quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

quatro pernas

só recentemente aprendi que o leszek queria realmente estudar filosofia. mas em 1968, depois dos acontecimentos em praga, a faculdade de filosofia da universidade de varsóvia fechou as portas e só aceitava estudantes de pós-graduação. então acabou por estudar química.

a vida é como a bola. todos temos objetivos e queremos marcar os nossos golos. às vezes cometemos faltas, arriscamo-nos, recebemos cartões amarelos ou mesmo vermelhos e ficamos infelizes por isto. de vez em quando sofremos
always be a jedi knight :)
autogolos, são-nos marcadas grandes penalidades ou estamos fora de jogo. não significa que sejam as nossas dificuldades que triunfam e que já não sejamos bons para nada. mesmo a perdermos no fim da primeira parte, ainda podemos ganhar o jogo. mesmo que a vida multiplicasse os cartões e os árbitros cegos.

normalmente, ao andar na rua, estou sempre a ouvir música e a perder-me nos meus pensamentos. e quanto mais intensamente penso, mais rapidamente ando. mas no verão tive de mudar de ritmo e de hábitos por causa das muletas. por ter ambas as mãos bem ocupadas, já não conseguia fazer outra coisa (além de percorrer distâncias com a rapidez digna duma tartaruga jeitosa). nem atender as chamadas, nem ouvir música (porque precisava ouvir os carros que se aproximavam), nem pensar demasiado por necessidade de dedicar toda a minha energia e atenção ao ziguezaguear entre carros muito mal estacionados e pessoas. e a enfrentar inumeráveis obstáculos - portas pesadas, escadas sem fim, malas a levar (continuei sem dominar até ao fim); a bloquear multidões de pessoas com o meu passo devagarinho quando era preciso andar rapidamente.

foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido. mudei de perspetivas e de ponto de vista. abandonei o meu ritmo frenético. concentrei-me no que estava a acontecer em volta de mim porque o meu conforto dependia disso. pude insultar (e devo admitir que foi a parte de que gostei mais ;) sou uma provocadora nata; não existem remédios contra isto) sem muita preocupação todas as pessoas que mereciam de ser insultadas por me terem pisado fisicamente (sic) ou mentalmente ou me terem recusado ajuda (a maioria). mas também presenciei bondade enorme da parte de desconhecidos - o senhor italiano que estava a correr atrás de mim no metropolitano parisiense, um tubo de voltaren à mão, a insistir que eu o usasse no pé; a senhora na rua que me ajudou quando saí da farmácia de muletas pela primeira vez; o senhor que me seguiu só para me dizer que era fisioterapeuta e queria dar-me alguns conselhos.

e é nisto que todos se deveriam focar - aguçar os sentidos para não perder de vista os pequenos detalhes da vida, as coisas que, um certo tempo depois, nos arrependemos não ter feitas - em vez de tomarem resoluções de merda porque têm a ilusão de poder começar do zero o ano novo. é só um dígito que muda. nada mais. os quilos vão ficar, o cartão de sócio do ginásio vai continuar a acumular pó, o trabalho novo ou melhor não se vai apresentar sozinho, os fumadores vão continuar a cultivar o vício. nunca percebi o propósito de fazer planos para realizar coisas que se podem realizar em cada momento. é uma perda de tempo monumental.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

anani ananão, ficas tu e eu não...

a felicidade é sobrevalorizada. às vezes é-se feliz e às vezes não. fim da história. é um conceito efémero, volátil, incerto, tal como o bosão de higgs - uma chave para explicar motivação, pulsões, desejos mais segredos, algo com um impacte
duas visões da vida
enorme na vida, mas cuja existência nunca foi definitivamente confirmada. em criança, conseguimos capturá-la melhor. era-se feliz por nada; por subir árvores, comer gelados, ter segredos com amigos, alcançar coisas pequenas. ou grandes. não importava realmente. vivia-se no instante, alimentava-se com o presente, respirava-se  cada segundo como se fosse o último. sem preocupações, sem planos, sem expetativas. livres. donos do universo. indomáveis. com sonhos.

e o que acontece depois? difícil dizer. de certeza a vida acaba por ser completamente diferente do que tínhamos imaginado. essa felicidade mede-se de maneira diferente. ou não se mede de todo. são breves instantes perdidos na brutalidade e na feiura do quotidiano, que a maioria dos adultos já não consegue apanhar. ou não tem tempo de apanhar por terem assuntos supostamente mais importantes ou sérios. ou não os vêem por não terem os corações suficientemente leves e abertos. é preciso desfrutar dos momentos de felicidade quando se apresentam. porque desaparecem. e, muitas vezes, nunca voltam. 

acho que a felicidade não é algo de fundamental. é um pequeno bónus, mas consegue-se viver sem. há coisas bem mais importantes na vida - estar satisfeito, em paz consigo mesmo. isso foram sempre os meus objetivos. recusei-me a obedecer ao ditado da felicidade, a esquecer-me de tudo numa corrida insensata, consumidora de tempo e de energia. mas ultimamente, a ver muitos amigos e conhecidos batalhar, ficar frustrados ou deprimidos e não gostar de todo da vida que tinham, olhei para a minha e descobri, ligeiramente surpreendida porque não ligo tanto a isso, que eu era feliz. se calhar é o subproduto de eu ter cortado pontes com pessoas tóxicas, conhecido outras inspiradoras, gostar do que tenho e do que faço e estar numa etapa da minha vida que se anuncia prometedora, mas é um subproduto bem real e palpável. neste instante sou definitivamente feliz. estranho.

