quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

quatro pernas

só recentemente aprendi que o leszek queria realmente estudar filosofia. mas em 1968, depois dos acontecimentos em praga, a faculdade de filosofia da universidade de varsóvia fechou as portas e só aceitava estudantes de pós-graduação. então acabou por estudar química.

a vida é como a bola. todos temos objetivos e queremos marcar os nossos golos. às vezes cometemos faltas, arriscamo-nos, recebemos cartões amarelos ou mesmo vermelhos e ficamos infelizes por isto. de vez em quando sofremos
always be a jedi knight :)
autogolos, são-nos marcadas grandes penalidades ou estamos fora de jogo. não significa que sejam as nossas dificuldades que triunfam e que já não sejamos bons para nada. mesmo a perdermos no fim da primeira parte, ainda podemos ganhar o jogo. mesmo que a vida multiplicasse os cartões e os árbitros cegos.

normalmente, ao andar na rua, estou sempre a ouvir música e a perder-me nos meus pensamentos. e quanto mais intensamente penso, mais rapidamente ando. mas no verão tive de mudar de ritmo e de hábitos por causa das muletas. por ter ambas as mãos bem ocupadas, já não conseguia fazer outra coisa (além de percorrer distâncias com a rapidez digna duma tartaruga jeitosa). nem atender as chamadas, nem ouvir música (porque precisava ouvir os carros que se aproximavam), nem pensar demasiado por necessidade de dedicar toda a minha energia e atenção ao ziguezaguear entre carros muito mal estacionados e pessoas. e a enfrentar inumeráveis obstáculos - portas pesadas, escadas sem fim, malas a levar (continuei sem dominar até ao fim); a bloquear multidões de pessoas com o meu passo devagarinho quando era preciso andar rapidamente.

foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido. mudei de perspetivas e de ponto de vista. abandonei o meu ritmo frenético. concentrei-me no que estava a acontecer em volta de mim porque o meu conforto dependia disso. pude insultar (e devo admitir que foi a parte de que gostei mais ;) sou uma provocadora nata; não existem remédios contra isto) sem muita preocupação todas as pessoas que mereciam de ser insultadas por me terem pisado fisicamente (sic) ou mentalmente ou me terem recusado ajuda (a maioria). mas também presenciei bondade enorme da parte de desconhecidos - o senhor italiano que estava a correr atrás de mim no metropolitano parisiense, um tubo de voltaren à mão, a insistir que eu o usasse no pé; a senhora na rua que me ajudou quando saí da farmácia de muletas pela primeira vez; o senhor que me seguiu só para me dizer que era fisioterapeuta e queria dar-me alguns conselhos.

e é nisto que todos se deveriam focar - aguçar os sentidos para não perder de vista os pequenos detalhes da vida, as coisas que, um certo tempo depois, nos arrependemos não ter feitas - em vez de tomarem resoluções de merda porque têm a ilusão de poder começar do zero o ano novo. é só um dígito que muda. nada mais. os quilos vão ficar, o cartão de sócio do ginásio vai continuar a acumular pó, o trabalho novo ou melhor não se vai apresentar sozinho, os fumadores vão continuar a cultivar o vício. nunca percebi o propósito de fazer planos para realizar coisas que se podem realizar em cada momento. é uma perda de tempo monumental.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

anani ananão, ficas tu e eu não...

a felicidade é sobrevalorizada. às vezes é-se feliz e às vezes não. fim da história. é um conceito efémero, volátil, incerto, tal como o bosão de higgs - uma chave para explicar motivação, pulsões, desejos mais segredos, algo com um impacte
duas visões da vida
enorme na vida, mas cuja existência nunca foi definitivamente confirmada. em criança, conseguimos capturá-la melhor. era-se feliz por nada; por subir árvores, comer gelados, ter segredos com amigos, alcançar coisas pequenas. ou grandes. não importava realmente. vivia-se no instante, alimentava-se com o presente, respirava-se  cada segundo como se fosse o último. sem preocupações, sem planos, sem expetativas. livres. donos do universo. indomáveis. com sonhos.

e o que acontece depois? difícil dizer. de certeza a vida acaba por ser completamente diferente do que tínhamos imaginado. essa felicidade mede-se de maneira diferente. ou não se mede de todo. são breves instantes perdidos na brutalidade e na feiura do quotidiano, que a maioria dos adultos já não consegue apanhar. ou não tem tempo de apanhar por terem assuntos supostamente mais importantes ou sérios. ou não os vêem por não terem os corações suficientemente leves e abertos. é preciso desfrutar dos momentos de felicidade quando se apresentam. porque desaparecem. e, muitas vezes, nunca voltam. 

acho que a felicidade não é algo de fundamental. é um pequeno bónus, mas consegue-se viver sem. há coisas bem mais importantes na vida - estar satisfeito, em paz consigo mesmo. isso foram sempre os meus objetivos. recusei-me a obedecer ao ditado da felicidade, a esquecer-me de tudo numa corrida insensata, consumidora de tempo e de energia. mas ultimamente, a ver muitos amigos e conhecidos batalhar, ficar frustrados ou deprimidos e não gostar de todo da vida que tinham, olhei para a minha e descobri, ligeiramente surpreendida porque não ligo tanto a isso, que eu era feliz. se calhar é o subproduto de eu ter cortado pontes com pessoas tóxicas, conhecido outras inspiradoras, gostar do que tenho e do que faço e estar numa etapa da minha vida que se anuncia prometedora, mas é um subproduto bem real e palpável. neste instante sou definitivamente feliz. estranho.

e se a felicidade fosse mais uma escolha?