quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

falta de visão

marcher est un mélange de mouvements, d'humilité, d'équilibre, de curiosité, d'odeurs, de sons, de lumière et, si vous allez suffisamment loin, de nostalgie. Le sentiment d'être à la recherche de quelque chose d'introuvable. erling kagge

é sempre preciso arriscar...
fico sempre perplexa perante a ausência da vontade de aprender. ou de melhorar. é como se a pessoa que não o quer fazer falasse uma língua da qual eu não conseguia nem perceber nem mesmo adivinhar o sentido. claro que há muitíssimas línguas assim. mas é bastante desolador quando acontece com uma em que se percebe as palavras todas. e se conhece o contexto cultural. a vida já tem tantas complicações que se dispensava dessas. mas acontecem... e o pior é que, regra geral, quando a pessoa não percebe do que lhes estamos a falar e até fica indignada e ofendida, significa que nunca vai perceber. acho ainda mais desolador... que esteja simplesmente fora do alcance, sem nada para se fazer...

se alguém me dissesse que me podia explicar como fazer melhor o meu trabalho, eu ouvia pelo menos a pessoa, nem que fosse para saber se me propunha algo novo. ouvia por curiosidade intelectual. para poder olhar para a minha vida de fora. para alargar horizontes. para ter perspetivas estimulantes. se calhar é isso mesmo que falta às pessoas... a dita curiosidade intelectual. uma sede de ideias. uma vontade de explorar o desconhecido. de definir os seus limites. uma necessidade de saber mais. de perceber mais. de questionar mais. de desaprender.  de não saber nada. de enfrentar os próprios complexos. se for só visto na perspetiva de resultados tangíveis, de lucros, de certezas, pode tornar-se num processo extremamente dececionante. porque aprendizagens só dão resultados verdadeiros a longo prazo. a curto nunca se percebe muito bem o propósito das coisas. onde a vida nos quer levar. é preciso investir adivinhando a realidade e interrogando constantemente. no final das contas, como dizia o meu professor de filosofia do 12º ano, pensar é muito doloroso. a maioria das pessoas prefere evitar.

(in)felizmente faço parte dessas que nunca chegam a um momento em que se dizem que já não precisam conhecer ou experimentar mais nada. há sempre algo para se descobrir. questionar.  pôr em desequilíbrio. destruir para reconstruir. fazer esquecer o status quo. apalpar mais minuciosamente. aprender é para mim um processo que nunca acaba. que não tem outra finalidade do que se deitar um pouco menos estúpido a cada noite. e tremer de euforia na perspetiva de todas as coisas que sobram e das quais nunca se ouviu falar. eu adoro.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

o que me incomoda

não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade. não sou o que tenho, não sou estas palavras. josé luís peixoto

parece mais prudente nunca acreditar
 nas aparências...
poucas coisas irritam-me tanto como quando alguém pensa ter percebido tudo de mim, em dez minutos. que me pretende conhecer melhor do que eu me conheço. quando, na realidade, não me conhece de todo. quando, em tão pouco tempo, se torna especialista da minha pessoa e me explica de que gosto mais. como devo fazer a minha vida. quais planos ter. o que evitar. que erros não cometer. tudo em mim se revolta contra essa estupidez. contra essa arrogância. contra essa miopia. deixa-me com uma raiva enorme. é um dos melhores modos para se desfazer de mim. e para sempre. não aguento comportamentos assim.

e o que lhes dá toda essa autoridade? uma imagem furtiva que projeto? aparências nas quais acreditaram? palavras às quais associaram sentidos figurados? ares que leram à letra? conclusões às quais chegaram sem se questionarem a si próprios? sentiram-se tão ameaçados que a única solução foi diminuir-me a algo que conseguiriam dominar e gerir? para se sentirem contentes da vida de merda que têm? detesto ser limitada por padrões. rotulada em função dos complexos e das inseguranças da pessoa que me avalia. fechada em gavetas. reduzida a preconceitos. julgada pelo que parece óbvio, mas não é. apagada traço por traço para caber num molde. no molde. 

deixa-me sempre com a vontade de lhes explodir na cara. para verem até que ponto erraram. mas não o faço. dá-me completamente igual. podem pensar o que lhes apetecer. não me tenciono justificar. acho alucinante que nunca lhes venha à ideia que seja intencional. que a enganar as pessoas me dá sempre a opção de as surpreender. de as apanhar desprevenidas. de as descobrir sem que saibam quem sou. de reparar nos seus pontos fracos. de testar a sua mesquinhez e a sua pobreza intelectual. de ver quanto se acham valer. quanto estão dispostos a se prostituírem. é um processo enriquecedor...

sei muito bem o que pareço. vinte e cinco anos. sexualmente acessível. livre de princípios. calma. ingénua. a precisar ser aconselhada. dificilmente podia-se ter uma imagem mais errada de mim. mas sou eu que escolho com quem me apetece jogar com as cartas abertas. e com quem não.

domingo, 26 de novembro de 2017

um

lugares para se ocupar
nunca percebi porque tantas pessoas não gostam de viajar sozinhas. mesmo quando não querem fazer coisas quotidianas sozinhas tenho dificuldade em perceber, mas o de viajar sozinho parece ser o cúmulo do terror para muitas pessoas... de que têm medo? de si próprias? não se acham companhia suficientemente interessante e fascinante para se dedicarem tanto tempo a si mesmas? não conseguem aguentar os próprios pensamentos? temem que não gostem do que vão descobrir sobre si? querem evitar o julgamento dos olhares alheios que poderia sugerir que não haja ninguém que queira viajar com elas? pensam que não se vão desenrascar a gerir e planear tudo sem ajuda?

para mim, viajar sozinha é felicidade pura. algo que preciso fazer de vez em quando. é sempre um prazer que se torna necessidade pelo menos uma vez por ano. para me ouvir, mas realmente, necessito tempo. calma. espaço. distanciamento. nem dá para o fazer quando estou imersa no meu quotidiano nem rodeada por pessoas que conheço. devo poder andar e fazer tudo ao meu ritmo.  deixar-me inspirar. parar quando me apetecer. perder-me no horizonte. refazer o mesmo caminho tantas vezes quanto for indispensável. confortar. questionar indefinidamente. domesticar reflexões. sintonizar sentimentos. acertar trajetórias. afinar energias. definir limites. avaliar. descobrir-me. falar comigo. surpreender-me. conhecer pessoas novas. enfoques novos. modos novos. eus novos.

o meu maior medo na vida foi sempre estar mal-acompanhada. significaria eu não ter sido honesta comigo. significaria eu ter abandonado o que achava importante no nome dum conforto ilusório e traidor. seria mergulhar na hipocrisia. nos não-ditos. seria dar mais importância à forma do que ao conteúdo. seria separar-me de mim. perder-me. e irrecuperavelmente. espero que nunca aconteça...

domingo, 5 de novembro de 2017

obceções

todos temos os nossos temas recorrentes. as coisas nas quais pensamos frequentemente. porque as consideramos suficientemente importantes. e que muitas vezes definem os nossos limites do aceitável. e do tolerável. quem somos. o respeito é um dos meus temas. dá-me igual que as pessoas gostem de mim ou não. que concordem comigo ou não. mas devem é respeitar o meu trabalho. e o meu tempo. se não for o caso não quero ter nada a ver com elas. independentemente de quão prolífica essa relação poderia ser para mim. é uma das minhas regras básicas que aplico de maneira intransigente. também acho que temos todos direito ao mesmo tratamento.

