sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

é melhor não se mexer?

arriscar-se?
não percebo essa aversão da humanidade quase inteira a tomar decisões. é algo que me faz desesperar. profundamente. gosto de situações claras. de sins e de nãos. de saber o que devo pensar dos comportamentos e palavras. sem gastar tempo e energia para os decifrar. ou adivinhar.  nem os quero investir mal em coisas ou pessoas que não valem a pena. não tenho paciência para isso. gosto da sensação de avançar. e de avançar mesmo. não importa quando são só passos pequenos. a estagnação tem a tendência para me irritar. muito. gosto de modelar a realidade. de escolher o meu destino. ou pelo menos as coisas que o influenciam. de criar oportunidades e escolhas. e não de esperar passivamente por elas. é preciso ajudar a vida para que avance numa direção que nos interesse. as coisas nunca acontecem sozinhas. a sorte só ajuda as pessoas bem preparadas. não importa que se faça erros ou não. é sempre possível mudar de opinião. escolher outra coisa. deixar de fazer. abandonar. pelo menos já se sabe que caminho não vale a pena. muitas coisas têm o potencial para magoar, doer. mas não tomar decisão nenhuma é o pior dos sofrimentos. consume lentamente. corta o ar. dá pontapés no estômago. ri-se da nossa pequenez.

infelizmente o meu ponto de vista é compartilhado por poucos. a tendência é para não se fazer nada. por medo que o mundo acabe. que as pontes queimem, e todas duma vez. que requeiram demasiado esforço e trabalho para serem construídas de novo. ou  para encontrarmos outras. por preocupação que se perca o pouco seguro que já se tem. que se escolha algo ainda pior. que se dê cabo das hipóteses futuras que nunca se vão materializar por termos selecionado uma opção inapropriada. por gosto de conforto e de previsibilidade. por cobardice. por preferência para algo mau em vez de nada.

pessoalmente, prefiro o nada. as melhores coisas na vida acontecem quando estamos fora da nossa zona de conforto. depois de termos ultrapassados os nossos medos. as nossas dúvidas. as nossas fraquezas. depois de termos perdidos batalhas. e ganhado batalhas que pareciam ter pouca hipótese de correrem bem. mas para tudo isso acontecer, primeiro é preciso tomar uma decisão...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

errar?

uma questão de ponto de vista
alguns vêm na vida um série de oportunidades falhadas. de obstáculos. de nuncas. de solidões. de quedas. de medos. de decisões infelizes. de acontecimentos irreparáveis. de resignação que acaba por sempre reinar. de erros que só se multiplicam. de planos inexequíveis. de sonhos abandonados. de insucessos. de mudanças forçadas. de imposições que só trazem deceção. desilusão. desânimo. desassossego. dor. passam o tempo a lamentar que se soubessem, fariam as coisas diferentemente. mas então como se faz para saber?

poucos dão-se conta do facto que as notas falsas não existem em absoluto. e que cada uma pode ser transformada numa verdadeira. que temos sempre a hipótese de nós adaptar. de improvisar. de mudar de planos. e de enfoques. de descobrir coisas novas. mundos novos. eus novos. de se esquecer da perfeição. de não ter vergonha de falhar. de não fazer o suficiente. ou o certo. de descobrir as delícias da serendipidade. de errar constantemente sem nunca realmente conseguir.  mas a ter a força de o reconhecer e de querer transformar a nossa relação com a vida. infinitivamente.

é uma sucessão de glórias e de derrotas que é preciso acolher com humildade e paixão. sem arriscar, sem se atrever, perdemos tudo. o nosso motor, o verdadeiro, que nem se consegue vender nem comprar, é essa felicidade que não se encontra nem nos média nem nos livros. que nem é trazida pelo dinheiro nem pelas aparências. a que só dura migalhas de segundos, mas que volta com muita frequência. e que não conhecem as pessoas que nunca falharam. porque é preciso tocar em muitos fundos para a descobrir. e ter sucesso.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

(de)limitações

estou a ter dois flashbacks.

tenho 23 anos. na universidade tenho um amigo com má reputação entre as raparigas. ouço muitas dizer que lhes dá palmadinhas no rabo ou faz propostas explicitas e indecentes. que é pouco delicado, muito avaro e tenta tudo com todas. mas eu não sei nada disso. ou seja, tecnicamente sei que é a imagem que todas têm dele. mas ele nunca me trata desse modo. é sempre extremamente atencioso e cuidadoso, quer pagar por tudo, temos conversas profundas e nunca nem diz uma palavra nem faz um gesto a mais.

tenho 32 anos. outra universidade, outros estudos, outra vida. estou a tirar um curso de critical reading and writing que é obrigatório para todas as pessoas no primeiro ano de universidade nos estados unidos. e também pelas pessoas que lá estudam pela primeira vez, independentemente do ano de estudos. há quatorze americanos de dezanove anos e eu. na primeira aula temos de dizer o que achamos da pessoa sentada ao nosso lado e que não conhecemos. estou a usar óculos vermelho escuro. o rapaz sentado à minha esquerda diz que pareço ser alguém extremamente tranquilo e calmo. mas que é melhor não se meter comigo. eheheh...

quando as pessoas se queixam porque outras as tratam mal, não tenho pena delas. nenhuma. somos nós que decidimos como nos deixamos tratar. que estabelecemos as fronteiras do nosso tolerável. que dizemos quais são as nossas expetativas. que primeiro escolhemos respeitar a nós próprios e só depois às outras pessoas. que falamos quando não gostamos de algo. que valorizamos quem somos. tudo isto transparece nas nossas relações. não se abusa imediatamente duma pessoa. começa-se por tirar pequenas migalhas. com o consentimento da pessoa a quem se os tira. e depois pedaços. é nessa altura que o espanto e a incompreensão começa. como foi possível? como aconteceu?

aconteceu porque deixamos. e quando deixamos não há razão nenhuma para ficarmos surpreendidos com os tratamentos de merda que recebemos. 

domingo, 6 de novembro de 2016

e de energia

moderation is a fatal thing. nothing succeeds like excess. oscar wilde

dar o 100%
não sou alguém que se pode chamar de espiritual. para acreditar em coisas, preciso de provas tangíveis. e experimentar sozinha. não confio o suficiente no julgamento das outras pessoas. nem nas opiniões delas. se calhar nem acredito de todo. o facto que algo funcione para outrem não significa que vai funcionar para mim. ou que eu queira experimentá-lo. sou eu que me conheço melhor. os destinos nem me aquecem nem arrefecem. eu sei o que faz sentido para mim e o que não. creio mais no trabalho duro. na força da mente para ultrapassar os obstáculos. na falta de limites. na minha intuição. e na minha capacidade de discernir a realidade.

no entanto, durante muito tempo fiquei surpreendida quando as pessoas comentavam o meu nível de energia. a dizer que se sentiam cansadas só de olharem para mim. a verdade é que não tenho a impressão de ser tão excecionalmente energética. acho que é mais o facto que não preciso de fatores externos para me motivar. nunca percebi porque é que as pessoas precisavam fazer coisas, tipo aulas, em grupo para não abandonar. ou porque não compravam chocolate para não terem a tentação de o devorar. quando não quero comer algo, não como. mesmo que esteja em frente de mim. não percebo a ligação. nem o problema... e quando quero algo, nem um milhão de nãos me desencoraja. e dou sempre o máximo de mim. não sei fazer de outra maneira.

mas como opero com esses níveis altos de energia (e que me questiono constantemente, a tentar perceber as razões atrás das minhas decisões) reparei que me chegava pouco para os fazer aumentar ou diminuir. e que ambos tinham consequências tremendas. e estavam relacionadas com pessoas. quando passo tempo com as que são tão arrebatadas como eu, o meu cansaço ou um qualquer outro desconforto físico (tão absurdo como isto pode aparecer) desaparece. sinto-me pronta (e com vontade) para mover montanhas. e fico ainda mais entusiasmada. quando passo tempo com pessoas tóxicas, as que julgam, ficam com ciúmes, acham que têm o direito de mandar, impor ou que sabem tudo, esgota-me completamente. até eu ficar fisicamente exaurida. algo que não consigo controlar de todo... mas felizmente, aprendi a reconhecê-las rapidamente e a evitá-las a todo custo. simplesmente porque não preciso dessa negatividade na minha vida. 

domingo, 23 de outubro de 2016

quando tudo não chega

perguntei a um amigo que tem muita experiência em falar em público como se desenrascava com pessoas que estavam a escrever ou a ler coisas nos telemóveis durante as apresentações que fazia. respondeu que ou as forçava a responder a perguntas sobre o que foi dito ou se deslocava para ficar perto delas e para que tivessem vergonha. fiquei impressionada. e muito. pareceu-me um conselho genial. com classe. uma maneira hábil e subtil para lindamente solucionar uma situação desconfortável. pelo menos para as pessoas que estão interessadas em outra coisa que não só receberem dinheiro pelo trabalho que fazem, sem se importarem com o resto. uma execução que só vem com anos de prática e de tentativas para descobrir o que funciona e o que não. já me projetava, muito contente, a fazer a mesma coisa. mas a ponderar em que situações o ia usar, percebi que esse conselho fantástico tinha um problema e um problema só - não era para mim.