e se a felicidade fosse mais uma escolha?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

é melhor ficar calado

silêncio! 
acho que, na maior parte dos casos, só conseguimos realmente perceber as situações e as emoções envolvidas nelas quando as experimentamos nos mesmos. quando descobrimos a quintessência. quando percebemos os interesses. quando estamos com dúvidas ou com medo. à beira de escolher, perder, arriscar ou errar. quando entendemos o que podemos estragar.

no resto dos casos, só temos a impressão, a ilusão de perceber. é uma situação muito mais fácil, quando não estamos pessoalmente implicados, mas achamos ter o juízo necessário para resolver a situação. e julgamos. algo de bastante horrível, mas que quase todos fazem. não sei se é por falta de segurança, mas é um programa que se activa na cabeça quando nos comparamos a alguém e quando o que vemos não corresponde à nossa própria imagem. sentimo-nos ameaçados. os nossos valorem parecem derreter mais rapidamente do que um cubo de gelo quando é colocado na água em ebulição. então para nos proteger, decidimos que o que é diferente é mau. separam-nos disso. sucumbimos às nossas inseguranças. condenar é fácil. ter a coragem de tomar uma decisão é outra coisa.

dignidade é muitas coisas. é manter a sua integridade. é escolher o correto em vez do fácil. é decidir não fazer nada quando não se gosta das opções que se tem. é respeitar as  outras pessoas. é ficar calado quando não se tem nada de construtivo a acrescentar. é seguir o seu coração. é decidir como se quer enfrentar a morte quando se sabe que se tem pouco tempo.

não foi o apóstolo paulo que escreveu, na epístola aos romanos,: 'portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo'?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

partida, largada, fugida!

simples, não?
gosto do que tenho. gosto do que não tenho. gosto do que perdi. de todos os erros que fiz. de cada contradição que me faz. aprendi a ziguezaguear entre elas. a juntá-las num tudo sem arriscar explosões. a priorizar quando os elementos se contradizem. a reconhecer os sinais de socorro antes de que apareçam. a ouvir-me. a adivinhar-me. a perceber-me. a surpreender-me. a confiar em mim.

gosto do simples. de linhas limpas. de texturas lisas. de detalhes modestos. de estilos minimalistas. de sabores distintos e pouco complicados. de pratos cozidos numa só panela. de água sem gás, gelo, palhas ou rodelas de limão. de vestidos curtos e monocromáticos. de cabelo solto. de coisas quotidianas. de céus estrelados. de maresia preenchendo cada milímetro do corpo. de silêncios cúmplices. de situações óbvias. de frases claras. de respostas sucintas. de forma mínima com conteúdo máximo.

não manipulo as pessoas. não faço chantagens emocionais. não uso ninguém para preencher inseguranças ou vazios afetivos. não me penduro emocionalmente aos pescoços. não vejo o sexo como parte dum sistema complexo de punições e recompensas. não tenho medo de enfrentar a vida. ou se calhar às vezes tenho, mas acabo sempre por responder ao desafio. costumo começar por procurar as soluções dentro de mim. por ver se o destino e eu concordamos sobre o que ele está a trazer-me.

quando não gosto do que ouço ou vejo, digo-o. quando quero uma coisa, pergunto diretamente. não fico à espera que alguém o adivinhe. respeito o tempo das outras pessoas e o meu. aviso sobre as minhas intenções. quando quero que um homem me dê os parabéns de aniversário, informo-o no dia anterior. formulo perguntas de maneira clara, para receber respostas unívocas. não quero mentiras. nem histórias de merda. nem palavras evasivas. não preciso que alguém concorde sempre comigo. não me sinto ameaçada porque uma pessoa é mais magra, jovem, inteligente, bonita ou divertida.

é a melhor parte do processo de se tornar mais velho - chegar a um ponto em que se gosta incondicionalmente do que se tem na cabeça.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

wojownicza

os grandes guerreiros também têm medo. nesse aspeto não são muito diferentes das outras pessoas. só um louco não teme nada. mas, a diferença das outras pessoas, chega um momento em que os grandes guerreiros enfrentam esse medo. encontram a coragem dentro de si mesmos. continuam sozinhos. não fogem. mesmo quando sabem que têm pouca hipótese de ganhar. 

que a força esteja contigo, magda.  

