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| perder-se num azul infinito |
além da exuberância, da energia social, da extroversão aparente, do temperamento sanhudo, do gosto da conversa com pessoas na rua sem razão particular, do impulso irresistível que me faz compartilhar as zangas e os descontentamentos com os que os causam, dos fluxos de palavras entusiasmados e diretos, além das coisas ditas e compartilhadas, de sorrisos e de suspiros, além de tudo isto e de muito mais, sou alguém cheio de silêncios. e de solidões.
esta solidão corre na minhas veias, talvez com a areia e a água do mar. é uma
chamada muda mas constante, capaz de arrancar tudo, de partir tudo, de apagar tudo quando não for atendida. a solidão é algo que me compôs ou
decompôs, em função do momento, do humor, da necessidade, dos medos,
das esperanças, das expetativas, do modo de a enfrentar. é vital.
insubstituível. confortadora. cheia de sentimentos e sensações. de
coisas que precisam ser ponderadas, calculadas, processadas. é um
momento de sossego na vida. um recarregamento das baterias. um
diagnóstico da alma. um remédio doce ou amargo. sabores diferentes que
passam langorosamente pela boca. a deixar saudades. a causar
palpitações. a dar esperança. a fazer cair mundos e construí-los de novo
num só estalo de dedos.
é o ar a preencher os pulmões, a maresia a
flutuar no ar, o vento no cabelo, o olhar fixado na infinidade do
horizonte, uma sensação de pequenez, de humildade, da imensidade do
mundo, da sua constância, da sua beleza e fragilidade, do peso das
estrelas no firmamento, a indicar caminhos que poucos vêem ou escolhem. é
uma visão clara. uma noção do que é importante. uma calma. uma
intrepidez. um alívio.
algo de tão intangível que dificilmente encaixa nas palavras. algo de tão delicado que é dificilmente compartilhado. algo que irradia com a quietude e a escuridão dum silêncio.


