quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

perder-se

caminhos inesperados
o mais interessante que pode sempre acontecer quando se viaja (que seja física ou mentalmente) é perder-se. a imprevisibilidade, a falta de expetativas, a expatriação do plano previsto, a presença do desconhecido aguçam os sentidos. tornam-nos menos cegos. menos surdos mais atentos. mais curiosos. deixamo-nos de merdas para enfrentarmos o momento presente. quando não controlamos o que está a acontecer, notamos muito mais. não nos afogamos nos predefinidos. nas supostas certeza. não passamos ao lado das coisas pequenas. dos gestos pequenos. de repente precisamos depender da natureza. das pessoas que encontramos. de nós próprios.

ao deixar o controlo, paradoxalmente, tomamo-lo. sim nada está a correr segundo o plano. não sabemos o que fazer. onde ir. não alcançámos os objetivos antecipados. pior mesmo: já nem temos objetivos. o único que importa é desenrascarmo-nos para encontrar o hotel ou um lugar qualquer para dormir durante a noite. mas ao abandonar as intenções, a cegueira obcecada do que absolutamente devia acontecer, mas nunca vai, encontramo-nos a nós próprios. ficamos mais livres. começamos a ouvirmo-nos. a perguntar o que queremos. a questionar as nossas escolhas. a ver opções para as quais nunca teríamos olhado. vemos quanto se consegue descobrir a adaptar-se às circunstâncias em vez de as forçar a serem o que queremos.

a ficar fora da nossa zona de conforto, fora da nossa zona de controlo, alargamos o nosso campo do possível. e é sempre das melhores coisas que podem acontecer. 

sábado, 17 de novembro de 2018

complexo de princesa

my mom said to me: 'one day you should settle down and marry a rich man'. i said: 'mom, i'm a rich man'. cher

quimeras idealistas?...
alguém me pode explicar porque é que a roupa de homem tem sempre desenhos fixes e adultos enquanto a de mulher é debilmente infantil? o que dizem as tshirts para ela, quer seja criança quer adulta? saudade, amor, rainha, glamorosa... e estão decoradas de corações, coroas, bocas pintadas de vermelho, borboletas, estrelas... et j’en passe... onde está a tshirt ceo ou boss? ou simplesmente com um texto ou um desenho mais maduro? ou que anuncie outra coisa que não um futuro cheio de palmadinhas na cabecinha, que é demasiado frágil e pequena para enfrentar a maioria dos assuntos do quotidiano? uma a dar asas, inspirar independência, enfatizar o poder dos sonhos, contar a infinidade das possibilidades, dos objetivos, das soluções? uma que emane força e coragem, que saia dos rótulos, dos predefinidos, que se abstraia dos séculos de história, da monotonia dos média, dos estereótipos da educação?

costuma-se dizer que há esses sonhos de princesas... que supostamente todas as mulheres querem ser uma princesa, pelo menos uma vez na vida. e o cúmulo desse sonho é o dia de casamento. com o vestido perfeito, o penteado perfeito, a maquilhagem perfeita, o príncipe perfeito (... se ele conseguir corresponder a essas expetativas malucas...). há uns anos tive uma conversa muito estimulante intelectualmente com um gajo, interessadamente no casamento duma amiga, que esteve a dizer que todas as mulheres esperavam o dia de casamento para saciarem esse complexo. para se sentirem cumpridas. para darem sentido às vidas delas. deve haver uma parte de verdade nisso. claro que nem todas as mulheres (pessoalmente casar nunca me interessou particularmente. não vejo o propósito de se gastar uma fortuna num vestido que só se usa uma vez e sempre que me pentearam duma maneira que não era a do meu dia a dia, passei a cabeça por água três minutos depois de ter chegado a casa...), mas mais provavelmente a maioria... 

a outra coisa que para mim não ajuda em nada, e que não percebo, são todos os movimentos de solidariedade entre mulheres... as eleições e os prémios para a mulher do ano, a mulher empresária, a mulher forte, a mulher inteligente, etc... o resto são tão burras que é preciso galardoar as que não o são? existem as mesmas coisas na categoria homens? não. não existem. então porque criar conceitos que se baseiam na fraqueza de não se ser homem? ou se é suficientemente bom para competir com eles, e nas mesmas condições, ou é melhor ficar calado. porque entusiasmar-se com distinções de segunda categoria, francamente, não vale a pena... 

sábado, 20 de outubro de 2018

nunca podia casar...