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

uma rapariga sem...

detesto quando as pessoas se sobrevalorizam e pensam que as acções delas ou o que dizem é tão importante que tem o poder de mudar o mundo, levar paz, acabar com a fome, ou encontrar um medicamento contra o cancro. ou mesmo tudo isto junto. enquanto não muda absolutamente nada. tal a rapariga da recepção do gabinete de acupunctura que se indignou que a monika se tivesse recusado a tomar os medicamentos vitais (aka as ervas prescritas pela acupunturista) porque não se sentia bem depois. ou a rapariga da recepção do meu ginásio (se calhar é uma coisa de recepcionista) que ficou horrorizada pelo facto de eu pensar em continuar a comer doces. significava que eu não ia conseguir perder peso. olhei para ele e quis dizer o que a carla me disse uma vez, entre duas gargalhadas, enquanto estávamos à espera dum autocarro na 5th avenue, autocarro que acabamos por não apanhar quando chegou à paragem porque estávamos a chorar de rir: 'com um tal corpo como o meu não é preciso perder peso'. depois pensei na embalagem de açúcar dum restaurante em gdansk a dizer 'cala-te, ou diz algo que seja melhor do que o silêncio' e decidi simplesmente despedir-me e sair do ginásio.

lanche debaixo das estrelas
no início fiquei muito entusiasmada com a ideia de sessões com um treinador pessoal. os quatro meses de muletas+zona foram bastante devastadores pela minha firmeza. mas agora estou a perguntar-me se é realmente uma boa ideia. porque o meu treinador parece um bocadinho obcecado. no sentido negativo do termo. uma mulher da minha idade já não devia comer açúcar. e a falar-me dum substituto de chocolate. o quê?

peço desculpa mas os substitutos da vida não me interessam. e dentro da minha roupa xs/s, atrevo-me a dizer que não preciso perder peso. ao voltar para casa comi a metade duma tablete de chocolate só para me sentir melhor e ver se ainda conseguia. afinal das contas, não há um ditado italiano que diz una donna senza sedere è come un cielo senza stelle (uma rapariga sem rabo é tal um céu sem estrelas)? vou debater isto com o robert durante o meu primeiro treino na segunda.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

epílogo

a recuperação dos dados dum disco duro partido - 500 pln
um disco duro novo - 250 pln
a instalação dum disco duro novo - 100 pln
a instalação dum sistema operativo - 150 pln
a necessidade de me reinventar uma existência sem figurar no ciberespaço - duas semanas cheias de esforços vários
a leveza da alma ao conseguir palpar a minha vida debaixo das teclas do computador - sem preço

há coisas que não se consegue comprar com dinheiro.

para tudo o resto há o cartão mastercard.

sábado, 20 de setembro de 2014

tabula rasa

muitas vezes temos estes objetos que não queremos perder. ou pelo menos sabemos que a falta deles tornava a nossa vida mais laboriosa e complicada. até dizemos que nem conseguíamos safar-nos sem eles. e quando os perdemos, por razões várias (no meu caso por estupidez de não ter feito uma cópia do disco duro), bem, as coisas são diferentes do que tínhamos pensado. descobrimos que se pode viver sem porque não se tem escolha. adaptamo-nos à situação. encontramos modos novos para nos desenrascar. aceitamos que no mundo real, control+z é um comando sem efeito. aprendemos as lições. valorizamos as coisas pequenas. tornamo-nos mais criativos. mais resilientes. mais sensatos. paramos um instante, a observar o mundo que nos rodeia. reestabelecemos prioridades. afinamos expetativas. repensamos e reinventamos coisas. superamos dificuldades. melhoramos.

no fim das contas, recomeçar a zero só pode resultar em coisas boas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

to all the boys i've loved before

(como a ideia da festa pelo leszek, a organização dela e a foto aqui publicada foram iniciativas de pessoas não lusófonas, acho o mínimo da cortesia escrever em inglês.) 
i reckon a man only truly embraces a woman's word when he has a daughter. i first thought of it this way on the singaporean mrt when i was on my way to join monika for lunch. there was an indian guy with a son and a daughter. the son was sitting still and quiet, focused on his toy. the girl, she was all over the place. and constantly expecting her father to interact with her one way or another. with a partner, a man does not have to always give her his fullest attention; he can back off when things get too crazy, too oestrogen-packed, too confusing, or too overwhelming; he can afford not to follow or understand completely; his integrity remains intact (although many men would certainly argue about this part). with a daughter, there is no escape. they say you only become a man when a little girl breaks your will.

being a woman is a frame of mind. a sensitivity. a vulnerability. an apparent weakness. a courage. a renouncement. a protective instinct. a generosity. an intuition. a balance in state of total imbalance. a stem that contrary to all expectations resists a hurricane but gives in to a west wind. a mixture that is so insane, so baffling, so incomprehensible, so illusory, that not even the most illustrious of all alchemists would ever be able to prepare it. it contains all those countless irrational and obscure ingredients, that, if not counterbalanced by the capacity to think clearly, appear irritating and unbearable. are irritating and unbearable.

for a long time i wished i were a boy. i considered their lives more interesting, their challenges more thrilling, their possibilities endless. i felt labelled, misunderstood, diminished, cut down to some social expectations that were never close to what i was. i hated the patting on the back. it was ok for me not to be self-reliant, not to be able to cope with certain situations, not to have to think. there could always be an emotional or hormonal explanation to my behaviour. and all i wanted was to be treated the same. to benefit from no preferential treatment. i wanted the bar to be high, the expectations to be excruciating, the sky to be my limit.

and i got it. to all the important men in my life - those who taught me the most logical way to position a potato before cutting it into fries and how to precisely formulate what i wanted without beating around the bush; those who, when i was telling them that i couldn't manage to do something, would answer it was only a matter of practice and that i just needed to put a bit more effort into it; those who, when i came for advice, would listen carefully and then give me a little pat on my back and  say i only needed to think and i would manage to cope on my own; those who never imposed any kind of limit or boundary on me - you helped me to connect the dots of my life and made me into the woman i am - thank you. it's an amazing feeling.

dzięki zenek!

