segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

consigo viver sem...

escolhas conscientes
... 1. secador de cabelo - porque passar tempo a secar algo que consegue perfeitamente secar sozinho? era como decorar todos os números gravados no telemóvel - uma perda de tempo. 

2.  sensores marcha atrás - tive-os nos dois primeiros carros. mas com o terceiro decidi que era preciso finalmente aprender a sentir melhor as distâncias. no início foi um bocado complicado porque não parava de sair do carro enquanto estava a estacioná-lo para ver quanto espaço sobrava, mas já consigo desenrascar-me bastante bem. e é um prazer porque adoro conduzir.

3. sapatos cobertos - detesto. fazem-me sentir presa. ficar tão desconfortável que nem consigo pensar em outra coisa. só me apetece tirá-los. já me aconteceu mesmo em reuniões importantes.

4. facebook - gosto de ser anónima. não me exponho por dentro. e nunca faço o que todos fazem. não me interessa eu ser mais facilmente contactável.

5. saias - uma peça de roupa que nem tem a frente nem o verso bem definidos e que dá a volta ao corpo como e quando lhe apetece...

6. maquilhagem - aos meus 16 anos fui mandada a uma escola de modelos para me tornar mais feminil (não foi uma ideia minha). nem sabia como se punha rímel nessa altura. durante muito tempo achava que ia haver um momento, quando fosse suficientemente adulta, em que ia começar a usar maquilhagem. nunca aconteceu. agora já sei que nunca vai. cada vez que estou em frente do espelho a dizer-me que se calhar desta vez vou pôr algo na cara, digo-me que me sinto tão bem a ser eu própria que seria um sacrilégio interferir nisto.

7. cuequinhas - uma escolha escandalosa. supostamente. mas na realidade não é. formulá-lo assim era hipocrisia pura. acho que já somos adultos e não nos vai matar ou pelo menos cegar um corpo nu. ou a imaginação do tal. há poucas coisas piores do que o falso pudor. o único tabu que isto quebra é que as cuequinhas são dum desconforto incrível. não há nada de provocador, nada de basic instict, nenhuma fantasia irrealizada. eu sei que isto vai decepcionar muitos. cuequinhas estragam também as linhas dos vestidos quando se fazem adivinhar pelo contorno. detesto.

8. carteira - não vejo muito bem para o quê serve a não ser que seja para acumular coisas desnecessárias que se acaba por levar todos os dias.

9. voice mail - as pessoas com um assuntos importantes ligam outra vez. as pessoas com assuntos pouco interessantes deixam-me tranquila. não quero estragar esse equilibro.

10. meias - a peça de roupa que deixa a marca mais assexual de todas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

d de duro

mil pedaços
fico sempre contente quando encontro pessoas que funcionam ao mesmo ritmo que eu. ou mais ou menos da mesma maneira. ou nem que seja duma das minhas maneiras, porque somos feitos de feições diferentes que se materializam em função do ambiente, das circunstâncias, das pessoas. se eu reunir as que contam para mim no mesmo lugar, acho que muitas não se darão bem de todo. consigo ser coisas diferentes. às vezes, contraditórias. não sei se todos são assim, mas eu sou. devo saciar chamadas variadas, conciliar necessidades que se excluem, ziguezaguear  entre  oposições. sem isto, nunca me sentiria completa. há coisas que não se consegue silenciar. nem esconder. ou que se escolhe não silenciar, não esconder. faço parte das pessoas que escolhem. se calhar porque não conseguem calar.

as pessoas que funcionam ao meu ritmo, conheço poucas. mas cada vez que as encontro, são nuvens de energia que dançam no ar. são centelhas que voam a iluminar o quotidiano. são baterias que se recarregam. é cansaço que se evapora. são tristezas que se desmaterializam. milagres que acontecem. mas notei uma coisa. apesar destas similitudes confortadoras e das intensidade parecidas, chega sempre um ponto, em que descubro que sou mais dura. se calhar até muito mais dura. nas convicções, nas expetativas, no individualismo, no raciocino, nas palavras, nas decisões, nos gestos, nos pensamentos, na intransigência, nos sentimentos. todos parecem ter um limite em que aceitam abdicar de muita coisa, em que se tornam mais sociais que egocêntricos, em que se calam para o bem geral. eu não.

