domingo, 29 de março de 2015

s de solidão

estavam como que sozinhos, porque eram toda a companhia necessária. a verdadeira. valter hugo mãe


perder-se num azul infinito
além da exuberância, da energia social, da extroversão aparente, do temperamento sanhudo, do gosto da conversa com pessoas na rua sem razão particular, do impulso irresistível que me faz  compartilhar as zangas e os descontentamentos com os que os causam, dos fluxos de palavras entusiasmados e diretos, além das coisas ditas e compartilhadas, de sorrisos e de suspiros, além de tudo isto e de muito mais, sou alguém cheio de silêncios. e de solidões.

esta solidão corre na minhas veias, talvez com a areia e a água do mar. é uma chamada muda mas constante, capaz de arrancar tudo, de partir tudo, de apagar tudo quando não for atendida. a solidão é algo que me compôs ou decompôs, em função do momento, do humor, da necessidade, dos medos, das esperanças, das expetativas, do modo de a enfrentar. é vital. insubstituível. confortadora. cheia de sentimentos e sensações. de coisas que precisam ser ponderadas, calculadas, processadas. é um momento de sossego na vida. um recarregamento das baterias. um diagnóstico da alma. um remédio doce ou amargo. sabores diferentes que passam langorosamente pela boca. a deixar saudades. a causar palpitações. a dar esperança. a fazer cair mundos e construí-los de novo num só estalo de dedos.

é o ar a preencher os pulmões, a maresia a flutuar no ar, o vento no cabelo, o olhar fixado na infinidade do horizonte, uma sensação de pequenez, de humildade, da imensidade do mundo, da sua constância, da sua beleza e fragilidade, do peso das estrelas no firmamento, a indicar caminhos que poucos vêem ou escolhem. é uma visão clara. uma noção do que é importante. uma calma. uma intrepidez. um alívio.

algo de tão intangível que dificilmente encaixa nas palavras. algo de tão delicado que é dificilmente compartilhado. algo que irradia com a quietude e a escuridão dum silêncio.

sexta-feira, 20 de março de 2015

caballeros

tenho um encontro num centro comercial. chego cinco minutos antes da hora marcada e dirijo-me à casa de banho mais próxima. descubro que a das mulheres está em obras pela terceira semana consecutiva (acho que devem estar a incrustá-
isso parece melhor organizado
-la com jóias para isso durar tanto tempo. ou simplesmente não fazer absolutamente nada, como a porta parece hermeticamente fechada). as mulheres devem usar a casa de banho para deficientes. olho para a fila em frente de mim. um total de oito mulheres dentro das quais três gravidas. tenho como uma impressão que elas podem demorar ainda mais tempo do que a mulher média, que já lá passa uma eternidade. faço uma avaliação rápida da situação e decido que não vou conseguir olhar-me nos olhos ao escovar os dentes à noite se eu perguntar a uma mulher gravida se ela me deixar passar antes dela. e ainda menos perguntar isto a três mulheres grávidas. tenho só três minutos para não chegar atrasada ao encontro. ao lado da casa de banho para deficientes há a para homens. ninguém lá entra. do exterior, parece quase abandonada. é um convite. abro a porta para efetuar um inventário do local. um homem ao urinol, um outro a lavar as mãos. como já, há muitos anos, fui insultada por um homem ao urinol por entrar na casa de banho masculina, julgo mais prudente esperar até que ele saia. vinte segundos mais tarde lá penetro. não há ninguém. tenho o sítio todo para mim. ao sair dois minutos mais tarde, continuo lá sozinha. sugiro às mulheres que ficam na fila para fazer como eu, mas nenhuma quer. a perda é delas. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

posso ser eu?

ontem no cabeleireiro, durante um tratamento de hidratação.

o cabeleireiro, a mostrar-me uma rapariga com um cabelo loiro amarelado e um penteado artificialmente plástico numa revista de cabeleireiros: gosta deste loiro?

eu: não.

ele: é muito parecido com o meu. não gosta do meu?

eu: yyhh

ele: e não queria que encaracolássemos o seu cabelo assim? era giro.

eu: não. 

ele, depois dalguma reflexão: e algum ruivo? ficava muito bem de ruiva. 

eu: de certeza, mas não, obrigada.

ele: mas podíamos tingir só as extremidades do cabelo.

eu: se a natureza quisesse que tivéssemos o cabelo de duas cores, já o tínhamos naturalmente assim.  

ele, a devanear: então, para fazer mais natural, podíamos só fazer algumas mechas loiras, sobre tudo em volta da cara.

eu: e isso era suposto parecer natural?