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

walkabout

uluru
os aborígenes têm um rito de passagem (na realidade têm muitos, mas só vou falar deste do que gosto particularmente) em que adolescentes de sexo masculino (como sempre, a vida é bastante sexista) se comprometem a fazer uma viagem na selva durante um período que pode se prolongar até mesmo seis meses. sem dizer para onde vão (mais provavelmente também sem saber para onde vão) e para quanto tempo. retiram-se. desaparecem. durante esse período seguem as pistas percorridas pelos antepassados e imitam-nos. é uma interrupção na ordem e na rotina da vida, uma pausa espiritual na cacofonia e confusão do quotidiano. afinal de contas, tem-se uma visão mais clara das coisas quando se está sozinho. e quando se torna o único responsável do seu destino. abre-se olhos. escolhe-se batalhas. cresce-se.

(e eu, não sei porque, reflito sempre melhor quando ando. e mais reflito, mais rapidamente ando) 

por extensão este termo é usado cada vez que alguém escolhe de se retirar duma maneira ou outra da vida que tem, para revalorizar as coisas, pô-las em perspetiva, ponderar o caminho escolhido, estabelecer as mudanças necessárias, clarificar as prioridades.  

este rito de passagem chama-se walkabout. e estou a fazer um.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

uma cerveja?

acho importante manter boas relações com as pessoas que prestam serviços. é mais agradável assim. e mais pessoal. gosto do pessoal. então conto a minha vida ao meu sapateiro, ao meu vendedor no mercado e ao meu carpinteiro. sim, sou do tipo de pessoas que têm sapateiros, vendedores, esteticistas, carpinteiros, opticistas, taxistas e outros. não conto muitos detalhes mas troco impressões com eles, pergunto como está o negócio, peço conselhos profissionais... todos se riem de mim; dizem que não percebem como posso dedicar tanta energia e tempo a algo de completamente insignificante. mas para mim não é uma despesa de energia. pois, sou a pessoa que todos contactam quando precisam ver um profissional recomendado. acho que devia começar a pedir comissões pelas recomendações.

ultimamente decidi renovar uma cadeira que usava em menina na casa dos meus avós. não tanto para me sentar porque acho que caia em pedaços com os meus 57 quilos, mas porque faz parte da decoração da casa. hoje o meu carpinteiro, um senhor encantador e delicado na casa dos 60 anos que faz um ótimo trabalho, ligou-me para que eu a viesse levar. deixei algum dinheiro quando a entreguei, mas estabelecemos que se custasse mais, eu pagava quando a recuperasse.

eu: devo pagar mais?
ele: como quiser.
eu: não sou eu o carpinteiro não sei quanto é. não sei quanto vale o seu trabalho.

ele não diz nada. olha para mim confuso.

decido tomar a iniciativa (adoro tomar a iniciativa): quanto mais devo pagar?
ele: não sei. se calhar como por uma cerveja.
eu: significa quanto? porque eu não bebo cerveja, não gosto, então não tenho nenhuma ideia de quanto custa.
ele: eu também não bebo cerveja e não sei quanto custa.

deixei o que achei conveniente e despedimo-nos contentes, cada um por um motivo diferente.

domingo, 13 de julho de 2014

e se ionesco fosse italiano?


corniglia, cinque terre
não se pode não gostar da itália. as paisagens são de tirar o fôlego, as cidades vibrantes e cheias de história, a comida uma poesia, a gente prestável e barulhenta, o estilo às vezes ostentatório demais mas sempre uma referência na moda, o sol a aquecer como manda a lei, o tempo devagar e suspendido num ar saturado de calor, o vento a levar sussurros duma herança imperial, as cigarras incansáveis na sua procura da perfeição, a maresia a envolver e intoxicar.

quando há mar, é sempre uma pequena vantagem. quando há praia, é ainda melhor. pelo menos para mim. um meu ex-namorado costumava dizer que eu tinha areia nas veias em vez de sangue. adoro fixar o horizonte sem fim, um azul confortante, inspirar a maresia até me sentir mais leve e eufórica, caminhar na longe da praia perdida nos meus pensamentos. por isso, tenho as unhas sempre feitas, estou perfeitamente depilada e com a celulite reduzida ao mínimo para estar pronta para ir à praia 365 dias por ano. caso a ocasião se apresente, também levo sempre um biquíni de viagem (primeiro escrevi 'viajo sempre de biquíni'; deve ter sido um erro freudiano).