(in)visível
julgo as pessoas por duas coisas. sim, eu sei, julgar é muito mau... paciência. quase todos o fazem, então não vou fingir que não é o meu caso. na verdade julgo por muito mais que só duas coisas, mas, entre outros, julgo pelo tratamento dado a dois grupos de pessoas - aos seguranças e ao pessoal de limpeza. e quando alguém é incapaz de cumprimentar todos ao entrar num prédio de manhã, pouco interessa que título chique tem escrito no cartão de visita, que cargo ocupa, quanto alcançou na vida ou com que carro entrou na garagem - estou-me a cagar para isso tudo, mas completamente - é um líder de merda. porque o respeito nunca se inclina perante o poder. nem os lucros possíveis. nem a hipocrisia. e é só em uma situação de desequilíbrio total, em que em teoria não precisamos fazer esforço nenhum, em que não temos de comprovar nada que se revela a verdadeira natureza das pessoas.

poucas são as pessoas que conseguem passar este teste meu. e sou suficientemente bruxa para dar um tratamento de merda às que não conseguem.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

desfantastificação

as coisas mais simples são as que requerem
mais esforço...
passo a vida a ouvir que sou fantástica. tão fantástica. tenho todas essas facilidades... consigo tanto com tão pouco esforço... sou tão rápida... todos esses talentos meus... pareço tão perfeita que até dá dores de cabeça. e é tudo treta. sou normal. sem nada de especial. ou fantástico. aliás, é mentira. tenho é uma coisa fantástica. sou fantasticamente disciplinada.

enquanto as pessoas debatem quando vão começar algo (novo ou velho) e enumeram as desculpas porque ainda não o fizeram, eu começo a fazer. sem grandes preparativos. nem planos. nem aspirações. nem filosofias. enquanto as pessoas passam o tempo a se queixarem quão é difícil, quanto tempo leva, enquanto deixam de fazer, fingem que nem começaram e que se mentem a si próprias que é só temporário e que não estão a abandonar para manter a visão que têm de si próprias, eu executo o que é preciso para atingir o objetivo fixado. esqueço-me do resto. deixo de ouvir opiniões, não reparo nas dificuldades, não me preocupo com o fracasso nem fico desanimada com eles. não me interessa a energia investida. o tempo investido. e quando as coisas não estão a correr como queria que corressem sei que significa que me devo mexer mais. é tão simples.

muitas vezes perguntei-me o que se passava nas cabeças dos outros. porque é que não conseguiam fazer. porque não tinham a mesma motivação. porque queriam tudo ao mesmo tempo e não aceitavam que houvesse um preço. porque abandonavam só porque as coisas estavam a ser complicadas. acho que nunca vou realmente perceber. porque compreendo as dúvidas. compreendo a preguiça. compreendo a falta de motivação. compreendo a incapacidade para agir. compreendo a vontade de querer partir tudo. de fugir. mas só durante uns cinco minutos. depois é preciso deixar-se de merdas. e de ter pena de si próprio. e crescer. e avançar.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

ciúmes

conversa num café entre uma senhora italiana e outra francesa. a italiana comprou calças dolce&gabbana e agora já que tem as bainhas feitas mostra à amiga.

a senhora italiana: e percebes, isto é ótima qualidade. toca o tecido.

a senhora francesa (a apalpar as calças): oh mas tu nunca deverias ter comprado isso... esse tecido é horrível que mostra todas as imperfeições do corpo... mas como vais poder fazer para as usar... 

a senhora italiana: mas isso é lã... pura... como é que podem ficar mal?

a senhora francesa: pois vão... vai-se ver todos os centímetros a mais na anca...

(olho com muita curiosidade para a senhora italiana que conheço e que deve caber dentro de um tamanho xxs e depois para a senhora francesa que não conheço, mas que de certeza tem uns centímetros a mais na anca e uns muito a mais na barriga...)

a senhora italiana (visivelmente preocupada): achas que realmente vão ficar tão mal?...

a senhora francesa: pois acho...

espero que a senhora francesa se despeça e digo à senhora italiana para ela não se preocupar que tem um corpo de sonho. ela comenta sobre o facto de ser velha. respondo que corpos de sonhos são geridos por muito mais que só a idade. e acrescento que as calças lhe vão ficar lindamente. e que a amiga simplesmente estava com ciúmes por ser demasiado gorda para usar tal roupa e se calhar também por não ter dinheiro para comprar tais marcas. ela não quer acreditar. a amiga de certeza não tem inveja. respondo que de certeza tem.

nunca percebi essa estupidez e hostilidade feminil. o que isso muda que alguém esteja com bom aspeto? é fantástico e deve-se ficar feliz pela pessoa. adoro estar na companhia de mulheres bonitas. ou bem vestidas. é sempre um prazer olhar para elas. e comento sempre. há três semanas vi uma miúda bonitinha na caixa do supermercado onde eu estava na fila. não consegui resistir à ideia, mesmo com muitas pessoas atrás de mim na fila, e quando acabei de pagar comentei que ela era muito bonita. e acrescentei que era um grande elogio que eu não era lésbica. e pisquei o olho ;)

domingo, 15 de outubro de 2017

(poder de) compras

everything in the world is about sex, except sex. sex is about power. oscar wilde

tudo tem preço?
eu sei que o que vou dizer agora vai ser controverso. que vai contra a opinião da maioria das pessoas. que vai ser um insulto para muitas. que vai ofender sensibilidades. que quase vai dar para o mundo acabar. e num clique. mas vou dizer na mesma. tudo isso não são razões suficientes para me fazer calar quando discordo de algo. mesmo quando as minhas palavras incomodam. e quase sempre incomodam. porque destroem a boa imagem que temos de nós próprios.

o caso harvey weinstein... acho hipocrisia. pura. e quádrupla. primeiro, porque, de certeza, houve mais mulheres que aproveitaram da situação para desenvolverem carreiras que as que se dizem ter sido assediadas sexualmente. e tanto quanto o resultado foi prolífico ou lucrativo, poucas foram as a quem isso incomodava. e mesmo as que foram traumatizadas calaram em troca de dinheiro. peço desculpa, mas a dignidade não tem preço. nem se compra nem se vende. segundo, porque durante os vinte anos que isso aconteceu todas as pessoas nos arredores dele deviam pertinentemente saber do que se tratava. mas escolhiam ficar surdas, cegas e mudas. foi mais fácil assim. e mais vantajoso. terceiro, a mulher dele devia também bem saber  mas só o deixou quando tudo se tornou público. que coincidência... quarto, acho engraçado ver em que sociedade vivemos. os homens envolvidos em numerosos casos de assedio sexual nunca negam que foderam metade do planeta e isso está bem. ninguém parece nem surpreendido nem escandalizado. ninguém vê a dupla moralidade. é assim mesmo que funciona o nosso mundo. poucas são as pessoas que têm a coragem para enfrentar a realidade, por muito feia que seja.

