terça-feira, 30 de junho de 2015

honestamente...

continuação da história com o meu vestido branco de há 10 dias.

mando uma mensagem a um casal amigo para perguntar quando é que me vão convidar para casa deles para bebermos uns copos (sim, não tenho vergonha nenhuma. apesar disto, é mas fácil ver pessoas com filhos na casa delas; para elas é mais fácil gerir o tempo, o espaço e a logística; para mim é mais sossegado e há menos para limpar. poupa-me também momentos intensos e tão palpitantes a compartilhar os dramas dos filhos que: a. caíram ao tentar subir em cima de algo em que nunca deveriam tentar subir, b. colocaram no nariz algo que já não conseguem tirar, c. estão a ter um chilique por uma razão fortuita e sem importância, d. uma combinação de a, b e c, porque posso sempre e simplesmente sair.).

ele responde com uma brincadeira ela não responde de todo, ninguém está a convidar -me (e costumo vê-los de maneira regular na casa deles). regra geral, vejo os problemas vir antes de eles se materializarem.

na mesma tarde, acabo por dar com a amiga depois da aula com a filha.

ela (a amiga) ouviu dizer que usei um vestido branco giríssimo há alguns dias. isso foi-lhe comunicado pelo marido. e ela ficou com muito ciúme.

olho para ela. respondo que sem problema posso ajudá-la a escolher um vestido branco. na realidade apetecia-me dizer que o vestido não importa realmente e que se calhar era uma melhor ideia desfazer-se dos 20 ou 30 quilos (há coisas que não se contam) que ela acumulou durante os últimos 10 anos e duas gravidezes e que a fazem parecer com uma baleia. sou dura? se calhar. mas acho importante ver a realidade sem embelezar e se mentir. é uma rapariga muito fixe de quem eu gosto, mas a priorização de coisas na vida, é algo em que ela ainda precisa trabalhar. e na casa dos 25 anos ela tinha um corpo de sonho.

não compreendo as mulheres que não tomam cuidado de si mesmas. eu sei que não é o que importa mais, mas para mim é algo importante. sou esteta. faço isto só para mim. também não percebo como é que se pode não fazer desporto nenhum. mas do outro lado, quando alguém escolhe não se cuidar, mas assume-o, continuo sem perceber mas respeito. o pior é uma mulher que não assume, não faz nada e se sente ameaçada por isso. porque é que sou eu que devo pagar o preço disso?

é interessante ver que a maioria das pessoas acham que depois do casamento, já não é preciso seduzir o parceiro. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

uma derrapagem

falsa modéstia à parte, acho que sou muito boa a oferecer prendas. não compro só por comprar, escolho bem, personalizo, tento encontrar coisas invulgares, pergunto-me sempre do que a pessoa gosta, leio nas entrelinhas; resumindosou mulheramente (deve bem haver alguma vantagem deste sexo; e sei que a palavra tecnicamente não existe) atenciosa aos detalhes, às preferências, aos suspiros, aos sorrisos. e às cores. compro o que a pessoa gostava de receber. não o que eu queria que me oferecessem.

mas deve ser algo pouco comum, a julgar pelas prendas que recebo. no
jusqu'ici tout allait bien
ano passado a beata ofereceu-me pelo meu aniversário um livro sobre alergias. muito fixe, mas além das picadas de insectos, não sou alérgica a absolutamente nada. se calhar à estupidez humana, mas acho que uma tal doença não figura nos manuais de medicina. e de certeza não se consegue curar. deste ano consegui evitar o fracasso - a beata perguntou-me se eu preferia receber um livro, que para não entrar em demasiados detalhes podia ser resumido à palavra auto-ajuda, em polaco ou em inglês. e acrescentou que achou que eu ia preferir o inglês e já mo comprou. bem, mas o problema é que eu preferia não o receber de todo, porque acho que já estou a auto-ajudar-me o suficiente. e um grama mais de auto-ajuda até me podia matar. ela ficou extremamente desiludida. ainda mais quando eu a lembrei que não queria receber nenhuma flor. merda, é o aniversário de quem?

