sexta-feira, 29 de maio de 2015

p de professor

toute ma jeunesse on me disait: tu verras quand tu auras 50 ans. j'ai 50 ans et je n'ai rien vu. erik satie

stay hungry. stay foolish.
fiz muitas coisas na vida. umas mais extravagantes, desafiadoras ou questionáveis do que outras. pelo menos extravagantes, desafiadoras ou questionáveis par as outras pessoas. para mim, normais. ou evidentes. o fácil nunca me interessou. é insípido demais. não acalma a minha fome e curiosidade insaciáveis da vida, das experiências e das pessoas. não me impressiona. não me faz sonhar com nada.

mas acho que o facto de ensinar crianças na escola ultrapassou as minhas expetativas. de muitas maneiras. fez-me pensar em todos os meus professores, os muito e os menos memoráveis. deixou-me realmente perceber a paciência, a perícia deles, a pessoa por trás da posição. fico muito mais admirativa e consciente do trabalho que faziam. apreço a generosidade, o esforço e o tempo que nos dedicavam. penso nas influências que tiveram. pergunto-me se sou suficientemente boa. ou se gostava de ser ensinada por mim. 

o trabalho é semelhante ao dum ilusionista ou dum alquímico. nunca se tem a certeza dos ingredientes, das proporções, da credibilidade, do interesse do auditório, dos desafios a enfrentar, das questões a aparecer, das dúvidas a dissipar, dos erros a evitar, da criatividade a encontrar em si mesmo, da maneira de reinventar o óbvio, a vida, da humildade a descobrir, do que se vai aprender, da confiança a gerir, do modo de moldar sem impor nada. é um ponto de interrogação que se tenta dominar em cada aula. uma redefinição de tudo o que se sabe e de tudo o que se é.

e eu sei que, mais provavelmente, a maioria das minhas amigas ficavam com ciúmes ao saber que rapazes de 15 anos olham para o meu rabo, mas a mim, isso faz-me sentir velha como as pirâmides. alimentar as fantasias sexuais de adolescentes nunca ficou no meu bucket list, mas paciência, decidi levar isso como elogio.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

não, obrigada

não sei de onde é que os homens têm aquela ideia que as mulheres gostam de receber flores. eu não gosto. e quando acontece, sinto essa pressão de ficar contente, mas todas as vezes que estou à procura daquele sentimento na minha cabeça, ao ver as flores, é, com alguma perplexidade, que não o encontro. todos os parâmetros em volta de mim estão a indicar que estou a assistir a um momento agradável, mas não consigo carregar no botão contentamento. olho para as flores e pergunto-me quem é que poderia ficar realmente contente, a não ser que seja botânico? não tenho nenhuma ideia porque é que eu poderia querer receber flores.

para começar - não se podem usar para nada. são algo de completamente inútil. e cheiram. tenho o nariz extremamente sensível. e o olfacto é o meu sentido mais desenvolvido em que me baseio para descobrir o mundo (e os homens de que gosto ;) ) então não aguento coisas que cheiram em permanência. ou de maneira muito intensa. é cansativo. velas perfumadas e incenso dão me dores de cabeça horríveis num espaço de três minutos. além disto, é trabalho a mais. são viagens diárias entre a sala e a casa de banho para mudar uma água fedorenta, em que pétalas e folhas se perdem no caminho e depois é preciso limpar tudo. não tenho vida para isso.

prefiro receber chocolates. são práticos, simples e comestíveis. não necessitam a minha atenção nem os meus cuidados intensivos. posso esquecer-me deles quando não apetecem, só para descobrir o prazer de os encontrar de novo mais tarde. como me disse ultimamente uma agente de imigração, ao perguntar-me que tipo de comida eu estava a levar para os estados unidos: chocolate is always welcome. 

it is, indeed.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

numa vida passada

há coisas que não cabem numa mala de mulher. o leszek ensinou-me a arrumar a
com o passar do tempo, as nossas
 lembranças cobrem se do pó e
nos deixam com saudades
trouxa com uma precisão matemática - calculadora de peso no olho e mão cuidadosa na formação dos ângulos - mas, às vezes, simplesmente, há coisas que não cabem. quadros enormes de poliestireno cheios de alfinetes, blocos gigantescos, lápis, canetas e marcadores de tantas cores e larguras que davam ciúmes às crianças de todos as escolas primárias do mundo, diferentes tipos de tesouras, fios, inumeráveis utensílios para a máquina de costura, livros espessos com mais desenhos do que texto, duas grandes garrafas de água e uma infinidade de tecidos, padrões, réguas, agulhas, tiras e outras. poucos são os escolhidos dos deuses que têm um compartimento para deixarem o equipamento na escola. tenho de levar duas malas gigantescas todos os dias.

