sábado, 3 de fevereiro de 2018

(in)tranquila

pacífico?
um cliente mandou-me hoje um vídeo. quarenta e oito citações calmantes sobre a vida. música fixe saída diretamente dum mosteiro. desenhos pacíficos. frases bonitas mas, mesmo assim, nem agradeci nem comentei. agradecer significaria eu ter achado algo pertinente ou enriquecedor na história. e não foi o caso. e por uma razão simples. a calma, a tranquilidade, o sossego não são os meus estados de espírito preferidos. é a agitação. é quando tenho tanta coisa para fazer que nem sei por onde começar e que tudo anda a 100 km/h que me sinto calma...

e estou realmente farta de ouvir como é importante meditar, desconetar, relaxar, não fazer nada... não consigo, não preciso, não me interessa. não quero sentar-me de olhos fechados, respirar fundo e esvaziar todas as emoções da cabeça. não é a única receita para se seguir. consegue-se ser feliz sem tudo isso. irrita-me profundamente quando ouço que estou fazendo demasiada coisa e que não é possível funcionar assim, que é porque não quero esquecer nem abandonar, porque sou ansiosa, porque não percebi nada das coisas importantes da vida, porque tenho prioridades erradas etc... o que as pessoas não entendem é que o meu trabalho não é uma maçada. é um prazer. os meus passatempos não são um modo de preencher vazios internos. é o que me dá ainda mais energia. o ponto de serenidade em si próprio não é o mesmo para todos. e nem tenciono culpabilizar nem me justificar por não corresponder ao que parece mais natural.

e, atenção, não estou a desrespeitar ou rejeitar a calma, a lentidão, a relaxação e todas essas correntes que as promulgam. só a dizer que as ferramentas que servem para se estar sereno podem ser diferentes. são diferentes. variam de pessoa para pessoa. é fantástico fazer coisas mais devagar. até eu gosto. mas o ritmo deste devagar está definido pela nossa natureza. o meu de certeza parece uma corrida insensata para a maioria das pessoas. paciência. porque podia ser perigoso mexer nela. conduziria a complexos. a questionamentos inúteis. a equilíbrios instáveis. faria caber dentro dum molde demasiado grande ou demasiado pequeno. não quero isso.

há simplesmente personalidades que não são propícias para os enfoques zen. que não vão de mão dada com eles. há uma diferença entre intranquilidades de temperamento e intranquilidades causadas pela ansiedade e pela culpabilização. podem ser úteis. às vezes aproveitar da energia é melhor do que tentar acalmar a tempestade. mesmo as pessoas irrequietas distinguem entre uma calma boa e uma calma má. a boa é uma que se escolhe e que decorre das necessidades, das fantasias, das expetativas. a má é sempre imposta pelos que acham saber melhor do que nós do que precisamos. e que nos ditam mudanças de intensidade. para o nosso bem, claro. para não nos perdermos nas complexidades da vida. nunca percebi quem lhes dava essa autoridade. certo, é preciso navegar entre os esgotamentos potenciais. tomar cuidado. mas há caminhos diferentes. e para resultarem devem respeitar quem somos.

e eu, não fazer nada, acho altamente cansativo... dá cabo de mim...