circunstâncias perfeitas?
é uma situação  desoladora, a de descobrir que algo, mesmo que pareça ser o cúmulo dos nossos sonhos, mesmo que tenha tudo o que é preciso para as coisas correrem lindamente, mesmo que apresente um potencial inegável para simplificar a nossa vida, simplesmente não chega. não é feito para nós. não é aplicável para a nossa realidade. não corresponde a quem somos. é sempre uma lamentação saber que não se possa aproveitar da experiência das pessoas que já passaram pelo mesmo. que já afrontaram dificuldades semelhantes. e triunfaram. teria sido mais simples segui-las que procurar o seu próprio caminho. sem ter a certeza de o conseguir encontrar. é ter essa ferramenta fantástica na mão, quase a contar os segundos e minutos que nos separam do alcanço do nosso objetivo, mas a saber que nunca se a vai poder usar. paciência...

fazer coisas contra si próprio tem um preço tão alto que nem vale a pena tentar. custa baldes de energia. queima vivo. estraga a paz mental. não deixa ser bom no que se faz. nem mesmo medíocre. apaga tudo. faz esquecer tudo. mata a criatividade. começa por controlar a pessoa. é uma armadilha. é preciso evitar. e por muito que eu gostasse de fazer tudo de maneira suave, subtil e com classe, não vai acontecer. tenho outras preocupações primárias que as de não brutalizar as pessoas. ou que as que todos gostem de mim. sou feita de outra coisa. e independentemente de quão bom um conselho, se ele não incorporar nele o meu gosto pela confrontação imediata e pela não perda do meu tempo, nunca o vou poder usar. 

sábado, 15 de outubro de 2016

(des)conforto

uma conhecida disse-me que ultimamente se tem sentido muito desconfortável
sinalizar as singularidades
por ter sido a única mulher a participar num encontro de trabalho. não percebo muito bem porquê. nunca teria pensado que pudesse ser uma situação desconfortável. não vejo muito bem o que podia parecer destabilizante ou preocupante... tirei um curso em que havia cinquenta homens. e eu. era a única mulher. além disso, era numa escola militar. adorei. sobretudo quando os professores, ao se dirigirem à turma, tratavam-na por 'caros senhores' e depois olhavam para mim todos espantados, pediam desculpas, e corrigiam-se, eheheh... achei muito engraçado. e gostei de estar no centro das atenções. não percebo de onde vem o desassossego das raparigas quando os homens as fitam nos lugares públicos. o que isso muda que olhem ou não? olhar até é um elogio. e a mim, não me incomoda. de todo. dá-me completamente igual. no pior dos casos, fito de volta. e são eles que não aguentam o olhar.

outra conhecida disse-me que preferia trabalhar com mulheres que com homens porque eram mais exatas. se calhar. não tenho opinião nenhuma quanto a isso, porque, no trabalho, a exatidão não faz parte das minhas prioridades mais imediatas. quero que as coisas sejam claras, simples, diretas, eficazes e rápidas. exatas só vem depois. e o claro, simples e direto não é exequível com 99% das mulheres. nunca sabem o que querem. nunca dizem o que querem. esperam que se adivinhe tudo. não pensam. são completamente irracionais. fazem chantagens emocionais. preferem dizer que estão a ser ultrapassadas pelos acontecimentos e deixar os homens fazer que tentarem solucionar a situação. passam o tempo a falarem mal de todos. têm complexos de princesas. investem tempo em atividades inúteis. não tenho vida para isso...

os homens, pelo contrário,  são criaturas muito fascinantes. têm mundos próprios. paixões. são independentes. caçadores. competitivos. mais egoístas (e, peço desculpa, não é possível desenvolver-se sem alguma dose de egoísmo; para o fazer, é sempre preciso, numa altura ou outra, escolher-se a si próprio). põem as ideias em gavetas que nem se tocam. são racionais. lógicos. muito literais. acham futilidades uma perda de tempo. descomplicam. não falam a ver televisão. ou bola. menos palavras se usa para lhes explicar ou pedir algo, melhor percebem. dizem o que querem. sem rodeios, alusões, esperanças secretas. não tentam fazer mudar ninguém. aceitam o produto acabado. consegue-se aprender com eles. descobrir pontos de vista diferentes. alcançar mais rapidamente objetivos. crescer. florescer. brilhar. ou que se pode querer mais?

sábado, 8 de outubro de 2016

quanto custo?

our lives begin to end the day we become silent about the things that matter. martin luther king

não tenho nada contra a prostituição física. pessoalmente, acho bastante lamentável ter de pagar por sexo, porque, no final das contas significa que ninguém se sente atraído por nós ou que escolhemos a pessoa errada para estar junto, mas se é assim que alguém quer fazer a sua vida, seja. mas tenho tudo contra a prostituição mental, o facto de se colocar um preço, de se vender por outros motivos que o simples prazer carnal, de achar que há coisas mais importantes que a dignidade e a integridade, que nada é insubstituível, que todas as carências podem ser preenchidas com dinheiro. sim, às vezes é o que é preciso fazer para sobreviver. nem todos tiveram a mesma sorte na vida. e precisam sacrificar-se. nunca estive numa tal situação e só posso imaginar como é difícil. mas não é disso que quero falar.

estou mais a pensar na prostituição mental como um modo de vida. uma maneira de estar. de ser. uma fronteira completamente diluída, desaparecida do que é aceitável. e desejável. um oportunismo enjoativo que faz esquecer tudo o que tem um qualquer valor na vida, tanto quanto se consiga ganhar em popularidade, prestigio, estima ou riqueza. em que se sacrifica lealdades, amigos, decências, liberdades, purezas, rectidões, confianças e intimidades. por medo, por complexos, por vaidade, por falta de colhões, por ciúmes, por cobiça, por querer soluções simples e rápidas, por não querer dar-se ao trabalho, por evitar esforços, por desejar parecer melhor do que se é, por não querer sacrificar nada.

parece tão pouco. vender uma migalha de si. e depois mais uma. e outra. é difícil parar já que se ultrapassou o limite uma vez. não há mais razões para não o fazer. e temos todos esses êxitos,  dinheiro, importância quase sem se mexer. mas, curiosamente, não chegam para apagar essa sede que tivemos no início do processo. há coisas que nem se compram nem se vendem. e a alma humana faz partes delas. quando lhe faltam partes e pedaços não se os consegue substituir com nada. 

domingo, 25 de setembro de 2016

supostamente inesperado

vous ne connaissez rien de la vie. vous pouvez tout attendre d'elle. savez-vous quelle a été ma faute? de ne plus en attendre rien... ne désespérez jamais de la vie. andré gide

recantos encantadores
gosto de falar com pessoas, e nem sei que palavra exatamente usar agora para as descrever para que nem soe presunçoso nem pejorativo, então vou dizer que as que tiveram menos sorte na vida. a níveis diferentes. por razões diferentes. e que fazem trabalhos que são qualificados por muitos como de merda. e que são consideradas invisíveis. insignificantes. não do mesmo nível (nunca percebi como se conseguia determinar esses níveis... nem quem se achava ter o direito de os definir e de depois qualificar quem pertencia onde...). não suficientemente inteligentes ou cultas. pouco interessantes. as que nem se quer ver, nem notar. nunca percebi porquê. merecemos todos o mesmo respeito. independentemente do número de línguas que falamos ou do dinheiro na conta. e nunca se consegue prever de quem se vai poder aprender.

na verdade, a vida é bem irónica. muitas vezes é com estas pessoas que aprendemos mais que com as supostamente inteligentes, cultas, interessantes, viajadas, sofisticadas etc. porque não perderam o sentido do que era realmente importante na vida. porque têm opiniões que não ficaram poluídas pelo poder ou pelo prestigio. porque conseguiram ficar humildes, fieis a si próprias. porque sabem valorizar gestos de simpatia e de carinho. porque têm um olhar de fora para todo esse mundo do qual ficaram excluídos. do qual se sentem excluídos. porque chamam as coisas pelos nomes. porque não perderam os reflexos humanos por causa de conivências sociais. ou outras merdas. porque não estão com medo do que os outros vão pensar delas.

e isso vale mais que todos os livros que se leu, que todas as viagens que se fez, que todas as experiências profissionais que se teve e que todas as influências que se tem. ou que se acha ter.

sábado, 17 de setembro de 2016

i de inevitável

ver com olhos bem abertos
sou muito intuitiva. não tenho paciência para estudar detalhes. nem olhar meticulosamente para pormenores. chega-me adivinhar em que direção tudo vai prosseguir. com o passar do tempo aprendi a confiar, quase cegamente, nesta intuição. a ouvir-me com muita atenção. a reparar em todos os sinais que desviam do caminho. sobretudo porque todas as vezes que não o fiz, que decidi ser só racional, que achei que estava a exagerar com os meus pressentimentos negativos ou com as luzes vermelhas que se acendiam na minha cabeça, acabou por resultar em fracassos de tamanhos diversos. acompanhados pelo mesmo pensamento: então tinha razão de desconfiar... ou de questionar. 

costumo pedir opiniões às pessoas. também gosto. não porque não sei o que quero fazer. nem porque tenciono necessariamente segui-las. mas porque a ser intuitiva sou demasiado rápida nos meus pensamentos. julgamentos. procedimentos. e consciente do facto que sem ter analisado a situação, posso não ter visto elementos pertinentes. a esperar que não seja que os tenha omitido, mas, no fundo, nunca se sabe. a ouvir o que os outros pensam do assunto, tenho uma visão mais completa, mais exaustiva das coisas. e posso tranquilamente seguir o que me passa pela cabeça. já não é que não analisei as diferentes hipóteses.

