domingo, 27 de março de 2016

mistura ideal

proporções deliciosas
as coisas que me impressionam mais num homem são uma mistura de autoconfiança, profissionalismo e distanciamento. uma maneira de fazer descontraída, mas firme. uma excelência que nem precisa ser gabada nem provada. e o facto de não se levar demasiado a sério.

gosto quando um homem sabe como flertar. mas nunca diz uma palavra a mais. para sempre na altura certa. é um dom muito raro. o saber quando calar. e quando nunca cai no óbvio. é o pior que se pode fazer. uma vez estava à espera dum amigo num café, já sentada, a falar por telefone com pessoas diferentes e em línguas diferentes. numa altura, um gajo, que já me tinha tentado falar enquanto eu estava na fila para pedir um chá, mas o qual ignorei, vem à minha mesa, a perguntar-me em inglês, quantos idiomas é que eu falo. respondo que não respondo a perguntas pessoais feitas por desconhecidos (na verdade é uma pergunta que detesto e minto quase sempre. o que tenho na cabeça e o trabalho que invisto para ter o que tenho na cabeça só me diz respeito a mim). o gajo indigna-se a dizer que me tinha perguntado quantas línguas eu falava e não de que cor era a roupa interior que eu estava a usar. pela primeira vez olho para ele com algum interesse a dizer que era uma pena incrível, porque à pergunta sobre a cor de roupa interior, havia pelo menos uma hipótese de eu responder se me apetecesse. mas essa sobre as línguas - não havia hipótese nenhuma. e acabei a conversa.

uma da razões pelas quais gosto tanto de falar com homens é porque têm (ou pelo menos alguns deles, os que são realmente interessantes) essa capacidade a simplificar. ideias. conceitos. problemas. definições. dilemas. soluções. acho que é exatamente a mesma coisa que faz enraivecer 95% das mulheres, mas não nos vamos preocupar com isso. quero que as coisas sejam pretas. ou brancas. não me interessam os 254 tons de cinzento. os 254 tons de cinzento tornam a vida desnecessariamente complexa. tornam-na difícil. e as pessoas presidiárias de demasiados princípios, demasiadas nuanças, demasiados padrões, demasiadas exigências. não quero redefinir sentidos das palavras quotidianas. o peso dos hoje, dos já, dos sim, dos não. deixo-os tomar a forma que querem. simplificações esclarecem as dissonâncias do dia-a-dia. às vezes, não as consigo ver sozinha. lembro-me dessa conversa que tive com a dominika. o conselho dela foi bastante claro: compartimentalizafecha as gavetas com pensamentos dos quais não estás a precisar e prossegue. pensa como se fosses homem. ponderei isso durante alguns segundos, achei a ideia genial e respondi. adorava. é só que isso não é tão fácil como soa. a minha cabeça recusa-se a cooperar comigo. deixar tudo para não se perder em pormenores requer concentração. e disciplina. e mesmo ao eu não ter capacidade nenhuma para fazer duas coisas ao mesmo tempo, não significa que não me perca nos meus pensamentos. mas basta falar com um homem cuja opinião respeito e tudo entra nos eixos. sempre. como por milagre.

lembro-me duma cena que vi quando estava de férias. espreguiçadeiras perto da piscina. um homem a falar por telefone. ou mais exatamente dois telefones. do lado esquerdo uma conversa em alemão, do direito em italiano. no colo dele um portátil em que estava a ver emails. tudo isso depois de ele ter pedido desculpas por precisar solucionar uma situação urgente no trabalho e a continuar ao mesmo tempo a entreter as pessoas, que estavam com ele, com uma conversa ligeira e brilhante em francês. a usar óculos de sol cor-de-rosa. isso foi há mais de dez anos, mas mesmo assim perguntei-me na altura se não o devia pedir imediatamente em casamento. quantos homens destes há neste planeta?

