segunda-feira, 30 de junho de 2025

re-inícios

onde tudo recomeça...
hoje foi o meu primeiro dia de verão. atrasado pela certa, já que amanhã o mês de julho está para começar. mas isso só multiplicou a força com a qual o ressenti. fez ressaltar a sorte que tive. a de ter finalmente escapado ao tempo dos últimos dois meses. à mentalidade deles. às limitações que me impuseram. apanhou-me desprevenida duma certa maneira. tinha-me esquecido desta energia, deste entusiasmo, desta alegria que me animam quando está calor. não tive os preparativos do verão habitual. não tive as expetativas usuais. não me fiz pergunta nenhuma.

de repente aconteceu. descobri outra realidade. não foi mau. só inesperado. dei-me conta duma parte de mim na qual não tinha pensado há algum tempo. reencontrei-a. realinhei-me. voltei para o caminho da trajetória onde quis estar antes. porque alinhava com os meus objetivos. retificações deste tipo permitem fazer um inventário. do estado das coisas. do que se tem. do que se perdeu. do que já não serve. do que superamos. do que ficou pequeno demais. da consciência que temos. de nós. dos outros. do mundo. 

fiquei mais completa. mais mim. mais inspirada. mais motivada. mais criativa. mais energética. mais equilibrada. mais tudo e alguma coisa. eis o que o calor me faz ;)

quarta-feira, 10 de julho de 2024

as manhãs

tranquilidade esmagadora
adoro caminhar na praia. é uma das minhas atividades preferidas. e das que melhor me deixam recarregar as baterias. realinhar os níveis de energia. refinar as estratégias. repor as ideias em ordem. refazer análises da realidade. do quotidiano. encontrar planos de ação. especificar as prioridades. reafirmar os valores. o facto de eu poder olhar para o mar proporciona-me tudo isto. e muito mais. a mergulhar os pés na água (de preferência com mais de 22 graus). a fixar a linha azul do horizonte. a ouvir o marulho. a sentir o sol na pele. a ter o cabelo dançar no vento. é uma mistura irresistível...

mas, desta vez, dei-me conta que a altura do dia podia intensificar este efeito. e, surpreendentemente, são as manhãs que o fazem. enquanto eu sou uma pessoa da noite... paciência... comecei a perguntar-me porquê. a resposta pareceu-me maluca, mas é o que é. como há menos pessoas na praia cedo, uma parte dos meus pensamentos pode ficar do lado da areia e flutuar lá. enquanto da parte da tarde estão todos empurrados à beira-mar. para o dizer de uma maneira mais racional: com menos pessoas ando a olhar para o mar e para a praia a fazer as minhas ruminações. com mais pessoas, para ter uma sensação de intimidade, devo desviar o olhar só para o mar. no fundo, gostava de lá estar quase sozinha...

mas não é tudo. as ondas fazem um barulho mais suave. o sol brilha com menos intensidade. as águas do mar ainda não parecem ter saturado com o azul. o vento nem despertou. toda a natureza indica que é só um prelúdio. que o melhor está para vir. que tudo ainda é possível. nada ficou decidido. as opções ficam abertas. tem-se tempo. pode-se começar do início. olha-se para tudo com a frescura incansável das esperanças. as tabulas rasas, gosto imenso. há poucas coisas mais entusiasmantes!

segunda-feira, 8 de julho de 2024

sorte?

a sorte é algo que se constrói. que se cria. que se compõe. se calhar mesmo que se provoca. é só de nós que depende se e quando ela aparece. claro que não porque temos o poder de controlar o nosso quotidiano, mas porque podemos decidir qual será a nossa relação com ele. somos nós que a definimos. os sentimentos, os pensamentos, as reações. é a pouca liberdade que temos. há sempre uma escolha para se fazer. a de levar uma vida que seja conforme às nossas aspirações. aos nossos valores. às nossas necessidades. há sempre uma maneira de encontrar significados no que nos está a acontecer. mesmo que seja completamente absurdo. que as nossas circunstâncias sejam favoráveis ou desfavoráveis, a escolha de como vamos reagir é só nossa. e se este enfoque, esta maneira de se posicionar, esta mudança do equilíbrio aparente fosse suficiente para mudar as coisas?