tenho um bom aspeto. costumo usar roupa demasiado curta e justa. mas felizmente ainda nunca fui assediada mental ou fisicamente no trabalho. ou fora dele. porquê? porque sei que a provocação deve ser compensada por muuuita atitude para não se tornar ameaçadora. porque nunca entro em conversas nem circunstâncias nem lugares que têm o potencial de serem ambíguos. ou causarem-me merdas. porque sempre soube onde estavam os meus limites e disse quando não gostava de algo. ou quando pessoas me faltavam ao respeito. sim, houve vezes em que me perguntava se isto não me ia custar o trabalho ou o cliente. mas dizia na mesma. porque sei que autorizar algo uma vez é autorizá-lo para sempre. porque evito pedir ajuda porque depois as pessoas sempre querem algo em troca.

acho fascinante como o poder corrompe as pessoas. e de ambos os lados da equação. e os que abusam dele e os que se deixam abusar. para fazer carreira...

sábado, 16 de setembro de 2017

caminhos vastos

Caminho estreito, geralmente em terrenos plantados

"carreira", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/carreira [consultado em 16-09-2017].
carreira 
(latim [via] carraria, via para os carros)
substantivo feminino
1. caminho de carros
2. caminho estreito, geralmente em terrenos plantados
...
8. profissão ou percurso profissional
fonte: priberam

(latim *[via] carraria, via para carros)

substantivo feminino

1. Caminho de carro. = TRILHO

2. Caminho estreito, geralmente em terrenos plantados. = CARREIRO

3. Lugar por onde se pode correr.

4. Espaço de terreno percorrido (a correr).

5. Corrida.

6. Série de viagens periódicas regulares (em determinada direcção).

7. [Portugal]  Veículo colectivo de transporte público.

8. Profissão ou percurso profissional.

9. Curso, percurso.

"carreira", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/carreira [consultado em 16-09-2017].
o imprevisível
uma conhecida contou-me há pouco que detestava o trabalho que tinha, que lhe custava demais aguentar o stress que esse trabalho causava, que se sentia culpada por não dedicar tempo suficiente às filhas, que se arrependia por não ter tempo para si própria e que, além de tudo isso, era o marido que tinha feito maior carreira. e que ganhava mais. perguntei porque achava que o marido tinha tido mais sucesso profissional. acho fascinante como as pessoas definem e medem os êxitos que tudo depende dos valores que têm. porque ela não se tornou sócia antes dos quarenta anos. e por isso falhou.

tenho um respeito enorme pelas pessoas que têm carreiras verticais. que sobem escalões. que se tornam cada vez mais especialistas (ou pelo menos é o que se espera). que constroem percursos prestigiosos. que têm planos claros. cv's impressionantes pela visão, pela consistência, pela dedicação. que sempre souberam onde queriam ir. porque eu nunca poderia seguir esse caminho. acho piada que procurei muito tempo o que me interessava fazer na vida profissionalmente mas soube, sempre e desde o início, que não era feita para essas coisas. o vertical nunca me intrigou. nem interessou. nem inspirou. quando amigos começaram a trabalhar para empresas muito conhecidas a sair da universidade, eu preferia ter um trabalho que me permitisse viajar. e descobrir coisas. lembro-me de uma entrevista de trabalho que fiz numa empresa multinacional. tinha 23 ou 24 anos. perguntaram-me para que é que eu precisava dum salário, o que queria comprar na vida. respondi que ... nada. já tinha casa e carro. o resto... para dizer a verdade o que me interessou mais em todos os empregos que tive era se poderia tirar férias quando quisesse. não porque sou preguiçosa e não quero trabalhar mas porque a minha liberdade é um valor inquebrável. até a um certo ponto conta muito mais que todo o resto.

o prestígio nunca me interessou. não vejo que utilidade potencial poderia ter na minha vida. o que poderia acrescentar que ainda não tenho. nunca quis especializar-me em uma coisa só. acho a vida fascinante demais e quero poder explorar o que me interessa. não tenho a paciência necessária para me dedicar a uma coisa só. não sei fazer uma coisa só. rotinas são algo que tem o potencial de me matar. preciso de estimulações diversas, desafios e pressão para ser o meu melhor. as visões de que poderia alcançar em dez anos não é algo que me motiva que nem sei se vou viver tanto tempo. interessam-me o já e o agora. e preciso sentir-me livre. não no sentido de não ter responsabilidades ou compromissos, mas no sentido de ajustar o que me apetece, quando me apetece e como me apetece quando eu decidir que é necessário. o estreito e o previsível simplesmente não são a minha praia. gosto demais de me perder no horizonte. de não saber o que esconde. de me preparar para todas as eventualidades. de seguir as minhas regras. e de nunca me resumir ao que alcancei. ou ao que não alcancei.

sábado, 9 de setembro de 2017

a sorte

muitas coisas na vida são uma questão de oportunidades. de escolhas preparadas. de portas abertas. de caminhos indicados. de mãos estendidas. de cuidados intensos. não significa que não se consegue desenrascar sem elas, mas ajudam. facilitam muito. claro que há pessoas que alcançam o que querem e independentemente das circunstâncias. que sabem onde lhes apetece chegar. mas são poucas. é preciso ter uma determinação tremenda e fora do comum para enfrentar adversidades. para engolir as deceções. para errar antes de encontrar o percurso certo. para não abandonar. e é preciso encontrá-la de novo todos os dias para ter a motivação suficiente. procurá-la no fundo da alma. nas partes mais escuras. extraí-la cuidadosamente para não perder nem que seja uma gota. porque poderia fazer toda a diferença.

quem sabe?
ontem, a olhar para o homem que vendia bolinhas na praia, perguntei-me qual era a história dele. como acabou por fazer esse trabalho. não era um jovem. a família não teve os meios suficientes para ele continuar a educação? interessava mais numa altura fazer a festa do que estudar? vinha duma família em que o desenvolvimento intelectual era pouco valorizado? preferiu soluções mais simples do que se dar ao trabalho de aprender? claro que a razão pode ser completamente diferente. pode ter perdido o emprego ou precisar ganhar dinheiro adicional. ou estar a substituir um primo doente que normalmente faz esse trabalho. há uma infinidade de respostas. uma infinidade de histórias. uma infinidade de vidas. uma infinidade de perguntas. nenhuma certeza.

mas pergunto-me sempre este tipo de coisas a observar as pessoas. a tentar discernir entre falta de apoio e falta de vontade. a ficar triste pensando nos sonhos potenciais que palpitavam mas nunca chegaram a ser. nunca se materializaram. e a valorizar as oportunidades que eu tive, as pessoas que acreditaram e apostaram em mim, as escolhas que às vezes não foram fáceis, mas trouxeram mais opções. poder decidir tem muito mais sabor do que se conformar. e fico eternamente grata às pessoas que me garantiram esse luxo.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

faltas? falhas?