mas aprendi também a notar mais uma coisa. quando me sinto completamente perdida, quando peço opiniões a mais, quando pareço não saber o que quero, significa que estou a tentar esforçar-me a fazer algo que não me corresponda de todo. que não concorde com a minha maneira de ser. é quase como se fosse uma chamada desesperada, a suplicar que alguém me dissesse que estou a errar completamente. que me empurrasse na direção certa. mas sou a única pessoa capaz de o fazer. às vezes leva mais tempo. às vezes menos. mas é um alivio enorme chegar a perceber que me tinha desalinhado demasiado de mim. e que bom descobrir-me de novo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

as coisas que me fazem ficar calada

sou faladora. gosto de conversar com desconhecidos. de estabelecer contactos pessoais. de não ver nas pessoas só prestadores de serviços, formas no fundo da imagem. de contar a minha vida. ou pelo menos alguns detalhes dela. o que poucos sabem é que falo muito de algumas coisas para não ter de falar de outras. sei muito bem onde quero a atenção. e onde não a quero. o que estou disposta a mostrar e o que prefiro esconder. sou direta, mas não sempre transparente. o meu jardim secreto, há poucas pessoas que entram nele. mas é assim que gosto das coisas. adoro compartilhar por escolha, mas também adoro calar. preciso dum espaço que seja só para mim. em que não tenho de explicar ou justificar nada. e, (in)felizmente vou à contracorrente com a lógica geralmente adotada. abordo sem pestanejar assuntos que quase todos acham pessoais, mas
contornar o óbvio
recuso-me a falar de outros de que todos falam. vejo esses temas como uma invasão total da minha privacidade. não percebo porque é que deveria querer falar neles. como é que se pode ingerir tanto na intimidade duma pessoa.

e, para mim, por louco que possa parecer, mais falo num assunto ou numa pessoa, quanto menos é importante para mim. mais é importante, menos falo. as minhas grandes amizades, os meus grandes amores nunca senti realmente a necessidade de os compartilhar em detalhes. a não ser que seja com a pessoa em questão. não preciso de as medir com palavras. de as descrever. de as embelezar. de me valorizar por as ter. não as quero poluir com nada. ou despir demais. ou tirar o lado sagrado dum segredo compartilhado entre só duas pessoas. há algo extremamente bonito e frágil na discrição. no pudor. no silêncio. no não-dito. nos sorrisos cúmplices. no brilho nos olhares que se cruzam. nos olhos que são os únicos a saber. é poesia.

uma conhecida perguntou-me há pouco se uma tal e tal pessoa era feliz por tal e tal motivo. olhei para ela com incredulidade. é que já nos conhecemos há muito tempo e eu ficava à espera de um pouco mais de perspicácia da parte dela. respondi que não sabia porque era introvertida e não falava de tais assuntos com as pessoas, eheheh...

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

quem queres ser?

be yourself; everyone else is already taken. oscar wilde

o que escolhes?
uma conhecida explicou-me ultimamente, de maneira muito entusiasmada, o funcionamento duma aplicação de encontros. quando lhe perguntei se realmente achava que as informações e fotos lá fornecidas eram verdadeiras e correspondiam aos homens em questão, respondeu que claro que não. e concluiu que era mesmo por isso que era um conceito muito fixe. e tão divertido. podia-se ser tudo o que se queria. acolhi essa constatação com alguma consternação. e incompreensão. completa. porque é que alguém quereria perder tempo e energia para ser alguém quem não era? nunca percebi essa ideia.

porque a realidade virtual parece poder conseguir um dia substituir a realidade real? houve muitas inovações que pareciam fazer um dia desaparecer produtos mais antigos, mas nunca aconteceu. o cinema não substituiu a televisão, a televisão não substituiu a radio, mesmo que se pensasse numa altura que pudesse ser assim. porque desta vez não se trataria de substituir um produto, mas muito mais. mesmo muito mais. a realidade doi. é um processo em que o nosso caminho está delineado por experiências negativas. por perdas. pelos nossos esforços de lutar contra elas. o mundo virtual livra-nos de tudo isso. não tem consequências. nem perigos. é bonito. fácil. não decepciona. tira frustrações. oferece inumeráveis hipóteses de recomeçar do zero. é tão bonito, porque não existe. é só uma simulação. uma cópia. um falso presente. uma fuga.

tenho sempre achado muito mais interessante ser quem se é. oferece mais variedade. mais opções. menos banalidade. torna mais livre. tenho o nariz refeito. uma cicatriz feia depois duma operação na infância. a tendência para ser demasiado independente e querer fazer tudo sozinha. e não vejo porque deveria querer fingir que não sou assim...

terça-feira, 30 de agosto de 2016

não-direito

visão alterada da realidade
deveria haver leis contra as pessoas que não percebem que estão a ultrapassar os limites da nossa paciência. e de decência em geral. que não vêem que estão fora do lugar. que propõem coisas inapropriadas. que mostram sensibilidade nenhuma. que nos importunam. assediam. que nos fazem questionar as nossas ações e palavras porque não nos sentimos bem connosco durante um breve instante, enquanto a culpa é deles. e não se dão conta disso. ou estão a cagar-se. difícil dizer o que é pior. que acham que estamos contentes por os conhecer. por termos a possibilidade de fazer coisas com elas. que querem fazer parte da nossa vida dum modo ou de outro. e independentemente do que pensamos disso.

como é que se pode não perceber que existem coisas que nunca podem ser impostas? que não se consegue introduzir nada por força? como se pode não ter humildade suficiente para se questionar? para não querer ver o óbvio? para não se perguntar se se é bem-vindo? para sentir que o sentimento, a vontade não são mutuas? regra geral, quando alguém se declara querer ser o nosso amigo, significa que não o é. e que não existe química ou magia nenhuma entre essa pessoa e nos. coisas assim ou se fazem automaticamente ou não se fazem de todo. não se as pode provocar. e quando são também não são precisas declarações. sabe-se com quem se pode contar e com quem não sem o dizer. é algo maior que as palavras.

sou adulta. bem organizada. com um senso bastante agudo de responsabilidade. e do que precisa ser feito em função das circunstâncias. gosto de dar os primeiros passos. de tomar iniciativa. quando não respondo a um email ou a uma mensagem, quando não ligo de volta, não é porque não vi. não é porque decidi que não era importante. não é porque prefiro tratar disso mais tarde. não é porque me esqueci. é, simplesmente, porque não quero. e o pior que se pode fazer nessas alturas é insistir ainda mais. deve ser uma das poucas coisas que me desencorajam na vida. mas totalmente. acho os excessos de zelo ou os zelos mal pensados insuportáveis. é impossível forçar-me a fazer algo que não quero. e irrita-me profundamente quando as pessoas tentam fazê-lo. e sou capaz da pior mentira, sou capaz de tudo, sem hesitações nem remorsos, para que me deixem em paz.

sábado, 27 de agosto de 2016

dubito, ergo cogito, ergo sum

um produto de invenção francesa com afinidades
para portugal, mais ou menos como eu, com
a diferença que tenho as minhas também
fora do campeonato europeu de bola 
tenho sempre ficado impressionada com pessoas que conseguiam definir-se sem problemas. com substantivos. definir-se com adjetivos é muito mais fácil. adjetivos só pressupõem um conhecimento de si próprio. podem mudar com o tempo, em função da pessoa em que nos tornamos. adaptam-se aos contextos. às circunstâncias. intensificam ou decrescem. são flexíveis. substantivos, quanto  a eles, descrevem a identidade. uma pertença. uma origem. são mais rígidos. mais pretos ou brancos. mais situadores no tempo. e espaço. mais indicadores de gavetas em que as pessoas nos colocam. mais pré-definidos. mais tudo ou nada. englobam muitas caraterísticas e mesmo sem corresponder a todas, cabe-se num molde. são mais definitivos. é difícil mudar quem se é.

por ter crescido entre duas culturas, essa carência identitária incomodou-me muito durante anos. nunca me senti pertencer a lugar nenhum. sonhava com poder identificar-me com um país, um grupo de pessoas. mas não só por teoria. não só pelas aparências. porque compartilhávamos um fundo comum. nunca aconteceu. e mais provavelmente nunca acontecerá. acho que já domestiquei este pensamento. as minhas dúvidas de pertença cultural não são a única razão pela qual me identifico com poucas coisas. é também culpa do meu individualismo. da minha paixão para ir a contracorrente. da importância que dou ao facto de não concordar. à vontade de seguir o que escolho, independentemente do que os outros pensam. no fundo, não quero fazer parte de nada. é só a ideia de fazer parte que me apetece, encanta e fascina. porque é tão inatingível. as coisas que nos impressionam mais nos outros são as que nunca vamos conseguir ser. e não é que não acredito na força da mente e no alcanço dos objetivos. é preciso estar consciente do que não se é. e não se esforçar a fazer coisas que não nos correspondem de todo.

