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| fazer do paradisíaco uma vida... |
no barco entre penang bai e gili air, passei a travessia a ouvir conversas que antes ressoavam muito comigo, mas das quais me tinha completamente esquecido. talvez porque não tivesse viajado a um lugar completamente desconhecido e fora da europa há uns nove anos. e por isso não fiquei exposta a esse tipo de reflexões. ou talvez porque tivesse mudado a minha maneira de pensar. ou tivesse passado a outra etapa de vida em que tais coisas já não importavam tanto... quem sabe... mas o mais importante, achei, foi que me reconheci numa parte das conversas, mas também reconheci o ponto em que divergi do caminho que mencionavam... nem sei se foi bom. ou se foi mau. mas de certeza ficou diferente.
as conversas eram entre pessoas que se tinham mudado para a ásia. de maneira temporária. ou permanente. porque estavam fartas do quotidiano ocidental. do frio. do cinzento. da ineficiência das soluções. da sedentariedade das sociedades supostamente mais desenvolvidas. da burocracia. da lentidão. do consumismo. das rotinas viradas para carreiras e dinheiro. porque queriam começar do zero. ter uma vida nova. objetivos diferentes. levar tempo ou fazer uma pausa para se reinventar. realinhar-se com os próprios valores. questionar as escolhas. ponderar as opções. mergulhar no dinamismo refrescante de melhoria constante.
acho que sempre fui sensível a tais chamadas. tenho um lado curioso, pensador e divergente que gosta de resolver uma situação de mil maneiras. e experimentar uma abordagem diária firmada em princípios diferentes faz parte delas. ao viajar muito pela ásia há uns quinze anos, perguntei-me inúmeras vezes se não devia seguir esse ritmo de vida. o de deixar tudo que parecia estruturado e no caminho do sucesso, para fazer descobertas emocionais e espirituais. na universidade quando os amigos e conhecidos faziam estágios ou trabalhavam, eu preferia viajar (também trabalhava durante os anos letivos) e conhecer mundos novos. tinha na altura a consciência das desvantagens duma tal escolha, mas a construção de carreira nem fazia parte das minhas prioridades nem dos meus interesses. estava mais virada para a minha construção como pessoa.
e continuo virada para ela. mas o que descobri entretanto é que estava também virada pelo desenvolvimento. e pela realização de objetivos. e isto não vai em par com fugas para melhores climas e explorações internas. o que não significa que vou desistir deles. só não os vou pôr no centro de tudo. há 20 anos ainda não sabia que mais cedo ou mais tarde teria ficado aborrecida com a quietude duma tal vida. e com a falta de seguimento e de progresso que vêm com vidas menos lineares. mas atenção que mais linear não significa vertical. quero avançar e fazer as coisas do meu jeito. construções mais estruturadas de carreiras ficam fora do meu campo de interesse.
no final das contas, acho que consegui modelar algo meu. tirando os elementos que me inspiravam e que julguei vitais, sem ter realmente cabido em molde nenhum. ao olhar para isto agora, faz todo o sentido. e também cheguei a perceber, que outra opção nunca houve. e não vai haver. gosto demais da minha liberdade. da autonomia. da opção de ir em contracorrente. são as coisas que mais me animam. no trabalho. e fora dele.