talvez os esforços tenham de passar por outra coisa do que a tentativa derisória de termos um impacto nas circunstâncias, no ambiente. cada prova que atravessamos é um desafio para o nosso desejo de haver sentido na vida. quando a sorte parece não estar do nosso lado, é preciso vê-lo como uma oportunidade. e não uma falha. assim vamos poder reavaliar ou questionar o nosso caminho. está certo? errado? que erros cometemos? que oportunidades não estivemos a ver? de que expetativas tínhamos ficado presidiários? o azar, uma vez que o choque inicial tenha passado, oferece sempre a ocasião de melhorar. de fazer de forma diferente. de se tornar mais criativo. de sair fora da caixa.

que a vida venha, me pegue pelo cachaço 
e me leve onde isso for conveniente para
a vida
enquanto às capacidades de resistências - que alguns teriam a sorte de possuir, contrariamente aos outros - são coisas que sempre se podem aprender. desenvolver. afinar. uns podem começar com mais defesas do que outros, mas nem sempre deve ser assim. só de nós é que depende que competências adquirimos. e que ignoramos. e se fosse isto a nossa sorte? a de poder escolher de não ficar parado. suspenso. passivo. a de saber que a última palavra na abordagem é nossa. que sempre dá para fazer algo das peças que temos. este ângulo leva-nos para um mundo de responsabilidade. de ação. de mudanças. de dinamismo. e não da submissão cega a pensar que não há nada para se fazer. e que a sorte não está do nosso lado. os que parecem ter muita sorte, é sempre algo imputável. ela não é um evento externo fortuito, mas um fator interno. uma atitude ou um comportamento escolhidos pela pessoa. uma vontade de ultrapassar. de dominar a situação. de fugir ao status quo.

o mais importante é deixar de esperar que algo magicamente mude a situação. que um dia tenhamos mais sorte. que as configurações divulguem elementos favoráveis. só ao abandonar essas ideias é que nos podemos comprometer de maneira consciente e lúcida na procura da sorte. sic. a sorte é algo que se procura. todos os dias. e do início. é um trabalho diário. não algo que caí do céu de vez em quando. e que está reservado para uma minoria especial. a sorte não depende de elementos externos. mas, sim, de elementos internos. o mais importante sendo o nosso nível de comprometimento. 

et si la chance sourit aux audacieux, ayons l'audace de la provoquer!

sexta-feira, 5 de abril de 2024

vidas passadas

fazer do paradisíaco uma vida...

no barco entre penang bai e gili air, passei a travessia a ouvir conversas que antes ressoavam muito comigo, mas das quais me tinha completamente esquecido. talvez porque não tivesse viajado a um lugar completamente desconhecido e fora da europa há uns nove anos. e por isso não fiquei exposta a esse tipo de reflexões. ou talvez porque tivesse mudado a minha maneira de pensar. ou tivesse passado a outra etapa de vida em que tais coisas já não importavam tanto... quem sabe... mas o mais importante, achei, foi que me reconheci numa parte das conversas, mas também reconheci o ponto em que divergi do caminho que mencionavam... nem sei se foi bom. ou se foi mau. mas de certeza ficou diferente.

as conversas eram entre pessoas que se tinham mudado para a ásia. de maneira temporária. ou permanente. porque estavam fartas do quotidiano ocidental. do frio. do cinzento. da ineficiência das soluções. da sedentariedade das sociedades supostamente mais desenvolvidas. da burocracia. da lentidão. do consumismo. das rotinas viradas para carreiras e dinheiro. porque queriam começar do zero. ter uma vida nova. objetivos diferentes. levar tempo ou fazer uma pausa para se reinventar. realinhar-se com os próprios valores. questionar as escolhas. ponderar as opções. mergulhar no dinamismo refrescante de melhoria constante. 

acho que sempre fui sensível a tais chamadas. tenho um lado curioso, pensador e divergente que gosta de resolver uma situação de mil maneiras. e experimentar uma abordagem diária firmada em princípios diferentes faz parte delas. ao viajar muito pela ásia há uns quinze anos, perguntei-me inúmeras vezes se não devia seguir esse ritmo de vida. o de deixar tudo que parecia estruturado e no caminho do sucesso, para fazer descobertas emocionais e espirituais. na universidade quando os amigos e conhecidos faziam estágios ou trabalhavam, eu preferia viajar (também trabalhava durante os anos letivos) e conhecer mundos novos. tinha na altura a consciência das desvantagens duma tal escolha, mas a construção de carreira nem fazia parte das minhas prioridades nem dos meus interesses. estava mais virada para a minha construção como pessoa.