a última vez que lá fui, também tive de apanhar um comboio no mesmo dia em que apanhava o avião de volta. foi uma viagem cheia de emoções porque parámos no meio dum campo durante mais de duas horas, primeiro para que os passageiros dum comboio que se avariou pudessem juntar-se a nós e continuar a viagem, e depois não sei porquê. ninguém me conseguia responder a esta pergunta. a comprar os bilhetes desta vez, lembrei-me disso e hesitei, mas como não viajava sozinha e os meus companheiros não compartilhavam as minhas dúvidas, acabamos por comprar a volta pelas 15.00 com três horas de comboio a fazer antes para chegar a milão. no dia anterior, enquanto estávamos à espera, numa plataforma cheíssima de turistas (sobretudo americanos e escandinavos), do comboio local em vernazza para voltar a manarola, entre os anúncios intermináveis e repetíveis que informavam sobre a interdição de atravessar trilhos, ultrapassar a linha amarela quando um comboio passava, deixar bagagens sem supervisão etc, houve um, discretamente formulado em italiano e só passado uma vez, que revelou uma greve ferroviária a começar no mesmo dia às 21.00 e a durar 24 horas. tive um déjà vu digno do matrix. decidimos que era preciso partir ainda mais cedo no domingo.

a chegar à pensão, fui ter com o simone, o nosso anfitrião, para tentar de antecipar a dimensão do desastre. explicou-me que a lei italiana mandava que uma parte das conexões fosse garantida. passamos mais de 30 minutos na página de trenitalia a procurar que comboios iam sair para milão. como manarola é uma aldeia pequenina primeiro precisava-se apanhar um comboio local até monterosso o la spezia, e só depois um intercidades. se bem que houvesse dois comboios regionais para génova que paravam em manarola de manhã, decidimos que era melhor apanhar um em la spezia porque ia haver mais hipóteses. seja. era preciso comprar os bilhetes o mais rapidamente possível, porque depois o simone ia-se embora e precisávamos dele para poder imprimi-los. optamos pelo das 6.38 (sic). uma vez os bilhetes comprados online (o que levou uma eternidade e quase precisámos pedalar para que a internet funcionasse mais depressa), só sobrava encomendar um táxi. nessa altura, a situação, que achámos quase resolvida, complicou-se consideravelmente. porque o que fazem todas as pessoas sensatas num sábado em fim da tarde? de certeza não trabalham. e pareceu que na ligúria só havia taxistas sensatos. trinta minutos mais tarde, depois de termos tentado ligar todos os serviços de táxis da região e deixado muitas mensagens nos voice mails deles, ninguém tinha ligado de volta. o colega do simone lembrou-se que conhecia alguém que não era oficialmente taxista, mas oficiosamente trabalhava como tal (porque é que isto não nos surpreendeu?). só não conseguia lembrar-se do nome do rapaz. nem tinha o número dele. alguns telefonemas depois, estabeleceu-se que um certo davide que trabalhava no hotel marina piccola de certeza tinha o número do taxista não-oficial. não tínhamos o número do marina piccola. começou-se a procurar. entretanto o simone encontrou um cartão de visita dum serviço de táxis que se anunciava aberto 24h por dia. ligamos, cheios de expetativas desnecessárias. uma voz informou-nos de maneira seca e cortês que não havia ninguém disponível para atender a nossa chamada. claro. encontrou-se o número do marina piccola e enquanto estávamos a marcá-lo, o telefone tocou. era um dos serviços. reservámos um táxi pelas 5.45 na barreira que marcava a entrada da aldeia (manarola é composta duma única rua pedonal; os carros devem estacionar numa área entre duas barreiras. só os habitantes podem ultrapassar a primeira de carro. quanto à segunda, só os carros de entrega). num momento de lucidez surpreendente, dado as circunstâncias confusas, pedi ao simone o número do nosso serviço. just in case. o simone assegurou-me que agora o táxi não podia não vir. jantámos felizes e adormecemos a ver um outro jogo chato.

estávamos na barreira às 5.35. a saber que se o táxi não chegasse a horas, não havia hipótese de chegarmos
numa rua de corniglia...
a tempo para apanhar o nosso comboio. se houvesse comboio. às 6.00 liguei para o serviço de táxis da estação. surpreendentemente atenderam imediatamente. o homem assegurou-me que o nosso táxi tinha saído. como o sabia? porque o denominado carro número 29 não estava na paragem dos táxis. e significava que estava a caminho. claro. a pergunta era: a caminho de onde? às 6.10 vimos a primeira pessoa na rua - um homem de barba branca que andava a passear o cão. saudámo-lo. às 6.20 liguei outra vez para o serviço. outra vez atenderam imediatamente. o homem assegurou-me que o táxi estava a caminho. pois sugeriu de maneira pouco discreta que se calhar o táxi tinha chegado e estava à minha espera e era eu que não o via. perguntei-lhe se podia mandar outro táxi. respondeu que ia ver, desejou-me um bom dia e desligou. às 6.30 decidimos que era completamente absurdo esperar pelo primeiro ou segundo táxi porque nem um nem outro ia chegar. ou pelo menos nem um nem outro ia chegar a manarola. resolvemos tentar apanhar o comboio local das 7.28 em manarola. mas quando estávamos a beira de descer até a estação, a monika teve uma ideia brilhante. enquanto estávamos a debater sobre o que fazer, vimos o homem de barba branca voltar com o cão do passeio, entrar num carro estacionado perto e instalar o cão no chão do lugar do pendura. a monika disse que íamos perguntar-lhe se ele não ia a la spezia. não ia. mas contei-lhe toda a nossa história e perguntei se não nos lá podia levar. olhou para nós e disse 'só vou levar o cão a casa' e desapareceu na parte da rua que era protegida pela barreira. quando voltou cinco minutos mais tarde sem o cão, desta vez usava óculos para conduzir. estava a levar a missão a sério. quando chegámos, por volta das 7.00 e depois dos 25km, à estação de la spezia, o homem não queria aceitar dinheiro de todo, mas insisti. nunca percebo quando as pessoas dizem que não conseguiam dar algo a alguém porque a pessoa em questão não o queria. quando se quer dar, dá-se. é tão simples.

