até parece se soltar no ar. o sal na pele, uma camada fina e quase invisível mas que envolve tudo. o preto da roupa das senhoras mais velhas, a esconder nas suas complicações notas de fado, vestígios de canela e partículas de saudades que ficaram lá atrapalhadas ao flutuarem no ar. uma água bem fresquinha bebida debaixo dum chapéu de sol. a luz, que expõe tudo sem compaixão nenhuma, fraquezas e beleza, sem diferenciar. a chamada muda de horizonte a prometer um amanhã melhor. como é que se pode não gostar disto?

ainda não atingi um ponto de saturação com o arroz de tamboril e a sericaia (orgasmicamente boa, a sericaia - não percebo o espanto das pessoas quando uso estas palavras, que supostamente não encaixam no politicamente correto. todos gostam de ter orgasmos, certo? então achar a minha comparação escandalosa é hipocrisia pura). nem sei se será possível. então se calhar ainda não é a altura de voltar. vou cá ficar. indefinidamente :)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

xx

nos homens, não percebo poucas coisas - a falta de integridade/colhões, o egoísmo, as ideias pouco viáveis em situações difíceis e, às vezes, a lentidão a perceberem as coisas.

um dos atributos de feminidade que adoro
nas mulheres, é uma lista que não acaba. acho que se elas fossem equipadas com um manual de instruções, tinha um milhão de páginas. e dava informações contraditórias. então ninguém teria a paciência de o ler. por isso resulta na mesma se nada de tal existe.

nem sei por onde começar perante a complexidade da minha incompreensão. não percebo os interesses, os passatempos, as preocupações, as inseguranças, os métodos, a imprevisibilidade, o raciocínio (ou mais exatamente a falta dele), a irracionalidade, os não ditos. detesto trabalhar com mulheres. elas dizem querer o a, mas na verdade querem o b e, secretamente, esperam que se adivinhe que sonham com o c. peço desculpa, mas não estudei  clarividência. entanto, quando me pedem o a, faço o a e elas ficam zangadas comigo. adoro trabalhar com homens. tenho a certeza que querem o a quando mo pedem, faço o a e todos ficam contentes.

tenho sempre passado mais tempo com homens do que com mulheres. temos mais assuntos em comum. e uma construção mental mais semelhante. tenho sobretudo amigos homens. sim, eu sei que a amizade entre homens e mulheres não existe. que cada homem quer ir para a cama com uma mulher que acha atraente. e se não a acha atraente, é só uma questão de tempo para ele querer ir para a cama com ela. seja. não vamos mudar a natureza. nem chorar por isso. vamos dizer que dentro desse padrão consegui construir muitas relações com homens pelos quais não estive sexualmente atraída e fui sempre muito clara sobre isto. mas se na cabeça deles isto não estava claro, já não é um problema meu. um mínimo de egoísmo ainda não matou ninguém na vida.

não consigo identificar-me com a imagem de mulher ditada pelos médias, pela imprensa, pela indústria cosmética, ou pelas mulheres mesmas. detesto ir ao cabeleireiro. não gosto de malas. nem de roupa (se pudesse, passava todos os dias de biquíni). nem de maquilhagem (porque é que deveria querer colocar produtos na minha cara? estão a sugerir que não tenho um aspeto suficientemente bom sem?). nem de jóias. de manhã fico pronta em vinte minutos, duche e pequeno almoço incluídos. não falo quando vejo bola. não faço chantagens emocionais. não tenciono mudar ninguém (era uma perda de tempo e energia). digo sempre o que quero sem muitas subtilezas.

mas o que me faz desesperar ainda mais é o facto que, com a idade, quase todas as mulheres parecem cair numa ou noutra forma de loucura, de estranhez, de obcecação, de irracionalidade, de perdição. uma fé quase religiosa na infalibilidade de algo em que baseiam as vidas delas. um porto duvidoso em que se escondem para retomarem forças. um retiro que lhes dá um propósito, indica um caminho. e para o qual querem converter a humanidade toda. e se não for a humanidade toda, pelo menos as pessoas ao redor delas. ou pelo menos a família. estraga muito as relações familiares. não percebo como é que elas não se dão conta disso. como é que se pode ser tão cego? e querer pagar um tal preço? em nome de quê? duma merda que não importa? é importante conseguir priorizar na vida. valorizar ideologias duvidosas mais do que a própria família, é uma loucura. falamos dessa situação com a monika e decidimos que só conhecemos uma mulher que conseguiu desobedecer à regra. ou duas. é bastante assustador.

