quinta-feira, 13 de abril de 2023

falta de companhias?

há uma grande diferença entre eu e as outras pessoas. em boa verdade, há muito mais do que uma. se calhar há mesmo mais diferenças do que semelhanças. ou pelo menos um número de coisas que faço de maneira completamente diferente. que penso de maneira completamente diferente. foi o drama da minha infância. o de saber que não estou a corresponder. que não vou corresponder. em adulta assumo. e adoro.

a melhor companhia possível

esta diferença surpreende-me cada vez que a vejo ou que penso nela. preciso passar tempo sozinha. dizia muito mais tempo do que a pessoa média. e dá-me um prazer imenso. fazer coisas sozinha. andar sozinha. ter áreas da vida que só me dizem respeito a mim. e onde sou eu que decido se as quero compartilhar. e quando. não sei se conseguia existir sem estes espaços. ou quão miserável seria a minha existência. há mais um elemento nesta equação: preciso poder viajar sozinha de vez em quando. é uma parte que quase ninguém percebe. conheço pessoas que não vão de férias há anos só porque não têm ninguém com quem possam viajar. ultrapassa-me completamente. estive a falar disto com o ian que comentou que as viagens sozinho eram sempre a melhor altura para fazer uma introspeção. nunca tinha pensado nisso assim. mas fez sentido. viagens solo são só para quem goste e precise autoavaliar-se. são poucas as pessoas que querem submeter-se a este exercício. e só elas percebem a necessidade. a urgência. o chamamento muda que não se pode ignorar

porque não é possível compreender-se quando se está acompanhado. ou pelo menos precisa-se estar com alguém com quem se está confortável calado. e durante muito tempo. autoavaliar significa anular tudo. e marcar um encontro consigo próprio. chegar a um ponto de claridade consigo. perceber-se. desenvolver uma imagem de si que seja confiante, coerente e estável. limitar as alturas em que se é apanhado desprevenido pelas suas reações. e emoções. ver-se de fora. e duma maneira completamente diferente. uma exploração do que está a acontecer dentro de nós. uma descoberta de traços de personalidade cuja existência ignorávamos. ou preferíamos não ver. ou não nós atrevíamos exprimir. é seguir um caminho até nós. um nós que muda com o tempo. estamos (ou pelo menos eu estou) numa evolução e numa aprendizagem permanentes. mas é também por isto que é sempre um prazer encontrá-lo de novo. perceber como, porquê e até que ponto mudou. uma viagem fascinante e que nunca para. e que só pode ser realmente explorada quando se a faz sozinho.