ele: sim! diferentes matizes de loiro.

eu: a minha cor de cabelo tem um problema?

ele: não não. mas podia ficar melhor.

eu: mas eu não quero melhor. melhor não me interessa. quero ser eu.

domingo, 8 de março de 2015

palavras

não gosto de palavras
não acredito em palavras.

não as quero. nem afirmações, declarações, intenções, promessas, explicações, garantias. não me interessam. ouço-as sempre com muita atenção porque acho interessante ver quanta convicção e perseverança, quanto zelo e energia o meu interlocutor vai colocar nelas. até que grau ele vai pensar que eu sou ingénua, manipulável emocionalmente, ignorante socialmente, ávida de palavras confortadoras, de banalidades pré-cozidas e pré-mastigadas, de mentiras inopinadas. e, imediatamente depois, esqueço-me de tudo que foi dito. não por problemas de memória, mas porque na vida me interessa o concreto e não os cheques nulos generosamente preenchidos. cínica? completamente. até à medula óssea. ou pelo menos é o que quero que pensem. no 'casablanca' identifiquei-me sempre com o rick blaine.

às vezes, quando as leio, comovem-me. coisas simples. puras. bem construídas. humildemente arranjadas. sem pretensões. sem riscas. escritas de lápis. que se apagam pouco a pouco com uma discrição inata. para deixar alastrar a força difundida e constante dum silêncio. um calor que invade tudo e fica um momento. um bater. uma palpitação. um espasmo de alegria. um sorriso na boca. deleito-me com cada sílaba. o sabor que deixam na boca. uma música que não para. uma companhia solitária, mas inigualável. a fragilidade e a beleza da vida. a sua absurdidade e desgraça. um paradoxo tão meticulosamente tecido.

há anos, uma pessoa, que estava ao meu lado quando ambos tínhamos períodos muito movimentados e cheios de desilusões na vida, escreveu-me numa carta: quando me for abrigar do outro lado do espelho, levarei comigo os teus silêncios que te tornam tão linda.

sexta-feira, 6 de março de 2015

garantido ou não?

parecer o que se é é mais fácil do que ser o que se parece. ricardo gomes


acabei o último khaled hosseini. gosto da escrita dele. não suaviza demais. na
o que a vida nos traz
verdade, não suaviza de todo. tem um dom para apresentar aquele momento delicado e tão humano em que as pessoas se sentem obrigadas a escolher entre fazer o que é justo e bom e o que é fácil e confortável. e, na maioria dos casos, optam pelo último. magoam. decepcionam. traem. pagam o preço durante o resto da vida. é incrível como coisas pequenas podem orientar a ordem do mundo. como o equilíbrio pode ser efémero e frágil. como os que amamos podem ser desoladores.

a vida é tão simples. somos nós que a complicamos. criamos problemas. fazemos birras. descarregamos frustrações nas outras pessoas. temos chiliques quando alguém não concorda connosco. ou não consegue adivinhar o que queremos. gravitamos em volta do planeta ego. tudo o resto é matéria escura. fingimos não ver os nossos defeitos. não queremos ajuda de ninguém. inventamos escusas inexistentes. faltam-nos tempo, dinheiro, paciência, vontade, motivação, jeito, compaixão... uma lista sem fim. maleável em função das circunstâncias.

é só ao enfrentar problemas verdadeiros que percebemos isso. o ao ter de lutar por algo que para os outros parece básico e simples. nessa altura pomos tudo em perspetiva. percebemos o que é realmente importante. enchemos o coração de humildade. valorizamos coisas pequenas. o sol e a lua. o ar a preencher os pulmões. os sorrisos acidentais. as palavras não esperadas que dão força. os gestos de pessoas que não pedem nada em troca. bondades gratuitas que apreçamos por sempre. é tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco que é preciso para abrirmos os olhos. para vermos as pessoas em volta. para sentirmos o que temos nas mãos.

na turma do leszek há um senhor que tem-de se levantar no meio da noite para apanhar dois autocarros para conseguir chegar à universidade às 8.00. onde estão as pessoas capazes de tais sacrifícios e de tal abnegação para algo de tão simples como o facto de poder ir às aulas? as que não se escondem atrás de palavras grandes e do seu encanto pessoal e escolhem enfrentar a vida? as que fazem e agem sem fanfarrices? as que valorizam o que têm? as que não fazem perguntas, não exigem nada, não julgam?

somos todos formidáveis. orgulhosos, exibimos os nossos vazios impreenchíveis na internet.

mas aqui, trata-se de levantar os olhos do computador. ou do telemóvel.