já lhe disse que se isso acontecesse a mim, queria que ela me matasse imediatamente.

domingo, 30 de agosto de 2015

passo a passo

quando os segundos deslizam
viajar é perder-se. seguir caminhos ditados pelo coração, pelo passado, pelos estados de alma, sem mapa. é esquecer-se de todos os pontos de referência que se tinha. é não ter destino. nem objetivo. é pôr tudo em perspetiva. desencontrar para encontrar. ter saudades. procurar no fundo de si mesmo. recomeçar do zero. palpar o imprevisível. não esperar mais nada. abrir os olhos por resignação. parar. prestar atenção. roubar momentos ao tempo. deleitar-se com o cheiro do vento. lembrar-se de coisas pequenas. errar e depois ter a possibilidade de corrigir os erros. ou fazê-los de novo. escutar o imprevisível. experimentar coisas inesperadamente boas.  receber sorrisos que dão impulsos para cima. experimentar a bondade gratuita a emanar de pessoas desconhecidas. sentir o calor invadir o coração. querer que o instante dure uma eternidade. tocar nos infinitésimas momentos da vida.

gosto de descobrir modos novos que reinventam o quotidiano. realidades que parecem surreais mas são bem palpáveis. gosto de não me preocupar com o passar do tempo. de fazer tudo devagar. de me perder no horizonte. de ficar debaixo dum céu estrelado que pisca de maneira confortadora. de sentir sal e sol na pele, gotas de chuva no rosto, vento no cabelo. de mergulhar na beleza. de embebedar com a simplicidade. de preencher os pulmões com a frescura do dia e a doçura da noite. de me tornar mais leve. taciturna. de me olhar por dentro. de decidir o que quero mudar. de aprender coisas novas. de me tornar mais humilde. e melhor.

viajar é um desejo insaciável. são folêgos cortados. uma comunhão. uma fusão. uma suspensão. um silêncio cheio de tudo perante uma soberba esmagadora. algo que fica fora do tempo. e, ironicamente, fora do espaço.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

nem todas as praias são minhas

porque é que quando estou a pagar na bomba de gasolina propõem-me sempre
mesmo os cenários perfeitos têm imperfeições
um café? e quando o recuso - um sumo de laranja? e depois um cachorro-quente. seguidos de pontos que deveria querer juntar e do recibo. e como respondo não a tudo, perguntam-me depois porque é que sou tão negativa. ou se acontece que eu diga sim a algo. e quem é que me faz essas perguntas de merda?

porque nos hotéis há sempre um doce de morango pelo pequeno almoço? e mais sumo? sem falar de café. e depois, quando estou a visitar a cidade e a parar para beber algo, bombardeiam-me com mais café. e mais sumo. e bolos de queijo fresco.

detesto café. bebi dois na vida (e tinham mais leite do que café), à beira dos 18 anos e vomitei depois de ambos. já o cheiro sozinho me dá nojo. nem aguento os bolos com café (a não que seja um tiramisu com uma dose mínima) e sou uma grande fã de doces.

quanto aos sumos, as únicas bebidas doces de que gosto são a coca-cola (a versão normal que contem as doze colheres de açúcar e não a light ou a zero para pessoas que não se assumem e que estão com medo de viver, armando-se em carapaus de corrida) e o estathé al limone. tudo o resto é artificialmente e elasticamente pegajoso. não consigo beber nenhuma bebida alcoólica que contenha sumo ou refrigerantes (as de cores fantasistas, em copos chiques, com chapéus-de-sol de papel e outros acessórios ridículos) já cheiram mal. nem bebo nem como nem compro coisas que cheiram mal.

infelizmente, a fruta também é doce. das coisas doces, só gosto de chocolate. da fruta, só realmente de bananas e framboesas. o resto podia não existir. e, honestamente, o fenómeno do morango, não percebo. essa suposta sofisticação e subtilidade - combina com champanhe e coberturas de chocolate; é usado durante os preliminares em muitos filmes de soft porn (a condição que se possa juntar as palavras pornografia e sofisticação na mesma frase e a falar da mesma coisa) -  nem me aquece nem arrefece.

como me forçaram a comer queijo fresco (supostamente muito saudável mas sempre achei esse  enfoque entusiasta muito exagerado) durante a minha infância, odeio absolutamente tudo que o contenha. nem apreço muito a sua textura de cartão que passou tempo a mais debaixo da chuva nem o seu sabor insípido. evito tudo o que o contém.