no último ano do liceu (para mim o liceu foi um dos períodos mais tumultuosos, se calhar até o mais tumultuoso; estive suspensa muitas vezes, o que poucos sabem; foi a altura em que descobri que me apetecia estar sozinha contra todos se fosse necessário), a minha professora de biologia escreveu algo num meu boletim escolar que acabou por esconder debaixo duma camada espessa de tinta corretora. nunca percebi porque é que ele teve a coragem de o escrever, mas não de o deixar. o boletim colocado contra uma fonte luminosa, conseguia-se ler. teimosa, talentosa, excessiva. cuidado é uma mistura perigosa! pois. não há outra escolha que não seja conformar-me a essa descrição. para não decepcionar as pessoas ;)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

suspected spam

concordo com uma conhecida que diz que para ajudar as pessoas, na maior parte dos casos, é preciso pouco. mesmo muito pouco. são instantes. minutos. se calhar horas. durações que não representam nada na nossa carga
milagres acontecem quando se ultrapassa a si próprio
semanal. migalhas. ninharias. mas que podem ter um impacto tremendo nas vidas dos outros. nunca se deve subestimar o poder dum sorriso, dum olhar, duma palavra, duma atenção, duma ajuda. muitas vezes, esse quase nada chega para dar outra vez um sentido à vida, para inspirar a dar um passo que não se atrevia a fazer, para incutir esperança em momentos de desespero mais profundo, para fazer esquecer, nem que seja durante um instante, a feiura e as dificuldades do quotidiano. consegue-se reconstruir mundos, acreditar num amanhã melhor que começa imediatamente, dominar o que se tem de enfrentar. é uma loucura, o poder que se tem. é uma loucura, não o usar.

mesmo assim parece uma atividade que apetece a poucos. é mais popular instalar-se num casulo de egocentrismo protetor. e querer receber, em vez de dar. as oportunidades para ajudar, para fazer bem surgem de todos os lados. aparecem quase por magia. não há alturas desperdiçadas que não se consiga recuperar duma maneira ou outra. mas muitos olham para essas oportunidades com uma reticência exemplar. e um medo. como se ao investirem tempo e energia fossem ficar diminuídos. como se isso lhes tirasse a vida e outras oportunidades individuais. como se temessem que o mundo deles fosse acabar. porque duma maneira acaba. mas transforma-se em algo maior. em horizontes que se abrem. em perspetivas que mudam. em energia que passa pelos dedos e calor que invade o coração quando se vê um sorriso na cara duma pessoa. quando se tem a noção do quanto se conseguiu mudar com muito pouco. ou se calhar fica-se sempre surpreendido com o que se conseguiu mudar. acha-se estranha a força que se tem. percebe-se que o contacto humano tem o maior impacto. que comparado com ele, o dinheiro e o poder nem conseguem mexer uma pedrinha. que é o que construí e desconstruí tudo.

as melhores coisas que acontecem, é quando damos. de graça. sem esperar nada em troca. sem afagar os nossos egos. sem perguntar onde é que isso nos vai levar. ou as consequências que vai ter. sem pensar no amanhã. sem pensar no preço que já estamos a pagar. sem tudo isso. só a dar. e a gozar do momento. gozar do sorriso da outra pessoa. só isso. nada mais conta. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

das coisas perdidas, irrecuperáveis?

há alguns anos tive uma conversa com duas senhoras na fila para a casa de banho no aeroporto de lisboa. conversas assim, em lugares inesperados e com desconhecidos, são das melhores que se pode ter. conhece-se pessoas com antecedentes, bagagens e pontos de vista completamente diferentes dos nossos. muitas vezes nunca tínhamos a ocasião de falar com elas se não fosse por essa situação. perde-se todas as inibições ao saber que nunca mais as vamos rever. liberta. desobriga. faz desconstruir os muros que nos protegem. ficar fora da caixa. ensina enfoques novos e maneiras imprevistas. ganha-se inspiração, locupletação, sabedoria. uma delícia.