terça-feira, 22 de março de 2016

vestígios de pó

elle est plus grande que la mer
mais elle tient au creux de mes doigts
elle est tellement de choses à la fois
on ne joue pas au poker
avec une fille comme ça
c'est toujours elle qui a les quatre rois
francis cabrel

recebi um convite para uma festa de antigos alunos organizada pela minha escola
capítulos fechados
de 2º ciclo. não sou uma grande fã desse tipo de eventos. sim, adoro falar. particularmente com desconhecidos. mas só quando são conversas que começam de maneira espontânea. e fortuita. e não vejo nada de espontâneo nem fortuito no facto de ir ter com pessoas que vi pela última vez há quase vinte e cinco anos e que, no pior dos casos, vão querer saber o que aconteceu comigo durante esse período, e, no melhor, só contar o que aconteceu com elas. a minha vida é um dos assuntos de que gosto menos falar. e não me interessa ouvir pormenores sobre as vidas de pessoas com as quais decidi não ficar em contacto. não importa que fosse uma decisão realmente tomada ou só por omissão. também não acredito em reencontros com finais felizes em que se descobre, de repente, que se dá extremamente bem com alguém quem se tinha perdido de vista. é sobretudo o oposto que acontece. as experiências desiguais, as velocidades diferentes de desenvolvimento pessoal e a descoberta de quem se é realmente fazem-nos seguir caminhos diferentes dos que seguem os nossos amigos da escola.

além disso, o segundo ciclo foi uma etapa difícil para mim. tenho sempre sido extremamente sensível e completamente diferente de todos. para um adulto, pelos menos um adulto individualista como eu, é uma delicia. para uma criança, que só quer sentir-se aceite, é uma maldição. nunca fiz parte dos grupos de pessoas fixes ou populares. quase ninguém queria ser amigo comigo. os rapazes não gostavam de mim. todos gozavam comigo, riam-se de mim, roubavam a minha comida etc. não me percebam mal - não tenho nenhum trauma que venha desse período. são todas situações que resolvi na minha cabeça na altura dos meus 16 anos e desde então consegui construir um império dentro da minha personalidade. mas por isso achava hipócrita querer ver outra vez pessoas com quem associo poucos pensamentos positivos. e não me interessa mostrar de maneira ostentatória que acabei por ser uma rapariga bem. não tenho nada a provar que seja a mim ou a quem quer que seja. dá-me completamente igual que as pessoas se arrependam ou não. que gostem de mim ou não. já há muito tempo que não me interessa ser fixe. nem popular. há coisas muito mais interessantes para se fazer na vida. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

poder inesperado

pequenos gestos, grandes atitudes
nunca mudei de cor de cabelo. muitas pessoas não acreditam porque não tem uma cor uniforme, mas nunca o fiz. esclarece sozinho com o sol. não percebo como é que poderia querer mudá-la. acho que, em 95% dos casos, a natureza consegue sempre  escolher a melhor opção possível. por que mexer nisso? também não percebo porque é que a imprensa feminil advoga que, em situações de crises, fracassos e problemas, a solução para se dar a impressão de começar do zero, é uma visita ao cabeleireiro. detesto ir ao cabeleireiro. detesto quando se mexe no meu cabelo. enquanto aos impulsos para inícios novos, são dados pela cabeça só. não precisam de nenhuma manifestação física que criasse ilusões mentirosas, que gritasse estou pronta enquanto não se está nada disso.

mas já tive a oportunidade de experimentar o poder que se sente quando se ajuda alguém com o seu aspeto físico, a fazer coisas realmente pequenas, muitas vezes nem planeadas, mas que provocam mudanças grandes, nem sonhadas. mudanças de atitudes. de níveis de esperança. de dignidade recuperada. de confiança a crescer. de sonhos a se formarem. de gratidão a brilhar nos olhos. de horizontes que se abrem. de possibilidades a baterem as asas, a palpitarem. é uma sensação indescritível, deliciosa. um calor que invade o coração. descobrir que se consegue tanto com tão pouco. ver a outra pessoa desabrochar. luzir. sorrir. vale todo o dinheiro do mundo.

uau...

segunda-feira, 14 de março de 2016

(des)complicações

para o roy.

tutti ti valutano per quello che appari. pochi comprendono quel che tu sei. niccolò machiavelli

quando é que a vida se complicou tanto? numa altura havia o preto e o branco, o
situações claras
bem e o mal, o certo e o errado, e, entre os dois, uma fronteira. desenhada dum traço espesso e firme. inapagável. indelével. irrasurável. a dividir. a delimitar. a definir. a conter mundos. a manter equilíbrios. a dar conforto. a responder a perguntas. a proteger. a simplificar. a unir.

mas um dia, sem que pudéssemos definir quando exatamente é que foi, essa fronteira desmaterializou-se. desmaiou. desvaneceu. desapareceu. já não havia diferença nenhuma entre as tintas que guiavam o nosso caminho. o bem conjugava-se em perdas e desastres. o mal safava-se tranquilamente. nada parecia seguro. nada estava certo. não se conseguia prever as consequências. nem adivinhar as reações. o território tornou-se inimigo. já não se devia tomar nada nem ninguém por garantido.