sou pouca coisa. na lista de tudo o que podia ser, de tudo com que me podia identificar. mas esta pouca coisa é algo que valorizo. muito. oferece flexibilidade. liberdade. deixa não conformar. surpreende. autoriza-me a escolher o meu caminho em função das necessidades. mas mesmo assim, descobri ultimamente a força de alguns dos meus reflexos que não consigo contornar. e que não controlo. a minha cabeça foi programada pelos anos de dissertação cartesiana. pelos almoços ao meio-dia. pela convicção de que há maneiras bem definidas de comer croissants e tudo resto é só profanação. pelas canções do patrick bruel, do francis cabrel e da patricia kaas. pelos montes de palavras que me surgem na cabeça em momentos de grandes emoções e, às vezes, nem os sei dizer em nenhum outro idioma. ou não me vêm naturalmente. que eu me identifique com tudo isso ou até que ponto, já é outra história. mas cá está. uma grande parte dos meus reflexos culturais são franceses. quer eu goste, quer não. quer eu queira quer não. quer eu me reconheça quer não. paciência... mas isso, felizmente, são coisas de cabeça. e só de cabeça. o meu coração, quanto a ele, só fala português. e é o que me salva ;)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

colhões: crescê-los ou não os crescer eis a questão

estou na fila para pagar na bomba de gasolina. o homem à minha frente acaba de pagar e enquanto estou a dirigir-me ao balcão, outro homem lá aparece.  fura a fila. pergunto-lhe se está com problemas de visão e não tinha notado que havia uma fila. ah mas ele só tem uma coisa para pagar. eu também. seguem três minutos de exclamações sobre como as mulheres são hipersensíveis, como se as consegue irritar com um nada, como nunca se sabe como lhes agradar.

detesto esse tipo de comentários sexistas. quando um homem sabe o que quer é firme. decisivo. quando uma mulher o sabe, o diz em voz alta e não se deixa enganar, é emocional. irracional. demasiado irritável. suscetível. melindrosa. levanta a voz desnecessariamente. tem flutuações hormonais que obstaculizam o seu raciocínio. exagera. li uma entrevista com a christine lagarde que se queixou de ouvir esse tipo de comentários quando se opunha a algo de maneira cortante. pois...

fitei o homem e respondi que não era uma questão de sexo, mas de educação. ou mais exatamente da falta dela. que pelos vistos a cortesia era algo que os pais não lhe ensinaram. mas já que tocou no assunto do sexo, parecia-me que não se conseguia ver os colhões dele porque não os tinha. então se eu fosse ele, tomava atenção ao que dizia, porque a falta de colhões não era bem uma caraterística de mulher?

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

viver a vida

seguir desejos?
somos bombardeados pelos nossos sonhos. de todos os lados. férias de sonho. casa de sonho. telemóvel de sonho. corpo de sonho. trabalho de sonho. mulher/homem de sonho. carro de sonho. casamento de sonho. e pelas histórias de todas essas pessoas que já os conseguiram realizar. que deram uma volta ao mundo. que passaram tempo longe da civilização. que tiveram uma carreira de futebolista/cantor/ator com o dinheiro adequado na conta bancária. que deram uma volta de 180 graus ao dia-a-dia profissional para fazer o que sempre queriam fazer. pela felicidade suposta que isso lhes trouxe. pelos livros que escreveram sobre isso. pelos milhões de fotos que documentaram o processo e invadiram o mundo virtual. por sucessos tão fáceis. por decisões tão radicais. por irrealidades que se tornaram tangíveis. e que nos fazem projetarmos. questionar a nossa própria incapacidade. de agir. de mudar. de reinventar. de realizar os nossos sonhos. de sermos felizes.

estamos sempre à espera duma mudança para o melhor. dum ímpeto positivo. de algo que nos permita passar a outra coisa. de uma força transumana que faça uma diferença. que traga a glória. a popularidade. o dinheiro. o respeito. o amor. estamos inertes por medo de deixar passar esse momento em que tudo vai bascular. fitamos incansavelmente os nossos objetivos. não vemos nada mais. somos cegos. sem o saber. procuramos em nós essa coragem, essa obstinação. não encontramos nada. não há nada. nada em nós que nos deixe concretizar os desejos. está a ser difícil. perdemo-nos nas inumeráveis possibilidades. não sabemos que caminho escolher. ficamos frustrados. não queremos arriscar demais. não queremos perder as poucas coisas que já temos. não percebemos porque realizar os sonhos parece quase impossível. é quase impossível. é a culpa do mundo. do momento. das pessoas que nos roubam as oportunidades. do destino.

ninguém se diz que, se calhar, alcançar sonhos envolve algo completamente diferente. que não começa por intrepidez mas por uma sede de descobertas. por uma falta de expetativas. por uma curiosidade. por uma admiração. que nos fazem todas seguir o que a vida nos traz. e onde nos faz andar. é o que dá um impulso para tudo o resto. mas para o poder seguir é preciso deixar-se surpreender. desviar dos caminhos pré-escolhidos. improvisar. não ficar presidiário dos marasmos emocionais. saber abandonar os caminhos que não levam a lugar nenhum, as pessoas que não levam a lugar nenhum. é estar presente aqui e agora. aberto às possibilidades. atento aos suspiros. à luz do sol que brinca nas árvores. ao vento que sussurra segredos. é jogar com as cartas que temos na mão em vez de lamentar que não sejam as que queremos.

no final das contas, a vida é bem mais interessante que os nossos sonhos. e é quando esses últimos deixam lugar à realidade, quando a fantasia desaparece, quando se enfrenta o quotidiano tal como é, quando se vive o que se tem, quando se está pronto para a vida depois de inumeráveis desilusões a resultar de muitos sonhos que falharam, que a felicidade pode começar.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

sintonia do céu

gosto de vermelho. imenso. a usar roupa vermelha sinto-me mais inteligente, mais brilhante, mais divertida, mais bonita, mais perspicaz, mais tudo. mas a olhar para a imensidade azul do mediterrâneo, a respirar a maresia que traz, sinto nele uma força e um poder que o meu vermelho não tem. paciência.

nem sei por onde começa o fenómeno. nem sei se desta vez é a luz que é mais
um encontro
rápida ou o som. se é cheirar o mar ou o ver que faz primeiro despertar sensações tão fortes. se calhar é uma combinação dos dois. mas uma vez que os nossos olhares se cruzam, fico viciada. já não consigo deixar de olhar para ele. já não me apetece olhar para mais ninguém. já não quero procurar. tenho tudo o que me faz ficar feliz. podemos passar uma eternidade a fitarmo-nos. segundos que parecem não deslizar. que ficam imobilizados no ar. que desafiam as leis de gravitação universal. nunca cansados. sempre entusiasmados. curiosos um do outro. a nos redescobrirmos como se fosse pela primeira vez. a nos resaborearmos cuidadosamente, milímetro por milímetro, célula por célula, fôlego por fôlego, suspiro por suspiro. a não precisarmos de palavras, de gestos. taciturnos mas a preencher o espaço todo com a mera presença. a ficar perto um do outro. a se deleitar. a não autorizar nada mais na nossa equação.

tem um poder confortador em mim. apazigua as minhas ansiedades. sussurra palavras encorajadoras. abre os meus horizontes. deixa-me ver uma migalha de esperança lá aonde os olhos já não chegam. lembra-me como é importante ser humilde. sabe o que dizer para me dar a sensação de conseguir mover montanhas. para me inspirar. está presente quando me sinto desanimada. não impõe nada. aquece com o seu silêncio. preenche o meu coração com leveza. deixa-me com saudades. ensina-me a paciência. corta o meu fôlego. invade os meus pensamentos. faz-me esquecer tudo. encanta-me como só ele consegue. quer sentir que é o único dono dos meus dias. e das minhas noites. fica sempre à minha espera. um sorriso na boca. os olhos a transbordar de carinho. paciente. a deixar-me todo o tempo que quero. que preciso. até eu aceitar fusionar com ele. devagar. passo a passo. até formarmos um. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

s de sedutora

indeed...
não acredito em determinismos. nem em astrologias, que sejam ocidentais ou chinesas. nem em numerologias. nem em contos de fadas sobre chakras, energias ou o poder da crença e das cores. nem em fases da lua. acho-os limitadores mais que outra coisa. matadores de potencial. tristemente rígidos. baixos na sua impertinência de saber melhor. de se usurpar o poder de definir. mas como é importante conhecer um mínimo o que se refuta, tomei tempo para me informar sobre eles um bocado. e tudo isso em que não acredito, todas essas filosofias para pessoas perdidas na vida, dizem exatamente a mesma coisa sobre mim. sou sedutora. pois... sou. mas também não precisava ler nada para o saber. a sedução é algo que corre nas minhas veias. que inspiro. que expiro. que vivo. com que me divirto. muito. é um modo de estar. de ser. uma caça intelectual. uma leveza palpitante. uma energia. um carisma. algo que torna tudo mais dinâmico. mais colorido. mais palpável. mais eu, eheheh...

mas atenção, não estou a falar só da sedução sexual. nem só para com homens. flirto constantemente e da mesma maneira com todos. homens. mulheres. crianças. independentemente que eu goste deles fisicamente ou não. mas não a lhes prometer algo ou fazer crer coisas. adoro é a troca de ideias. de experiências. de inspirações. e só são realmente boas e eficazes quando houver alguma química entre interlocutores. e quem diz química, diz atração, tais moléculas que se completam para formarem elementos mais estáveis na natureza. adoro quando as pessoas gostam de mim. adoro ser o centro das atenções. mas só pelas razões que me interessam. há muitas em que fujo a toda a atenção potencial. quando são coisas que considero demasiado privadas.

mas a pessoa que quero agradar mais sou eu. gosto de estar pronta para a praia 365 dias por ano. para mim. e só para mim. gosto de me sentir ao cúmulo das minhas possibilidades todos os dias. tenho sempre tomado cuidado do meu corpo. desde os meus 15 anos. tenho gastado uma fortuna em tratamentos de hidratação e de manutenção. a considerá-lo um investimento. maior que roupa, maquilhagem ou outros. nunca fumei nem que seja um cigarro. nunca usei nenhuma substância ilegal. as minhas prioridades foram sempre extremamente claras. gosto imenso do meu corpo. não o alimento de merdas. só tenho um e deve chegar para a vida toda. acho treta todas essas pessoas que dizem não se importar com o aspeto que têm. a exibir estrias, celulite e gordura digna duma baleia nas redes sociais. a dizer-se orgulhosas. não há motivo para orgulho nenhum. mas há muitos para se mexer o cu. não sejamos hipócritas - somos animais gregários e precisamos sentirmos valorizados, apreciados, sedutores. faz pouco sentido negar essa nossa necessidade. e é preciso trabalhar duro para estar ao nível. claro que é um trabalho que nunca se faz em detrimento de coisas mais importantes. é só um corpo. um envelope. mas porque não fazer tudo para o melhor possível dentro do que a natureza nos deu?