como prefiro ser honesta do que politicamente correta resulta sempre em merdas. já me habituei. continuo sem perceber muito bem como se pode preferir ouvir algo que nos agrade a algo que tenha o potencial de fazer avançar as coisas, mas pronto. poucas são as pessoas que valorizam. a maioria fica completamente espantada. ofendida. incrédula. passo por demasiado direta. agressiva. crítica. insensível. arrogante. se calhar até sou todas estas coisas... paciência... explicam-me que eu poderia ter feito passar a mensagem de outra maneira. que não era preciso ser tão brutal. que deveria tomar mais em conta os sentimentos dos meus interlocutores. que a diplomacia serve. mas para quê?

dispersões
sempre que me tento suavizar, reter, controlar, calar, acalmar as minhas mensagens acabam por ser mal compreendidas. tornam-se ineficazes. deixo demasiada margem para a interpretação do que quero. e assim nunca o alcanço. os objetivos ficam perdidos nos não ditos. nos silêncios. na esperança que alguém seja suficientemente inteligente e clarividente para ler entre linhas. e que se queira mexer sozinho para fazer o seu trabalho. quase nunca acontece. as pessoas com garra, as que conseguem definir os alvos e auto-motivar-se para os alcançar são muito poucas. até podem ser contadas nos dedos de uma mão.

o resto da população prefere esperar para ver se a situação não se soluciona sozinha para elas não se darem a trabalho nenhum. também precisa sentir que não tem outra escolha que mostrar respeito perante uma autoridade e cumprir. e que está com um ligeiro medo do que poderia potencialmente acontecer se não fizessem o trabalho como manda a lei. é uma pena enorme que significa que é preciso disciplinar quase todos como se fossem crianças, mas infelizmente sem isto é só estagnação. e desperdício de tempo. então enquanto houver objetivos para alcançar, chego-me à frente para ser dura. é pouco popular. mas alcanço sempre tudo, com qualidade e dentro dos prazos. e todos se perguntam como consigo... é que é bem preciso que alguém faça o trabalho em vez de se preocupar com o que as pessoas vão pensar...

domingo, 6 de agosto de 2017

pontes para alvos

para o alessandro
porque sem disciplina não seríamos nada.

quarto de monge budista, bagan, birmânia
quando somos crianças tudo é simples. muito mais simples. chega querer para alcançar objetivos. vivemos num mundo binário. estamos regidos por uma vontade egoisticamente cega. enfocamo-nos numa coisa e numa coisa só. e que interessa. o resto... podia não existir. não nos preocupamos com ele. e temos objetivos a curto prazo. que não entram em conflito com muita coisa. que não atrapalham nada. que não exigem sacrifícios específicos. que nos fazem ficar perfeitamente felizes quando os atingimos. quase soa bom demais? é que dura pouco tempo...

as coisas só acabam por se complicar. de repente, a vontade já não chega. o desejo já não chega. o esforço já não chega. a paixão já não chega. a claridade da mente torna-se opaca. não se pode acreditar em tudo que se sente. os sentimentos e os pensamentos tornam-se extremos com as dificuldades. interpreta-se e percebe-se mal o que está a acontecer. e o que vai acontecer. a essência das coisas fica escondida. pelo medo. é preciso enfrentar tanta coisa e a tantos níveis que se questiona tudo. se perde tudo de vista. vale a pena? quanto vai custar? o que se vai perder? quanto esforço mais vai levar? vai resultar em algo? quanto mais difícil vai ser? porque demora tanto tempo? vale a pena?...

o único que nos pode salvar é uma rigidez extrema da mente. é nunca esquecermos onde queremos chegar. é não perdermos de vista o resultado final que esperamos. independentemente das dificuldades. dos transtornos emocionais. da vontade de largar tudo. do nojo a enfrentar situações que parecem sem saída. do desespero que invade. do desânimo que brinca connosco. da tentação do fácil e do confortável, sinónimos de estagnação. do cansaço mental e emocional. de tudo que perturba a nossa atenção. de ter de recomeçar do zero inumeráveis vezes mas a fingir como se fosse pela primeira. a encontrar em nós o mesmo entusiasmo. a mesma coragem. a mesma força. é fazer resets constantes. é não se lembrar de deceções. nem das faltas. nem das falhas. é dominar o corpo e a mente. é filtrar pensamentos e emoções.

é preciso ter uma mente surda e cega ao que não importa para triunfar.

terça-feira, 25 de julho de 2017

fundamentos de cortesia

entro na minha loja de computadores. mais uma vez perdi um parafuso. cumprimento as pessoas. só o meu senhor, o proprietário da loja, responde. os quatro clientes que lá estão ficam calados. 

detesto isso. não percebo como se pode não dizer bom dia quando se entra num local. eu sei que muitos se habituam a essa indiferença das pessoas e nem fazem por isso. mas para mim, é uma luta que não tenciono abandonar. our lives begin to end the day we become silent about the things that matter. ou pelo menos a minha vida.

um dos clientes sai subitamente. olho para o meu senhor e pergunto porque é que esse cliente não tinha respondido ao meu bom dia. se o pais não o tinham educado. concluo que não percebo. os três clientes restantes que também não tinham dito nada decidem juntar-se à conversa. um explica que ele às vezes está tão perdido nos pensamentos que mesmo não reconhece os amigos que cruza na rua e que o cumprimentam. o segundo diz que se calhar o senhor estava com problemas de ouvidos. returco que eu sempre grito os meus bons dias para todos os ouvirem. de verdade, sou extremamente pouco subtil nisto. o terceiro sugere que se pode estar tão triste ou zangado que nem se repara no que os outros dizem.

o problema do parafuso resolvido, olho para eles todos, despeço-me e saio da loja. com um sorriso na boca que me acompanham quatro adeus, bem fortes e distintos. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

(im)perfeição

a beleza dos defeitos
a perfeição nunca me interessou. acho-a extremamente chata. não esconde nenhuma surpresa, nenhum ponto de interrogação, nenhuma emoção, nenhum risco. não abriga curiosidade nenhuma. não promete nada. não dá esperança. não encanta. anuncia-se de a a z, sem mistério, sem estremecimentos. uma das coisas que me seduzem mais nas pessoas é a maneira de avançar delas, de navegar na vida, às apalpadelas. de não saber. de se aguentar nas faltas de jeito. adoro descobrir todos os fracassos. todas as fragilidades. todas as falhas. todas as feridas. são o que torna as pessoas fascinantes. e que faz com que se consiga aprender com elas.

mas quem diz imperfeição, diz também desapontamento. acho que todos acabam por nos dececionar de uma maneira ou outra. não é uma constatação triste. é uma constatação realista. para nos prepararmos para essa eventualidade. e para as percebermos. as pessoas não nos podem agradar sempre. não lêem os nossos não-ditos. somos todos diferentes. com maneiras e modos de fazer que podem, às vezes, parecer incompreensíveis. ou mesmo mais do que isso. simbioses uníssonas são uma utopia. somos todos egoístas e temos a tendência para nos preservarmos primeiro antes de pensar nos outros. as desilusões são então inevitáveis. fazem parte do quotidiano. flutuam no ar. na pele. no pó. o que faz a diferença é a frequência e o tamanho delas. e se as julgamos aguentáveis ou não.