nessa fila uma senhora estava com a filha de quase dois anos. e a outra estava a
para sempre?
dizer que dois ou três anos era a idade da honestidade. nessa altura as crianças sempre diziam o que achavam, quer fosse positivo ou negativo. e que depois perdíamos essa aptidão para sempre. 

não sei se isso é verdade. se se trata realmente do irrecuperável. acho que o mundo duma criança converte tudo num modo binário. classifica-se a realidade em função de ser boa ou má. adora-se ou detesta-se. o meio, o tépido, o cinzento, não existem. não importam. não interessam. quer-se sensações fortes, pontos fixos. catalogar dá uma sensação de definição das coisas, de dominação do mundo, de casulo protetor, de posse da situação.

a filha de amigos comentou há pouco que eu devia tirar os meus óculos (como não os uso sempre ela estava mais habituada a ver-me sem) porque me ficavam muito mal e estava feia. durante três segundos pensei em dizer-lhe (além do facto que os meus óculos me ficam extremamente bem, eheheh) que não se devia dizer coisas assim. que eram pouco delicadas. que podiam causar tristeza. até magoar. mas não o fiz. quantos adultos é que têm a coragem de dizer o que pensam? que não estão preocupados com a imagem que projetam, com o que as outras pessoas pensam deles, com as pontes que podem queimar, com o poder ou prestígio que podem perder, com o nível de conforto que pode desaparecer? poucos. muito poucos. então quem sou eu para obrigar uma criança a passar desse lado de meias-palavras, de omissões, de sombras, de mentiras, de pseudo cortês hipocrisia? e só porque não gostei do que ela me disse? afinal de contas, faço exatamente a mesma coisa - digo claramente quanto não gosto. e mesmo se espero ser mais delicada nas minhas críticas, de certeza não sou. também porque adultos ficam à espera de algo que lhes agrade e não que seja honesto. não vêem utilidade nenhuma na sinceridade. sinceridade significa afrontar-se. significa assumir-se. gostar de si mesmo. ficar puro. escolher o difícil. saber renunciar. não perder o enfoque. não se deixar distrair por pormenores.

na vida não há coisas para as quais seja tarde demais. o simples, o básico e o fundamental, mesmo que pareçam evidentes, são os mais difíceis para atingir. na cabeça há sempre a voz da criança que fomos. alguns deixam-na falar, ouvem-na, outros silenciam-na ou ignoram. mas está lá. e às vezes diz coisas que não se consegue aprender nem com séculos de experiência. faz voltar a uma época em que o caminho a escolher apresentava-se sozinho. a vida era simples. e a dicotomia branco/preto ditava a felicidade.

afortunados são os adultos que conseguem extrair a voz da criança que eram.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

(in)seguranças

fui hoje a essa loja da desigual onde cada vez que vou acabo por encontrar pessoas estranhas.

o óbvio não é sempre óbvio para todos
ao entrar na área das cabines de prova vi dentro duma delas um homem de camisa vermelha xadrez que lhe ficava muito bem. 

disse-lhe que não sabia o que ele estava a provar exatamente, mas que a camisa lhe assentava como uma luva.

gosto de elogiar a roupa e o aspeto das pessoas. sou muito esteta e reparo nisto. também acho que a mim não me custa nada e a pessoa cumprimentada fica sempre entusiasmada por ter sido vista e valorizada. então porque não o fazer?

o homem agradeceu e concordou que a camisa era fixe.

mas a namorada dele, que estava numa cabine do outro lado do corredor não gostou disso. sentiu a necessidade de ir à cabine dele, pendurar-se-lhe no pescoço, beijá-lo na boca e dizer que não concordava com a opinião da senhora porque o vermelho não lhe ficava bem de todo.

achei essa exibição marcadora de território bastante divertida. só faltava fazer xixi. que pena que as coisas não fossem tão longe. e o rapaz nem era giro.

incríveis são as merdas pelas quais as pessoas decidem perder tempo e energia.

é que tudo na vida está na cabeça...