e continuo virada para ela. mas o que descobri entretanto é que estava também virada pelo desenvolvimento. e pela realização de objetivos. e isto não vai em par com fugas para melhores climas e explorações internas. o que não significa que vou desistir deles. só não os vou pôr no centro de tudo. há 20 anos ainda não sabia que mais cedo ou mais tarde teria ficado aborrecida com  a quietude duma tal vida. e com a falta de seguimento e de progresso que vêm com vidas menos lineares. mas atenção que mais linear não significa vertical. quero avançar e fazer as coisas do meu jeito. construções mais estruturadas de carreiras ficam fora do meu campo de interesse.

no final das contas, acho que consegui modelar algo meu. tirando os elementos que me inspiravam e que julguei vitais, sem ter realmente cabido em molde nenhum. ao olhar para isto agora, faz todo o sentido. e também cheguei a perceber, que outra opção nunca houve. e não vai haver. gosto demais da minha liberdade. da autonomia. da opção de ir em contracorrente. são as coisas que mais me animam. no trabalho. e fora dele.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

o coração

às vezes, o coração dói tanto, que não se sabe o que fazer. nem dizer. nem pensar. nem como remediar. é uma dor que se propaga do interior. invade tudo. anila tudo. silencia tudo. vibra duma tal maneira que fica ressentida em cada partícula do corpo. em cada músculo. em cada movimento a mais. e todos parecem a mais. cega os outros sentidos. de repente, perguntamo-nos como é que conseguimos respirar. se estamos a respirar mesmo. se o ar continua a preencher os pulmões ou se ficamos completamente suspensos. entre mundos. entre realidades. entre lágrimas. num lugar por pessoas que não respiram. não vivem. só existem. ou pelo menos tentam existir. a não saber exatamente o que fazer. como voltar. como deixar de flutuar. quanto tempo é que se pode lá ficar? abatidos pelo peso do firmamento. dos pensamentos. do próprio corpo. da dor. arrastados por ela do quotidiano. da paz da alma. da sensação de seguridade encontrada nos gestos pequenos. cultivada com os gestos pequenos. o nó na garganta a apertar cada vez mais. a paralisar tudo. a parecer anunciar uma explosão iminente. a pintar a cinzento o que está em volta. a pedir atenção. a controlar tudo.

como é que se foge de lá?

segunda-feira, 17 de julho de 2023

relações fazem sufocar?

duma certa maneira fazem. mas não necessariamente. não acredito nas supostas armadilhas do quotidiano. nas coisas inevitáveis que ninguém consegue escapar. nos predeterminismos que dizem que cada relação vai passar pelas mesmas etapas. os mesmos ciclos. as mesmas dificuldades. a mesma decomposição.

são meras desculpas. é sempre mais fácil dizer que não depende de nós. que não deu. que é dos anos. do horóscopo. da fase da lua. das circunstâncias. do destino. da outra pessoa. da vida. tentar evitar essas armadilhas já seria trabalho a mais. investir esforço. lutar. não ficar desanimado. porque claro que os impulsos iniciais embotam. não podem sempre ter a mesma intensidade do que no início.

mas é onde a instituição do casal se torna fascinante. acho eu. uma personagem numa peça que li disse: quando és capaz de te disputar com alguém, o pau ao léu e uma escova de dentes na boca (quando estás tanto à vontade e que podes tomar tais liberdades), isto não tem preço. significa que se chegou a esta fase inaudita: tem-se a hipótese de estar completamente destapado emocionalmente a viver com alguém que nos conhece melhor do que os nossos pais. é uma aventura humana incrível! 

mas também um caminho longe de ser evidente e, às vezes, muito complicado. com crises uma depois da outra. a transformarem-se. dificilmente detetáveis. é preciso muita vontade para se ficar juntos. é também necessário ter saudades. deixar-se espaços que não sejam completamente compartilhados. é preciso aceitar que esse manual do usuário que criamos da outra pessoa possa mudar. que vai ser preciso adaptar-se. é sempre indispensável questionar as certezas que temos sobre o parceiro. 

ando desde há muito tempo fascinada pelos fins de histórias. por como o amor se usa. acaba. esvanece. porque a verdade é que, dentro dos três primeiros meses duma relação, consegue-se apontar para os problemas potenciais. a história do casal parece estar decidida nos inícios dele. e a capacidade para desejar o outro podia ser prevista com antecedência. em que direção vai o dueto? são os primeiros sinais que o sugerem. todos os casais têm uma predestinação. mas não é uma fatalidade que vem do exterior. que seja das pessoas ou das circunstâncias. é o casal mesmo que a fabrica.

