quinta-feira, 28 de abril de 2016

(in)decisões

ultimamente, na fila num café, o homem à minha frente levou alguns bons cinco minutos a ouvir, descontente e insatisfeito, mas com uma atenção religiosa como se o futuro da humanidade dependesse dessa decisão, as numerosas opções de bebidas. e acabou por pedir ... um chá sem chá, algo que nem fazia parte da lista enumerada. e que, claro, não havia. a consternação dele chegou ao seu cúmulo. perdeu todos os pontos de referência. ficou ultrapassado pela realidade. já não sabia o que dizer. até não havia mais nada para dizer. foi apanhado desprevenido. ficou angustiado, frustrado. escolheu afogar-se numa pequena colher de água. e conseguiu.

muitos são os que o conseguem. entram em pânico por um nada. tropeçam em problemas que criam sozinhos. escondem-se debaixo de mesas a esperar não serem vistos, num surto de ingenuidade infantil. lamentam perdas insignificantes. abandonam sem refletir. fingem não saber o que se lhes quer. desmaterializam. desvanecem. perdem interesse. falam com rodeios. não respondem. agem por omissão (acho que há poucas coisas bem piores). tornam-se incoerentes. inventam tretas para ganhar tempo. não respiram. deixam para mais tarde. levitam num tempo morto a achar que é o que lhes vai salvar.

para quê todo esse circo? para evitar tomar decisões. o mal supremo. quando apresentam o a e o b, a melhor escolha é simplesmente não escolher. escolher é difícil. leva consequências. responsabilidades. pensamento. maturidade. muda tudo. se calhar a não escolher evita-se a escolha mesma. deixa-se a vida decidir por nos. pelo menos espera-se que isso aconteça, porque tornaria tudo mais simples. a decidir, poder-se-ia provocar o fim do mundo. ou pelo menos das coisas conhecidas. precisar-se-ia sair da zona do conforto. andar no desconhecido. que horror.

não percebo é porquê. já não temos influência em tudo, porque não a exercer quando for possível? porque não optar por algo, só para poder avançar? descobrir? melhorar? erros são inevitáveis. mas também se tem sempre a hipótese de mudar de opinião. de querer outra coisa. de escolher outra vez. de aprender com o erro. muitas vezes, são decisões que quase não têm impacto nenhum, não é que, cada vez, alguém esteja a querer passar a vida connosco e a nos pedir em casamento. e mesmo se for, divórcios existem.

o pior que se possa fazer, é não decidir.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

mostra-me o que tens para dar...

... e digo-te quanto vales.


li uma vez um artigo de sociologia que explicava que quando uma rapariga bonita passava na rua, todas os homens olhavam para ela e o sociólogo era esse individuo curioso que, em vez de olhar para a rapariga, preferia olhar para os homens, para avaliar a reação deles ao verem a tal rapariga. devo admitir que gosto muito de observar as pessoas, sobretudo em situações complicadas em que se tenta marcar o seu território. ou impressionar. ou quando se acha que ninguém está a olhar. muitas vezes, nota-se comportamentos absolutamente egoístas e patéticos. a potencial hipótese de fama e de ascensão social ampliam quem somos. porquê? porque a estar tão perto do que é mais cobiçado (que levem a mão os que não queriam ser famosos ou ricos ou ainda melhor - ambos), ficamos tão fascinados pela nossa própria soberbia e genialidade que nos esquecemos de filtrar e controlar o nosso comportamento. se calhar até julgamos que já não é preciso fazê-lo, não é preciso manter aparências ou controlo sobre nos, porque todos já queriam estar no nosso lugar.

maneiras mais atraentes
há pouco tempo, fui a um encontro onde havia algumas pessoas famosas. numa altura notei duas raparigas um pouco gordas e não especialmente lindas com decotes que chegavam até ao umbigo. percebo que se possa querer exibir os trunfos. sobretudo quando se acha ter poucos. mas nunca é bom resumir-se a eles. deve-se ter mais dignidade do que isso. deve-se apresentar mais do que só o banal. não se desperta a atenção verdadeira das pessoas a oferecerem-se imediatamente a todos. sem limites. sem privacidade. sem se valorizar. ninguém respeita os que não se respeitam a si próprios.