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

poção mágica?

gosto de estratégias de fuga. na linguística. e só durante exames. não sou uma dessas pessoas que estão com medo de falar uma língua estrangeira por poder não dizer coisas certas. ou corretas. nunca percebi a preocupação com os erros. nem a procura da perfeição. a perfeição é extremamente chata. faz parecer todos uns como outros. apaga individualidade. tira beleza. adoro dar erros. quando corrigidos, fazem melhorar o meu nível. nunca seria possível sem isso. é preciso errar primeiro para encontrar o caminho certo. para saber qual é. mas durante os exames de língua, consigo dominar-me com uma precisão e meticulosidade quase robótica. faço conversões na cabeça. calculo equivalências. procuro o caminho mais seguro. elimino inovações potenciais. avalio demais. penso demais. a minha cabeça ferve. na vida de todos os dias arrisco, experimento, descubro; nos exames executo, faço o que é preciso para atingir o resultado, sou pragmática.

coragem
mas, fora dos exames, fugir não faz parte do meu repertório. nunca me interessou. foi mais ou menos aos dez anos que li uma frase de emerson que achei brilhante. faça sempre o que tem medo de fazer. desde então apliquei. lembro-me de muitas situações, na adolescência, as mãos suadas, o coração quase a explodir no peito, as pernas a tremer, e eu a pedir desculpas, fazer declarações de amor, insultar pessoas que o mereciam, reivindicar o que me era devido. nunca a hesitar o que deveria fazer. acho que sempre sabemos o que é preciso. é só que a maioria das pessoas preferem fingir que não sabem. para estarem automaticamente desculpadas pela sua inércia. torna tudo menos problemático. nem é preciso decidir, nem fazer. o assunto não existe.  mas eu, quando temo algo, é o primeiro impulso para fazer esse algo. um passo definitivo. já não é possível voltar. já não tenho escolha.

na altura em que sei o que deve ser feito, qual é a escolha certa, não posso não fazer. não consigo não fazer. não me aguentaria a não agir por conforto próprio, por medo de dificuldades, por presumíveis perdas de simpatias ou de privilégios. acho que a coisa mais preciosa que tenho é esta sensação, a fitar os meus olhos de manhã a escovar os dentes, de saber que não tenho traído nenhum dos meus sonhos da infância, que fui sempre fiel a mim própria. é algo que não tem preço. e basta muito pouco para o perder, então devo ser extremamente cuidadosa. porque fazer coisas que se desdenhava é cair tão baixo que se acaba por desdenhar-se a si próprio. e é um caminho que não quero seguir. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

falta de...

...nada...
não chove há muito tempo. pelo menos quarenta e cinco minutos. é alucinante como uma pessoa pode habituar-se aos pormenores, ao quotidiano, às coisas sem objetivo preciso que flutuam no ar, no sangue, nas almas. nem se pensa nisso. nem se o leva a sério. e quando o fenómeno para, somos submergidos por uma falta imprecisa. pode-se tatear uma diferença sem conseguir descrevê-la. sente-se uma saudade sem saber de onde vem. nem porquê. as coisas que começam a faltar são sempre pequenas. dificilmente percetíveis. são precisos sentidos bem desenvolvidos para perceber as mudanças. um barulho discreto, um cheiro quase indiscernível, um sabor que tarda a ir-se embora. pequenos nadas. ninharias. que só começam a existir quando já não estão. quando já não são. quando já ninguém se lembra deles. quando já é tarde demais.

há coisas que não vale a pena combater. há tendências que nunca podem ser mudadas. há elementos que parecem estáveis, imóveis, independentemente da configuração das estrelas, do sentido do vento, do sabor das palavras, da luz a bater nas janelas. tentar enfrentá-las era uma perda de tempo, de energia, de recursos. um mau cálculo. uma aberração. um erro. uma loucura. não serve ficar zangado. nem falsamente desprevenido. nem chateado. nem horrorizado. nem outra coisa. não serve fugir. ou fingir que não se nota. nem fechar os olhos com abnegação, a esperar que desapareçam. às vezes, a indiferença é uma reação forçada, quando já não se sabe o que se pode ou deve fazer.

a única solução viável é aprender a geri-las. a não se queixar. a ziguezaguear entre elas. a não prestar atenção. a domesticar a sensação que dão. a habituar-se. a ver nelas pormenores que não têm influência nenhuma. em nada. e sobretudo não em nós. parasitas do quotidiano. sombras da realidade. fantasmas da natureza. não é perder. não é abandonar. não é admitir que não seja importante. não é renunciar. não é mergulhar na passividade. é abrir as asas na impertinência da vida. na limitação do dia-a-dia. na constrição das possibilidades. é respirar fundo. é não responder quando fingem que nos estão a chamar. é sorrir. é sussurrar paciência. é vencer. 

domingo, 17 de julho de 2016

uma

sem-número?
não acredito em segundas oportunidades. por princípio. as pessoas não mudam. só as podemos aceitar como são. ou não as aceitar. gastar energia a tentar moldá-las como nos apetecia que fossem é uma perda de tempo. e de energia. é mais uma questão de quando vão ter o mesmo comportamento e não uma questão de se o vão ter. não há se nenhum. tudo está claro. é sempre um atrapalhar no tempo e espaço, um regressar à casa de partida.

também não acredito por experiência. nas poucas vezes que dei uma segunda oportunidade, as pessoas acabaram por se comportar exatamente da mesma maneira. e por me decepcionar outra vez. ou mais exatamente foi estupidez e ingenuidade minha. esperar que as coisas fossem diferentes enquanto nada indicava que o pudessem ser. na verdade, não é que me decepcionaram de novo. fiquei decepcionada comigo por ter tido expetativas erradas. inadequadas. irrealistas. por não ter afrontado a realidade tal como se apresentava. por ter embelezado. por ter acreditado em algo enquanto tudo em volta de mim apontava para o contrário, gritava o contrário.

deveria haver limites de surdez e de cegueira. mas todos os ultrapassamos. cuidadosamente. delicadamente. regularmente. fingimos que são os outros que nos apanham desprevenidos. não percebemos como aconteceu. não nos lembramos que já tinha sobrevindo. recusamo-nos a acreditar que possa ocorrer outra vez. decidimos não prestar atenção à luz vermelha que pisca freneticamente na nossa cabeça. continuamos sempre a fazer a mesma coisa mas a ficar à espera que os resultados sejam diferentes. que as pessoas mudem, que não sejam iguais a si próprias. uma loucura. pura. a equação acaba por ser muito simples. ou aceitamos o que vemos ou mudamos de pessoa. em função do peso do que há para se aceitar. e para se perder. tudo o resto é simplesmente mentira.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

(des)pudor

poucas são as coisas mais bonitas
há alguns dias fui à casa duma conhecida. sentei-me numa cadeira muito baixa na varanda a tomar chá e falar. numa altura o filho dela, já quase adolescente e autista, e que eu via pela segunda vez na minha vida, veio por atrás de mim, cheirou o meu cabelo, comentou que cheirava bem e passou o resto do tempo a dar voltas atrás da cadeira, a tocar no meu cabelo ou braço de vez em quando. com um sorriso nos lábios. detesto quando se me toque no cabelo. pelo menos normalmente. adorei a atitude do rapaz. havia nesse gesto algo de tão honesto, simples, despudorado, contrário às normas, que até fiquei comovida. uma pitada de afeição não escondida por nada. não ocultada por convenções. não poluída por palavras. não distorcida por aparências. não esmagada por hipocrisia. 

a simplicidade é o que há de mais refinado. e mais difícil para se encontrar. as coisas em estado puro, nuas, sem a cacofonia desnecessária dos deverias e dos seria melhor, sem a preocupação do que se vai pensar ou fazer, cegam com a sua luz. ensurdecem com a sua intransigência. chamam pelos nomes. destacam-se em silêncio. palpitam entre as mãos. exigem muito. é preciso qualidade para não ter de embelezar. coragem para aguentar a solidão. integridade para não desesperar. conhecimento para não mentir. convicção para respirar fundo. é uma força avassaladora que não precisa de nada mais. que não pede desculpas. que não perde tempo com ninharias. que fita os olhos no essencial. que sabe o que quer. que não precisa de engrandecimento. só é. a emitir um calor constante. a guiar no tempo e no espaço. e isso chega. amplamente. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

declarações (públicas) de impostos

uma conhecida anunciou-me hoje que o namorado tinha pago uma quantia x (e isso não incluía o preço do voo, como me foi explicado) para passarem dez dias no hotel mais caro duma ilha do mar mediterrâneo. e num quarto com jacuzzi privado. uau... fiquei sem palavras.