... com o principe harry... um pensamento bastante desolador considerando o facto que a maioria das raparigas sonham casar com gajos ricos e giros. e o harry é ambas as coisas. se calhar sonham também casar pura e simplesmente. querem ser salvas. adoradas. obnubiladas. pagam uma fortuna por um vestido ridículo que só vão usar uma vez na vida numa noite em que tudo deve ser perfeito. feérico. mágico. seja como for, têm um complexo de princesa...

mas o meu maior problema com o harry é que ele é toda uma instituição, que requer demasiados ajustamentos. demasiadas adaptações. demasiada flexibilidade. e a níveis diferentes. claro, como a monika comentou, inúmeras raparigas adaptavam-se e ajustavam-se a gajos que eram completamente fracassados, então era sempre melhor fazê-lo por um gajo com nível e classe, mas continuo a ter problema com isso na mesma...

percebo que o amor possa ser grande. cego (sem que isso seja necessariamente algo só negativo). que exija sacrifícios. que nunca se pode dizer definitivamente o que se faria numa situação sem estar nela. que a fronteira entre as concessões e o ego é algo individual. e que depende das circunstâncias. do parceiro. das apostas. 

mesmo assim... acho que as mudanças que fazemos pelos outros, quando ultrapassam o que esses outros mudam por nós, nunca ficam impunes... há uma altura em que a dissonância entre o que somos realmente e o que pretendemos ser é grande demais. perdem-nos nas aparências. nos não-ditos. nos politicamente corretos. nas expetativas. 

os meus princípios, as minhas crenças, os meus valores fazem parte integral de mim. sou, de certeza, demasiado territorial e individualista com a minha cabeça, mas seria profundamente infeliz sem o ser.  não podia mudar de religião, de vestimenta ou de modo de vida por alguém. posso é adaptar-me. conciliar. fazer espaço para coisas que não são minhas. conviver com elas. mas não adotá-las...

não pareço ser feita para a monarquia, eheheh... seja. ninguém é perfeito.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

m de mentir

nunca se pode acreditar no que se vê...
minto bem. mesmo extremamente bem. sem pestanejar. sem transtornos interiores. com uma cara de jogador de póquer. eu sei, é uma dessas coisas que nunca se devem admitir. que não se devem confirmar. e que devem dar vergonha. a mim mentir não me dá vergonha nenhuma. ou quase (é verdade que uma ou duas vezes fiz um show, com lágrimas e tudo, para alcançar o que queria, ou mais exatamente, para não fazer o que não queria... mas só fiquei preocupada por se calhar ter sido demasiado dramática... não por o ter feito...). ups... acho mentir uma capacidade como outras. aliás até mais desejada do que outras. é mais pragmática. poupa tempo. serve de atalho. permite atingir objetivos. suaviza deceções. apanha desprevenido. em mais ou menos trinta anos de carreira nunca fui apanhada em flagrante. sim, só aumenta a hipótese de eu o ser um dia destes. mas estou mais do que pronta a correr o risco.

mas agora, e isto é difícil explicar e ainda mais perceber, para mim, mentir tem uma ética. eu sei que parece um oximoro, mas não é. há regras para o fazer. razões para o fazer. mas também para não o fazer. um tipo de código de honra. não minto só para mentir. nem porque é mais cómodo. nem porque facilita a vida. nem por medo. nem por evitar consequências. nem por oportunismo. nem por sabujar. nem por passar em cima de pessoas.

minto quando se me tenta forçar a fazer o que não quero. gosto de fazer as coisas na vida segundo as minhas regras. e quando se quer impor-me desvios deles, pois, vêm as consequências. não é possível constranger-me para eu fazer algo que não me apetece. muitos foram os que tentaram. todos falharam. sou capaz da pior mentira nessas ocasiões. quando não quero, não quero. i never play hard to get. o meu não é sempre um não. e se alguém não quer respeitar o meu ponto de vista ou os meus sentimentos, o mínimo que posso fazer é assegurar-me que sejam respeitados com ou sem o consentimento da outra pessoa.

sábado, 11 de agosto de 2018

gratuito?

há sempre um preço, mesmo quando
não há....
recebo uma mensagem a informar-me que trovoadas estão previstas para a tarde. ligo para o meu prestador de serviços telemóveis para perguntar se foram eles que mo mandaram. acho que já me faço completamente velha porque a minha versão antiga teria primeiro insultado o gajo por me mandarem tais merdas. mas como já me aconteceu insultar para depois descobrir que não foi a culpa da pessoa, aprendi a lição. o gajo confirma que foram eles. e acrescenta que não me devo preocupar porque não cobram por isso. respondo que não quero na mesma. o gajo, surpreendido, diz que vai bloquear a saída dessas mensagens.

não percebo a lógica atrás apresentada. querer algo só porque é de graça? para quê exatamente? daria para preencher a vida com montes de merdas completamente inúteis que aliás se calhar poderiam potencialmente servir um dia, só porque mas dão... as coisas que não quero, não quero na mesma. e ponto. o de não ter de pagar não me faz sentir especialmente especial. ou nobilitada. ou valorizada. o meu ego porta-se muito bem sem. não precisa que o afoguem. ou que o aumentem. devo ser um caso não previsto pelos criadores do de borla. uma exceção não incluída nos manuais.