o que me surpreende todas as vezes é que, na maioria dos casos, com cada desapontamento, a vida, como para manter um certo equilíbrio, oferece algum bónus. uma sensação completamente inesperada. causada ou por uma pessoa ou por um acontecimento. que nos faz esquecer tudo durante um instante. e que faz sorrir independentemente da amargura temporária na alma. das sensações que latejam. isto apanha-me sempre desprevenida. no final das contas, deve-se ficar grato porque sem estas desilusões, nunca teríamos descoberto caminhos novos. e oportunidades encantadoras.

terça-feira, 11 de julho de 2017

eheheh

ontem fui a um centro comercial onde há três semanas tinha visto um short de que gostei quando lá estava à procura de molho de piri-piri. a minha paixão por centros comerciais é tal que levei todo esse tempo para lá voltar... simplesmente não me dava jeito. ontem finalmente consegui porque me convenci que com os saldos não o iam ter indefinidamente. e claro já não o tinham no s. mas o empregado, muito prestável e relacional, disse que ia verificar num outro centro comercial e reservou-mo até hoje. entretanto comprei uma tshirt turquesa muito fixe com inscrições de todas as cores. 

hoje o short acaba por ser tão grande que o consigo tirar fechado e abotoado, mas vejo a tshirt que comprei ontem num cor-de-rosa bonito e como o cor-de-rosa me fica bem melhor que o turquesa, decido experimentar. e comprar. o empregado, um gay simpático de chapéu preto fantasista lamenta não me ter visto a experimentá-la (normalmente saio sempre do gabinete de provas para ver melhor, mas desta vez, com o short quase a cair para os tornozelos, não dava...). explico a situação. e comento que o cor-de-rosa me fica muito melhor, regra geral. pergunta-me se alguém mo tinha dito ou se é uma observação pessoal. respondo que estudei desenho de moda então é um pouco profissional e um pouco por já ter dado inumeráveis erros de estética. demasiados erros, acrescento na minha cabeça. os olhos do gajo brilham, acompanhados por um uau, que bom, fantástico, era um sonho meu, o pequeno chapéu até se mexe na cabeça. digo que lhe vou mostrar e coloco ambas as tshirts perto da minha cara, uma depois da outra, para ele poder ver sozinho. comenta que não sabe quantos anos tenho, mas que a de cor-de-rosa faz-me parecer mais jovem (correto, na maioria dos verdes pareço permanentemente doente, ou pelo menos mal disposta). respondo que quarenta. pisco o olho. o chapéu preto não quer acreditar. vacila. sorri. murmura impossívelincrível. comento que é o tema preferido de quase todos os meus clientes quando os encontro pela primeira vez.

o chapéu pergunta timidamente se lhe podia dizer que cores lhe ficam bem. damos uma volta pela loja para o descobrir.

terça-feira, 27 de junho de 2017

o que não se pode dividir

quando se pode quebrar uma regra, sou sempre a primeira pessoa a fazê-lo. quando não se pode também. tenho esta curiosidade insaciável de ver o que vai acontecer. de comprovar se o mundo vai acabar, se realmente vai haver consequências desastrosas. de questionar o que foi preestabelecido. de pensar sozinha. de definir sozinha. de fazer sozinha. de acreditar só no que experimentei. nos erros que fiz. não sei ficar tranquila só porque alguém mo diz. não sei aceitar cegamente. nem abandonar só porque deveria. tenho montes de transtornos emocionais perante a autoridade. mas, surpreendentemente, há algumas coisas que respeito. que acho intransitáveis. inquebráveis. insubstituíveis. sagradas.

e então?
são os meus limites. as fronteiras da minha individualidade. de quem sou. e é algo de que gosto imenso. e que respeito. sempre. ouço-me atentivamente. e quando reparo em anúncios de curto-circuitos potenciais, mudo de trajetória. abandono caminhos que ameaçam a minha integridade. não me interessa explorar ou experimentar o que vai contra mim. ou o que me vai tentar alterar de uma maneira qualquer. não quero fazer parte de uma comunidade se isso significa renunciar a mim. há coisas mais importantes. não sou um team player. nunca fui. nunca vou ser. paciência...

mas não é a tendência do momento. a olhar para as mulheres, o que está na moda são as sobrancelhas tatuadas, os cílios postiços, as unhas de gel. todas perfeita e artificialmente arrumadas. e parecidas. a corresponder aos cânones de beleza. francamente, não percebo. fingir tem sempre essa parte desoladora de não se assumir. de não gostar de si próprio. de ter complexos. de achar que se representa tão pouco que é preciso mascará-lo. de ser tão vazio por dentro que se sente a necessidade de o compensar de uma maneira mais ou menos hábil. e superficial.  é mentir. é enganar. é matar quem se é. em nome de quê?

eu nunca me poderia fazer isso.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

crescer

gosto, de uma certa maneira, de situações de crise. ou pelo menos de dificuldades maiores, em que é preciso agir imediatamente, fazer escolhas, definir-se em função das circunstâncias, tomar lados, minimizar perdas. tornam tudo extremamente claro. fazem ressaltar a realidade. apagam o resto. dúvidas, ninharias, tolices. já não dá tempo nem vontade para negar a verdade. não é preciso pensar. nem questionar. nem perguntar. sabe-se instantemente o que se deve fazer. e como. o plano de ação cria-se sozinho. executa-se sozinho. nada mais conta.

são essas situações de crise que nos fazem crescer. e os esforços que fazemos para lidar com elas. porque requerem sempre que se pegue na essência das coisas. que se determine o que se tem de importante. e que se o valorize. a sensação de estar à beira de perder, a visão desta perda ajudam de repente a determinar com que queremos ficar. a vida também nos ensina que as coisas nunca são tão graves como pensamos. ou mais exatamente que nunca são graves como pensamos.

la vie, ce n'est peut-être tout de même que le bonheur. jean anouilh

quinta-feira, 25 de maio de 2017

ego

um infinito avassalador
lembram-se da primeira vez na infância em que se deram conta de quem eram? em que tomaram consciência do próprio ego, uma sensação tão forte que até tinham vertigens? em que perceberam que havia um mundo externo que girava, mudava, não fazia sentido, mas no centro de tudo isso havia esse pequeno núcleo estável - vocês - a hesitar quanto se deveria deixar influenciar e impactar? em que olharam para o infinito do céu e se sentiram tão pequenos e insignificantes? em que perceberam que não iam viver para sempre?