tive uma aluna que a chegar à aula, costumava cuidadosamente pôr a mala, duma marca muito conhecida e cheia de logos, na mesa e já não dava para lá pôr outra coisa. a mala ocupava a superfície toda. eu achava isso muito divertido. que em vez de privilegiar a aprendizagem, em vez de se descobrir e procurar horizontes novos, se pudesse focar num objeto completamente insignificante. caro, certo, mas sempre só um objeto. além disso, um objeto feio. nunca percebi essa predileção para os logos. era como usar roupa sem tirar a etiqueta do preço. era dar-se um valor, pôr-se um rótulo, resumir-se ao superficial. cada vez que vejo alguém cheio de logos quero perguntar-lhe se já pensou em se tatuar o tal logo na testa, assim era impossível não o ver. lógico, não é? as pessoas que sentem a necessidade de se gabarem e manifestarem à humanidade inteira como são fixes, matam todo o interesse que eu possa ter nelas e isso durante os primeiros três segundos. porque quando já não há mais nada para se descobrir numa pessoa para que serve o relacionamento?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

(in)compatíveis?

decorações de natal em outubro...
a nossa sociedade é o que há de mais consumidor. o epítome do gasto. substituir bens é um dos nossos passatempos preferidos. e tão fácil. e já quase pseudo-natural. sempre fizemos assim, não fizemos? poupa tempo e energia. poupar tempo tornou-se numa obsessão. ficamos descontentes todas as vezes que somos forçados a fazer mais esforço que só reinar a nossa vida com uma série de cliques e de delete (frenéticos, os delete). quando algo se avaria ou parte; quando não serve; quando não preenche todas as nossas expetativas, mesmo as nunca exprimidas, escondidas nas complicações da mente; quando já há uma versão mais nova ou mais atraente; quando já não interessa; quando ficamos aborrecidos por uma razão qualquer ou sem razão; quando requer demasiado trabalho ou simplesmente algum trabalho; quando não temos nad para fazer, compramos outra coisa. e jogamos fora o que já achamos não precisar.

e não se limita só aos objetos ou serviços. prosseguimos da mesma maneira com pessoas. sic. quando lhes detetamos defeitos, imperfeições, coisas que nos incomodam, das quais não gostamos, quando percebemos quanto trabalho e concessão a relação vai exigir, quanto vamos ter de mudar ou adaptar, acabamos com ela. nem nos passa pela cabeça que se pudesse simplesmente resolver a situação. para o quê? há uma multidão de pessoas prontas para se tornarem o nosso próximo amigo ou parceiro sem exigirem esse trabalho todo. ou pelo menos é o que parece. ou o que gostamos de pensar. temos a impressão de ter o mundo aos nossos pés, acesso a todos e hipóteses e oportunidades indefinidas. que ilusão... infelizmente o simples não se consegue aplicar em todas as alturas.

ao ultrapassar a barreira do superficial, ao entrar no honesto, na dedicação, há sempre um preço a pagar. um tempo a levar. umas coisas para abdicar. uns esforços para fazer. umas dificuldades a solucionar. claro, é mais fácil abandonar. mas perde-se muito. há laços que só se criam com descobertas profundas e muitas vezes negativas. consegue-se separar os verdadeiros amigos dos supostos durante períodos difíceis em que perdemos o nosso encanto quotidiano. além disso, a perfeição é algo de extremamente chato. o que torna as pessoas interessantes são os defeitos delas. e a intensidade desses últimos. faz toda a diferença. por isso não se consegue substituir tudo. nem todos.