(ao escrever isto, propuseram-me um bolo de queijo com morango. não preciso explicar o meu espanto.)

não percebo porque é que o quotidiano segue nos seus arranjos essa ditadura do comum. porque é que ninguém me propõe chá branco? ou chocolate? ou até uma coca-cola normal? quando a peço perguntam sempre se a quero light ou zero. sinto-me rotulada sem eu ter dito nem que seja uma palavra. empurrada para seguir padrões que nem me correspondem nem apetecem.

ao insinuar às pessoas o que deveriam querer, do que deveriam gostar ou que expetativas deveriam preencher, pode-se estragar muitas coisas. coisas bonitas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

grand moment de solitude

devo pagar 14.10 pln na para-farmácia. dou um bilhete de 10 pln, uma moeda de 5 pln e uma de 0.10 pln, a esperar receber uma moeda de 1 pln em troca. recebo um punhado de moedas. olho para a rapariga. realmente?

eu: dei-lhe 4.10 pln para receber só uma moeda de 1 pln em troca.

ela, indignada: a quantia que dei está certa.

eu: não é o que eu estou a questionar. queria receber uma moeda só em vez de vinte.

um momento de silêncio. como dizem os franceses quando se sentem incompreendidos - un grand moment de solitude. fico à espera para ver a cara da rapariga iluminar-se com nem que seja uma migalha de compreensão. não acontece. o momento prolonga-se.

finalmente, ela: ah.

acho ótima a expressão que a melhor encarnação da infinidade é a estupidez humana. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

expor-se por inteiro

being powerful is like being a lady. if you have to tell people you are, you aren't. margareth thatcher

não posso dizer que não gosto do facebook, porque nunca fui à página, nem que
revelar tudo?
seja por curiosidade. redes sociais não me inspiram curiosidade nenhuma. nem gosto da ideia, nem do conceito, nem da finalidade. não devo ser suficientemente social para isso. não quero compartilhar tudo com todos. ou nem que seja tudo com poucos. há partes de mim que só são para mim. compartilhá-las seria tirar-lhes a beleza toda. não me interessa que a humanidade inteira saiba que cara tenho de biquíni. eu sei. e chega. também não quero simplificar o processo de conhecimento duma outra pessoa ou de sacrifícios que se faz para manter uma amizade numa lista de informações que pretendem resumir a minha vida atual. não me quero apresentar como fantástica.

não quero que me curtam, que me compartilhem ou que me adorem. é tudo treta. uma falsa atenção e carinho ilusório que começam e acabam num só clique. sem esforço. sem consequências. sem nada mais por detrás. achei sempre importante conseguir diferenciar a realidade da ilusão. para saber o que se tem e o que só se acha ter. o verbo gostar, como o verbo amar, não toleram imperativos. além de soarem completamente desesperados e patéticos, não resultam em nada. ama-me. gosta de mim. não são coisas que se comandam. nem pedem. nem obedecem.

não quero ser amiga de todos. não quero contactar pessoas. nem obter informações superficiais. quero encontrá-las. levar tempo. perder tempo. descobri-las. conhecê-las cada vez um pouco mais. ficar contente por isto. esforçar-me. adaptar-me. compartilhar silêncios. decidir o que lhes quero revelar e o que não porque é cedo demais.

há pessoas que já me sugeriram que, sem uma conta facebook, era como se eu não existisse. ótimo. porque quando não se existe, passa-se do lado das sombras que não interessam ninguém. e consegue-se dedicar a coisas realmente importantes. em paz e ao seu ritmo. dificilmente podia-se imaginar uma situação mais bonita.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

na junta de freguesia

vou tirar um número. 