é que eu, perante tais declarações, realmente não sei o que dizer. felicitá-los pelo dinheiro que têm? lamentar a falta de classe dela? perguntar-lhe se não se apercebeu que os colegas dela, que também estavam a ouvir essa conversa, de certeza não tinham as mesmas capacidades financeiras e se calhar ficaram tristes ou reduzidos ao saberem que nunca iam conseguir pagar tanto por férias?

e porque é que ela me conta essas coisas? não me interessam os pormenores de onde ela descansa. ainda menos por quanto. é uma informação inútil. é para eu ficar impressionada? é que nem entro em piscinas nem jacuzzis porque, por definição, não tomo banhos nos xixis das outras pessoas. não gosto de estadias em hotéis com pensão completa. é algo para pessoas pouco curiosas da vida que só querem comer a mesma comida que em casa (com algumas pequenas variações para lhes oferecer a ilusão de viverem perigosamente) e repousar o rabo em espreguiçadeiras a contemplar de longe o azul-turquesa duma piscina e pensar nos problemas do primeiro mundo. ambos são passatempos cruelmente chatos. não é a minha praia.

o que me apetecia realmente dizer é que essa viagem parecia demasiado barata e que se eu fosse no lugar dela, nunca aceitava lá ir. de certeza conseguia-se achar algo ainda mais caro. com piscina privada? ou ainda melhor - com mar privado (e não só uma praia, isso é para fracassados, com o mar todo)? mas calei-me, porque achei que ela nunca ia perceber. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

a sério?

zonas de desconforto
nunca percebi essa história de uniformes, de códigos de vestuário. no caso das forças de segurança e de profissões de salva-vidas até faz sentido. na altura de perigo para a vida é importante conseguir imediatamente localizar uma pessoa que possa ajudar. também nas profissões em que se suja muito compreendo. e nessas que se exerce no meio da multidão, tipo aeroporto ou hotel. não estou a dizer que gosto, mas é verdade que também impõe alguma ordem. mas no resto dos casos é uma abstração total para mim. essa ideia de parecer fazer parte dum todo, ser um, personificar a empresa, não me convence. nem interessa. matar a individualidade? a criatividade? para quê? quando passo tempo em empresas em que todos parecem usar (ou até usam) o mesmo modelo de fato, de camisa, de gravata/cachecol, de meias (?), de cuequinhas (?) e as mesmas cores etc. tenho a impressão de estar num filme de ficção científica e pergunto-me sempre se todos também recebem cada manhã, a chegar ao trabalho, um comprimindo para suprimir as emoções e lhes fazer ficar ainda mais parecidos uns com os outros...

achei sempre que esses códigos eram feitos por pessoas frustradas e complexadas. quem é que tem tempo, energia e jeito para se interessar pelo comprimento da roupa ou na altura duns saltos de outras pessoas? deve-se realmente não ter mais nada para fazer. pessoalmente, nem me interessa se as pessoas usam roupa interior. tenho coisas mais palpitantes para fazer na vida. percebo a parte do elegante. percebo a parte do fácil porque já não é necessário verificar se todos os empregados estão a ser suficientemente representativos. percebo que muitos gostem do facto de não ter de ponderar o que vestir. mas eu não me sinto confortável a usar roupa que não escolhi. não me sinto confortável a fazer coisas que não escolhi. e o não me sentir confortável tem um impacto sobre o meu bem-estar. e a qualidade do meu trabalho. então é realmente o que querem? o que importa mais?

a minha história de abusos de dress codes é comprida, irrequieta, cheia de insolências e mentiras (é que qualquer argumento é bom para fugir a essas regras débeis). às poucas vezes que trabalhei para a conta de outrem, no início olhei  sempre para o regulamento interno. mais exatamente para o capítulo do vestuário (tenho pouco interesse por regulamentos de todo género; vejo-os como limites mais que outra coisa). é que gosto de quebrar as regras conscientemente. é mais divertido que fingir que ups, não sabia, não li, não tinha nenhuma ideia. e também para ver que absurdos é que achavam que eu ia cumprir. saltos não mais altos que 5cm. o meu professor de desenho de sapatos, que trabalhou dez anos na itália (a terra dos sapatos), costumava dizer que não havia coisa pior que usar um salto médio e que nessas alturas já era melhor não usar salto de todo. obedeço a essa regra com uma dedicação e uma meticulosidade religiosa. é uma das poucas que sigo cegamente. deve bem haver alguma.

no ano passado uma pessoa com quem eu trabalhava queixou-se ao diretor que os meus vestidos eram demasiado curtos e os meus saltos demasiado altos. que eu era a própria incarnação da indecência. eheheh. até me senti lisonjeada. não sabia que alimentava tantos interesses (ou mais exatamente ciúmes...). porque teria sido incapaz de dizer o que usava a pessoa que se tinha queixado. mas a parte ainda mais interessante é que nem o diretor me deu qualquer reprimenda nem os outros empregados, que sabiam que a pessoa tinha apresentado uma queixa, se atreveram a dizer-me que uma tal situação tinha ocorrido. uma colega acabou por contar-me tudo no dia em que lhe disse que o diretor passou um bom momento a fitar os meus sapatos. pelos vistos todos estavam com medo de mo dizer. fiquei muito dececionada. teria adorado ter uma conversa tão absurda. perguntar o que a minha roupa tinha a ver com as minhas competências. ou a falta delas. desde quando era assim que se as julgava. e, finalmente, teria adorado que me pedissem para a mudar. porque a resposta teria sido fora de questão. não sou as compras no supermercado. não se pode escolher as peças que mais apetecem. sou um conjunto. um todo que só se segue a si próprio. um complexo indesmontável. devo respeitar que haja pessoas que se queiram identificar com uma empresa? muito bem. respeitem que eu queira identificar-me comigo. e só comigo.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

vox populi?

dono da situação
uma das perguntas às quais todas as pessoas devem responder a si próprias numa altura ou outra é para quem vivem. quem escolhem ouvir. cujas expetativas vão preencher. quem querem ser na vida. não profissionalmente, não socialmente, não humanamente. mas egocentricamente. nas suas cabeças. definir-se assim faz parte de se tornar adulto. ensina responsabilidade. faz tomar decisões das quais não se gostava no início. obriga a deixar para atrás pessoas que não nos tratam como manda a lei. faz olhar para a realidade tal como é, sem embelezar nem suavizar. sim, deixa um sabor amargo na boca. mas já não se perde. só se a limpa depois para que seja o mais aguentável possível. também para conseguir esquecer-se temporariamente dele.

todos chegamos à conclusão quem somos. mais cedo ou mais tarde. não acredito que não se o saiba. é só que a maioria das pessoas prefere fingir que nunca aconteceu. começa a acelerar o passo, olha numa outra direção e espera que os outros não tenham notado nada. ou mente sobre o que descobriu. escolhe viver uma ilusão. ser outra pessoa. impõem-se limites. regras. fantasias. em nome de quê? duma paz interior? duma acertação geral? duma sensação de fazer parte dum tudo? dum medo de dececionar, sobretudo a si próprio? preferem ser falsas. acham isso um menor mal. julgam oferecer o melhor de si. optam por esconder as partes que acham feias. ou vergonhosas. e quando a fachada cai, o que sobra? nada.  nicles. zero. é que tudo isso vale pouco quando não se tem a coragem de se assumir.

eu sei, é tão fácil dizer tudo isso quando não se vive dramas verdadeiros que se pudesse querer esconder. mas o problema é que, ao resguardar algo, é a pessoa que o faz que qualifica sozinha o tal algo de vergonhoso. indica que tem razão para o fazer. predefine o que acha indesejável. diminui-se sem que lho peçam. pede desculpas antes do tempo. conclui sem nunca apresentar argumentos. sinaliza algo de errado, de mau, de impróprio. mas esse errado, esse mau e esse impróprio começam na sua cabeça. e ditam isso aos outros. torna-as presidiarias sem muros. cria obstáculos invisíveis. arruína a noção que têm de si próprias.