é onde o caminho começou realmente. agora se fecharem os olhos é possível refazer esta viagem no tempo e espaço para se relembrar as etapas importantes. tenho três anos e estou a observar o leszek a desenrolar o tapete verde na sala da casa nova. durmo com uma faca debaixo da almofada, gosto de pensar que sou o simon templar. estou sozinha de férias em frança, os pais esqueceram-se de me dar uma toalha, não sei como se diz em francês, choro. todas as terças vou a uma livraria para saber se já têm as obras completas de shakespeare em inglês (das quais não vou perceber quase nada mas não importa). procuro casas no estrangeiro com 19 e 31 anos. nas segundas almoço na casa da avó e sou eu a escolher a ementa. no dia do exame final do mestrado como acho o fato com saia que estou a usar extremamente aborrecido, uso um espartilho com uma meia de ligas por baixo. não é engraçado voltar para trás no filme da sua vida? colher todos estes pedacinhos que nos fazem e nos desfazem?

são etapas. fases. períodos. todos cheios de sonhos, expetativas, deceções. uma construção da identidade. no final das contas, a vida acaba por ser completamente diferente de tudo o que pensávamos. ou imaginávamos. e numa certa maneira imprevisível. descobrimos que as coisas ideais não existem. que as pessoas ideais não existem. procuramos. acumulamos experiências, amigos, resoluções. numa certa altura os êxitos já não se medem com a intensidade da felicidade.  a vida torna-se muito mais prosaica. medem-se com o esforço, o tempo e a energia de que precisamos para lidar com desapontamentos. no fundo, trata-se mais de quantas vezes nos conseguimos levantar do que quantas vezes caímos.

mas o que importa nesse caos é continuar a fazer tudo com dignidade. com integridade. conformemente aos valores que escolhemos. que achamos importantes. eu não sei abdicar deles. nunca soube. ou se calhar não quero. nunca quis. o mais importante tem sido sempre olhar nos meus olhos no espelho e ver exatamente a mesma coisa que lá estava quando era adolescente. tomo um cuidado enorme e faço um trabalho imenso para o preservar. acho mais prudente não conceder nada, que uma vez que se começa é relativamente fácil perder o controlo. quando me devo conformar, tenho sempre a impressão que me estou a corromper.  que me dececiono a mim própria. por isto não me conformo. paciência.

terça-feira, 2 de maio de 2017

sem espaço para subtilezas

conversa com um amigo. a relação dele está nas últimas. tomou algumas decisões completamente malucas que só tornam a saída dessa relação ainda mais complicada. a nossa conversa foi planeada com antecedência por causa de uma grande diferença de fuso horário. antes de ligar tomo a decisão lúcida e premeditada de não me deixar provocar e de não lhe perguntar porque se está a afundar assim, por escolha própria. numa altura da conversa acabo por lhe perguntar na mesma. paciência... conheço-me o suficiente para saber que há pulsões que nunca consigo resistir... ele quer saber se eu não acho que ele está consciente de tudo isso. não acho... porque se o estivesse porque é que continuaria a tomar decisões erradas?... eu quando sei que as coisas estão mal, mudo-as.

não esconder o óbvio
a diplomacia é algo que me causa muitos transtornos. e que evito cuidadosamente na maioria dos casos. deixa demasiado espaço à interpretação. quando tenho algo para transmitir, quero que as pessoas percebam exatamente o que estou a dizer. não quero que adivinhem ou leiam entre as linhas (e o que bem lhes apetecer, claro). ou que pensem entender o que quero dizer. gosto de mensagens claras. é o que faz tudo andar para a frente. só é possível quando se estabeleceu o estado das coisas, sem embelezar. adoro pouca forma com um máximo de conteúdo. ganha-se quase sempre a falar honestamente. porque tudo pode ser mais rápido. pensamentos. reações. palavras. conselhos. mesmo desculpas. quem é que quer estagnar em momentos cruciais? ou tomar a direção errada? ou gastar energia em frustrações?

custa-me demasiado calar. não consigo fingir que as coisas não me importam. não consigo não dizer quando discordo. não consigo ignorar absurdidades. nem mentiras. ou se calhar simplesmente não quero. nem sou hipócrita nem oportunista. nem me interessa sê-lo. não se ganha nada com isso.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

e de escrever

escrever é tomar decisões, constantemente. rubem fonseca

levar tempo
há alguns remédios para caos na cabeça. para estado de confusão e frustração. para inércia intelectual. ou emocional. para pontos de interrogação que rebentam. algo para limpar a mente. afinar os níveis de energia. recalibrar objetivos. redefinir planos. verbalizar preocupações. ter uma visão clara da realidade. olhar para a vida de fora. andar serve. também correr. e conduzir (na condição que não se esteja rodeado por idiotas que receberam a carta de condução por erro ou por acaso... e há tantos...). devem ser as minhas três atividades preferidas para me repor a um bom nível emocional. dão para falar comigo. concentrar-me só em mim. no que me passa pela cabeça. para esclarecer todas as dúvidas. solucionar problemas. ser criativa. ter as melhores ideias. inventar estratégias. eliminar ninharias. é a minha catarse.

o que levam todas as grandes paixões? paciência. atenção aos detalhes. perseverança. sede constante. disciplina. curiosidade. fazem-nos deitar tarde. acordar cedo. dormir pouco. sacrificar muito. alimentam os sonhos. animam o quotidiano. fazem bater o coração mais depressa. escrever é algo que me tem acompanhado desde quase sempre. mais a sério desde os meus onze anos, mas já escrevia antes. um prazer imenso. uma felicidade intangível. inenarrável. essa sensação a deitar as palavras numa folha de papel. cuidadosamente. meticulosamente. religiosamente. quase a parar de respirar para não estragar nada. ou a senti-las palpitar. batalhar debaixo dos dedos, a deslizar, suaves e ilusórias, no teclado dum computador (não vou até dizer a voar num telemóvel, porque detesto escrever no telemóvel. acho importante parar as emoções quando ainda são honestas, sem embelezar). as coisas só tomam forma depois de eu as ter escrito. os sentimentos materializam-se só depois de eu lhes ter dado nomes. os planos clarificam-se só depois de eu ter ido até ao fundo do que me passava pela cabeça.

gosto de escrever à noite. quando todos já estão deitados, a casa silenciosa. quando nem mensagens nem telefonemas importunam. quando o tempo para. quando a escuridão veste tudo duma camada de intimidade confortadora. quando nos deixa ser o que queremos. quando posso tirar os meus pensamentos das gavetas e deixá-los ocupar o espaço que lhes apetecer. quando escrevo ando sempre no quarto. e muito. falo comigo. emociono-me. pareço completamente lunática. adoro.

quarta-feira, 29 de março de 2017

contrário às expetativas
não consigo esconder quando não gosto de coisas. mentira. não faço nenhum esforço para o esconder. não tenho paciência para isso. fingir custa-me baldes de energia. na melhor hipótese posso calar. não comentar. mas acho que a minha cara consegue fazer passar a mesma mensagem sozinha. desenrasca-se muito bem. nem precisa ter o apoio de palavras. nem dos gestos.