diz-se que é um conjunto de duas nevroses. idênticas ou complementares. nunca escolhemos parceiros por acaso. a personalidade deles vai revelar e ativar partes de nós, boas e más, cuja existência nem suspeitávamos. raras são as pessoas que conseguem detetar estes elementos anunciadores de problemas. a maioria prefere não ver nada. não interpretar nada. fingir que fica indiscernível debaixo da capa do namoro. as diferenças de valores nunca se atenuam. e as pessoas não mudam.  

tudo isso mexe-se com o facto que temos a tendência para mentir sobre um número de coisas e com a nossa visão do desejo da outra pessoa. e quando as verdadeira feridas aparecem já no início, quando fingimos o que não somos, quando não determinamos os nossos limites e aceitamos tratamentos de merda, negamos quem somos. e chegamos a um ponto em que não se pode mudar nada sem partir tudo. 

no fundo, o amor só acaba quando nunca realmente existiu. quando acreditamos nas aparências dele enquanto não houve fundo nenhum. os conflitos são sempre difíceis a viver. sobretudo o primeiro. é preciso fazer o luto dos velhos valores e esperanças. e encontrar novos. é preciso reconstruir o casal. ou mais exatamente construi-lo de novo. a saber que um dos parceiros possa não estar interessado. que não querer seguir. as crises põem sempre a criatividade do casal à prova. ou seja a sua capacidade de se reinventar continuamente. de estar em evolução permanente. a dois, claro.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

clivagens

equilíbrios complexos

durante as minhas caminhadas na praia ou ando com os olhos fixados no horizonteis a fazer as minhas análises e a repor tudo em questão, ou olho para as cores dos biquínis das mulheres a tentar ver qual é a cor mais popular. mas a fazer esse segundo exercício, é difícil não notar as diferentes categorias. não de roupa de banho, mas de mulheres. há claramente grupos bem distintos.

1. as solteiras que viajam com amigas e aparecem na praia com maquilhagem total, a usar todas as joias que possuem, de penteados e roupa elaborados, a tirarem em permanência fotos uma a outra em posições exigentes e pouco naturais que sugerem que não devem ter melhor coisa para fazer na vida e apontam para um alto nível de desespero para encontrar alguém que as foda.

2. as raparigas que estão em relações novas e que felizmente já deixaram joias e penteados em casa porque assim é mais prático para vigiar que o tal namorado se contorcione em todas a posições imagináveis para tirar uma foto que possa ser na capa duma revista de dietas ou algo do género, e que requer pelo menos 1500 ensaios para acertar na posição/luz/direção do vento/humor do dia/não sei o quê (riscar a menção que não se aplica).

3. as mulheres refeitas (não tenho nada contra a cirurgia plástica, mas tudo contra a cirurgia plástica que mexe com as proporções naturais do corpo) que nem se sabe muito bem como estão vestidas nem por quem estão acompanhadas porque o tamanho dos lábios e dos seios tapa incluso o sol e não se consegue pensar em nada durante um tal eclipse.

estas três categorias são minoritárias e não devem representar mais de 10%. depois seguem dois grupos infelizmente maioritários).

4. as mulheres com filhos (pelo menos um), com barrigas flácidas ou como se continuassem grávidas mesmo que já não estejam, quilos a mais, tamanhos de soutien mal escolhidos e rabos preocupantes. uma imagem bem desoladora, sobretudo que muitas devem ter menos de 40 anos. ignoro como se pode deixar estar num tal status quo e escolher ser uma versão fisicamente medíocre de  si próprio.

5. as septuagenárias + com mamas beringelas e barrigas balões como se estivessem no décimo primeiro mês da gravidez, tudo a pendurar, bem vermelho, nu e exposto a ficarem em pé ou a andarem na praia. curioso como é que podem pensar que haja alguém, que não queira fugir ao ver tais tristezas...

e, finalmente, outro grupo minoritário:

6. as mulheres que cuidam do corpo e não estão interessadas em parecer baleias. independentemente da idade e dos filhos (que têm ou não têm). paradoxalmente, é o grupo que menos se nota porque é o mais neutral e não procura estar no centro das atenções.

a julgar pela população da praia, estamos num caminho entre aparências artificiais e descuido total. agora todos parecem ter mérito por serem quem são. tudo consegue justificar-se. tudo é atentado à integridade pessoal. parecer um hipopótamo deve ser fonte de orgulho. mas essas desculpas de merdas só servem para tranquilizarem consciências e mentalidades fracas. que, para mim, a única coisa potencialmente orgulhosa que se possa ver nisso é quando se deixa finalmente de merdas e se decide seguir um regime e fazer desporto.