além disso o leszek incutiu em mim que tudo sempre tinha um preço. e que o de graça o tinha bem escondido. e por isso tão perigoso. porque só se o descobria quando era tarde demais para devolver a mercadoria. ou desistir. e a única solução era pagar. e mesmo se nem sempre era monetário, muitas vezes acabava por custar ainda mais do que se fosse. porque esforço, trabalho, energia, emoções e, sobretudo, tempo investido são coisas que nunca nos serão restituídas. nenhum dinheiro do mundo os consegue pagar ou comprar.

então quando oferecem algo gratuito, fujo imediatamente.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

c de carisma

o carisma é como um par de cuequinhas. as de renda. sedosas. delicadas. subtis. finas. suaves.

vermelhas. os amantes de preto, peço desculpa, mas ele nunca dá tanto nas vistas, não leva a mensagem de excecional, e não estou a dizer isto só porque o detesto... o preto é elegante, um elegante um pouco estéril, mas é o. e o carisma é muito mais... é explosivo. desenvergonhado duma certa maneira. a chocar com rotinas. a não chegar a meios-termos. a gostar de estar no centro das atenções. apaixonado. rebelde. malandro. a seguir o próprio caminho. a ganhar corações sem esforço nem trabalho aparente.

ou esbranquiçadas. o branco é demasiada pureza. demasiada candidez. demasiado pudor. demasiados não-toques. demasiada reserva. o carisma é um branco que se sujou. desiludido. experimentado. realista. pragmático. calculador. encantador. elegante. implícito. a conhecer as regras da vida. a saber como as usar a seu favor. a inspirar confiança. a convencer sem que as pessoas que o foram soubessem, sem que se dessem conta. 

é um decisão que tomamos. todos os dias. como a roupa que vestimos. em função do que nos apetece de manhã. dos afazeres do dia. das emoções que flutuam no corpo. das impressões que queremos causar. do resultado para se atingir. é uma peça de roupa interior que não tem nada a ver com o que usamos em cima. e que podemos pôr ou tirar a qualquer momento, de acordo com o estado de exuberância e de vibração desejado. é algo que ativamos. inibimos. doseamos. corrigimos. trocamos. depende só de nós. é uma bebida cujas proporções escolhemos. modificamos em função das circunstâncias, das pessoas, do humor, do  estado da alma. não há uma receita única. nem uma maneira de fazer esquisita. somos nós os alquimistas. que responsabilidade. e que divertimento.

parece interesseiro demais? oportunista demais? pois... porque o é. mas é como com um assassino e um cirurgião. ambos têm uma faca na mão, mas os resultados das ações de cada um vão ser diferentes. é o fim que conta. e é uma vantagem imensa quando se candidata a um trabalho. quando se lidera pessoas. quando se quer melhorar relações. quando se convence. é o que faz as pessoas gostarem de nós. confiarem em nós. seguirem-nos.

e a parte mais engraçada é que somos nós que decidimos se queremos produzir todo esse efeito. ou não.

terça-feira, 31 de julho de 2018

os pontos nos i

a maioria das pessoas não entende quanto trabalho dá para se chegar aos resultados desejados. mesmo que pareçam muito simples. perde tempo a pensar o que fazer. a analisar detalhes. a querer sempre mais informação, mais parâmetros, mais precisão. a atrasar a decisão. a perguntar-se o que é mais importante. a não saber por onde começar. as opções parecem demasiado complicadas. e a espera se calhar podia trazer uma mais fácil. a acabar por ser paralisado por isso. a preferir ficar pendurado do que cometer um erro, hesitar do que descobrir, ponderar do que saber ao certo. o pior é que depois ficam surpreendidos ou dececionados por não chegarem onde querem... não percebem como aconteceu porque levou tanto trabalho, tempo, energia e esforço...

são cinco minutos. e vinte anos de prática.
enquanto, na verdade, não alcançam os objetivos só porque fazem uma parte infinitesimal do que precisa ser feito. pensam mexer-se muito a fazer o estrito mínimo. têm a impressão de se dedicarem completamente quando nem sabem o que essas palavras significam exatamente. não estão prontos a sacrificar o conforto quotidiano. o tempo dedicado a merdas.  as pulsões do ego.  acham as pessoas que conseguem atingir o que querem extremamente talentosas. com mais sorte. ou com outra explicação mágica do êxito. dizer-se que não há magia nenhuma seria admitir que não fizeram algo certo. que negligenciaram. que falharam. seria o fim do mundo.