além das prendas que consegui evitar, recebi um rímel. eu não uso maquilhagem. não me sinto eu mesma com cores pintadas na cara. é uma perda de tempo e dá demasiado trabalho. não tenho vida para isso. e também acho que tenho um ar suficientemente bom sem. não quero colocar ainda mais pressão nas outras mulheres ;)

recebi duas pulseiras. só uso brincos. e o mesmo anel há anos no dedo mindinho. não uso outras jóias porque me incomodam e porque não gosto. sou minimalista. a primeira pulseira é tão grande que eu a podia usar no pé, no braço não dá. cai no chão imediatamente. ao dar-me a outra, uma conhecida disse-me que ela sabia que eu não usava pulseiras e por isso decidiu oferecer-me uma. pelos vistos não lhe ocorreu que havia uma razão pela qual eu não as usava.

e hoje, a cereja do bolo. e o bolo foi literal. salvo que não houve cerejas mas maçã. já não sou uma grande fã de fruta em geral. é doce demais. das coisas doces, só gosto de chocolate. mas com maçãs só as consigo comer cruas ou na forma dum doce básico. as assadas, os sumos - detesto. os bolos - posso comer uma fatia pequenina quando for preciso. então acabei por dar o bolo aos meus vizinhos. parto do princípio de que quando tenho algo do que não preciso ou não gosto imenso, é sempre melhor dá-lo a alguém que precisa ou que vai gostar mais.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

desonestamente...

acabo uma aula com a filha dalguns amigos na casa deles. 

vou levar de volta a minha cadeira à sala. 

não sei que o pai dela já voltou. 

de repente ouço um o teu vestido é giríssimo por trás de mim enquanto estou a andar com a cadeira. 

pouso-a onde estava antes da aula. 

volto-me e olho para ele com muita curiosidade. 

realmente?

estou a usar um mini vestido branco, que se torna (não vou fingir que não o sei) um pouco transparente com a luz. 

ele é o tipo macho alfa e pouco subtil e até agora, durante os nossos 12 anos de amizade, nunca reparou na roupa que eu usava. e visto-me bastante bem. 

acho os homens que elogiam roupa de mulher (a não ser que sejam gay) desonestos.

não vejo delicadeza nenhuma nisso. 

ou se tem os colhões para dizer do que se gosta realmente, ou é melhor ficar calado. 

domingo, 14 de junho de 2015

escondidas

há um proverbio francês que diz 'quem procura, encontra'. a tenacidade, a perseverança, esses atributos tão desejáveis, fazem toda a diferença na sociedade. os adultos importantes nas nossas vidas fizeram-nos tragar na infância colheres cheias desses conceitos, a fazer figas para que pelo menos uma migalha fosse incutida e permanecesse no sistema. para estarmos prontos a enfrentar a vida. para conseguirmos obter o que nos é devido. para não sermos pisados pelos outros. a ideia? nobre. a execução? uma dedicação e uma paciência mais do que extensas. o resultado? uma bagagem insubstituível. a melhor coisa que podemos fazer com ela? mandá-la foder.

acho que as melhores coisas na vida se encontram quando não são procuradas. procurar significa predefinir, escolher parâmetros, determinar preferências. é sair da casa com uma lista toda feita, com uma ideia na mente, com expetativas preconcebidas. é já se limitar sem ter começado. é confiar cegamente numa coisa que na realidade podia revelar-se insignificante. fica-se tão obcecado com a procura dum ideal inexistente que não se consegue ver mais nada. é nunca encontrar o que se procura ou o que se acha procurar.

