domingo, 31 de janeiro de 2016

verdades mais velhas que a sé de braga

sic!
antes do natal, falei de encomendas de botas uggs pela internet com uma conhecida. ela tinha a intenção de comprar dois pares, um vermelho para uma amiga e algo de mais neutral para ela. porque ela era casada, então já não precisava chamar a atenção, enquanto a amiga, que era solteira, precisava. ponderei durante alguns segundos se lhe deveria dizer que era exatamente o contrário, que era a amiga que não precisava fazer muito para atrair a atenção dum qualquer homem e também não lhe importava tanto que fosse esse ou aquilo, enquanto era ela, dentro duma relação de 10 anos, que precisava chamar a atenção do único homem que lhe interessava. e por isso fazer montes de esforços. para não deixar a monotonia invadir tudo. é sempre mais difícil surpreender alguém que nos viu sob cada ângulo há uma eternidade, que nos consegue decorar sem gaguejar, que sabe o que vamos pensar ou fazer antes de o pensarmos ou fazermos. parece a coisa mais desejável numa relação, mas só o é nas comédias românticas americanas, onde todos são louros, bonitos, têm os olhos azuis e amam-se até ao fim do mundo. na verdade prosaica do quotidiano, a falta de inovação mata tudo. mesmo romeu e julieta não conseguiam desenrascar-se. sucumbiam à constância infinita.

atrair a atenção de alguém que nos conhece muito bem leva tudo a mais. e a muito mais. esforço. imaginação. trabalho. concessões. determinação. fantasia. perseverança. vontade. conquistar pessoas é canja. leva minutos, horas, dias, às vezes um pouco mais (eu sei que há pessoas a quem isto as ultrapassa, mas então não posso fazer nada por elas. era altura de se recomporem.). dá quantidades várias de trabalho mas mesmo assim, não é nada quando se compara ao que acontece depois da batalha. manter as pessoas conquistadas requer uma sabedoria, uma destreza, uma fineza, uma miragem, uma aura de mistério, um visionarismo, uma intuição a demolir e renascer, uma aptidão a reconstruir mundos num estalo de dedos, a ser coisas diferentes em função do momento, das necessidades, das circunstâncias. mantê-las conquistadas durante muito tempo é uma proeza.

significa mexer-se constantemente quando tudo está a apontar para já não fazer mais nada. e a maioria das pessoas escolhem não fazer nada. acham ter chegado ao porto final, onde mais nenhuma surpresa as espera, ter atingido um estado de equilíbrio inabalável que vai ficar para sempre. e depois acordam um dia sem perceber como é que lá chegaram, o que aconteceu com a relação. sem tirar conclusões nem aprender lições. é desolador presenciar isso. ver as pessoas errar tanto no julgamento, na avaliação das necessidades, na cegueira. no fundo, precisamos todos das mesmas coisas - sentir-se valorizados e apreciados, a ver que alguém acha que valemos os esforços e as concessões e a retribuirmos na mesma medida para essa pessoa. mais uma migalha de suspense que nos faça ficar com a vontade de descobrir sempre mais.  que pena que aconteça tão raramente. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

(in)dependências

duas conhecidas queixaram-se (separadamente) que tinham muitos planos
por onde tudo (ou quase tudo) começa e acaba
profissionais na vida, e ótimas ideias, mas não os conseguiam realizar porque lhes faltava o marido (no caso de uma) e um patrocinador (no caso de outra; não sei exatamente o que esse termo duvidoso engloba e nem quero saber) para os financiar. difícil apontar para o meu estado de espírito quando estava a escutar cada uma a falar sobre o assunto. oscilava algures entre espanto, incredulidade, perplexidade, desprezo, surpresa e incompreensão.

