quarta-feira, 10 de julho de 2024

as manhãs

tranquilidade esmagadora
adoro caminhar na praia. é uma das minhas atividades preferidas. e das que melhor me deixam recarregar as baterias. realinhar os níveis de energia. refinar as estratégias. repor as ideias em ordem. refazer análises da realidade. do quotidiano. encontrar planos de ação. especificar as prioridades. reafirmar os valores. o facto de eu poder olhar para o mar proporciona-me tudo isto. e muito mais. a mergulhar os pés na água (de preferência com mais de 22 graus). a fixar a linha azul do horizonte. a ouvir o marulho. a sentir o sol na pele. a ter o cabelo dançar no vento. é uma mistura irresistível...

mas, desta vez, dei-me conta que a altura do dia podia intensificar este efeito. e, surpreendentemente, são as manhãs que o fazem. enquanto eu sou uma pessoa da noite... paciência... comecei a perguntar-me porquê. a resposta pareceu-me maluca, mas é o que é. como há menos pessoas na praia cedo, uma parte dos meus pensamentos pode ficar do lado da areia e flutuar lá. enquanto da parte da tarde estão todos empurrados à beira-mar. para o dizer de uma maneira mais racional: com menos pessoas ando a olhar para o mar e para a praia a fazer as minhas ruminações. com mais pessoas, para ter uma sensação de intimidade, devo desviar o olhar só para o mar. no fundo, gostava de lá estar quase sozinha...

mas não é tudo. as ondas fazem um barulho mais suave. o sol brilha com menos intensidade. as águas do mar ainda não parecem ter saturado com o azul. o vento nem despertou. toda a natureza indica que é só um prelúdio. que o melhor está para vir. que tudo ainda é possível. nada ficou decidido. as opções ficam abertas. tem-se tempo. pode-se começar do início. olha-se para tudo com a frescura incansável das esperanças. as tabulas rasas, gosto imenso. há poucas coisas mais entusiasmantes!

segunda-feira, 8 de julho de 2024

sorte?

a sorte é algo que se constrói. que se cria. que se compõe. se calhar mesmo que se provoca. é só de nós que depende se e quando ela aparece. claro que não porque temos o poder de controlar o nosso quotidiano, mas porque podemos decidir qual será a nossa relação com ele. somos nós que a definimos. os sentimentos, os pensamentos, as reações. é a pouca liberdade que temos. há sempre uma escolha para se fazer. a de levar uma vida que seja conforme às nossas aspirações. aos nossos valores. às nossas necessidades. há sempre uma maneira de encontrar significados no que nos está a acontecer. mesmo que seja completamente absurdo. que as nossas circunstâncias sejam favoráveis ou desfavoráveis, a escolha de como vamos reagir é só nossa. e se este enfoque, esta maneira de se posicionar, esta mudança do equilíbrio aparente fosse suficiente para mudar as coisas?

talvez os esforços tenham de passar por outra coisa do que a tentativa derisória de termos um impacto nas circunstâncias, no ambiente. cada prova que atravessamos é um desafio para o nosso desejo de haver sentido na vida. quando a sorte parece não estar do nosso lado, é preciso vê-lo como uma oportunidade. e não uma falha. assim vamos poder reavaliar ou questionar o nosso caminho. está certo? errado? que erros cometemos? que oportunidades não estivemos a ver? de que expetativas tínhamos ficado presidiários? o azar, uma vez que o choque inicial tenha passado, oferece sempre a ocasião de melhorar. de fazer de forma diferente. de se tornar mais criativo. de sair fora da caixa.

que a vida venha, me pegue pelo cachaço 
e me leve onde isso for conveniente para
a vida
enquanto às capacidades de resistências - que alguns teriam a sorte de possuir, contrariamente aos outros - são coisas que sempre se podem aprender. desenvolver. afinar. uns podem começar com mais defesas do que outros, mas nem sempre deve ser assim. só de nós é que depende que competências adquirimos. e que ignoramos. e se fosse isto a nossa sorte? a de poder escolher de não ficar parado. suspenso. passivo. a de saber que a última palavra na abordagem é nossa. que sempre dá para fazer algo das peças que temos. este ângulo leva-nos para um mundo de responsabilidade. de ação. de mudanças. de dinamismo. e não da submissão cega a pensar que não há nada para se fazer. e que a sorte não está do nosso lado. os que parecem ter muita sorte, é sempre algo imputável. ela não é um evento externo fortuito, mas um fator interno. uma atitude ou um comportamento escolhidos pela pessoa. uma vontade de ultrapassar. de dominar a situação. de fugir ao status quo.