dois homens atrás de mim dizem: como esta senhora é bonita.

volto-me. estou de chinelos, vestido de praia (porque me faz pensar no mar e ficar de excelente humor), cabelo molhado e despenteado (porque detesto penteá-lo). olho em volta de mim. não há nenhuma outra mulher. devem estar a falar de mim. olho para eles lentamente, dos pés a cabeça, depois nos olhos e pergunto: conseguem dizer algo que eu ainda não saiba ou já chegaram ao limite das vossas possibilidades?

ambos ficam de boca aberta. 

saio da sala bastante contente porque detesto elogios. são aborrecidos. não acrescentam nada à situação. não me fazem melhorar em nada. não preciso deles. já me sinto suficientemente bem comigo sozinha. não vejo a utilidade de confirmações externas. não me fazem ficar lisonjeada ou contente. nem percebo porque deveriam. pelo contrário - irritam-me. o ar que tenho só a mim diz respeito. o que tenho na cabeça também. porque é que as pessoas acham que devem interferir na relação que tenho comigo? é duma futilidade incrível. e uma perda de tempo.

não é presunção. acho patético não ser consciente do que se tem de bom e do que se tem de mau. além disso, o que penso de mim é só a minha opinião e nem me interessa que as pessoas concordem comigo ou discordem de mim.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

uma oração

somos todos presidiários. ou quase todos. de crenças. de esperanças. de desejos. de medos. de realidades alteradas. de ilusões. de cegueira. de intenções mal-calibradas. de soluções mais fáceis. da falta de vontade de recomeçar a zero. de arriscar o que já foi adquirido. de questionar o que tomávamos por certo. de se recusar a aceitar as coisas objetivamente inaceitáveis. de não concordar com os tratamentos de merda. ou simplesmente inapropriados. de exigir respeito. de querer ser valorizado.

temos todos a tendência para se mentir. para embelezar. para encontrar desculpas. para fingir que as coisas não são tão más como parecem. que os mil pedaços espalhados no chão ainda conseguem formar um todo. que o sentido nunca se perdeu. que os alvos continuam comuns. que as coisas estão bem. que estão como as queríamos. que não falta nada. que o marasmo se torna excitante com o tempo. que não há marasmo nenhum. que o que acontece é a vida. o quotidiano. o habitual. a natureza. que é perfeitamente normal acabar na mediocridade porque não se pode sempre estar a procurar a perfeição. que as desilusões resultam do facto que fomos jovens demais para avaliar a situação como mandava a lei. que não se pode ser indefinidamente feliz.

mas só os que conseguem ser honestos e chamar as coisas pelo que são realmente conseguem ultrapassar essa pasmaceira. mesmo que seja um processo bastante desolador. os que exigem mais da vida. que não querem conformar-se. que desobedecem a rotina. que não concordam com o que recebem. que estão com uma fome constante. uma curiosidade que não morre. uma força que permite reconstruir, recriar, refazer.

a prayer for the wild of heart that are kept in cages. tennessee williams

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

fugir sem se mexer

y finalmente están aquellos que suspiran contemplando el indefinible horizonte del mar. (...) sus almas encuentran mayor sosiego en el pavoroso rugir del viento. luis sepúlveda

a minha carreira de leitor iniciou de maneira insólita. como todas as grandes aventuras. apanhou-me desprevenida. esperou até ao momento mais adequado, para eu não conseguir resistir. não estava à procura de nada, fazia as coisas de maneira automática, sem pensar demais, sem acordar muita importância, sem ter expetativas. não presidiária duma rotina, mas duma situação em que não se nota as circunstâncias. 

a minha carreira de leitor iniciou com lápis de cor. quando tinha cinco anos a
perder-se
beata lia-me uma série de livros sobre um veterinário que falava todas as línguas dos animais que curava. claro, achei a história muito fixe, mas nessa altura apanhava aulas de desenho e o que me apetecia mais eram os desenhos não coloridos do livro. já sabia que não se devia escrever nos livros. nem com caneta, nem com lápis de cor. mas numa lógica duvidosa, e porque queria tanto dar cores aos desenhos de animais, decidi que a beata não ia folhear o livro para atrás. eu esperava até ao fim dum capítulo e depois até ao fim do capitulo seguinte e começava a colorir. a saber que era proibido. a deliciar-me com cada segundo. e olhava para os desenhos futuros, a fazer planos loucos de cores e matizes. nunca percebi porque não fui apanhada em flagrante. estava preparada para enfrentar uma tal situação e planeava reconhecer a minha culpa. mas não arrepender. não sei se as admissões de culpa sem arrependimento servem para algo, mas gostava de pensar que sim.