fiz uma vez, há alguns 4 ou 5 anos, num almoço de trabalho (que não era do meu trabalho e, por consequente, os temas tratados não me interessavam nem minimamente) em que a metade das pessoas eram parceiros/parceiras (o que deveria ter sido uma indicação para adaptar a conversa), uma cara de enjoada sem o saber, a estar sentada em frente dum gajo, que só no vigésimo quinto ou vigésimo sexto minuto dum discurso sobre fusões e aquisições, dirigido a todos, e tão pouco apaixonante que até dava para adormecer, olhou para mim e comentou que eu parecia bastante aborrecida com o tema. concordei. e não só por cortesia. mais provavelmente contra todas as regras do politicamente correto. também não percebo porque é que as pessoas fazem perguntas diretas sem tomar em conta o facto que se pode dar uma resposta direta. e honesta. comigo é melhor não as fazer. a não ser que se esteja preparado para tudo. ou quase tudo. falta-me esse chip social que faz dizer mentiras para agradar. acho que a não dizer quando não gostamos autorizamos as pessoas a continuar e depois já só podemos culpar nós próprios.

espero que na altura de fusões e aquisições o gajo em questão seja um bocado mais perspicaz. e cuidadoso dentro dos desejos dele. depois de eu ter concordado que o sujeito do monólogo dele não me interessava, teve a péssima ideia de me perguntar onde eu trabalhava.... tenho uma vaga lembrança de lhe ter perguntado se tinha aptidões para falar de outros assuntos que não o trabalho.. eu sei... sou má... o que posso dizer... paciência...

quinta-feira, 9 de março de 2017

falta de imaginação

chego ao carro. tenho dez minutos até ao meu encontro seguinte. já sei que vou chegar atrasada. paciência...

há um camião de entrega estacionado de uma tal maneira que nem dá para abrir as portas do lado do condutor. 

digo ao gajo que está a olhar para outro gajo a descarregar paletes enormes de não sei o quê, e que tem alguns papéis na mão, para ele mudar o carro de sítio. não pode. o carro não é dele. não tem nada a ver com isso. já nem me preocupo com fracassados. assim seja.

repito a mesma coisa ao gajo que está num tipo de elevador rampa. tem a má ideia de me perguntar o que eu faria se fosse um carro normal a bloquear-me a entrada. decido que deve mais provavelmente ser completamente fodido da cabeça, mas para ter a certeza pergunto-lhe se é o caso. quero também saber se depois de eu ter respondido a essa questão débil, ele quereria também saber a minha reação caso se tratasse dum autocarro ou dum avião. explico que não tenho tempo para punhetas mentais desse tipo. saliento outra vez a necessidade de ele se mexer .

responde que tem mais uma coisa para descarregar e que vão ser só dez segundos. mas a dizer isso está a arrumar um dos blocos no elevador rampa e algo me diz que ele está a gozar comigo. fito-o nos olhos e conto até dez. em voz alta. as coisas parecem continuar na mesma. pergunto-lhe que parte do que eu tinha dito ele não tinha percebido. acrescento alguns palavrões caso a capacidade mental do gajo seja tão baixa que ele não consiga perceber que eu estou com pressa.

o último bloco finalmente acaba posicionado no passeio. o colega supervisor que não tem competências suficientes para mudar um carro que não seja seu, diz para ele estacionar num outro lugar.

o gajo entra no camião. arranca. avança dois metros. só a distância suficiente para eu conseguir abrir a porta e entrar, nada mais. uma vez a porta fechada, faz marcha atrás e estaciona ainda mais perto do meu carro, quase a tocar o retrovisor esquerdo.

faço-lhe um sorriso enorme, mostro o dedo médio e tiro rapidamente o carro do lugar. escolhi não ter sensores de marcha atrás instalados, só para aprender a desenrascar-me em tais situações, então preciso de muito mais para ficar impressionada.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

a utopia do tempo certo

ouvi muitas vezes que não era a altura certa para fazer algo. que devia esperar. ter paciência. o meu problema com alturas certas é que elas nunca vêm. não existem. aguardar pela manifestação de um conjunto de parâmetros nas medidas e nas proporções desejadas para se poder prosseguir seria loucura. há sempre um mas. demasiado pouco tempo. conjuntura desfavorável. conhecimento insuficiente da matéria. demasiados riscos para valer a pena. riscos insuficientes para ser interessante. mau momento para mudar de vida. trabalho a mais. cansaço a mais. férias. preguiça. apatia. medo. algo mais prioritário. alguém que discorda. que não quer. que tem dúvidas. que não se sente pronto.

perfeito :)
esse assunto de se estar pronto ou não até me faz rir. no fundo, nunca o estamos. há sempre dúvidas. desconhecidas. algo que poderia ser aperfeiçoado. melhor analisado. ainda descoberto. percebido. e as pessoas se dividem em as que fazem sem que tudo seja perfeitinho e direitinho e as que passam a vida a inventar desculpas, preparar-se para todas as eventualidades imagináveis e não avançar. o problema com demasiada espera é que o bom momento acaba por nunca chegar.

somos nós que criamos as alturas certas. que as forçamos a aparecer. que encontramos as condições. que convencemos os outros. que temos uma visão com a qual conseguimos contagiar. que não abandonamos. que tentamos fazer o nosso melhor com o que temos. às vezes chega. às outras não. que conseguimos fazer aparecer as alturas certas de repente. de um nada. ou pelo menos é o que parece. a sorte só serve às pessoas que já estão bem preparadas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

miragens de ego

eu procuro o mais possível ser como o gato, um gato bem manso de maneira que a vida venha, me pegue pelo cachaço e me leve onde isso for conveniente para a vida. agostinho da silva

as expetativas são das piores coisas que se pode ter. são os nossos inimigos. mas sem o sabermos. que não dão essa impressão. quem as tem é dito exigente. determinado. difícil. a nem sempre prestar atenção aos sentimentos das pessoas. duro, às vezes. a valorizar esforço. e atenção. a atingir objetivos. a ter uma visão clara das coisas. a conseguir definir-se sem muitos transtornos. a conhecer os seus próprios limites. a eliminar imediatamente o que não interessa. a traçar o caminho que quer percorrer. e saber quais são as etapas para seguir.

aceitar tudo
mas na verdade só fingem guiar. prometem alguma constância. falsas. atraiçoadoras. acanhadas. medrosas. limitadoras. mentirosas. egoístas. escondem a realidade. fazem crescer asas quando não há espaço para voar. tiram flexibilidade. ditam ultimatos. usurpam. fazem ignorar tudo o que não responde à procura da veneta. ao ideal. criam tensão. frustração. ressaltam fraquezas. tornam-nos insatisfeitos. infelizes. amargos. fracassados.