na estação reinava uma confusão italiana. astutamente, todos os guichés da bilheteira e da informação estavam fechados. não havia nenhum empregado. por isso nenhum dos passageiros manifestava descontentamento ou se queixava. qual era o propósito? perguntei ingenuamente a algumas pessoas se não havia um aluguer de carros de aberto. num domingo de manhã? decidimos que o mais importante era apanhar um comboio qualquer que nos levasse na direcção de milão. o das 7.12 para génova era o primeiro. vimos que o comboio já lá estava. mas nem era o caso do maquinista, nem do resto do pessoal. uma mulher assegurou todos que esse comboio estava na lista dos 'garantidos'. um homem sugeriu que se calhar isso significava que o comboio ia estar fisicamente presente na estação, era o que era garantido e só isso. perguntei se alguém sabia se havia um comboio que já tinha saído da estação dessa manhã. ninguém sabia. muito pontualmente, às 7.12, anunciaram que o comboio tinha sido anulado. resolvemos optar pelos intercidades, porque havia mais hipóteses que não fossem anulados. devia haver um às 7.00 mas já tinha 60 minutos de atraso e outro às 8.00, mas já tinha 70 minutos de atraso. a outra questão era: comprar ou não comprar bilhetes novos para um outro comboio. mas como não se sabia que comboio não ia ser anulado, despesas adicionais faziam pouco sentido. anunciava-se mais e mais comboios anulados. fui mesmo perguntar quanto custava um táxi para milão - a lei da oferta e da demanda funcionou bastante bem - a quantia tornou-se astronómica. o comboio previsto às 9.00 foi anulado. decidimos tomar o pequeno almoço e esperar pelo comboio previsto às 8.00. chegou. não anunciado nem que fosse uma vez. subimos na primeira carruagem possível. informei o condutor que não tínhamos os bilhetes certos, mas ele não pareceu muito impressionado com essa noticia. no fim das contas, não passou para controlar bilhetes de todo, mais provavelmente porque sabia que quase todos estavam na mesma situação e que era demasiado trabalho arranjar a situação de todos os viajantes. tentámos dormir, mas houve um grupo de pessoas que mal se conheceram e três minutos mais tarde já estavam a trocar emails e números de telefone e a combinar encontros, e falavam tão alto como se quisessem socializar com toda a gente no comboio. os italianos... c'è poco da dire

chegámos a milão às 11.00. almoçámos bem num restaurante da estação. pagámos muito pouco pelo táxi para ir para o aeroporto. fizemos lá compras muito frutuosas. chegámos a casa na hora prevista e vimos a final. parece que, para um dia que se anuncia mau e absurdo correr bem, basta encontrar de manhã um homem a passear o cão e mostrar-se generoso para com ele. e tudo muda!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

do título deste blogue

quando se é criança, quer-se sempre que as coisas prossigam na mesma. o ambiente, a casa, o professor, os amigos. a continuidade do quotidiano, esse casulo protetor, envolve-nos hermeticamente. protege-nos. nada de mau pode acontecer. nada de fora do que conhecemos existe. nenhuma outra coisa garante essa leveza de coração. não é que não tenhamos imaginação, mas ela conjuga-se dentro do conhecível. do familiar. temos planos esquisitos para um futuro longínquo que supõe modificações - tornamo-nos famosos, escrevemos um livro, descobrimos o tratamento para uma doença, ganhamos galardões - mas sempre no nosso quadro habitual - vivendo na mesma cidade, falando com o mesmo professor e rodeados pelos amigos. recusamo-nos a conceber outras circunstâncias.

mas elas acontecem. nem nos damos conta de quando sucede. mas, de repente, notamos que o tempo é uma coisa que passa. que situações mudam. que o verão é sempre seguido dum outono, e depois dum inverno. que os amigos escolhem caminhos individuais. que não existe uma força gravitacional suficientemente grande para conseguirmos ficar o tempo todo com as pessoas que amamos. um dia, percebemos que a vida já não é a mesma. o ar cheira diferentemente. uma sensação desoladora. uma casa de cartas levada pelo vento. chega-se a um ponto em que mudanças se tornam inevitáveis. e apercebe-se que se tem de aproveitar os momentos quando ocorrem.

um meu professor disse uma vez, metade sério, metade brincando, que quer se tratasse duma decisão básica, de trabalho ou de relação, ele seguia sempre o mesmo padrão. perguntava-se se conseguia imaginar-se em dois anos a fazer a mesma coisa, a continuar o trabalho ou a relação. e se a resposta fosse negativa, significava que devia pôr um fim. não fazia sentido nenhum prosseguir se não se via uma possibilidade de longo prazo. achei essa atitude muito sensata. cortei partes da minha vida que não pensava cortar. apaguei relações de vários tipos, a dizer-me que como as pessoas não mudavam, ou eu ficava contente com o que tinha ou devia procurar outra coisa. recusei ofertas diferentes porque sabia que iam entrar em conflito com o meu temperamento. fiquei com pouco, mas um pouco certo. ou pelo menos tão certo quanto se possa na vida.