quando vi que o john e a sophia conseguiam aos quatro anos soletrar não só os nomes deles mas também o meu (que desobedece a lógica da grafia internacional), fiquei preocupada porque dos meus quatro anos só me lembrava das brincadeiras. disseram-me que só aprendi a ler no primeiro ano da escola. não queríamos pressionar-te inutilmente. seja.

felizmente, mesmo sem pressão, dois anos mais tarde já lia muito e contava o tempo de leitura em tpc que não fazia, horas que não dormia ou filmes que não via. as minhas preferências evoluíram. também a intensidade da relação. houve mesmo um período em que não lia de todo. mas no final das contas, trata-se sempre da mesma coisa. uma procura. uma saudade indefinível. uma sede inapagável. uma curiosidade. um cansaço que em vez de nos fazer parar força-nos a continuar. uma peregrinação nas maravilhas da vida. no que há de mais belo, mas também de mais feio. nos limites. nas coisas das quais se pode desistir. no que não se deve abandonar. uma viagem. com a diferença que nem se tem de comprar bilhetes. nem levar bagagens. nem ir ao fim do mundo. nem conhecer precisamente o destino. uma maná que acalma os suspiros frenéticos dos que ficam à espera. um alívio acima do visível e do tangível. frações de segundos. indeléveis. inefáveis. que fazem explodir e queimar corações. pedaços infinitesimais e abrasadores que ficam por sempre. e que procuramos a vida toda para os juntarmos num tudo. 

não pergunto às pessoas se leem. é uma escolha pessoal. uma preferência intima. nas coisas fundamentais não se há-de fazer perguntas. nem julgar. nem tentar fazer mudar. é sempre uma falta de respeito. são coisas ditadas por razões diversas e complexas. questioná-las significava presumir a superioridade de nossos princípios. ou de nos mesmos. era presunçoso. e vaidoso. as pessoas têm bagagens e histórico de tradições e valores diferentes. nem melhores, nem piores. diferentes. leio sempre de lápis na mão. para assinalar as frases do que gostei. faróis para os navegadores do quotidiano. pequenas pausas que deixam recarregar as baterias da vida. e quase sempre olho para a última página. caso eu não sobreviva até ao fim do livro.

gosto muito de leitura em voz alta. não porque me apetece ler às pessoas mas porque adoro que me leiam. que me contem histórias. que me guiem com pausas e entoações. que me ajustem a respiração a um ritmo que não seja o meu. que me façam descobrir coisas novas. valores e dilemas. que me encantem com pontos e virgulas. que me preencham o espaço-tempo com a paciência duma voz. uma dedicação taciturna rodeada de palavras. uma viagem ao fundo da alma. uma inclusão num mundo maior que a vida.

lês-me uma história?

domingo, 26 de julho de 2015

b jak bez słów

(por razões óbvias o que segue está em polaco)


jest tylko garstka takich osób
większość ludzi chce, aby mówiono im to, co pragną usłyszeć. że są fantastyczni. że bardzo dobrze im coś wychodzi. że szczupło wyglądają. że mają obłędne poczucie humoru. pragną, aby łechtać ich ego. mówić im rzeczy, w które oni sami nawet nie wierzą. daje im to   poczucie siły i władzy nad innymi. mogą ich zmusić do niezasłużonych pochlebstw. czują się ważni, gdy zabiega się o ich względy.