é difícil sentir-se rejeitado pela sociedade. é difícil saber que não se tem as mesmas oportunidades. é tentador fazer-se passar por alguém de quem todos gostam. que todos admiram. que muitos desejam. mas a pior coisa que pode acontecer é rejeitar-se a si próprio. é definir-se confins. é achar que não se tem direito a algumas coisas. é abandonar-se. é não gostar incondicionalmente de si. é não ousar ser quem se é. é não viver a sua vida. para mim é o maior drama. porque ao fazê-lo, indicamos a todos que não valemos a pena. que somos uma vergonha.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

um. dois. três.

dal momento che l'amore e la paura possono difficilmente coesistere, se dobbiamo scegliere fra uno dei due, è molto più sicuro essere temuti che amati. niccolò machiavelli 


nunca acreditar nas aparências
uma conhecida ligou-me hoje, quase a chorar, porque as pessoas do trabalho que ela achava leais, acabaram por não o ser. que surpresa...

primeiro, não sei lidar muito bem com as pessoas que choram. o meu reflexo é sempre dizer para elas se acalmarem e só depois voltarem a falar comigo. vejo as lágrimas como símbolo de desespero irremediável. um sinal que já não há mais nada para fazer. que a situação é irresolúvel. por isto, em situações que não sejam verdadeiras tragédias, são uma perda de tempo e de energia.

segundo, não percebo o espanto quando se descobre, supostamente de repente, que as pessoas são traiçoeiras. claro que o são. tudo serve para esconder os seus complexos e inseguranças. para lhes dar a importância que não têm. e um sentido de poder efémero e tão pérfido como elas mesmas. a vida é feita assim. não há nada para fazer. só se deve estar adequadamente preparado para isso.

terceiro, fico surpreendida perante a reticência a trabalhar com essas cobras. partir-lhes a cabeça no momento em que pela primeira vez estão a tentar foder-nos ou desfazer-se de nós, é um prazer incrível. uma delícia. tratá-las de exatamente a mesma forma. e pisar nelas. para que percebam. aprendam. fiquem com medo. é um jogo. um divertimento. e só tem uma regra - ser primeiro e parecer capaz de tudo.  

terça-feira, 31 de maio de 2016

flutuações

uma beleza frágil 
a vida é feita de perdas. é um labirinto em que nos desfazemos constantemente de tudo que tem algum valor. que o queiramos ou não. amigos, amores, noções que tínhamos das pessoas, das coisas, esperanças, medos, expetativas, às vezes valores (mas espera-se que estes últimos fiquem). claro que são substituídos por outros. no universo, os lugares vazios não existem. estão de repente preenchidos. as partículas mexem-se freneticamente para conseguir ocupar mais espaço. ou um melhor sítio que dê aos electrões a oportunidade para saltar para níveis energéticos mais altos.

mas mesmo a serem preenchidas, mesmo assim, continuam a ser perdas. carências. incertidões. vacúolos emocionais. desaparecimentos. saudades. coisas e pessoas que são substituídas, mas nunca voltam a ser. nunca podem ser recuperadas. são caminhos que se separam, pontos de vista que discordam, personalidades que já não se aguentam, já não se completam, já não compartilham os mesmos sonhos, já não precisam uma da outra.

vejo muita pouca televisão e só vi uma entrevista com a oprah na minha vida, mas gostei do que ela disse. que quando as coisas andavam mal entre duas pessoas, a pequena luz vermelha na nossa cabeça sempre nos dava sinais que havia discrepâncias potenciais. o problema é que, na maioria das vezes, escolhemos ignorá-la. mas a pensar nisso quando a relação está a beira de acabar, conseguimos reconhecer o primeiro sinal de socorro. sabemos quando iniciou o fim. o que começou a desvanecer.

perdas parecem epitomar a pena, a dor de coração, o desespero. algo que temíamos sempre em criança, porque achávamos os amigos e os amores eternos. se calhar não todos, mas pelos menos alguns. mas visto de longe, as coisas não são bem assim. há algo de tristemente bonito, uma suntuosidade refinada, na separação, que se trate de amigos ou de amantes. no facto de se ter completado tanto que se chega na altura em que já não se completa mais. em que já se ultrapassa. em que os caminhos se separam. em que a amizade ou o amor já não são suficientes. em que as amarras precisam ser cortadas. um esgotamento. uma fartura. uma irritação.

como é que se lá chega? como é que se aceita deixar tudo o que se tinha nas mãos? como é que cortar parece a opção mais desejável? é que os outros já não são o que eram? é que não somos o que éramos?

tenho sempre achado que as pessoas faziam parte da nossa vida só durante um tempo determinado. não acredito nos sempre

terça-feira, 24 de maio de 2016

esconderijo

detesto as pessoas que se dizem amigas mas que julgam. que me julgam. e o pior é que nem se atrevem a dizer diretamente e explicitamente o que pensam, do que não gostam, o que lhes incomoda. vem na forma de pequenos comentários pseudo-desinteressados, pseudo-despreocupados, pseudo-inocentes que são inapropriados e visam a magoar, mas a fingirem que não, é só carinho, na verdade não lhes importa o que fazemos da nossa vida. que se fodam.

eu sei que julgamos todos e tudo. constantemente. mas sempre faço um esforço para não comentar a vida dos amigos e conhecidos, porque não me diz respeito e tampouco tenho o monopólio de saber. quem sou para me pronunciar sobre isso? mesmo que discorde com as elas. não comento as relações de merda, nem os filhos que foram feitos para as salvar, nem as mentiras em que se escolhe acreditar para não enfrentar a realidade. não comento os fanatismos religiosos, a falta de ambição, as escolhas fáceis, os modos de sobreviver em vez de viver.

então vão à merda. ou me confrontem. e vão à merda depois, a se asfixiarem nas suas incertezas e medos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

late bloomer

demoro sempre mais tempo do que todos os outros em quase tudo importante.
deixar tempo ao tempo
não no dia-a-dia. não nas decisões. não nas tarefas profissionais. não na motivação. não na rapidez de fazer as coisas. no tempo levado para explorar o meu potencial. no perceber como o desabrochar. no chegar à leveza necessária. no definir dos meus fortes e no pô-los em prática. acho que só foi na casa dos meus 35 anos que percebi o que me dava energia e o que a tirava, de que tipo de trabalho gostava mais, que estilo de roupa me ficava melhor etc. não é que antes não percebia de todo, mas foi a altura em que reparei nisto de maneira mais consciente. gosto muito do que disse o steve jobs, da noção de conectar os pontos da nossa vida para trás. de olhar para o passado e dar um sentido a todas as coisas que aconteceram. de compreender como nos fizeram chegar a onde estamos. como construíram, passo a passo, a pessoa quem somos.

nunca tive realmente dúvidas onde desenhar esta fronteira, a do eu. conheço as suas grandes linhas há muito tempo, desde que percebi de que nunca queria abdicar. mas depois, dentro destes limites, levei tempo. muito tempo. ou pelo menos mais tempo do que todos. para encontrar o meu ponto de conforto. definir as expetativas. descobrir a combinação única. construir um equilíbrio quase indestrutível. e deleitar-me com isto. é que não chegar a meios-termos requer tempo. requer autoconhecimento. requer paciência. tenho sempre querido ser honesta comigo. perceber o que ficava por trás dos meus entusiasmos, das minhas zangas, dos meus medos. escolher conscientemente e de acordo comigo. e só comigo. para o alcançar, era preciso fazer erros, tentar coisas que acabava por detestar, acabar com o que não dava em nada, recomeçar do zero, cada vez a limitar mais a pesquisa. se calhar sou tão lenta, porque me faço perguntas a mais. ou procuro coisas que não interessam a ninguém. mas devo dizer que cada dia estou a gostar mais das conclusões que tirei. e do meu potencial.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

(in)decisões

ultimamente, na fila num café, o homem à minha frente levou alguns bons cinco minutos a ouvir, descontente e insatisfeito, mas com uma atenção religiosa como se o futuro da humanidade dependesse dessa decisão, as numerosas opções de bebidas. e acabou por pedir ... um chá sem chá, algo que nem fazia parte da lista enumerada. e que, claro, não havia. a consternação dele chegou ao seu cúmulo. perdeu todos os pontos de referência. ficou ultrapassado pela realidade. já não sabia o que dizer. até não havia mais nada para dizer. foi apanhado desprevenido. ficou angustiado, frustrado. escolheu afogar-se numa pequena colher de água. e conseguiu.

muitos são os que o conseguem. entram em pânico por um nada. tropeçam em problemas que criam sozinhos. escondem-se debaixo de mesas a esperar não serem vistos, num surto de ingenuidade infantil. lamentam perdas insignificantes. abandonam sem refletir. fingem não saber o que se lhes quer. desmaterializam. desvanecem. perdem interesse. falam com rodeios. não respondem. agem por omissão (acho que há poucas coisas bem piores). tornam-se incoerentes. inventam tretas para ganhar tempo. não respiram. deixam para mais tarde. levitam num tempo morto a achar que é o que lhes vai salvar.

para quê todo esse circo? para evitar tomar decisões. o mal supremo. quando apresentam o a e o b, a melhor escolha é simplesmente não escolher. escolher é difícil. leva consequências. responsabilidades. pensamento. maturidade. muda tudo. se calhar a não escolher evita-se a escolha mesma. deixa-se a vida decidir por nos. pelo menos espera-se que isso aconteça, porque tornaria tudo mais simples. a decidir, poder-se-ia provocar o fim do mundo. ou pelo menos das coisas conhecidas. precisar-se-ia sair da zona do conforto. andar no desconhecido. que horror.

não percebo é porquê. já não temos influência em tudo, porque não a exercer quando for possível? porque não optar por algo, só para poder avançar? descobrir? melhorar? erros são inevitáveis. mas também se tem sempre a hipótese de mudar de opinião. de querer outra coisa. de escolher outra vez. de aprender com o erro. muitas vezes, são decisões que quase não têm impacto nenhum, não é que, cada vez, alguém esteja a querer passar a vida connosco e a nos pedir em casamento. e mesmo se for, divórcios existem.

o pior que se possa fazer, é não decidir.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

mostra-me o que tens para dar...