o caminho pelo metropolitano, invariavelmente o mesmo, um capuz no cabelo molhado, óculos de sol independentemente do tempo e da estação, um substituto de privacidade numa cidade que olha fixamente para todos e repara nos pontos fracos num espaço de três segundos, o passo titubeante às 8 da manhã, depois de tão poucas horas de sonho que nem devia ser permitido. a estação de metropolitano regular é a 300 metros de casa. para apanhar um metro rápido, devo andar 7 minutos, mas encurta significantemente o tempo da viagem. são quatro estações em vez de dez. pois, como o metro regular também lá pára, é sempre uma opção a mais em caso de atrasos. crónicos. é a palavra que melhor qualifica atrasos no metro nova-iorquino. crónicos. atravesso, tão rapidamente quão mo permitam os quilos a serrar nos ombros, as oito ruas que me separam do caixote de metal, onde tal como uma sardinha em lata, vou viajar na direcção do centro da metrópole. o elemento chave é de se posicionar perto da primeira carruagem, porque aumenta consideravelmente a hipótese de conseguir entrar no comboio nos primeiros vinte minutos da estadia na estação. estadia que, por princípio, não tem nada de curioso nem esplendoroso, a não ser a observação do tipo de lixo que as pessoas têm a fantasia de despejar nos trilhos e da variação do interesse que as ratazanas mostram por elas.

os nova-iorquinios são um povo que dominou na perfeição a faculdade de ignorar. ilusionistas do momento, conseguem fazer desaparecer tudo o que lhes rodeia. sem exceções. estar a 5 centímetros duma pessoa sem a ver, olhar através de caras como se fossem transparentes, como se lhes tivessem enfaixado os olhos na entrada do comboio. não que sejam menos socialmente cegos no autocarro ou na rua, mas no autocarro e na rua, pode-se fingir estar absorvido em coisas que estão a acontecer em volta ou no seu próprio passo. normalmente, uma vez parado, o homem é este tipo de criatura que repara mais e presta mais atenção. mas, pelos vistos, há exceções. não sei em que pode estar focada a concentração deles. nos anúncios que afirmam que um homem em dois tem problemas de erecção, que os percevejos são extermináveis ou que é melhor investir numa marca x de lâmpada porque duram tanto tempo que as viagens frequentes e vertiginosas ao cimo duma escada vão revelar-se desnecessárias? nunca validei empiricamente a minha hipótese que se possa apanhar o metro nova-iorquino nu sem as pessoas notarem - havia sempre muitos agentes de policia nas estações e o exibicionismo nos estados unidos é punível por lei - mas tenho poucas dúvidas sobre a sua certeza.

além disso, o metropolitano é regulado pelos direitos da selva. não faz sentido nenhum esperar até que as pessoas saiam primeiro, porque a multidão atrás não tem compaixão nenhuma pelos fracos ou os que hesitam. nem pelos falhados que não conseguem chegar a tempo a um assento. é melhor entrar a pisar nas pessoas, a dar golpes com malas e depois a olhar para todos com uma expressão de surpresa absoluta na cara porque são eles que deviam pedir desculpas por ficarem no caminho. é a única linguagem que eles percebem. os fuck you ouvem-se com regularidade se uma pessoa tocar alguém inadvertidamente com a extremidade dum cabelo ou um filo excessivamente longo dum cachecol. é com grande alívio que saio do metro para continuar a pé o caminho da escola. de tarde, vou ter de o apanhar outra vez durante quarenta minutos para ir trabalhar em brooklyn e depois de novo uma hora e meia para voltar para casa. pelo menos já vai haver menos pessoas e vou conseguir ler sem problemas. paciência.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

pas mal

i'm a tough cookie. especialmente com os homens. 

acho vital estar consciente das próprias qualidades e defeitos. saber em que se é bom e em que não, sem se mentir ou embelezar. ajuda muito na vida e nas relações com as outras pessoas. faz ganhar tempo. simplifica tudo.