foi a vida que mudou? fomos nós que mudámos? foram os nossos fracassos que pintaram tudo de cinzento? o gosto residual na boca que se tornou mais acerbo?ou foi só a nossa cegueira que se dissipou? é sempre difícil avaliar a realidade já fora do casulo protetor. quando é preciso readaptar-se. repensar tudo. reagrupar os pedaços. reencontrar sentidos. habituar-se ao facto que as coisas vão sempre continuar assim - sem sol nem sombra, sem evidências nem certezas, entre miragens e fantasmas.

e o único conforto são as migalhas de felicidade e de beleza que nos fazem esquecer, durante um instante, a complexidade e a confusão do mundo.

terça-feira, 8 de março de 2016

dia do homem

recebi hoje um email da bertrand a informar sobre 20% de desconto em todos os livros e para todas as mulheres. fiquei entusiasmada durante alguns dez segundos, porque os livros são a única coisa, além dos sapatos, que gosto de comprar. depois, o meu entusiasmo evaporou-se. era hipocrisia pura usar esse desconto.

sou contra todos os tipos de 'dias de'. não percebo porque é que eu deveria ficar contente por alguém me desejar um 'feliz dia da mulher'. o que há de agradável nisso? não gosto de esforços ostentatórios feitos uma vez por ano. nem da atenção dada só porque o calendário o manda. nem de grandes palavras vazias, sem sentido tangível. o cuidado, o pensamento, expressam-se em gestos pequenos. pontuais. discretos. inesperados. quotidianos. invisíveis. sempre presentes quando for necessário. em grandes atitudes.

sou também pela igualdade dos sexos. quero o mesmo tratamento, as mesmas expetativas, as mesmas regras. não se pode ser levado a sério a pedir exceções ou favoritismos o tempo todo. ou a fingir não saber/poder/conseguir (riscar a menção inútil) fazer muitas coisas. são desculpas de merda. lembro-me que, num dia de teste, enquanto o leszek estava a levar-me para a escola, expliquei-lhe que ia ser mais difícil para eu tirar uma nota boa, porque tinha o período nesse dia e tinha lido um artigo a dizer que, com o período, a produtividade e a eficácia da mulher decrescia em 14%. o leszek olhou para mim, tranquilamente, e concluiu, simplesmente. então significa que tens de ser melhor de 14% que todos.

simples, não é? e decidi tornar-me melhor.

domingo, 6 de março de 2016

status quo

gosto de fazer erros. mesmo que a altura em que se dê conta disto esteja sempre desagradável. que o coração se afogue, às vezes, em um mar de desolação e de arrependimento. é difícil aceitar quando se perdeu uma oportunidade. se calhar mesmo para sempre. nem todas as situações se repetem. nem tudo pode ser reparado. nem todas as palavras ou ações são apagáveis. é complicado admitir que se enganou porque supõe um desistência. um abandono. um choque com a realidade. uma passagem para outra coisa. um sabor de derrota. um amanhã que não existe.

são momentos que mais nos formatam. regra geral, decidimos fazer tudo dentro
quanto esforço é a mais?
do nosso possível para a situação não se repetir (vou fazer abstração das pessoas que, de maneira obstinada e incansável, reproduzem as mesmas ações duvidosas, a ficarem surpreendidas e espantadas pelos fracassos que essas últimas causam, sem perceberem nada disso. ou sem quererem perceber. fingir não perceber é sempre mais fácil). momentos que nos fazem crescer. ultrapassar. perceber. avançar.

o problema é que as pessoas tropeçam em todas essas ocasiões, mas preferem fazer como se nada tivesse acontecido. não querem melhorar. não lhes apetece expandir os seus horizontes. não querem aproveitar o que a vida lhes apresenta ou lhes quer ensinar. preferem ficar cegas e surdas. estão sobretudo interessadas na estagnação. na mediocridade. na estupidez. mudar requeria demasiado questionamento. demasiado enfoque critico. demasiado esforço. significava descobrir  o que é preciso enfrentar. assumir as próprias fraquezas. encontrar a força necessária para se transformar. dava demasiado trabalho. colocava demasiados pontos de interrogação. complicava tudo.

é tão melhor deleitar-se com as próprias incompetências...