sábado, 25 de abril de 2015

provocação

vou levar uma encomenda de comida ao meu restaurante tailandês preferido. como sempre está cheio. todos os empregados de mesa habituais estão ocupados a tratar de clientes (uma a ouvir a história fascinante dum homem a contar as experiências com comida picante; nem sei como é que se faz para fingir interesse naquelas situações). estou a esperar tranquila e gentilmente ao balcão. um empregado novo aparece do outro lado. olha para mim, mas não diz nada. depois dum minuto ou dois, decido tomar a iniciativa e interromper o silêncio.

eu: se calhar podia perguntar-me porque é que estou aqui?

ele: eu pensava que já tinha sido atendida por um dos meus colegas.

eu: na vida é geralmente melhor perguntar primeiro e pensar depois. e não me cumprimentou porque pensava o quê exatamente?

sem resposta. 

as pessoas provocam-me assim, mas depois dizem que sou eu que sou agressiva...

sábado, 18 de abril de 2015

uma viagem

gosto de chuva. sobretudo com temperaturas quentes. do cheiro doce e pegajoso que invade tudo. da sua impertinência e falta de compaixão. da sua indiferença e indelicadeza. da maneira como obriga o mundo a adaptar-se, a mudar de ritmo, a inventar soluções. da intimidade que cria. da privacidade que empresta. do conforto breve que oferece e que só alguns conseguem ver.

não gosto de ouvir chuvadas enquanto durmo. não consigo dormir com barulho.
fidèle au poste, independentemente das circunstâncias
são noites perdidas, longas e melancólicas, quando já se sabe que o sono ficou num abismo, atrapalhado nas gotas e outras complicações atmosféricas, e não vai chegar a horas. não há nada de bom a esperar. nem gosto do cheiro da terra quando chove. é uma sensação metálica que me passa langorosamente pelos dentes e fica durante mais tempo do que queria. um aroma sombrio, iludindo que na vida há coisas que deviam ficar escondidas nos fundos das consciências, das almas, dos corações.

há uma canção que me fez sempre sonhar com viagens, e que diz see the jungle when it's wet with the rains. e tive a sorte de a ver. o verde parecia mais verde, o ar vibrava de maneira quase palpável, ouvia-se barulhos estranhos de todos os seres que estavam prontos a começar de novo. a caminhar, a continuar, a reconstruir o que a chuva tinha destruído, a retomar hábitos, a viver. essa água caída era só uma pausa, uma paragem ditada pela natureza, um momento para afinar as estratégias e retomar forças. e a última gota espalhou uma camada de majestade e a de esperança sobre tudo. que chegada!

a chuva é uma viagem. uma viagem em que se vai a um lugar profundamente escondido, porque há coisas que perdem o sabor quando são compartilhadas. uma viagem feita na mais grande descrição dum véu protetor de gotas, que adormece a realidade e facilita reencontros. com o que perdemos para sempre. com as promessas feitas. com os desejos mais secretos e taciturnos. com esperanças para um futuro melhor.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

m de mulher

si vous voulez, pour vous je ne serai rien, ou qu'une trace. andré breton

todas as coisas começam na cabeça.

o nível de conforto com o meu corpo. o aspeto que tenho. o passo com que ando na tua direcção. o tom de voz com que te falo. quanto decido alimentar a tua imaginação. se vamos para a cama. se vamos fazer amor ou foder. tudo isto. e muito mais. a sensualidade, é o que a cabeça e a autoconfiança fazem com o corpo. e nunca o inverso. um conhecimento de si mesmo, das possibilidades, das vontades, dos desejos, dos limites. uma apreciação e uma calma interior que se aprendem e se desenvolvem com o tempo. o sexo não começa na cama. é uma continuação do que aconteceu durante o dia. dos olhares, dos toques aleatórios, das palavras proferidas, dos sorrisos, dos silêncios. às vezes das raivas. 

nunca gostei de ser resumida ao físico. ou julgada por ele. é só uma imagem furtiva, um envelope da alma, que nem define, nem estabelece, nem descreve. lembro-me duma conversa que tive com o franck, que para uma rapariga era muito difícil ser oficialmente considerada como não linda. eu não sei nada sobre isso. mas fujo a todas as situações em que podia obter coisas pelo ar que tenho. não faço sorrisos débeis, não insinuo nada, não coloco a minha foto em lugar nenhum. não quero que me deixem passar, façam entrar, autorizem a não pagar, et j'en passe, por causa da cara que tenho. não me interessam as vantagens presumíveis ou possíveis. acho a coisa injusta para as pessoas menos afortunadas. passei anos a tapar o corpo com fatos masculinos, até ter descoberto que se alguém me epitomasse ao meu aspeto, era um problema dele. e que a decisão final de tirar ou não proveito do físico, só dependia de mim. o que visto só me diz respeito a mim. não preciso da confirmação ou da aprovação de ninguém. sei exatamente o que valho. é bastante triste não o saber. é importante estar consciente das próprias qualidades. e dos defeitos. não tem nada a ver com vaidade.

detesto malas. sobretudo as minúsculas em que só entram um cartão multibanco e um tampão. se calhar também um lenço de papel mas só se for habilmente e cuidadosamente dobrado. mas há algum tempo decidi comprar uma que dava com toda a roupa elegante que eu tinha. estava a hesitar entre duas quando a empregada, uma cinquentona, disse-me para eu comprar a mais escura porque era exatamente o que eu precisava. adoro ser aconselhada e guiada por mulheres emocionalmente maduras e sensatas. as que não se sentem ameaçadas porque se é mais novo, inteligente, bonito, esbelto ou bem-sucedido. as que conseguem ser felizes porque se é todas essas coisas. as que seguem um caminho próprio. que percebem o que importa na vida. que nunca ficam surpreendidas com as circunstâncias. que reagem com calma e ponderação. que sabem que poderiam de um estalo de dedos destruir um mundo todo, só para o reconstruir três minutos mais tarde, mas que nunca nem querem nem precisam fazê-lo. as que sabem o que representam e quanto valem. as que intervêm se for necessário, mas eclipsam-se, um sorriso na boca, quando se recupera o controlo da situação. as que nos tornam em pessoas melhores, sem pré-avisos nem explicações e a não pedir nada  em troca.

quando há excelência numa mulher (o que é bastante raro, porque a maioria é completamente estúpida, manipuladora, incompetente, irracional, emocional, ameaçada por um tudo e um nada, e não pensa) ultrapassa a do homem.