... e digo-te quanto vales.


li uma vez um artigo de sociologia que explicava que quando uma rapariga bonita passava na rua, todas os homens olhavam para ela e o sociólogo era esse individuo curioso que, em vez de olhar para a rapariga, preferia olhar para os homens, para avaliar a reação deles ao verem a tal rapariga. devo admitir que gosto muito de observar as pessoas, sobretudo em situações complicadas em que se tenta marcar o seu território. ou impressionar. ou quando se acha que ninguém está a olhar. muitas vezes, nota-se comportamentos absolutamente egoístas e patéticos. a potencial hipótese de fama e de ascensão social ampliam quem somos. porquê? porque a estar tão perto do que é mais cobiçado (que levem a mão os que não queriam ser famosos ou ricos ou ainda melhor - ambos), ficamos tão fascinados pela nossa própria soberbia e genialidade que nos esquecemos de filtrar e controlar o nosso comportamento. se calhar até julgamos que já não é preciso fazê-lo, não é preciso manter aparências ou controlo sobre nos, porque todos já queriam estar no nosso lugar.

maneiras mais atraentes
há pouco tempo, fui a um encontro onde havia algumas pessoas famosas. numa altura notei duas raparigas um pouco gordas e não especialmente lindas com decotes que chegavam até ao umbigo. percebo que se possa querer exibir os trunfos. sobretudo quando se acha ter poucos. mas nunca é bom resumir-se a eles. deve-se ter mais dignidade do que isso. deve-se apresentar mais do que só o banal. não se desperta a atenção verdadeira das pessoas a oferecerem-se imediatamente a todos. sem limites. sem privacidade. sem se valorizar. ninguém respeita os que não se respeitam a si próprios.

tive uma aluna que a chegar à aula, costumava cuidadosamente pôr a mala, duma marca muito conhecida e cheia de logos, na mesa e já não dava para lá pôr outra coisa. a mala ocupava a superfície toda. eu achava isso muito divertido. que em vez de privilegiar a aprendizagem, em vez de se descobrir e procurar horizontes novos, se pudesse focar num objeto completamente insignificante. caro, certo, mas sempre só um objeto. além disso, um objeto feio. nunca percebi essa predileção para os logos. era como usar roupa sem tirar a etiqueta do preço. era dar-se um valor, pôr-se um rótulo, resumir-se ao superficial. cada vez que vejo alguém cheio de logos quero perguntar-lhe se já pensou em se tatuar o tal logo na testa, assim era impossível não o ver. lógico, não é? as pessoas que sentem a necessidade de se gabarem e manifestarem à humanidade inteira como são fixes, matam todo o interesse que eu possa ter nelas e isso durante os primeiros três segundos. porque quando já não há mais nada para se descobrir numa pessoa para que serve o relacionamento?

quarta-feira, 20 de abril de 2016

(in)compatíveis?

decorações de natal em outubro...
a nossa sociedade é o que há de mais consumidor. o epítome do gasto. substituir bens é um dos nossos passatempos preferidos. e tão fácil. e já quase pseudo-natural. sempre fizemos assim, não fizemos? poupa tempo e energia. poupar tempo tornou-se numa obsessão. ficamos descontentes todas as vezes que somos forçados a fazer mais esforço que só reinar a nossa vida com uma série de cliques e de delete (frenéticos, os delete). quando algo se avaria ou parte; quando não serve; quando não preenche todas as nossas expetativas, mesmo as nunca exprimidas, escondidas nas complicações da mente; quando já há uma versão mais nova ou mais atraente; quando já não interessa; quando ficamos aborrecidos por uma razão qualquer ou sem razão; quando requer demasiado trabalho ou simplesmente algum trabalho; quando não temos nad para fazer, compramos outra coisa. e jogamos fora o que já achamos não precisar.

e não se limita só aos objetos ou serviços. prosseguimos da mesma maneira com pessoas. sic. quando lhes detetamos defeitos, imperfeições, coisas que nos incomodam, das quais não gostamos, quando percebemos quanto trabalho e concessão a relação vai exigir, quanto vamos ter de mudar ou adaptar, acabamos com ela. nem nos passa pela cabeça que se pudesse simplesmente resolver a situação. para o quê? há uma multidão de pessoas prontas para se tornarem o nosso próximo amigo ou parceiro sem exigirem esse trabalho todo. ou pelo menos é o que parece. ou o que gostamos de pensar. temos a impressão de ter o mundo aos nossos pés, acesso a todos e hipóteses e oportunidades indefinidas. que ilusão... infelizmente o simples não se consegue aplicar em todas as alturas.

ao ultrapassar a barreira do superficial, ao entrar no honesto, na dedicação, há sempre um preço a pagar. um tempo a levar. umas coisas para abdicar. uns esforços para fazer. umas dificuldades a solucionar. claro, é mais fácil abandonar. mas perde-se muito. há laços que só se criam com descobertas profundas e muitas vezes negativas. consegue-se separar os verdadeiros amigos dos supostos durante períodos difíceis em que perdemos o nosso encanto quotidiano. além disso, a perfeição é algo de extremamente chato. o que torna as pessoas interessantes são os defeitos delas. e a intensidade desses últimos. faz toda a diferença. por isso não se consegue substituir tudo. nem todos.

é só possível viver coisas novas. ou diferentes.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

g de guerreiro

destiny is not a matter of chance; it is a matter of choice. it is not a thing to be waited for, it is a thing to be achieved.

vi frozen com a filha de uns amigos. não gostei. mas de todo. não percebo o fenómeno cultural, o interesse, as tshirts, os gadgets, a popularidade da canção principal. não vi nada de encantador ou inspirador na história, nas personagens, na mensagem. não me identifiquei com ninguém. não quis ser ninguém, mesmo que fosse durante um breve instante. não entendi o propósito. não aprendi nada. foi uma perda de tempo.

when the going gets tough,
the tough get going
nunca gostei de princesas. são chatas. passam a vida a pentear o cabelo e ficar à espera que alguém as salve. era muito mais interessante vê-las salvar-se a si próprias. acho que na vida se deve ser muito mais que só lindo e incapaz. para conseguir influenciar o seu destino. desde a infância fui inspirada por guerreiros. quis ser o don diego de la vega, o simon templar, o luke skywalker. dormi com uma faça debaixo da almofada e corri, durante anos, com uma mochila de 10 kilos porque o meu sonho era fazer parte dos navy seals.

fascina-me como a mente consegue fazer ultrapassar obstáculos, que sejam físicos ou psicológicos, nas outras pessoas ou em nos. sobretudo que isto parece eludir à quase todos. falta-lhes determinação. e perseverança. e sobretudo fé. nunca percebi isso. como se podia abandonar mesmo antes de ter começado. achar que nunca se ia conseguir antes de fazer uma primeira tentativa. desistir sem se esforçar. perder sem lutar.

adoro quando as coisas são difíceis. se algo for simples ou evidente, perco imediatamente o interesse. a alcançar um objetivo, gosto do processo, do esforço, da pressão, da caça, do desafio, dos erros com os quais aprendo, da confrontação. quando for alcançado, quero passar ao seguinte. é o que me motiva mais. gozar dos êxitos não faz tanto parte da minha natureza. posso dedicar cinco minutos a isso. mais era uma perda de tempo, porque já atingi o que havia para atingir. o que me alimenta não são sucessos. não é estabilidade. não é prestigio. não é o fácil. não é conforto. não é poder.

é a luta.

domingo, 10 de abril de 2016

com ou sem

com a expansão das redes sociais, quase todos podem oferecer-se o luxo do
um equilíbrio frágil
narcisismo. apresentar-se em forma de migalhas atraentes, excitantes, cobiçadoras, coladas juntas de maneira mais ou menos hábil, que possa não deixar transparecer a realidade. é mesmo aconselhável para os outros não ficarem dececionados. todos querem ser o mais fixe possível.  e  sentem a necessidade de falarem disso. para convencerem todos e si próprios que é bem assim. a classe e o bom gosto são o que todos acham ter, mas que poucos têm.

como o conceito de classe (e também do bom gosto, mas nesse caso há muito menos ambiguidades e incertezas de nomenclatura) é algo ao que ligo muito, ultimamente ponderei algum tempo o que ficava por detrás dele, o que significava ter classe. as coisas básicas, as que nos rodeiam todos os dias, são muitas vezes as mais difíceis para definir. quis conseguir resumi-lo numa ou duas palavras sós. não foi tão fácil. capturar a essência de algo tão volátil mas ao mesmo tempo a cobrir áreas tão diferentes. e culturas diferentes. constringe muito na escolha de definição. e faz refletir. o vestir-se bem, o ser educado e culto, o saber comportar-se, o respeitar de limites soam todos muito bonito, mas não tocam na natureza da classe. são todos manifestações dela. não o seu núcleo.

ter classe é não ostentar. não exibir. seja dinheiro, poder, capacidades, beleza, inteligência, conhecimentos, proezas. é não dizer a ninguém tudo o que se é. nem o fazer perceber. nem precisar de o fazer. é ter mais do que se mostra. é dizer menos do que se sabe. é não ter a presunção de ser mais do que se é realmente. é não esperar tratamentos excecionais. é não achar que se tem direito extraordinário a eles. é fazer as coisas humildemente só para as fazer, de maneira desinteressada, sem procurar méritos, sem procurar aplausos, sem afagar o seu próprio ego. é não tomar nada nem ninguém por garantido. é saber calar-se quando for preciso. é algo que só se consegue alcançar com auto-disciplina e auto-conhecimento. é respeitar-se a si próprio, aos outros e ao que a vida traz.