o outro problema é que essas pessoas também parecem confundir o honesto com o ofensivo. quando se lhes diz que não deram 100% ficam ofendidas. passivo-agressivas (uma das coisas que mais detesto...). chateadas. não veem que vai contra um qualquer progresso. que para avançar é preciso ser humilde e engolir as circunstâncias da vida. ficar cego perante tudo o que não importa. sempre a fazer mais. a esquecer-se de muita coisa que não importa na altura dada. a ignorar dececionamentos. a concentrar-se no objetivo sem contar ou medir o que não funcionou. sem se desencorajar. a não levar nada à peito. a não ser que seja a vontade de  ter êxito.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

novidades

tempestades aparentes
não sei se já adquiri completamente, mas pelos menos acho que estou adquirindo, uma capacidade nova. a de olhar de fora para a minha vida nas alturas em que a única coisa que me apetece realmente fazer é rebentar tudo. reagir rápido para ter mais a impressão de estar no comando das coisas. queimar todas as pontes. avançar sem olhar para trás. mandar todos foder. arrasar a saber quanto vai magoar depois. encontrar culpados. desfazer-me de tudo o que cause transtornos. que complique. que desligue esperanças.

agora consigo não estragar nada. não destruir nada. dispo-me das emoções avassaladoramente negativas. tiro-as cuidadosamente. pouso ao meu lado. observo-as. vejo-as tremer. palpitar. sem ligar. é como se não fossem minhas. como se eu não me identificasse com elas. como se não houvesse urgência nenhuma. como se nada importasse. como se nada me pudesse chatear. não estou a dizer que isso não me custe. que os pensamentos antigos não me passem pela cabeça. que a tentação de cair neles mais uma vez não seja imensa. e às vezes mesmo caio durante uns segundos. era muito mais fácil assim... mas decido passar a outra coisa porque já consigo ver nas minhas inseguridades emocionais. encontrar um caminho no labirinto das deceções. navegar sem bater em nada. apagar o sal das lágrimas passadas sem o sentir na boca.

desenho um traço firme entre o passado e o presente. entre a criança e o adulto. entre a ilusão e a realidade. entre a paixão e o juízo. entre a chamada do inconsciente e o consciente. entre o veneno e o antídoto. entre o grito e o silêncio. não questiono nenhum fundamento. não procuro falhas. não me esqueço do essencial. faço uma pausa de mim. das minhas emoções e raivas. pego nelas. examino-as meticulosamente. apalpo-as. peso-as com a mão. acaricio-as para que se lhes passem os medos. as angústias. as tristezas. as fracturas. os desapontamentos. as cicatrizes.

já valorizo umas coisas mais do que o facto de eu ter razão e não quero pôr tudo em risco. já aprendi a apagar certos pontos de interrogação quando a minha intuição não os ditava. já me sinto responsável pelas minhas escolhas. já não recuo a mentir-me que estou a avançar.

assumo-me. muda todas as perspetivas.

sábado, 30 de junho de 2018

verweile doch! du bist so schön

sensações vivas
estou sentada fora. embrulhada no preto da noite (por uma vez gosto de preto). vestida do calor que pega na pele e na alma, reconfortante e prometedor. a batida das ondas a acompanhar os meus pensamentos (surpreendem-me sempre os impulsos da natureza quando supostamente deveria estar a recuperar forças...).  as estrelas a piscar timidamente. os lampiões a indicar por onde passar, um pequeno oásis luminoso no sério do escuro, no tranquilo da vegetação, na solidão da noite. uma rã a coaxar de vez em quando, como se quisesse gritar mais forte que o mar, distinguir-se na natureza, reivindicar o seu espaço. os olhos a adaptar-se à visão restringida. a pele a gozar dos toques do ar. o coração em paz e leve a perceber a sorte que tem de estar num lugar tão deslumbrante. de poder mergulhar numa calma quase absoluta. de ter espaço e silêncio para se auto-avaliar.

tenho-me sempre perguntado se pessoas vivendo em lugares paradisíacos estavam conscientes do privilégio que tinham ou se só a brevidade do tempo fazia realmente valorizar as circunstâncias e as coisas da vida. então só posso falar por mim. e eu de certeza valorizo. e adoro todos estes momentos em que me sinto em equilíbrio e em sintonia com tudo. quase completa. a alimentar-me da beleza do mundo. a acariciar o quotidiano. a perder-me na pureza, nas sensações. a avaliar. a fazer planos. a identificar fraquezas. a reiterar pontos fortes  e observações. a ponderar como fazer. mas sobretudo a divertir-me com o que tenho. a ficar grata por isto. a sentir-me feliz. tão feliz que queria que o momento durasse. eternamente.

sábado, 9 de junho de 2018

negligências

a falta de profissionalismo é uma das coisas que mais me irritam. quando sou eu a cliente e que alguém não faz o seu trabalho como devido ou falha sem pedir desculpa, sou o pior pesadelo imaginável. tenho a consciência disto. mas nenhuma intenção de o mudar. tenho zero paciência nessas alturas. sou brutalmente direta e confrontante. assertiva até à médula óssea. nem me interessam sentimentos nem desculpas nem circunstâncias. só que o trabalho esteja feito. e bem.

