segunda-feira, 19 de outubro de 2020

sexo frágil?

i ask no favor for my sex. ruth bader ginsburg

hoje em dia há um boom de movimentos e de iniciativas com objetivo de promover mulheres. é a altura historicamente certa para acusar de assédios sexuais os homens que trabalharam ou trabalham connosco. de ter quotas de mulheres nos cursos, nos cargos, nos conselhos de administração. de dar oportunidades às mulheres empresárias. de se queixar em voz alta sobre o chauvinismo masculino e os séculos de descriminação. de criar comunidades de solidariedade feminina às quais os homens não têm acesso. 

todas essas causas parecem certas. parecem reestabelecer uma ordem mais igualitária na vida. corrigir anos de desigualdades. pavimentar caminhos para mulheres que nunca conseguiram falar por si próprias. ou viver por si próprias. deixá-las realizar os desejos que tinham. dar-lhes a educação que desejavam. ouvir as vozes delas. restabelecer o equilíbrio. encontrar justiça. parar os maus tratamentos. desfazer-se de ideias pré-concebidas. e nem estou a falar das mulheres oprimidas pelos sistemas políticos e patriarcais nos quais vivem. estou a falar de mulheres nas sociedades ocidentais. as que já se tornaram emancipadas há algum tempo. ou se calhar nunca o ficaram. 

mas, independentemente de quanto tempo passo a tentar identificar-me com essas iniciativas, não consigo. porque quando é preciso reconhecer-se num grupo (em que nem todos podem entrar e há outro critério de seleção do que o simples mérito) ou mesmo aderir a ele para se fazer ouvir, significa que já se começa duma posição fraca. e a chamar atenção para algo que não se consegue obter de outra maneira. a não querer competir com outros de maneira igualitária. e eu não quero receber nada por fazer parte duma minoria. não quero nenhum tratamento especial. não quero deixar de melhorar e de me desenvolver por estar protegida por um guarda-chuva invisível. por me esconder nos bolsos duma instituição. 

quero é apanhar a pancada de água. decidir sozinha de quem quero aprender e com quem me quero associar por critérios outros que não o uso do soutien e as flutuações hormonais. quero, no ponto de partida, estar numa posição de igualdade, no sentido de poder fazer os mesmos erros, de estar na mesma situação perante as oportunidades, de dever tudo a mim. no meu primeiro trabalho sério, era a mais nova numa equipa de seis gajos. a primeira semana todos aproveitavam cada momento para dizer ao chefe que eu era demasiado nova (tinha 25 anos). ele respondeu que não havia nenhum problema, podia despedir-me, mas a condição de eles terem uma prova da minha incompetência. e se fosse só a minha idade e sexo, as pessoas que iam ser despedidas eram eles. nunca mais foram vê-lo a propósito disso.

nem foi a primeira nem a última vez em que gajos me trataram com ar de superioridade. mas estou a cagar-me para isso. não muda nada nem no que quero, nem no meu caminho. até me anima para ser uma melhor versão de mim ;)