prawda jest niewygodna i nie przedstawia się aż tak spektakularnie. nie koi sumienia, nie owija się przymilnie wokół nas, nie daje poczucia komfortu. twardo dyktuje swoje warunki. nie toleruje ustępstw. jest bezwzględna. lecz wbrew pozorom prosta. i łatwa, gdy tylko założy się, że jest podstawą, na której budujemy nasze relacje z innymi. wynagradza czymś zupełnie innym - szczerością. brakiem udawania i kamuflażu. tym, że to, co widzimy, słyszymy lub czujemy jest tym czym naprawdę jest. upraszcza wszystko. pozwala iść do sedna, nie tracąc czasu ani energii. pozwala nam się rozwijać i dojrzewać.

większość ludzi woli prawdy nie widzieć. czasem się o nią potykają, lecz wolą udawać, że  nic się nie stało. jest to dla nich prostsze i z pozoru bezpieczniejsze. boja się stawić jej czoła. ci, którzy prawdą żyją, jako jedyni potrafią zgłębić tajniki relacji międzyludzkich. dbać o ich treść, bez ozdobników. być prawdziwym wsparciem, doradcą, przyjacielem, pokonali bowiem własne słabości i nie czują się zagrożeni, gdy ktoś jest od nich inny. potrafią szanować, to z czym się ni zgadzają. i wspierać nawet wtedy, gdy ich nie ma.

***

hani - za mówienie mi, że okropnie wyglądam w danym kolorze (i zawsze miała rację), zanim jeszcze zdążyła się ze mną przywitać, za kwitowanie mojego wychodzenia do ludzi z mokrą głową i bez makijażu jako swojskie, za szczerość w każdej sytuacji, niezależnie od tego, czy mi się to podobało czy nie, a która była niczym powiew świeżego powietrza, za rozumienie moich wewnętrznych rozterek jak nikt inny, za nieocenianie moich wyborów, niezależnie od tego jak wątpliwie się zapowiadały, za wiedzenie, co chce powiedzieć zanim to powiem, za wsparcie, które promieniowało niezależnie od odległości jaka nas dzieliła, za cala masę rzeczy, które pozostaną tylko miedzy tobą a mną - dziękuję.

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hanna - por me dizeres que a cor que estou a usar não me fica bem, antes mesmo de me cumprimentares (e tiveste sempre razão), por qualificares o ar que tenho ao ir trabalhar de manhã, cabelo molhado e nenhuma maquilhagem, de caseiro, por seres honesta comigo independentemente das circunstâncias, quer eu goste ou não - essa franqueza foi sempre um fôlego de ar fresco, por perceberes os meus transtornos interiores como ninguém os percebe, por nunca julgares as minhas escolhas, mesmo que pareçam muito duvidosas, por saberes o que quero dizer antes de eu o ter dito, por me apoiares de maneira tão tangível que o sinto independentemente da distância que nos separa, por uma infinidade de coisas que só tu e eu compartilhamos - obrigada.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

oficialmente loura

todos na minha família, além do piotrek e de mim, têm o cabelo liso e bastante fino. o piotrek e eu temos a crina encaracolada da nossa avó materna. todos os amigos dos meus pais queriam dar-me palmadinhas na cabeça quando eu era criança para tocarem no meu cabelo bonito, como se eu fosse um animal de estimação. e eu respondia que era fora da questão que eles tocassem no meu cabelo limpo com as mãos sujas.

o meu cabelo e eu, não foi uma história de amor à primeira vista. e não só porque não acredito no amor à primeira vista. há pouco tempo, uma aluna de sete anos e cabelo liso olhou para mim e suspirou que ela quis sempre ter o dela naturalmente encaracolado. olhei para ela, a sorrir, e respondi que eu sempre quis tê-lo liso. em adolescente, achei o liso sensual, macio e elegante, enquanto o meu tinha mais a ver com uma esfregona, uma grenha. e até aos meus quinze anos, tinha o cabelo muito curto. os meus pais mandavam assim porque não me penteava (algo que só as pessoas com cabelo encaracolado conseguem perceber). e é uma atividade de que continuo a não gostar e que faço tão raramente quanto posso. não possuo um secador de cabelo. as visitas ao cabeleireiro dão-me arrepios. devo ser uma das poucas mulheres que querem que os seus cortes de cabelo não se notem. quero tê-lo simplesmente e só comprido, então não vejo o propósito de comentários tipo mudaste o cabelo. não tenho a intenção de mudar nada. sou muito pouco aventureira nesta área. uma vez o cabeleireiro, que ainda não perdeu a esperança de me convencer um dia destes a mudar de cor ou fazer um corte fantasista, insistiu em mo lisar. eu tinha um ar tão débil depois que, ao voltar a casa, imediatamente passei o cabelo por água. não me sentia eu própria. as coisas são o que são - só me sinto mim com um a esfregona na cabeça. mas uma esfregona bonita. paciência.