é porque é algo que não entendo. mas de todo. fazer uma coisa bem ou mal leva exatamente o mesmo tempo. qual seria o propósito de a fazer mal? nessas alturas é melhor não fazer de todo. não invisto em causas perdidas. nem em mediocridade. nem em faltas de avançamento. ou dou o meu 100% ou não dou nada. ponto final. sou bastante binária nesta área. 

para quê gastar energias a fazer algo sem o fazer realmente? a supostamente tentar, mas sem querer alcançar? a não levar a sério e atuar só para matar o tempo e ter a consciência tranquila? nunca concordei com os que diziam que as intenções contavam. o que conta é o resultado final. sim, as intenções ajudam para decidir se é preciso matar a pessoa   ou se se desempenhou o suficiente. nada mais.

fazer sem fazer bem parece uma tarefa completamente inútil. maluca. temerária. é como limpar os pés descalços todos os cinco minutos quando se anda na praia. não serve para absolutamente nada.

terça-feira, 29 de maio de 2018

binário

sou uma bruxa no trabalho. pelo menos é assim que me definia ao ver-me de fora. só duas coisas me interessam realmente. e, para simplificar tudo, têm pouco a ver com o que a maioria das pessoas quer ou procura. porque entre dinheiro, atenção, controlo, seguridade, constância, criatividade, valorização, prestigio, pertença, comunidade, expetativas claras, desenvolvimento, nada disso me motiva. nem inspira. nem faz sonhar. nem dá vontade para sair da cama de manhã. são para mim razões completamente secundárias. e para com as quais a minha paciência está debaixo do zero. se calhar só o desenvolvimento me podia potencialmente interessar se a configuração estivesse certa. mas há coisas que fazem o meu coração palpitar mais do que o desenvolvimento...

encontrar pontos de referência onde
não parece haver nada...
a liberdade. que seja na organização. na ordem de execução. no horário. na roupa. nas maneiras de fazer as coisas. nas janelas abertas ou fechadas em função do estado da alma. nas férias tomadas quando apetece (se calhar é um pouco exagerado, mesmo eu percebo que às vezes não dá para as tomar, eheheh...). na falta de fronteiras, de limites, de limitações. nos valores. nos sonhos. nas palavras escolhidas. nas opiniões honestas. nos comentários diretos. na ética que só a mim me diz respeito.

o desafio. adoro o difícil. o complicado. o complexo. o delicado. a pressão. o impossível (aliás uma das coisas que mais me fazem enraivecer é quando se me diz que algo o é...). gosto de enfoques positivos. de saber o que se pode fazer para melhorar uma situação. não de lamentar porque está a correr mal. na verdade, nem me interessa porque correu mal. nem o que já foi tentado. nem como foi resolvido no passado. só quero saber quais acções se pode tomar já. (felizmente) adoro estar sozinha contra todos. cruzar a minha opinião com as deles. anima-me mais do que as pessoas que tentam desencorajar-me possam suspeitar. quando algo é fácil e simples, que o conheço e que tenho tempo suficiente e que já sei que vou conseguir fazer sem problema, qual é o propósito? para que fazer? perde todo o encanto. torna-se chato. e não me interessa.

quando se me diz que não dá, fico deliciada. encantada. extasiada. animada. motivada. feliz. e faço.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ready or not

qualquer conselho é inútil quando não se está pronto para os ouvir. nem receber. nem ponderar. quando não se os quer. independentemente de quão bons ou pertinentes são. independentemente de quanto estamos a errar. independentemente de como o conseguimos justificar ou racionalizar. independentemente de quanto tempo já perdemos. e quanto mais vamos perder. de quanto não vamos progredir ou melhorar. há coisas que, simplesmente, não se consegue saltar. e vê-se tudo como uma ingerência inimiga. uma intrusão, uma falta de compreensão da situação e do estado de ânimo. o que muitas vezes é dificilmente aceitável pelas pessoas que nos rodeiam. mas não podem fazer nada.

