duma certa maneira fazem. mas não necessariamente. não acredito nas supostas armadilhas do quotidiano. nas coisas inevitáveis que ninguém consegue escapar. nos predeterminismos que dizem que cada relação vai passar pelas mesmas etapas. os mesmos ciclos. as mesmas dificuldades. a mesma decomposição.
são meras desculpas. é sempre mais fácil dizer que não depende de nós. que não deu. que é dos anos. do horóscopo. da fase da lua. das circunstâncias. do destino. da outra pessoa. da vida. tentar evitar essas armadilhas já seria trabalho a mais. investir esforço. lutar. não ficar desanimado. porque claro que os impulsos iniciais embotam. não podem sempre ter a mesma intensidade do que no início.
mas é onde a instituição do casal se torna fascinante. acho eu. uma personagem numa peça que li disse: quando és capaz de te disputar com alguém, o pau ao léu e uma escova de dentes na boca (quando estás tanto à vontade e que podes tomar tais liberdades), isto não tem preço. significa que se chegou a esta fase inaudita: tem-se a hipótese de estar completamente destapado emocionalmente a viver com alguém que nos conhece melhor do que os nossos pais. é uma aventura humana incrível!
mas também um caminho longe de ser evidente e, às vezes, muito complicado. com crises uma depois da outra. a transformarem-se. dificilmente detetáveis. é preciso muita vontade para se ficar juntos. é também necessário ter saudades. deixar-se espaços que não sejam completamente compartilhados. é preciso aceitar que esse manual do usuário que criamos da outra pessoa possa mudar. que vai ser preciso adaptar-se. é sempre indispensável questionar as certezas que temos sobre o parceiro.
ando desde há muito tempo fascinada pelos fins de histórias. por como o amor se usa. acaba. esvanece. porque a verdade é que, dentro dos três primeiros meses duma relação, consegue-se apontar para os problemas potenciais. a história do casal parece estar decidida nos inícios dele. e a capacidade para desejar o outro podia ser prevista com antecedência. em que direção vai o dueto? são os primeiros sinais que o sugerem. todos os casais têm uma predestinação. mas não é uma fatalidade que vem do exterior. que seja das pessoas ou das circunstâncias. é o casal mesmo que a fabrica.
diz-se que é um conjunto de duas nevroses. idênticas ou complementares. nunca escolhemos parceiros por acaso. a personalidade deles vai revelar e ativar partes de nós, boas e más, cuja existência nem suspeitávamos. raras são as pessoas que conseguem detetar estes elementos anunciadores de problemas. a maioria prefere não ver nada. não interpretar nada. fingir que fica indiscernível debaixo da capa do namoro. as diferenças de valores nunca se atenuam. e as pessoas não mudam.
tudo isso mexe-se com o facto que temos a tendência para mentir sobre um número de coisas e com a nossa visão do desejo da outra pessoa. e quando as verdadeira feridas aparecem já no início, quando fingimos o que não somos, quando não determinamos os nossos limites e aceitamos tratamentos de merda, negamos quem somos. e chegamos a um ponto em que não se pode mudar nada sem partir tudo.
no fundo, o amor só acaba quando nunca realmente existiu. quando acreditamos nas aparências dele enquanto não houve fundo nenhum. os conflitos são sempre difíceis a viver. sobretudo o primeiro. é preciso fazer o luto dos velhos valores e esperanças. e encontrar novos. é preciso reconstruir o casal. ou mais exatamente construi-lo de novo. a saber que um dos parceiros possa não estar interessado. que não querer seguir. as crises põem sempre a criatividade do casal à prova. ou seja a sua capacidade de se reinventar continuamente. de estar em evolução permanente. a dois, claro.

