terça-feira, 25 de julho de 2017

fundamentos de cortesia

entro na minha loja de computadores. mais uma vez perdi um parafuso. cumprimento as pessoas. só o meu senhor, o proprietário da loja, responde. os quatro clientes que lá estão ficam calados. 

detesto isso. não percebo como se pode não dizer bom dia quando se entra num local. eu sei que muitos se habituam a essa indiferença das pessoas e nem fazem por isso. mas para mim, é uma luta que não tenciono abandonar. our lives begin to end the day we become silent about the things that matter. ou pelo menos a minha vida.

um dos clientes sai subitamente. olho para o meu senhor e pergunto porque é que esse cliente não tinha respondido ao meu bom dia. se o pais não o tinham educado. concluo que não percebo. os três clientes restantes que também não tinham dito nada decidem juntar-se à conversa. um explica que ele às vezes está tão perdido nos pensamentos que mesmo não reconhece os amigos que cruza na rua e que o cumprimentam. o segundo diz que se calhar o senhor estava com problemas de ouvidos. returco que eu sempre grito os meus bons dias para todos os ouvirem. de verdade, sou extremamente pouco subtil nisto. o terceiro sugere que se pode estar tão triste ou zangado que nem se repara no que os outros dizem.

o problema do parafuso resolvido, olho para eles todos, despeço-me e saio da loja. com um sorriso na boca que me acompanham quatro adeus, bem fortes e distintos. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

(im)perfeição

a beleza dos defeitos
a perfeição nunca me interessou. acho-a extremamente chata. não esconde nenhuma surpresa, nenhum ponto de interrogação, nenhuma emoção, nenhum risco. não abriga curiosidade nenhuma. não promete nada. não dá esperança. não encanta. anuncia-se de a a z, sem mistério, sem estremecimentos. uma das coisas que me seduzem mais nas pessoas é a maneira de avançar delas, de navegar na vida, às apalpadelas. de não saber. de se aguentar nas faltas de jeito. adoro descobrir todos os fracassos. todas as fragilidades. todas as falhas. todas as feridas. são o que torna as pessoas fascinantes. e que faz com que se consiga aprender com elas.

mas quem diz imperfeição, diz também desapontamento. acho que todos acabam por nos dececionar de uma maneira ou outra. não é uma constatação triste. é uma constatação realista. para nos prepararmos para essa eventualidade. e para as percebermos. as pessoas não nos podem agradar sempre. não lêem os nossos não-ditos. somos todos diferentes. com maneiras e modos de fazer que podem, às vezes, parecer incompreensíveis. ou mesmo mais do que isso. simbioses uníssonas são uma utopia. somos todos egoístas e temos a tendência para nos preservarmos primeiro antes de pensar nos outros. as desilusões são então inevitáveis. fazem parte do quotidiano. flutuam no ar. na pele. no pó. o que faz a diferença é a frequência e o tamanho delas. e se as julgamos aguentáveis ou não.

o que me surpreende todas as vezes é que, na maioria dos casos, com cada desapontamento, a vida, como para manter um certo equilíbrio, oferece algum bónus. uma sensação completamente inesperada. causada ou por uma pessoa ou por um acontecimento. que nos faz esquecer tudo durante um instante. e que faz sorrir independentemente da amargura temporária na alma. das sensações que latejam. isto apanha-me sempre desprevenida. no final das contas, deve-se ficar grato porque sem estas desilusões, nunca teríamos descoberto caminhos novos. e oportunidades encantadoras.

terça-feira, 11 de julho de 2017

eheheh

ontem fui a um centro comercial onde há três semanas tinha visto um short de que gostei quando lá estava à procura de molho de piri-piri. a minha paixão por centros comerciais é tal que levei todo esse tempo para lá voltar... simplesmente não me dava jeito. ontem finalmente consegui porque me convenci que com os saldos não o iam ter indefinidamente. e claro já não o tinham no s. mas o empregado, muito prestável e relacional, disse que ia verificar num outro centro comercial e reservou-mo até hoje. entretanto comprei uma tshirt turquesa muito fixe com inscrições de todas as cores. 

hoje o short acaba por ser tão grande que o consigo tirar fechado e abotoado, mas vejo a tshirt que comprei ontem num cor-de-rosa bonito e como o cor-de-rosa me fica bem melhor que o turquesa, decido experimentar. e comprar. o empregado, um gay simpático de chapéu preto fantasista lamenta não me ter visto a experimentá-la (normalmente saio sempre do gabinete de provas para ver melhor, mas desta vez, com o short quase a cair para os tornozelos, não dava...). explico a situação. e comento que o cor-de-rosa me fica muito melhor, regra geral. pergunta-me se alguém mo tinha dito ou se é uma observação pessoal. respondo que estudei desenho de moda então é um pouco profissional e um pouco por já ter dado inumeráveis erros de estética. demasiados erros, acrescento na minha cabeça. os olhos do gajo brilham, acompanhados por um uau, que bom, fantástico, era um sonho meu, o pequeno chapéu até se mexe na cabeça. digo que lhe vou mostrar e coloco ambas as tshirts perto da minha cara, uma depois da outra, para ele poder ver sozinho. comenta que não sabe quantos anos tenho, mas que a de cor-de-rosa faz-me parecer mais jovem (correto, na maioria dos verdes pareço permanentemente doente, ou pelo menos mal disposta). respondo que quarenta. pisco o olho. o chapéu preto não quer acreditar. vacila. sorri. murmura impossívelincrível. comento que é o tema preferido de quase todos os meus clientes quando os encontro pela primeira vez.

o chapéu pergunta timidamente se lhe podia dizer que cores lhe ficam bem. damos uma volta pela loja para o descobrir.