ligar os pontos
o primeiro elemento desencadeador é sempre o estar pronto. o chegar a um estado emocional e intelectual que supõe um mínimo de maturidade. o suficiente para parar. refletir. questionar. tirar conclusões. tudo isso a enfrentar a realidade. a ser honesto consigo próprio. a não se preocupar com as coisas desagradáveis que descobrimos. nem com as falhas nem erros. é preciso muito distanciamento e determinação para tomar essa decisão. para parar a loucura na cabeça e observá-la objetivamente. para não dar no conforto da vitimização. no prazer da lamentação, na tentação da facilidade do não há nada para se fazer, do já tentei tudo. na promessa da falta de responsabilidade. na amargura da melancolia. tudo isso para abrir os olhos de adulto e cortar os laços e o investimento emocional para com a negatividade. sem isso tomar uma decisão, fazer um passo, mudar  o quotidiano torna se extremamente difícil. até mesmo impossível. insuperável.

acho fascinante que, no fundo, tudo dependa do que temos na cabeça. da etapa da vida que estamos a atravessar. do nível ao qual processamos os nossos pensamentos. e sentimentos. da vontade de identificar os padrões que seguimos. do impulso que temos para fazer uma escolha diferente. da resolução de mexer no nosso inconsciente. de desligar os automatismos. quando esses processos não começam, quando não se quer estabelecer a ligação entre o que fazemos (ou o que não fazemos, o que resulta na mesma) e como isso nos faz sentir, não há nada que se possa fazer. nem conseguimos aproveitar o que a vida e as pessoas nos oferecem. escolhemos a escuridão. a exclusão. a deceção. acho inaceitável.

sábado, 7 de abril de 2018

p de paixão

coisas de cortar o fôlego
nunca faço coisas só por fazer. ainda menos para as fazer mal. preocupo-me que seja bem feito. bem refletido. bem organizado. prático. bonito. estético. pragmático. sem gestos desnecessários. sem esforços desperdiçados. sem energias malgastas. sem trabalho a mais. sem complicações potenciais. sem embelezamentos da realidade. sem mentiras por conforto ou outra razão.

não sei fazer nada sem entusiasmo. sem me investir realmente. sem me dedicar. sem levar a peito. sem achar que vai resultar. nem vejo o propósito de fazer. nunca me pergunto quanto me devo atirar depois de ter aceitado uma tarefa. é óbvio que me atiro completamente. só questiono o que dou se eu for a única pessoa a esforçar-se ou se alguém não respeitar o meu tempo ou trabalho.

não percebo todos esses conceitos de fazer pela metade. em que modo se teria de estar na cabeça para os querer seguir. não consigo funcionar na indiferença. no tépido. no medíocre. no cómodo. no dedicar sem se dedicar realmente. no querer sem querer. no achar sem achar. no esperar que a situação passe ou se resolve por si. quero ser eu a resolver. quero aproveitar as oportunidades. quero situações claras em que sei o que esperar. deixar-me levar pela vida sem estados de alma claramente definidos nunca me interessou.

regra geral, tenho opiniões sobre quase tudo. adoro ou detesto. há poucas coisas que me deixam indiferente. sou feita assim. quando não me apetece ou não gosto, não faço. mas quando faço, dou sempre tudo o que tenho. e um pouco mais. 

sexta-feira, 23 de março de 2018

something borrowed

un samuraï ne doit jamais, aussi longtemps qu-il vit, se permettre de s'éloigner de ceux auxquels il est redevable spirituellement. hagakure

coisas infinitesimais que fazem
diferenças enormes
casar nunca tem tem feito parte da minha lista de prioridades. não acredito na história de metades de laranja que flutuam perdidas no éter (hoje em dia era provavelmente mais exato dizer na internet...) antes de se encontrarem e afinarem os níveis respetivos de yin e yang. acho que é mais uma questão de querer, numa altura dada, as mesmas coisas da vida. de estar ao mesmo nível de desenvolvimento, que seja emocional ou intelectual. acho também que, às vezes, as pessoas aparecem nas nossas vidas só para desaparecerem um dia. temo-las durante um tempo limitado. e a única coisa que podemos fazer é aproveitá-lo. claro que há algo engraçado na ideia de passar toda uma vida com a mesma pessoa. de evoluir juntos. de compartilhar tanto. de se conhecer tão bem. mas poucos são os que o conseguem sem se tornarem reciprocamente e profundamente infelizes. não existe amor que o quotidiano ou a vida não consigam matar...

