domingo, 9 de fevereiro de 2020

territórios

com a maioria das coisas na vida levei tempo. muito tempo. para perceber. descobrir. mudar. implementar. não errar. com outras soube desde o início o que estive disposta a perder. a sacrificar. de que podia abdicar. ou mais exatamente o que não estive disposta a perder. a sacrificar. de que não queria abdicar. sempre tenho tido uma noção maluca da minha identidade. a saber exatamente o que eu era e o que não era. nem sei de onde é que isso veio, mas está profundamente incutido em mim. sempre fui territorial perante tudo o que dizia respeito ao meu corpo e à minha cabeça. a recusar, muitas vezes de maneira violenta e agressiva, cada tentativa de ingerência no quem eu era, seja fisica ou mentalmente. e isto desde criança. é como se fosse uma obsessão. intransigente. compulsiva. teimosa.  excessiva. cega. espantosa. vi os outros alinhar-se, aceitar, ceder, não se preocupar enquanto eu só conseguia fugir, contestar, contornar, recusar. 

coisas bem definidas
e gozar desta rebelião. a sentir com cada passo que era só uma afirmação de mim. uma delineação dos meus limites. uma inspecção dos fundamentos. uma oração para manter intactas as esperanças e as expetativas. uma chamada para reafirmar as regras. reafirmar o que eu era. uma exigência para não sair do caminho certo. para não perder o norte. para estar em harmonia com os sentimentos mais profundos. algo que sempre me fez rir também. é que não percebo como esta sensação do eu pode ser tão forte. tão dominante. a importar nas alturas em que aos outros, dá-lhes completamente igual...

já mando há demasiados anos na minha vida profissional para me lembrar como é preciso reconquistar o seu próprio território na presença de invasores. faço as minhas regras e não trabalho com quem não as aceita ou não as respeita. posso permitir-me esse luxo. recentemente foi-me sugerido que se calhar era uma boa ideia eu mudar a minha foto profissional. porque roupa vermelha dá demasiado nas vistas. porque era melhor usar um casaco. porque pareço demasiado jovem. é que o vermelho quase me dá poderes e adoro. os casacos são muito bonitos, mas não fazem parte do meu estilo. gosto de vestidos porque deixam usar uma peça só. e o ar que tenho diz respeito a mim. e só a mim. se alguém acha que sou demasiado algo ou não suficientemente outro, o problema são os complexos dele e não me interessam. pessoas que sabem o que valem não perdem tempo a se perguntarem que regras é que os outros seguem ou quebram. 

todas as coisas boas que consigo ser, só as consigo porque me sinto confortável com quem sou. e com como sou. todos não precisam gostar. de certeza não vou mudar para agradar. não vou fingir para ter mais sucesso. porque me separar de mim era o meu maior fracasso na vida. prefiro evitar.