quando penso nos meus planos profissionais, os homens têm pouco a ver com eles. se calhar exprimi-me mal. espero chegar em num futuro próximo num tal estado de desenvolvimento da minha empresa, que vou ter de contratar alguém. e como não gosto de trabalhar com mulheres, a escolha vai ser fácil. também tenho a sorte enorme de ter um círculo de cinco conselheiros homens (muitas decisões, não as tomo antes de ter pedido a opinião aos três mais próximos, o que não significa que a siga. muitas vezes acabo por fazer exatamente o oposto quando a minha intuição mo dita. mas gosto de saber o que eles acham ou fariam para ter uma visão ainda mais clara e completa das minhas possibilidades para me recusar a fazer tudo isso de maneira o mais consciente possível. para não fazer por escolha e não por ignorância.). as mulheres são para mim demasiado ilógicas, demasiado focadas em relações humanas, harmonias gerais e predeterminismos limitadores. parecem não conseguir separar o profissional do pessoal. acho que a única mulher em cujo julgamento acredito é a minha esteticista; já nos conhecemos há alguns 15 anos e ainda não caí aos pedaços o que significa que estamos a fazer os tratamentos certos. também gostava de ser aconselhada pela christine lagarde, porque parece uma pessoa brilhante, o que não significa que não fique grata aos meus cinco mestres.

mas é onde a implicação de homens na minha vida profissional para. não condicionam nada. o resto, quero alcançá-lo sozinha. temos todos as nossas obsessões e a igualdade dos sexos faz parte das minhas. mulheres nunca a vão obter se ficarem à espera de tratamentos preferenciais, caminhos mais fáceis ou palmadinhas nas costas. nunca ouvi um homem dizer que só ia criar uma empresa se encontrasse uma mulher que lhe desse dinheiro para isso. se calhar porque mais de que a maioria das mulheres não são financeiramente independentes. ou porque lhes falta o gosto pela caça, o engenho, a auto-estima e a coragem. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

lápis, símbolo de insegurança?

para o carlos.
inspiras-me a escrever mais. e melhor.
obrigada.

que sejam as palavras pouco diplomáticas, os vestidos de comprimento puta, os chinelos no inverno, o instinto que sempre me impulsiona a ir a contracorrente, a predileção para as coisas invulgares, a obsessão em fazer tudo no meu próprio modo, as excentricidades incompreensíveis, a assertividade indomável, gosto de provocar. peço desculpa. é um eufemismo. corrijo-me. adoro provocar. é algo que entra em mim com o ar que respiro. sem ele eu não existia. não era eu. não me divertia tanto.

adoro surpreender. não corresponder às expetativas. ser o oposto do que pareço. parecer o oposto do que sou. dizer não só para ver a reacção do interlocutor. chocar. incomodar. desrespeitar regras, só para ver se o mundo vai acabar por isto. omitir o óbvio. dizer o que penso quando todos ficam à espera duma falsidade cortês ou duma ilusão confortadora. distinguir-me. chamar a atenção. matar as pessoas com o olhar quando me estão a fitar. não me importar com o que os outros pensam. vestir-me mal quando a elegância é requerida. não ser politicamente correta só para o ser. falar de tudo que o pudor hipócrita qualifica de indizível. não fingir nada. não sabujar. não ficar impressionada pelo dinheiro ou pelo poder. fazer perceber quando não gosto de algo.

para que as pessoas abram os olhos. para que não se deixem distrair por aparências. ou pormenores. para lhes mostrar os absurdos que cultivam. os rótulos que põem. as mentiras das quais se alimentam. para denunciar a hipocrisia. para que todos procurem no fundo porque, como disse a raposa ao principezinho, o essencial é invisível para os olhos.

e adoro escrever a lápis. deixa-me ser flexível e improvisar em cada momento.

there is much more to me than meets the eye.

sábado, 2 de janeiro de 2016

e tudo fica na mesma

insanity: doing the same thing over and over again and expecting different results. albert einstein

há muitos anos li um artigo a apresentar uma experiência feita por cientistas. uma mosca e uma abelha foram postas dentro de duas garrafas vazias e abertas, sem tampa. na outra extremidade de cada garrafa, no exterior, foram colocadas lâmpadas acesas. estudou-se o comportamento da mosca e da abelha para ver como iam prosseguir para saírem das garrafas respetivas.