para continuar a série de coisas nas quais não acredito, não creio em amuletos. nem em todos os objetos que nos deveriam trazer sorte. porque penso que temos o nosso destino e a sorte que o acompanha nas nossas mãos. e seria uma loucura transferir o poder que temos para uma coisa que nos tornaria passivos. claro que tudo não depende de nós. mas podemos escolher como reagir em função do que temos. contudo, acho engraçada a ideia de usar no dia de casamento alguma coisa que pertence a um amigo íntimo. um símbolo do facto que haja pessoas com quem podemos sempre contar. e de valores que nunca devemos esquecer. o leszek incutiu em mim que se devia cuidar das amizades. uma das minhas melhores amigas foi viver para o estrangeiro com a família quando eu tinha 15 anos. nesses tempos (foi um pouco mais tarde do que as pirâmides, mas não muito mais tarde...) nem havia telemóveis nem internet nem voos low-cost e os telefonemas para o estrangeiro eram bastante caros. lembro-me ter mencionado este facto ao leszek e ele perguntou-me como eu contava manter as minhas amizades sem investir nelas e sem fazer esforços vários. foi uma dessas conversas que se fez há muitos anos mas da qual me lembro como se fosse ontem... tornou-se uma das minhas mantras. um pilar de quem sou. 

desde esse momento comecei a atender o telefone no meio da noite quando eram urgências. a ouvir as mesmas histórias uma infinidade de vezes sem me queixar. a comprar montes de prendas. a mandar inumeráveis cartões. a não julgar. a gastar fortunas em telefonemas e passagens. a acompanhar. a escutar choros e silêncios. a ajudar com coisas. a ficar fora da minha zona de conforto. a compartilhar medos. a aprender. a rir das absurdidades da vida. a encorajar. a lembrar-me dos momentos importantes. a deleitar-me com a vida. a descobrir que eu tinha casas em lugares em que nem precisava morar.

e tudo isso nunca o ressenti como se fosse um sacrifício. mais como uma ordem natural das coisas. uma sorte de dívida invisível para se pagar. para agradecer por tudo o que recebi dos outros. lembro-me perfeitamente de todas estas pessoas que me acompanharam e que me acompanham nas etapas importantes da minha vida. das que me ajudaram a tornar-me na pessoa que sou. que me dedicaram tempo e paciência. que me ouviram chorar, insultar ou calar. que sempre estiveram cá quando mais precisava de apoio. que nunca puxaram para eu fazer quando não estava pronta. que me ajudaram a encontrar um caminho que correspondia ao meu temperamento. à minha visão da vida. ao meu nível de desenvolvimento emocional do momento. mesmo quando as minhas escolhas lhes pareciam incompreensíveis.

fico-lhes grata. eternamente. por tudo.

segunda-feira, 12 de março de 2018

se ser adulto

tenho sempre tido este sentido agudo de responsabilidade que um dia vai ser a minha perdição... sou extremamente disciplinada. e não é preciso dizer-me o que deve ser feito. assumo sozinha. adoraria que não fosse assim, mas não se pode fazer muito contra a própria natureza... quando descubro qual é o caminho certo, não o posso não seguir. ou não o quero não seguir... quando há coisas que ninguém quer fazer, mas que precisam ser feitas, faço. sou uma chatice nesta matéria. não sei fingir que nada aconteceu e esquecer-me do assunto.

na mesma, quando tomo decisões, não dá para voltar atrás. não as sei suspender durante um tempo. ou aplicar só quando me dá jeito. ou não começar de imediato. ultimamente tenho feito muito trabalho de desenvolvimento pessoal, a chegar a conclusões espantosas. e revolucionárias. que me impõem um comportamento mais ponderado. e adulto. e a única coisa que posso fazer agora é aplicá-las... independentemente de quão inabituais são. de quanto se chocam com  quem sou. e de quanto trabalho pedem... sempre achei falta de profissionalismo quando as pessoas davam conselhos aos outros mas eram incapazes de os seguir sozinhas. o que pode valer um tal conselho?... nada...

madurar é muito pouco romântico... envolve moderação. reflexão. não dá para seguir pulsões. não dá para mandar à merda a humanidade inteira quando mais apetece. não dá para se vitimizar. não dá para queimar tudo só porque oferece uma sensação de paz absoluta durante uns segundos. não dá para esperar que as outras pessoas solucionem os nossos problemas. ou para ficar zangado com elas porque não o fazem. não dá para confrontar todos (é o meu maior arrependimento porque a confrontação direta é algo que adoro e que me anima tanto...). não dá para impor a sua razão. não dá para dar em raivas. não dá para fazer birras. não dá para se deleitar com as suas fraquezas.