decisões são difíceis. ou aliás o que é difícil são as respetivas consequências. tem-se sempre essa esperança louca que, talvez, houvesse um modo de fazer sem ter de decidir ou de escolher. sem ter de avaliar emoções contrárias. sem partir o coração. mas é uma ilusão. uma mentira que enquanto se acredita nela, só serve para prolongar uma agonia. para tentar fugir ao inevitável que nos apanha em todas as esquinas.

pois, é o que nos faz. coisas pequenas. insignificantes. mas para saber o que se espera realmente da vida, dos outros e de si mesmo, para decidir o que se pode abandonar e o que não se quer perder, tem-se de passar por um número interminável de escolhas, tão triviais quanto parecem. coca-cola ou pepsi? manteiga ou margarina? mar ou montanhas? tanga ou boxer? roger moore ou sean connery? pc ou mac? cão ou gato? sexo com luzes ou sem? hobbes ou rousseau? massa ou pizza? mas quando conseguirmos responder a tudo isso, decidimos no que acreditamos na vida. e no que não. definimos as nossas verdades. os nossos limites. o caminho a seguir. pomos o universo em ordem. amor, amizade, esperança, coragem, felicidade não são coisas que percebemos bem desde o início. temos de as experimentar, pôr a prova, desfazer em pedaços, perder, para sabermos de que são feitas.

este mundo tornou-se tão materialista, tão estreito e tão tacanho que faz sufocar. mas é possível encontrar um sentido e possibilidades que não têm nada a ver com o que acontece fora de nós. há coisas que não mudam. pontos de referência. constantes que indicam caminhos certos. guiam, quando não sabemos o que fazer. faróis dum futuro duvidoso. pequenos reconfortos que nos enchem de esperança. de manhã, há sempre orvalho na terra, só se precisa dobrar-se e tocar no chão.

as coisas não podem sempre continuar na mesma. a um momento tem-se de soltar. de passar a outra coisa. de fechar uma gaveta para sempre. porque, por mais doloroso que seja for, é a única maneira de continuarmos. de crescermos como pessoas. a única maneira de nos tornarmos melhores. 

sábado, 7 de junho de 2014

le mas de lila

passei a noite de ontem sentada fora, sozinha, a absorver os vestígios do calor do dia, a olhar para um céu limpo, num
le mas de lila
lugar onde o silêncio era quase completo e avassalador, a não contar alguns latidos dos cães vizinhos. eu disse que estava sozinha, mas é mentira. acompanhava-me o gato do meu anfitrião. ele estava sentado em frente da porta da casa a pensar nos assuntos de gatos quando cheguei, ficou animado ao ver-me, cheirou o meu pé doente e eu decidi que a noite era demasiado bonita para ir já para o quarto. ficávamos ambos sentados a ter silêncio e estrelas por teto. uma companhia descontraída mas confortante, em que palavras são demais. às vezes vinha para que eu o acariciasse. quase não tinha cauda por consequência dum acidente com raposas, e quando eu o acariciava, estava a perguntar-me se devia continuar com a mão até a cauda ou se era uma zona demasiado sensível. é um pouco como com os homens - nunca se sabe se se deve mencionar o que é delicado ou problemático ou não dizer nada.

gosto do cheiro da noite de verão. de o sentir penetrar pelos pulmões e preencher cada centímetro cúbico do corpo com uma meticulosidade quase religiosa, devagar, cuidadosamente. da pureza e da serenidade no ar. palpáveis. omnipresentes. da doçura que cola na pele e a invade, que cobre tudo duma camada suave. das partículas de pó a vibrar e pairar com mandrião. do cântico de cigarras. do tempo que deixa de passar e fica pendurado no espaço. das estrelas apagadas no firmamento. tão longe, mas sempre iguais a si mesmas. tranquilas e imperturbáveis, nem que seja perante a beleza do mundo nem a sua crueldade. da pausa que a vida toma nas suas tarefas e preocupações quotidianas. do casulo protector da escuridão. da solitude que às vezes se atrapalha nos pensamentos. e traz quietude. e conforto. e esperança. a duma manhã melhor. 

sábado, 31 de maio de 2014

a felicidade é coral

um meu caríssimo amigo casa no próximo fim de semana. a primeira vez que falámos nisso, apresentou-me a situação duma maneira completamente descontraída e simples, como só (ou quase só) um homem consegue fazer.

ele: aceitavas assinar o meu registo de casamento?
eu: vais casar e queres que eu seja a madrinha do teu lado?

(ainda não tive o prazer de conhecer a noiva por causa de muitos quilómetros que nos separam, então ela de certeza não podia querer ter-me por madrinha)

ele: vou. quero.
eu: bem.
ele: então vais ter de vestir roupa coral.
a minha bóia salva-vidas
eu: ???
ele: é a cor principal do casamento.
eu: o quê?