a abelha, um inseto reputado pela sua inteligência, e outras virtudes, dirigiu-se para a fonte luminosa. era o que costumava fazer, a sair de troncos de árvores vazios, de estábulos ou da colmeia - voar na direcção da luz, da claridade. mas dessa vez não funcionou; o vidro era um obstáculo. todavia, a abelha não queria parar, a bater nele, a voar em círculos, a não desistir, obstinada e absurda, nunca a querer tentar outra alternativa, nunca a pensar em opções, nunca a questionar, nunca a usar os seus atributos intelectuais, já que os tinha. era necessário interromper a experiência ou morria por exaustão, presidiária dessa sua suposta inteligência que quase a matou em vez de a salvar.

a mosca ficou tranquila, estúpida demais para se fazer perguntas existenciais, ficar frustrada ou querer perseverar. a luz nem a aquecia nem arrefecia. não tinha plano nenhum. não queria seguir os padrões que estabeleceu com a experiência, porque não estabeleceu nenhum. não era concisa. voava ao calhas, ziguezague, despreocupada como sempre, sem projecto, sem plano, sem nada. nem se preocupava nem se cansava. e porque foi em todas as direcções, a cobrir a área da garrafa, acabou por encontrar a saída, sem se dar conta disso, sem perceber.

a conclusão dos cientistas era que um processo caótico podia ser muitas vezes mais criativo e inovador que uma estratégia imutável. na vida era preciso improvisar, ceder ao movimento, desobedecer à lógica, experimentar enfoques novos. de certeza. chegamos sempre ao cúmulo das nossas possibilidades quando estamos fora da caixa, a ultrapassar o desconhecido e as nossas fraquezas. mas não é que a mosca tenha sido mais inteligente nessa situação e a abelha estúpida ao reconhecer padrões e segui-los. o problema da abelha era que foi cegada pela sua rotina e instinto, a acreditar que a única coisa que a podia salvar era algo que já tinha feito e vivido. nunca usou a sua inteligência para encontrar uma solução nova.

o problema dos homens é que são demasiado parecidos com a abelha, a repetir os mesmos erros em continuação. a ter planos para mudar, para fazer coisas novas, ou fazer as mesmas coisas mas num modo diferente, a gozar das ideias de sis potenciais, a prometer-se glórias, quilos a menos, tempo a mais, relações dedicadas, atividades novas, viagens paradisíacas, trabalho melhor pago e mais interessante, admiração dos chefes, colegas, amigos e família. mas tudo isso acaba antes mesmo de ter começado. porquê? porque é simplesmente preciso mexer o cu para realizar esses planos. é preciso dedicação. perseverança. coragem. força. e muito mais.

então a maioria das pessoas prefere deleitar-se com a intenção da sua potencial excelência que nunca se vai materializar. a construir rituais e simbolismos baseados nessas promessas dum início novo, nessas miragens feitas de nevoeiro e pó, em que se finge acreditar e que deixa a consciência um pouco mais tranquila. já se tem a intenção de fazer mudanças, não pode não contar. um dos ritos mais importantes é a passagem de ano. supostamente serve de catarse, de corte decisivo, de renascimento. temos a oportunidade de ser uma fénix virtual uma vez por ano, bem pensado não? faz desculpabilizar quase todos.

difícil dizer o que detesto mais na passagem do ano. a caça insensata e desesperada de divertimento? a pressão social que a acompanha? a hipocrisia da ilusão de conseguir começar do zero? a imposição que um dia que não tem nada de especial ou extraordinário deveria sê-lo? o absurdo das resoluções das quais todos falam? não sou uma grande fã dos simbolismos. e acho estranho tomar decisões para começar coisas ou processos que se pode começar num qualquer dia.