é só possível viver coisas novas. ou diferentes.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

g de guerreiro

destiny is not a matter of chance; it is a matter of choice. it is not a thing to be waited for, it is a thing to be achieved.

vi frozen com a filha de uns amigos. não gostei. mas de todo. não percebo o fenómeno cultural, o interesse, as tshirts, os gadgets, a popularidade da canção principal. não vi nada de encantador ou inspirador na história, nas personagens, na mensagem. não me identifiquei com ninguém. não quis ser ninguém, mesmo que fosse durante um breve instante. não entendi o propósito. não aprendi nada. foi uma perda de tempo.

when the going gets tough,
the tough get going
nunca gostei de princesas. são chatas. passam a vida a pentear o cabelo e ficar à espera que alguém as salve. era muito mais interessante vê-las salvar-se a si próprias. acho que na vida se deve ser muito mais que só lindo e incapaz. para conseguir influenciar o seu destino. desde a infância fui inspirada por guerreiros. quis ser o don diego de la vega, o simon templar, o luke skywalker. dormi com uma faça debaixo da almofada e corri, durante anos, com uma mochila de 10 kilos porque o meu sonho era fazer parte dos navy seals.

fascina-me como a mente consegue fazer ultrapassar obstáculos, que sejam físicos ou psicológicos, nas outras pessoas ou em nos. sobretudo que isto parece eludir à quase todos. falta-lhes determinação. e perseverança. e sobretudo fé. nunca percebi isso. como se podia abandonar mesmo antes de ter começado. achar que nunca se ia conseguir antes de fazer uma primeira tentativa. desistir sem se esforçar. perder sem lutar.

adoro quando as coisas são difíceis. se algo for simples ou evidente, perco imediatamente o interesse. a alcançar um objetivo, gosto do processo, do esforço, da pressão, da caça, do desafio, dos erros com os quais aprendo, da confrontação. quando for alcançado, quero passar ao seguinte. é o que me motiva mais. gozar dos êxitos não faz tanto parte da minha natureza. posso dedicar cinco minutos a isso. mais era uma perda de tempo, porque já atingi o que havia para atingir. o que me alimenta não são sucessos. não é estabilidade. não é prestigio. não é o fácil. não é conforto. não é poder.

é a luta.

domingo, 10 de abril de 2016

com ou sem

com a expansão das redes sociais, quase todos podem oferecer-se o luxo do
um equilíbrio frágil
narcisismo. apresentar-se em forma de migalhas atraentes, excitantes, cobiçadoras, coladas juntas de maneira mais ou menos hábil, que possa não deixar transparecer a realidade. é mesmo aconselhável para os outros não ficarem dececionados. todos querem ser o mais fixe possível.  e  sentem a necessidade de falarem disso. para convencerem todos e si próprios que é bem assim. a classe e o bom gosto são o que todos acham ter, mas que poucos têm.

como o conceito de classe (e também do bom gosto, mas nesse caso há muito menos ambiguidades e incertezas de nomenclatura) é algo ao que ligo muito, ultimamente ponderei algum tempo o que ficava por detrás dele, o que significava ter classe. as coisas básicas, as que nos rodeiam todos os dias, são muitas vezes as mais difíceis para definir. quis conseguir resumi-lo numa ou duas palavras sós. não foi tão fácil. capturar a essência de algo tão volátil mas ao mesmo tempo a cobrir áreas tão diferentes. e culturas diferentes. constringe muito na escolha de definição. e faz refletir. o vestir-se bem, o ser educado e culto, o saber comportar-se, o respeitar de limites soam todos muito bonito, mas não tocam na natureza da classe. são todos manifestações dela. não o seu núcleo.

ter classe é não ostentar. não exibir. seja dinheiro, poder, capacidades, beleza, inteligência, conhecimentos, proezas. é não dizer a ninguém tudo o que se é. nem o fazer perceber. nem precisar de o fazer. é ter mais do que se mostra. é dizer menos do que se sabe. é não ter a presunção de ser mais do que se é realmente. é não esperar tratamentos excecionais. é não achar que se tem direito extraordinário a eles. é fazer as coisas humildemente só para as fazer, de maneira desinteressada, sem procurar méritos, sem procurar aplausos, sem afagar o seu próprio ego. é não tomar nada nem ninguém por garantido. é saber calar-se quando for preciso. é algo que só se consegue alcançar com auto-disciplina e auto-conhecimento. é respeitar-se a si próprio, aos outros e ao que a vida traz.