a minha esfregona pessoal têm mais uma particularidade - esclarece com o sol. mas tanto que ninguém acredita que seja natural. que vão à merda. passei a semana toda a observar a influência dos raios corsos no meu cabelo. se eu já devesse escolher uma cor, queria ser ruiva. loura nunca me interessou. é banal. bucólico. ingénuo. não faz ressaltar a cor dos olhos tão bem como um cabelo mais escuro. mas aconteceu. 

vou voltar loura e numa forma que tive poucas vezes na minha vida, devido às horas passadas a andar com uma mochila tão pesada. não sei que parte é que me assusta mais, mas estou curiosa no que ambas vão dar.

domingo, 12 de julho de 2015

antares

seria escolher uma vida?
uma rapariga perguntou-me ultimamente que signo do zodíaco eu era. uma questão que me irrita bastante. primeiro, porque não percebo como se pode acreditar na astrologia. acho que é algo para pessoas frustradas da vida que se esforçam procurar sentidos onde não há nada, em vez de se focarem simplesmente em viver. é construir-se limites definidos por não sei quem, em vez de se descobrir e usar o seu potencial todo. segundo, adoro astronomia. é uma das minhas paixões desde sempre. estrelas são para mim plasmas mantidos pela gravidade. uma coisa de astrónomos e navegadores. acho bastante insultador quando se lhes atribui sentidos tirados de contos por crianças. terceiro, porque depois de eu dar a resposta, começam os rótulos. ah, é por isso que és assim e assim. explica tudo. depois vem a lista de todos os conhecidos, colegas e outros que são do mesmo signo. e com os quais eu tenho taaanta coisa em comum. ou que eu deveria absolutamente conhecer. é um tanto e um absolutamente bastante assustadores. nunca sei se devo fingir que estou a ouvir nessas situações. simular interesse não é algo que me resulta muito bem, porque acho que encoraja a outra pessoa a continuar a divagação, enquanto a mim, só me apetece mudar de assunto.

não sou assim e assim por causa de uma conjuntura galáctica de pó, radiação e buracos negros. não acredito em determinismos. não quero que ninguém me coloque limites de qualquer tipo. quero escolher sozinha quem sou e quem não sou. explorar a minha personalidade. conhecer-me melhor. desenvolver o que me interessa. não fazer o que não quero. manter a mente aberta. pronta a desafiar tudo o que passa pelo meu caminho. não vou deixar ninguém me colocar dentro duma gaveta. nem me dizer quem eu deveria ser. uma das coisas que me irritam mais é quando as pessoas acham que se tornaram especialistas da minha vida. 

então, a próxima vez que me fizerem a pergunta que signo de zodíaco sou, vou mentir. e, (in)felizmente, minto muito bem. que dia é hoje? domingo? aos domingos vou ser sagitário. é um nome fixe. ou ainda melhor, vou ser escorpião. porque é nesta constelação que fica a estrela que gosto mais de observar.  

quarta-feira, 8 de julho de 2015

cogumelos alucinógenos, anyone?

saio para mudar o meu carro de lugar.

ao percorrer de maneira rápida e energética, perdida nos meus pensamentos como de costume, os 60 metros que separam o carro da porta da casa, encontro um indivíduo de cabelo grisalho, óculos de sol, bermudas beges e uma tshirt duvidosa. acho que deve ser o proprietário da casa vizinha que está sempre alugada.

ultrapasso-o. 

ouço por atrás de mim: porque é que a menina está a andar tão rapidamente?

volto-me (incrível que nem se consegue estar tranquilo em frente da sua casa a fazer as coisas como se gosta): porque é o meu ritmo natural?

grande sorriso debaixo dos óculos escuros: esses adolescentes de hoje, sempre a correr.