há poucas coisas que me impressionam. os elogios não me importam. acho mais interessante alguém falar-me dum meu defeito do que duma qualidade. pelo menos deixa-me a possibilidade de melhorar. convém dizer que já sei em que sou boa e falar nisto é uma perda de tempo (não tem nada a ver com vaidade; é uma avaliação objetiva da situação). não preciso que seja confirmado ou validado por quem quer que seja. sei quanto valho. 

ao ouvir 99% dos piropos dos homens, fico com vontade de rir e a perguntar-me como o meu nível de inteligência deveria ser baixo para eu cair nisso. ou nem que seja achá-lo engraçado. não me podiam dizer algo que eu ainda não saiba?

mas hoje, enquanto estava a entrar num táxi, o homem responsável pela circulação dos carros em frente da houston galleria, disse-me, antes de me desejar uma boa tarde: break as many hearts as possible today. catchy, isn't it?

segunda-feira, 4 de maio de 2015

natureza

tenho sempre querido ser uma daquelas pessoas sossegadas, calmas, que aceitam a vida com serenidade, que relativizam tudo, que conseguem esperar tranquilamente no meio duma tempestade para ver o que o dia seguinte vai trazer. que não se zangam, que dominam emoções, adoptam atitudes filosóficas, ficam neutrais, ponderam vantagens e desvantagens, refletem antes de agir. era bonito ser assim. era bom. era muito mais fácil. é algo que me impressiona e surpreende cada vez com a mesma força e intensidade. porque sou perfeitamente incapaz disso. porque até sou exatamente o oposto. e não me parece que isto seja mudável. paciência.

fora da caixa ;)
sou emocional. invisto muito tempo e energia nas tarefas e nas pessoas e quando as coisas não correm como deveriam, zango-me. ou fico com raiva. não consigo não levar as coisas a peito. mando tudo e todos foder em três segundos, sem transtornos interiores particulares. só vêm depois, quando já sei que reagi de maneira um bocado desmesurada. ou que devia ter refletido cinco segundos mais. ou não ter agido de todo para avaliar melhor a situação. não é que faça coisas das quais me arrependo; aprendi a não dizer nada, a não me mexer, a não agir, a calmar a cabeça quando sinto que podia dizer ou fazer coisas cegada pelas emoções. mas consigo sem problema ter reacções que qualquer pessoa sensata acharia excessivas, e que eu tenho tranquila e decididamente, mesmo quando se trata de quebrar pontes. não se me pode acenar com uma capa vermelha e pensar que não vou reagir. mas felizmente, com o passar do tempo, aprendi a não responder a cada provocação.

não acredito no facto de as pessoas conseguirem mudar. ou se ocorrer, não mudam mais do que 10%. porque o domínio de si mesmo custa muito. e ainda mais um domínio contra a própria natureza. não dizer o que penso, não fazer evacuar as minhas emoções, não mostrar quando estou zangada ou chateada, ficar indiferente, estóica perante as circunstâncias da vida e os tratamentos de merda custa-me baldes de energia. consome-me lentamente, milímetro por milímetro. faz-me sobreviver em vez de viver. desassossega-me completamente. força-me a obcecar com o que aconteceu. torna-me presidiária de mim mesma, incapaz de avançar, de prosseguir, de criar.

sou feita completamente de outra coisa. gosto de provocar. de desafiar. de ir a contracorrente. de desrespeitar regras - por princípio e quando as acho limitadoras; sim, quase sempre. de chocar. de não corresponder às expetativas. de só fazer o que bom me parece. de questionar tudo. de criar as minhas próprias definições. de escolher sozinha. de malear a vida como quero. de tomar posse das circunstâncias. de me investir completamente. de querer que as coisas sejam, tanto quanto possível, brancas ou pretas, nunca cinzentas. de viver de maneira intensa e unívoca.

tenho humildade suficiente para admitir quando errei e pedir desculpas. e suficientemente energia e motivação para reconstruir pontes. os cépticos diriam que há coisas que não se reconstroem. discordo. tanto quanto se tenha vontade e se esteja pronto para fazer sacrifícios, tudo é possível. pelo menos para mim. então o politicamente correto pode ir-se foder. vou conseguir desenrascar-me sem ele.