(já tenho poucos conhecimentos na matéria de casamentos, porque é algo que nunca ficou na minha lista de tarefas para esta vida; mas tenho ainda menos conhecimentos na matéria de pedidos absurdos

ele: pois...
eu: foste tu que inventaste essa cena?
(...)

eu: é obrigatório?
ele: não vou insistir.

regra geral, tenho problemas com fardas. e códigos de vestuário. ir a contracorrente é sempre um prazer. gosto imenso. isto, acrescentado ao facto que sou bastante insubordinada, faz com que não use coisas de que não gosto. e a roupa nem reflete quem sou, nem as minhas competências profissionais, então não percebo muito bem a importância disso tudo. ninguém me vai fazer crer que a felicidade duma pessoa possa depender da cor do meu vestido. além disso, acho que para se ter um bom aspecto/ser sensual/transpirar charme precisa-se de estar confortável e fiel a si mesmo. não tenho nada contra o facto de agradar às pessoas, sobre tudo quando são queridas. mas dentro do razoável. e não consiga encontrar nenhuma razão viável que fizesse encaixar a cor da minha roupa neste razoável. por isto, eu de coral, não é exequível.

mas para fazer prova de boa-vontade, decidi investir num acessório coral para fazer ressair o azul-marinho do meu vestido. como vem com cinto, optei por encontrar um coral. tenho muito pouca prática na compra de acessórios, porque sou minimalista, então já posso dizer que é uma façanha. fui a um milhão de lojas. cintos não parecem estar de moda neste verão. ou não há de todo na colecção ou são alegremente pretos e castanhos. e com adornos horrorosos. depois de duas horas abandonei a ideia.

mas a frustração e o cansaço dissiparam-se como por magia quando uma amiga se ofereceu para me emprestar um cachecol coral. pelos vistos, uma fracção infinitesimal da minha felicidade (a de já não ter de percorrer uma infinidade de lojas à toa e em vão) depende da cor, não do meu vestido, mas do meu cachecol. paciência!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

fora da caixa

temos sempre uma ideia sobre o que a nossa vida devia ser. ou sobre o que queríamos que fosse. claro, muda com o tempo e com as experiências, mas cá está - palpável e definida. independentemente da forma que tem. e das nossas dúvidas. não significa que sabemos sempre tudo. muitas vezes  sabemos o que não queremos. e já é muito.

nunca pensei que um dia ia começar um blogue. tenho querido escrever, mas não gosto de compartilhar as
fora da caixa
minhas histórias com muitas pessoas. tive uma discussão com os meus alunos há alguns dias sobre o facto se se escrevia para deixar vestígios. responderam que sim, e não só livros, mas também facebooks, twitters, 
emails e outros. vivemos numa época em que todos parecem obcecados com a ideia de deixar marcas, mesmo que sejam completamente absurdas, triviais e infinitesimais. quantidade antes de qualidade. acumulação de palavras antes de sentido. vazio emocional antes de modéstia. insignificância antes de respeito. exposição antes de conhecimento. vestígios não são realmente a minha praia. sei que ar tenho de biquíni e isto chega. não vejo porque é que o podia ou devia querer compartilhar com a metade da humanidade. gosto de ser anónima. de fazer coisas para as pessoas pelo prazer de as ver sorrir e sem que saibam de quem isso vinha. 

mas ultimamente, tenho a impressão de ter perdido o meu espírito de aventura. por causa de rotina? por falta de situações ou pessoas inspiradoras? por uma precipitação de preocupações quotidianas? estava a pensar que se precisava evolver e avançar na vida. a estagnação não traz nada de bom. na minha escola de desenho de moda diziam sempre que se era mais criativo quando se pensava 'fora da caixa'. que se precisava perder inibições e medos para se tornar melhor. e livre. decidi que era a altura de passar mais tempo fora da minha. e aqui estou.

a questão da língua do blogue não o foi realmente. tenho gostado da escrita de tabucchi desde o seu primeiro livro que li, mas foi só mais tarde que descobri que ele e eu tínhamos a mesma paixão - o português. uma língua que eu queria aprender durante anos. um ritmo de respiração que ainda não domino completamente, mas espero lá chegar um dia. o devagar das letras. a duração das pausas entre as palavras. a precisão e a meticulosidade da pontuação. é como chegar a um porto. sentir a terra firme debaixo dos pés. as nuvens e obscuridades da vida de repente dissipadas. uma comunhão das almas. algo bastante importante para mim que me sentia sempre dividida entre o francês e o polaco. então vou escrever com um milhão de erros mas não tenciono preocupar-me com isto. gosto de fazer erros. é o que faz crescer na vida.

quanto ao título, não tem nada a ver com comida, mas com escolhas. achei sempre que para conhecermos bem precisávamos saber que limites temos. do que se aceitava abdicar. o que se podia perder na vida. e com o que se queria ficar, independentemente do preço. para saber o que se espera de si mesmo e das outras pessoas, para poder evolver como pessoa, é preciso definir-se. atestar. escolher. mesmo que sejam coisas pequenas.

hoje parece um bom dia para se começar blogues, mudar de vidas, enfrentar desafios. sentir a frescura e a incerteza do desconhecido no ar. uma brisa no rosto. um sabor salgado da maresia na boca (pelo menos para quem goste do mar). uma estrela que pisca duma luz laranjada e calmante. uma beleza indelével, inefável, tão frágil que se dissipa com o suspiro mais leve. uma solidão que se torna confortante. 


"People will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel".

RIP Maya Angelou