pela primeira vez olho para o homem com atenção. avalio o potencial estado de embriaguez. (in)felizmente nenhum. apetece-me dizer-lhe que já tecnicamente tenho a idade para ser mãe de adolescente, mas ele parece tão contente consigo mesmo, que abandono a ideia.

aceno com a cabeça com cumplicidade e faço entrar o meu corpo de adolescente em casa.

terça-feira, 7 de julho de 2015

êxito

sorrisos.
risadas.
brilho nos olhos.
leveza do coração.
segundos de inocência recuperada.
irracionalidade.
esperanças.
medos exprimidos.
medos escondidos.
passos dados com olhos fechados.
magia.
sonhos.
alegrias fora do imaginável.
fora do possível.
coisas que nem se quantificam.
nem qualificam.
pelas quais nunca é tarde demais.
o simples.
o básico.
o fundamental.
o que não se consegue aprender nem com séculos de dedicação.
parar perante a incredibilidade do quotidiano.
sentir.
viver.
fazer como se fosse pela primeira vez.

tocar na vida.
esquecer-se do resto.

domingo, 5 de julho de 2015

diferentes?

não há duas coisas idênticas na vida. não existem. nem metades de cara, nem de laranja. é um conceito concebido pelo homem para supostamente dar um sentido à existência, uma eternidade passada à procura duma sensação efémera e ilusória. tempo espalhado a errar nos labirintos da vida, a enfrentar bifurcações inumeráveis, a ter déjà vus que se anunciam prometedores só para caírem aos pedaços cinco minutos mais tarde. para quê isso? chegar a um porto fantasma onde espera o familiar, o mesmo, o exato, tão reivindicados? o facto de se sentir completo? uma alma gémea? não funciona assim. o que se apresenta é o diferente. o inexato. a assimetria reina em tudo. a natureza revelou-se completamente perfeita na sua imperfeição. generosa e fantasista na distribuição. com um sentido de humor. há sempre um pequeno mas, um exceto, um quase. um traço infinitésimo que às vezes pode parecer indiscernível, às outras flagrante.

os mundos são diferentes, as histórias e preocupações várias, as perceções e os
pequenos gestos, grandes atitudes
valores divergentes, as soluções e os recursos desiguais. não há pessoas que sejam cópias perfeitas. nem fisicamente, nem mentalmente. mas nesses mundos que nem se seguem nem se completam, nas grandes linhas gostamos das mesmas coisas. sentarmo-nos ao fim do dia com uma bebida fresca depois de termos enfrentado os obstáculos do quotidiano. passarmos tempo com família e amigos. cuidarmos de coisas que importam. não termos de nos preocupar com faturas a pagar. olharmos para a vida a tentar extrair migalhas de beleza, de conforto, de propósito.

tantos elementos que unem, ligam, acercam. denominadores comuns. convergências. coisas que exploramos porque sabemos que a força verdadeira só pode existir na unidade. na união. concordamos com projetos. sentinelas dum futuro incerto. se calhar melhor. ou pior. inventamos medidas. assinamos acordos. já não queremos cometer os erros do passado. tentamos caminhar de mão dada como crianças parceiras. confiantes. colocamos bandeiras que reivindicam respeito, equidade. rodeamo-nos de conceitos nobres e bem feitos. é o triunfo da solidariedade. é? porque parece ter limites. nos momentos de crise, de dificuldades, o que deveria unir - desune. os fundamentos são esquecidos. o que importa é não ter de ceder demais.

uma atitude de dono da situação. uma cara de jogador de póquer que fala de vantagens e inconvenientes. que pode admitir um erro indelével, mas não o corrigir. seria um sentimento de ameaça que despertasse essas sensações? uma loucura solitária quando nem temos garantias nem certezas? uma relação de amor-ódio em que queimamos consumidos pelo fogo eterno das nossas pulsões? um plafond de tolerância já atingido? seria porque atribuímos demasiado valor a algumas coisas e pouco a outras? porque inventamos grandes teorias para explicarmos coisas que não precisam de explicações?

propósitos perdem-se. às vezes na vida o que importa não é a cor, o jogador, o orgulho, a pretensão. é o que vivemos nas entrelinhas. às vezes, só isto conta. e nada mais.