terça-feira, 31 de outubro de 2017

desfantastificação

as coisas mais simples são as que requerem
mais esforço...
passo a vida a ouvir que sou fantástica. tão fantástica. tenho todas essas facilidades... consigo tanto com tão pouco esforço... sou tão rápida... todos esses talentos meus... pareço tão perfeita que até dá dores de cabeça. e é tudo treta. sou normal. sem nada de especial. ou fantástico. aliás, é mentira. tenho é uma coisa fantástica. sou fantasticamente disciplinada.

enquanto as pessoas debatem quando vão começar algo (novo ou velho) e enumeram as desculpas porque ainda não o fizeram, eu começo a fazer. sem grandes preparativos. nem planos. nem aspirações. nem filosofias. enquanto as pessoas passam o tempo a se queixarem quão é difícil, quanto tempo leva, enquanto deixam de fazer, fingem que nem começaram e que se mentem a si próprias que é só temporário e que não estão a abandonar para manter a visão que têm de si próprias, eu executo o que é preciso para atingir o objetivo fixado. esqueço-me do resto. deixo de ouvir opiniões, não reparo nas dificuldades, não me preocupo com o fracasso nem fico desanimada com eles. não me interessa a energia investida. o tempo investido. e quando as coisas não estão a correr como queria que corressem sei que significa que me devo mexer mais. é tão simples.

muitas vezes perguntei-me o que se passava nas cabeças dos outros. porque é que não conseguiam fazer. porque não tinham a mesma motivação. porque queriam tudo ao mesmo tempo e não aceitavam que houvesse um preço. porque abandonavam só porque as coisas estavam a ser complicadas. acho que nunca vou realmente perceber. porque compreendo as dúvidas. compreendo a preguiça. compreendo a falta de motivação. compreendo a incapacidade para agir. compreendo a vontade de querer partir tudo. de fugir. mas só durante uns cinco minutos. depois é preciso deixar-se de merdas. e de ter pena de si próprio. e crescer. e avançar.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

ciúmes

conversa num café entre uma senhora italiana e outra francesa. a italiana comprou calças dolce&gabbana e agora já que tem as bainhas feitas mostra à amiga.

a senhora italiana: e percebes, isto é ótima qualidade. toca o tecido.

a senhora francesa (a apalpar as calças): oh mas tu nunca deverias ter comprado isso... esse tecido é horrível que mostra todas as imperfeições do corpo... mas como vais poder fazer para as usar... 

a senhora italiana: mas isso é lã... pura... como é que podem ficar mal?

a senhora francesa: pois vão... vai-se ver todos os centímetros a mais na anca...

(olho com muita curiosidade para a senhora italiana que conheço e que deve caber dentro de um tamanho xxs e depois para a senhora francesa que não conheço, mas que de certeza tem uns centímetros a mais na anca e uns muito a mais na barriga...)

a senhora italiana (visivelmente preocupada): achas que realmente vão ficar tão mal?...

a senhora francesa: pois acho...

espero que a senhora francesa se despeça e digo à senhora italiana para ela não se preocupar que tem um corpo de sonho. ela comenta sobre o facto de ser velha. respondo que corpos de sonhos são geridos por muito mais que só a idade. e acrescento que as calças lhe vão ficar lindamente. e que a amiga simplesmente estava com ciúmes por ser demasiado gorda para usar tal roupa e se calhar também por não ter dinheiro para comprar tais marcas. ela não quer acreditar. a amiga de certeza não tem inveja. respondo que de certeza tem.

nunca percebi essa estupidez e hostilidade feminil. o que isso muda que alguém esteja com bom aspeto? é fantástico e deve-se ficar feliz pela pessoa. adoro estar na companhia de mulheres bonitas. ou bem vestidas. é sempre um prazer olhar para elas. e comento sempre. há três semanas vi uma miúda bonitinha na caixa do supermercado onde eu estava na fila. não consegui resistir à ideia, mesmo com muitas pessoas atrás de mim na fila, e quando acabei de pagar comentei que ela era muito bonita. e acrescentei que era um grande elogio que eu não era lésbica. e pisquei o olho ;)

domingo, 15 de outubro de 2017

(poder de) compras

everything in the world is about sex, except sex. sex is about power. oscar wilde

tudo tem preço?
eu sei que o que vou dizer agora vai ser controverso. que vai contra a opinião da maioria das pessoas. que vai ser um insulto para muitas. que vai ofender sensibilidades. que quase vai dar para o mundo acabar. e num clique. mas vou dizer na mesma. tudo isso não são razões suficientes para me fazer calar quando discordo de algo. mesmo quando as minhas palavras incomodam. e quase sempre incomodam. porque destroem a boa imagem que temos de nós próprios.

o caso harvey weinstein... acho hipocrisia. pura. e quádrupla. primeiro, porque, de certeza, houve mais mulheres que aproveitaram da situação para desenvolverem carreiras que as que se dizem ter sido assediadas sexualmente. e tanto quanto o resultado foi prolífico ou lucrativo, poucas foram as a quem isso incomodava. e mesmo as que foram traumatizadas calaram em troca de dinheiro. peço desculpa, mas a dignidade não tem preço. nem se compra nem se vende. segundo, porque durante os vinte anos que isso aconteceu todas as pessoas nos arredores dele deviam pertinentemente saber do que se tratava. mas escolhiam ficar surdas, cegas e mudas. foi mais fácil assim. e mais vantajoso. terceiro, a mulher dele devia também bem saber  mas só o deixou quando tudo se tornou público. que coincidência... quarto, acho engraçado ver em que sociedade vivemos. os homens envolvidos em numerosos casos de assedio sexual nunca negam que foderam metade do planeta e isso está bem. ninguém parece nem surpreendido nem escandalizado. ninguém vê a dupla moralidade. é assim mesmo que funciona o nosso mundo. poucas são as pessoas que têm a coragem para enfrentar a realidade, por muito feia que seja.

tenho um bom aspeto. costumo usar roupa demasiado curta e justa. mas felizmente ainda nunca fui assediada mental ou fisicamente no trabalho. ou fora dele. porquê? porque sei que a provocação deve ser compensada por muuuita atitude para não se tornar ameaçadora. porque nunca entro em conversas nem circunstâncias nem lugares que têm o potencial de serem ambíguos. ou causarem-me merdas. porque sempre soube onde estavam os meus limites e disse quando não gostava de algo. ou quando pessoas me faltavam ao respeito. sim, houve vezes em que me perguntava se isto não me ia custar o trabalho ou o cliente. mas dizia na mesma. porque sei que autorizar algo uma vez é autorizá-lo para sempre. porque evito pedir ajuda porque depois as pessoas sempre querem algo em troca.

acho fascinante como o poder corrompe as pessoas. e de ambos os lados da equação. e os que abusam dele e os que se deixam abusar. para fazer carreira...