o mais importante é deixar de esperar que algo magicamente mude a situação. que um dia tenhamos mais sorte. que as configurações divulguem elementos favoráveis. só ao abandonar essas ideias é que nos podemos comprometer de maneira consciente e lúcida na procura da sorte. sic. a sorte é algo que se procura. todos os dias. e do início. é um trabalho diário. não algo que caí do céu de vez em quando. e que está reservado para uma minoria especial. a sorte não depende de elementos externos. mas, sim, de elementos internos. o mais importante sendo o nosso nível de comprometimento. 

et si la chance sourit aux audacieux, ayons l'audace de la provoquer!

sexta-feira, 5 de abril de 2024

vidas passadas

fazer do paradisíaco uma vida...

no barco entre penang bai e gili air, passei a travessia a ouvir conversas que antes ressoavam muito comigo, mas das quais me tinha completamente esquecido. talvez porque não tivesse viajado a um lugar completamente desconhecido e fora da europa há uns nove anos. e por isso não fiquei exposta a esse tipo de reflexões. ou talvez porque tivesse mudado a minha maneira de pensar. ou tivesse passado a outra etapa de vida em que tais coisas já não importavam tanto... quem sabe... mas o mais importante, achei, foi que me reconheci numa parte das conversas, mas também reconheci o ponto em que divergi do caminho que mencionavam... nem sei se foi bom. ou se foi mau. mas de certeza ficou diferente.

as conversas eram entre pessoas que se tinham mudado para a ásia. de maneira temporária. ou permanente. porque estavam fartas do quotidiano ocidental. do frio. do cinzento. da ineficiência das soluções. da sedentariedade das sociedades supostamente mais desenvolvidas. da burocracia. da lentidão. do consumismo. das rotinas viradas para carreiras e dinheiro. porque queriam começar do zero. ter uma vida nova. objetivos diferentes. levar tempo ou fazer uma pausa para se reinventar. realinhar-se com os próprios valores. questionar as escolhas. ponderar as opções. mergulhar no dinamismo refrescante de melhoria constante. 

acho que sempre fui sensível a tais chamadas. tenho um lado curioso, pensador e divergente que gosta de resolver uma situação de mil maneiras. e experimentar uma abordagem diária firmada em princípios diferentes faz parte delas. ao viajar muito pela ásia há uns quinze anos, perguntei-me inúmeras vezes se não devia seguir esse ritmo de vida. o de deixar tudo que parecia estruturado e no caminho do sucesso, para fazer descobertas emocionais e espirituais. na universidade quando os amigos e conhecidos faziam estágios ou trabalhavam, eu preferia viajar (também trabalhava durante os anos letivos) e conhecer mundos novos. tinha na altura a consciência das desvantagens duma tal escolha, mas a construção de carreira nem fazia parte das minhas prioridades nem dos meus interesses. estava mais virada para a minha construção como pessoa.

e continuo virada para ela. mas o que descobri entretanto é que estava também virada pelo desenvolvimento. e pela realização de objetivos. e isto não vai em par com fugas para melhores climas e explorações internas. o que não significa que vou desistir deles. só não os vou pôr no centro de tudo. há 20 anos ainda não sabia que mais cedo ou mais tarde teria ficado aborrecida com  a quietude duma tal vida. e com a falta de seguimento e de progresso que vêm com vidas menos lineares. mas atenção que mais linear não significa vertical. quero avançar e fazer as coisas do meu jeito. construções mais estruturadas de carreiras ficam fora do meu campo de interesse.

no final das contas, acho que consegui modelar algo meu. tirando os elementos que me inspiravam e que julguei vitais, sem ter realmente cabido em molde nenhum. ao olhar para isto agora, faz todo o sentido. e também cheguei a perceber, que outra opção nunca houve. e não vai haver. gosto demais da minha liberdade. da autonomia. da opção de ir em contracorrente. são as coisas que mais me animam. no trabalho. e fora dele.