é preciso constantemente olhar para si próprio e de fora. ter um nível desenvolvido de autoconsciência. fazer uma ligação entre as nossa ações e os  resultados. ter zero afeição para os nossos sentimentos negativos. não se investir neles. só procurar segurança em si próprio. destruir os padrões que não nos fazem avançar.

o problema é que a única alternativa seria continuar no mesmo estado inconsciente. a produzir as mesmas deceções. a enganar-se mais e mais todos os dias. a infligir-se perdas irrecuperáveis. a quebrar a nossa vida mais e mais.

então não há outra opção... é preciso examinar-se em detalhes e questionar a extensão do nosso impacto no que vivemos... e tirar conclusões...

sábado, 3 de fevereiro de 2018

(in)tranquila

pacífico?
um cliente mandou-me hoje um vídeo. quarenta e oito citações calmantes sobre a vida. música fixe saída diretamente dum mosteiro. desenhos pacíficos. frases bonitas mas, mesmo assim, nem agradeci nem comentei. agradecer significaria eu ter achado algo pertinente ou enriquecedor na história. e não foi o caso. e por uma razão simples. a calma, a tranquilidade, o sossego não são os meus estados de espírito preferidos. é a agitação. é quando tenho tanta coisa para fazer que nem sei por onde começar e que tudo anda a 100 km/h que me sinto calma...

e estou realmente farta de ouvir como é importante meditar, desconetar, relaxar, não fazer nada... não consigo, não preciso, não me interessa. não quero sentar-me de olhos fechados, respirar fundo e esvaziar todas as emoções da cabeça. não é a única receita para se seguir. consegue-se ser feliz sem tudo isso. irrita-me profundamente quando ouço que estou fazendo demasiada coisa e que não é possível funcionar assim, que é porque não quero esquecer nem abandonar, porque sou ansiosa, porque não percebi nada das coisas importantes da vida, porque tenho prioridades erradas etc... o que as pessoas não entendem é que o meu trabalho não é uma maçada. é um prazer. os meus passatempos não são um modo de preencher vazios internos. é o que me dá ainda mais energia. o ponto de serenidade em si próprio não é o mesmo para todos. e nem tenciono culpabilizar nem me justificar por não corresponder ao que parece mais natural.

e, atenção, não estou a desrespeitar ou rejeitar a calma, a lentidão, a relaxação e todas essas correntes que as promulgam. só a dizer que as ferramentas que servem para se estar sereno podem ser diferentes. são diferentes. variam de pessoa para pessoa. é fantástico fazer coisas mais devagar. até eu gosto. mas o ritmo deste devagar está definido pela nossa natureza. o meu de certeza parece uma corrida insensata para a maioria das pessoas. paciência. porque podia ser perigoso mexer nela. conduziria a complexos. a questionamentos inúteis. a equilíbrios instáveis. faria caber dentro dum molde demasiado grande ou demasiado pequeno. não quero isso.

há simplesmente personalidades que não são propícias para os enfoques zen. que não vão de mão dada com eles. há uma diferença entre intranquilidades de temperamento e intranquilidades causadas pela ansiedade e pela culpabilização. podem ser úteis. às vezes aproveitar da energia é melhor do que tentar acalmar a tempestade. mesmo as pessoas irrequietas distinguem entre uma calma boa e uma calma má. a boa é uma que se escolhe e que decorre das necessidades, das fantasias, das expetativas. a má é sempre imposta pelos que acham saber melhor do que nós do que precisamos. e que nos ditam mudanças de intensidade. para o nosso bem, claro. para não nos perdermos nas complexidades da vida. nunca percebi quem lhes dava essa autoridade. certo, é preciso navegar entre os esgotamentos potenciais. tomar cuidado. mas há caminhos diferentes. e para resultarem devem respeitar quem somos.

e eu, não fazer nada, acho altamente cansativo... dá cabo de mim...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

fête du slip

num domingo na farmácia.



o meu champô parece ter mudado de embalagem e como agora há versões diferentes preciso de uns minutos para poder cheirá-los todos e decidir o qual é o meu.

o farmacêutico, na altura de pagar: a senhora não leu bem. isso é a versão para homem (sim, uso um champô para homem e então?)

eu: sim sim. vi. li. já consigo ler há alguns anos. não sem dificuldades e só as maiúsculas, mas desenrasco-me.

ele: então não quer comprar isso. a versão para mulheres garante mais volume.

olho suspeitosamente para ele, como se fosse um gnomo sentado debaixo dum cogumelo enorme.

eu: viu o meu cabelo? já tem tanto volume per se que o podia distribuir a todas as pessoas que estão cá e ainda me sobraria volume a mais para mim... e a única coisa garantida na vida é a morte...

ele: tem razão... mas deixe-me apresentar os benefícios adicionais - a versão para mulheres custa 5 pln menos.

eu: mas cheira mal. não quero.

ele: percebo. sabe qual é a ligação entre o cabelo das mulheres e os homens?

nesta altura o gnomo que ele parece na minha imaginação levanta-se e começa a sapatear.

eu: não.

ele: os homens gostam de enterrar o nariz no cabelo das mulheres.

a sapateada do gnomo está acompanhada de piruetas.

eu: isso foi cientificamente comprovado?

ele: não sei.

eu: muito bem. então por enquanto e como se trata do meu cabelo, vou decidir como vai cheirar. Posso?

ele: pode, claro.

eu: obrigada. então quero pagar se for possível...