sexta-feira, 29 de julho de 2016

falta de...

...nada...
não chove há muito tempo. pelo menos quarenta e cinco minutos. é alucinante como uma pessoa pode habituar-se aos pormenores, ao quotidiano, às coisas sem objetivo preciso que flutuam no ar, no sangue, nas almas. nem se pensa nisso. nem se o leva a sério. e quando o fenómeno para, somos submergidos por uma falta imprecisa. pode-se tatear uma diferença sem conseguir descrevê-la. sente-se uma saudade sem saber de onde vem. nem porquê. as coisas que começam a faltar são sempre pequenas. dificilmente percetíveis. são precisos sentidos bem desenvolvidos para perceber as mudanças. um barulho discreto, um cheiro quase indiscernível, um sabor que tarda a ir-se embora. pequenos nadas. ninharias. que só começam a existir quando já não estão. quando já não são. quando já ninguém se lembra deles. quando já é tarde demais.

há coisas que não vale a pena combater. há tendências que nunca podem ser mudadas. há elementos que parecem estáveis, imóveis, independentemente da configuração das estrelas, do sentido do vento, do sabor das palavras, da luz a bater nas janelas. tentar enfrentá-las era uma perda de tempo, de energia, de recursos. um mau cálculo. uma aberração. um erro. uma loucura. não serve ficar zangado. nem falsamente desprevenido. nem chateado. nem horrorizado. nem outra coisa. não serve fugir. ou fingir que não se nota. nem fechar os olhos com abnegação, a esperar que desapareçam. às vezes, a indiferença é uma reação forçada, quando já não se sabe o que se pode ou deve fazer.

a única solução viável é aprender a geri-las. a não se queixar. a ziguezaguear entre elas. a não prestar atenção. a domesticar a sensação que dão. a habituar-se. a ver nelas pormenores que não têm influência nenhuma. em nada. e sobretudo não em nós. parasitas do quotidiano. sombras da realidade. fantasmas da natureza. não é perder. não é abandonar. não é admitir que não seja importante. não é renunciar. não é mergulhar na passividade. é abrir as asas na impertinência da vida. na limitação do dia-a-dia. na constrição das possibilidades. é respirar fundo. é não responder quando fingem que nos estão a chamar. é sorrir. é sussurrar paciência. é vencer. 

domingo, 17 de julho de 2016

uma

sem-número?
não acredito em segundas oportunidades. por princípio. as pessoas não mudam. só as podemos aceitar como são. ou não as aceitar. gastar energia a tentar moldá-las como nos apetecia que fossem é uma perda de tempo. e de energia. é mais uma questão de quando vão ter o mesmo comportamento e não uma questão de se o vão ter. não há se nenhum. tudo está claro. é sempre um atrapalhar no tempo e espaço, um regressar à casa de partida.

também não acredito por experiência. nas poucas vezes que dei uma segunda oportunidade, as pessoas acabaram por se comportar exatamente da mesma maneira. e por me decepcionar outra vez. ou mais exatamente foi estupidez e ingenuidade minha. esperar que as coisas fossem diferentes enquanto nada indicava que o pudessem ser. na verdade, não é que me decepcionaram de novo. fiquei decepcionada comigo por ter tido expetativas erradas. inadequadas. irrealistas. por não ter afrontado a realidade tal como se apresentava. por ter embelezado. por ter acreditado em algo enquanto tudo em volta de mim apontava para o contrário, gritava o contrário.

deveria haver limites de surdez e de cegueira. mas todos os ultrapassamos. cuidadosamente. delicadamente. regularmente. fingimos que são os outros que nos apanham desprevenidos. não percebemos como aconteceu. não nos lembramos que já tinha sobrevindo. recusamo-nos a acreditar que possa ocorrer outra vez. decidimos não prestar atenção à luz vermelha que pisca freneticamente na nossa cabeça. continuamos sempre a fazer a mesma coisa mas a ficar à espera que os resultados sejam diferentes. que as pessoas mudem, que não sejam iguais a si próprias. uma loucura. pura. a equação acaba por ser muito simples. ou aceitamos o que vemos ou mudamos de pessoa. em função do peso do que há para se aceitar. e para se perder. tudo o resto é simplesmente mentira.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