isto aconteceu há muitos anos. eu sentada no chão do meu quarto, um vibrador na mão, um artigo americano à minha frente, à procura do meu ponto g (para tirar alguma pressão e recalibrar as expetativas do leitor - não vou dizer se no fim o consegui encontrar ou não. I don't kiss and tell.). o artigo fala comigo em polegadas, então já é um pesadelo para converter em centímetros e conceptualizar tudo. depois duma ginástica mental intensa, numa era sem computadores nem internet, consigo acertar as medidas, descobrir o ângulo e sinto-me pronta para a acção. o problema é que, uma vez o vibrador na posição, controlar a profundidade e a inclinação conforme às especificações revela-se uma proeza. não me lembro depois de quanto tempo abandonei, mas lembro-me que pensei que não fazia sentido nenhum. toda a minha concentração ficava presa na geometria espacial dum pedaço de borracha e plástico a pilhas. podia ter encontrado o meu ponto g uma dúzia de vezes, sem fazer caso disso.  

foi mais ou menos nessa altura que decidi que já não ia seguir nada que não viesse de mim, que sejam conselhos para a vida, receitas de cozinha, ou um qualquer outro tipo de sugestões. ouço atentamente (porque se deve conhecer bem as regras do jogo), tiro de lá uma ou duas ideias que sejam suscetíveis de me interessar e depois interpreto-as à minha maneira (o que estranha e frequentemente coincide com a quebra das regras). 

faço e digo as coisas como as sinto, mas sem expectativas determinadas. e nunca procuro. não. é uma mentira. procuro o tempo todo. mas sem procurar realmente. gosto da busca, da caça, desta sensação de saudade insaciável, desta fome constante. e não me importa o que fica no final do caminho. não o quero saber. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

siamo anche ciò che abbiamo perso

se eu fizer uma terceira tatuagem, eis o que vai ser. convém dizer que para que houvesse uma terceira, ainda precisava haver uma segunda. mas por enquanto ainda não decidi. ter uma tatuagem só é domesticar a pele e apropriar-se do corpo. é, no meu caso, ter escolhido uma mensagem e um valor indispensáveis para se desenrascar na vida. e que simbolizam uma escolha que eu tomei há anos. um eu que se acabou e que mudou. acrescentar outras tatuagens podia embaçar tudo. era passar por uma aficionada, mais do que outra coisa. não me interessa. menos é mais.

na sexta passada, ao ouvir os discursos da formatura, bonitos e inspiradores, não conseguia enxotar da cabeça a ideia que era tudo uma treta. a vida é feita de outra coisa. não percebo porque é que se mente aos jovens. dá-se lhes a ilusão que o mundo está aos nossos pés. mas somos nós que estamos aos pés do mundo. e para inverter essa ordem, mesmo que seja durante um segundo, custa montes de energia, sacrifícios, lágrimas, concessões, perdas, perseverança, força, humildade, abnegação. o processo não tem nada de esplendoroso nem grandioso. as batalhas a perder antes de ganhar uma guerra são infinitas. não estou a dizer que não se consegue triunfar, mas só que é muito mais complicado do que se pensa no início. não é para todos. muitos desistem porque dá menos trabalho. o preço a pagar é enorme. a vida nem é melhor nem pior do que os nossos sonhos. é simplesmente completamente diferente.

acho que o que perdemos nos define na mesma maneira que o que temos. ou até nos define mais. é o que nos faz. e que nunca deixa de ser. porque há sempre uma altura em que é preciso estabelecer o que estamos dispostos a perder. quais são os nossos limites. o que é tolerável e o que não. são marcas distintas na nossa mente que nos tornam nas pessoas que somos. lições que nunca se esquecem. memórias carimbadas no coração. conselhos sem os quais já tínhamos perecido um milhão de vezes. olhares confortadores, sem nem que seja uma pitada de julgamento.

o que perdemos existia, existe e vai existir. no amor e no que é mais importante. no que é invisível para os olhos, mas que dura. no sol que se levanta cada manhã e nas estrelas que caminham no firmamento. no cheiro da chuva e no sussurro salgado do vento. nos sorrisos, nas esperanças e nas saudades. sempre nos nossos corações.

terça-feira, 2 de junho de 2015

fixe


é difícil não ficar contente quando se comprou uma t-shirt com uma tal etiqueta.