(des)pudor

poucas são as coisas mais bonitas
há alguns dias fui à casa duma conhecida. sentei-me numa cadeira muito baixa na varanda a tomar chá e falar. numa altura o filho dela, já quase adolescente e autista, e que eu via pela segunda vez na minha vida, veio por atrás de mim, cheirou o meu cabelo, comentou que cheirava bem e passou o resto do tempo a dar voltas atrás da cadeira, a tocar no meu cabelo ou braço de vez em quando. com um sorriso nos lábios. detesto quando se me toque no cabelo. pelo menos normalmente. adorei a atitude do rapaz. havia nesse gesto algo de tão honesto, simples, despudorado, contrário às normas, que até fiquei comovida. uma pitada de afeição não escondida por nada. não ocultada por convenções. não poluída por palavras. não distorcida por aparências. não esmagada por hipocrisia. 

a simplicidade é o que há de mais refinado. e mais difícil para se encontrar. as coisas em estado puro, nuas, sem a cacofonia desnecessária dos deverias e dos seria melhor, sem a preocupação do que se vai pensar ou fazer, cegam com a sua luz. ensurdecem com a sua intransigência. chamam pelos nomes. destacam-se em silêncio. palpitam entre as mãos. exigem muito. é preciso qualidade para não ter de embelezar. coragem para aguentar a solidão. integridade para não desesperar. conhecimento para não mentir. convicção para respirar fundo. é uma força avassaladora que não precisa de nada mais. que não pede desculpas. que não perde tempo com ninharias. que fita os olhos no essencial. que sabe o que quer. que não precisa de engrandecimento. só é. a emitir um calor constante. a guiar no tempo e no espaço. e isso chega. amplamente. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

declarações (públicas) de impostos

uma conhecida anunciou-me hoje que o namorado tinha pago uma quantia x (e isso não incluía o preço do voo, como me foi explicado) para passarem dez dias no hotel mais caro duma ilha do mar mediterrâneo. e num quarto com jacuzzi privado. uau... fiquei sem palavras.

é que eu, perante tais declarações, realmente não sei o que dizer. felicitá-los pelo dinheiro que têm? lamentar a falta de classe dela? perguntar-lhe se não se apercebeu que os colegas dela, que também estavam a ouvir essa conversa, de certeza não tinham as mesmas capacidades financeiras e se calhar ficaram tristes ou reduzidos ao saberem que nunca iam conseguir pagar tanto por férias?

e porque é que ela me conta essas coisas? não me interessam os pormenores de onde ela descansa. ainda menos por quanto. é uma informação inútil. é para eu ficar impressionada? é que nem entro em piscinas nem jacuzzis porque, por definição, não tomo banhos nos xixis das outras pessoas. não gosto de estadias em hotéis com pensão completa. é algo para pessoas pouco curiosas da vida que só querem comer a mesma comida que em casa (com algumas pequenas variações para lhes oferecer a ilusão de viverem perigosamente) e repousar o rabo em espreguiçadeiras a contemplar de longe o azul-turquesa duma piscina e pensar nos problemas do primeiro mundo. ambos são passatempos cruelmente chatos. não é a minha praia.

o que me apetecia realmente dizer é que essa viagem parecia demasiado barata e que se eu fosse no lugar dela, nunca aceitava lá ir. de certeza conseguia-se achar algo ainda mais caro. com piscina privada? ou ainda melhor - com mar privado (e não só uma praia, isso é para fracassados, com o mar todo)? mas calei-me, porque achei que ela nunca ia perceber.