o stress é a diferença entre o quotidiano e a visão que se tem dele. entre o que já está e o que nunca se vai materializar. entre o que é e o que parece. é mais razoável não esperar nada. para não obedecer às loucuras. para estar atento às oportunidades que aparecem. para gozar da vida em vez de só se ter sonhos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

força interior

que limites???
os desportistas sabem que um mau estado mental vai influenciar o seu desempenho, independentemente de quão bem estão preparados fisicamente. é o que faz a diferença entre avançar e recuar. entre alcançar e falhar. entre ganhar e perder. a negatividade mental resulta em consequências ao nível do corpo, tão incrível como possa parecer. e ao contrário, a positividade mental faz ultrapassar limites. apagar defeitos. esquecer fraquezas. corta as amarras a tudo que nos poderia reter, condicionar, restringir. poucas coisas afetam tanto o que fazemos como o que pensamos de nós próprios. é o nosso ponto de partida, independentemente da idade que temos ou da área da vida. para que algo aconteça, primeiro é preciso vermos a coisa materializar-se na nossa cabeça. não se ganha batalhas que não se acha conseguir ganhar. é um processo que começa na infância, uma confiança que nos deveria ser incutida pelos pais que com o amor incondicional que nos dão ensinam como se proteger e definir.

poucas coisas tornam-me mais raivosa que pessoas que põem fronteiras. a mim e aos outros. não se as poderiam pôr só a si próprias? não lhes chega? é mesmo porque são complexadas por sentirem as suas limitações que tentam cortar as asas de quem conseguem. para aliviarem o peso das suas falhas. para aguentarem melhor as deceções. para fazerem outra coisa que olhar para os estilhaços dos sonhos que uma vez tinham. criticam para se darem algum valor, para se convencerem que o têm. ouvi centenas de vezes que não ia conseguir. que era demasiado jovem, velha, qualificada, inabilitada, forte, fraca etc. que não ia ter tempo suficiente. que era demasiado difícil para eu fazer sozinha. que não era uma coisa de mulher. perguntaram-me porque queria outra vez começar do zero. porque abandonava as opções fáceis ou lucrativas. porque me queria complicar a vida. no início eu simplesmente não escutava. intrometiam-se nos meus planos. nos meus pensamentos. na minha visão de mim. ninguém tem o direito de mexer nisto. quando percebi porque o faziam, quando fiquei desiludida com essa pequenez, comecei a mandar todas essas pessoas à merda. não preciso duma tal negatividade na vida. já é suficientemente difícil sozinha. e quero ficar com toda a minha energia para conseguir os meus planos. que sejam grandes ou pequenos.

domingo, 29 de janeiro de 2017

uma questão de ponto de vista

a solução é mudar de perspetivas
nunca consigo decidir se sou demasiado jovem ou demasiado velha pelo medíocre. hesito sempre. demasiado jovem porque há arranjos contra os quais só não vale a pena mexer-se quando já não se espera mais nada da vida. são escolhas por abandono. por conforto. por ilusão de prestígio. por desespero. por medo. por falta de esforço. por oportunismo. por suposta razão. por estagnação. por desentusiasmo. e, surpreendentemente, têm pouco a ver com a idade que se tem. são muitas as pessoas que desistem de si próprias bastante cedo. que escolhem um caminho que não é ditado pelo coração. que optam por nem crescer nem se desenvolver. que usam máscaras que acabam por tornar-se pele. não percebo como se pode escolher uma direção tão limitadora, tão pequena. e quando outras opções existem. mais difíceis, certo. mais complicadas. mas pelo menos mais prometedoras que o confortismo e a negação. e nem sempre mais esgotantes que o status quo.

demasiado velha porque já aprendi a desfazer-me mentalmente de muita coisa. libertei-me de certas expetativas, que fossem minhas ou de outrem. deixei de ligar. comecei a não me importar. percebi que não tinha de provar nada. consigo desalinhar-me por outros motivos que não só a vontade de ir a contracorrente. conheço bem os limites do meu aceitável. escolho-me a mim quando as circunstâncias se tornam demasiado danificadoras. sei quanto valho. não me interessa a opinião que as pessoas têm de mim. experimentei. errei. tirei conclusões. e deixo esta bagagem escolher o que quero. e o que não quero.

a noção de ter perdido na vida é algo que me faz espantar. e muito. essa sensação de olhar para si de fora e já não se reconhecer. e de o lamentar. deve ser o meu pior pesadelo. esquecer-se dos sonhos que se tinha. enterrar os seus valores. condenar-se ao medíocre é algo que apetece a quase todos numa altura ou outra. muitas adversidades a longo prazo parecem impedir impulsos para cima. mas é preciso encontrar a força em nos para quebrar esse círculo vicioso. questionar as nossas fronteiras. as nossas fraquezas. para nós redescobrir e nos aprender de novo. é quando já não se espera nada que as melhores coisas acontecem. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

início

acho crucial lembrar-se como se começou. todas as vezes que a monika e eu
rappelle-moi qui je suis,
ce que je m'étais promis.
zaz
vamos ao cinema mais perto de casa mencionamos a sorte que temos em ter um carro e poder de lá voltar à noite em menos de 10 minutos. há 15 anos, eram 10 minutos a pé até à paragem de autocarro mais próxima onde só havia um que passava com pouca frequência. por isso muitas vezes foram seguidos de 10 adicionais, para chegarmos a outra paragem que dava mais possibilidades. era sempre pela meia noite. não havia quase ninguém na rua. as temperaturas frequentemente baixas. e quantas vezes tínhamos de fazer um sprint louco a ver o autocarro ao longe para não termos de esperar não sei quanto tempo pelo próximo. são memórias queridas e puras de tempos em que se estava contente com tudo o que se tinha. e em que se precisava de pouco para se ser feliz.

tenho ficado grata por todas as boleias que recebi. lembro-me do primeiro inverno em que trabalhava a tempo inteiro, o mercúrio nos termómetros desceu até aos 27 graus negativos durante duas ou três semanas e o leszek vinha apanhar-me depois do trabalho. desde que tenho um carro gosto de dar boleias às pessoas que precisam. ou só para lhes facilitar a vida nem que seja um bocado. são só dez ou quinze minutos na maioria dos casos, às vezes um pouco mais. esse tempo não é nada. todos conseguem encontrá-lo no dia a dia de vez em quando. só é preciso querer. o que importa realmente é quanta diferença isso faz para as pessoas. gosto de ver os sorrisos, os olhares surpreendidos. quando se teve sorte, e independentemente da área, é preciso retribuir. ajudar as pessoas que tiveram menos. espalhar o bem. ser generoso. dar impulsos para cima aos outros. ter o coração sincero e honesto. e as mesmas ideias na cabeça. nunca se esquecer das pessoas que moldaram a nossa sorte, que nos ensinaram como a encontrar. não se deixar corromper por nada. nem ninguém. procurar o simples. ser fiel a si próprio. não fazer as coisas que se despreza.

a única coisa que nunca se nos pode tirar é quem somos. só podemos escolher abdicar disso sozinhos, por estupidez.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

de partículas galáticas

química
(árabe al-kimia, pedra filosofal, do grego khumeía, fusão de metais)
substantivo feminino
= ciência que estuda a natureza e propriedade dos corpos simples, a ação molecular desses corpos uns sobre outros e as combinações devidas a essa ação
fonte: priberam

onde está o coração
para se sentir em paz ou pertencer são muitas coisas. que diferem em função da pessoa, mas dão o mesmo resultado. uma sensação de tranquilidade. de segurança. de carinho. de leveza. uma impressão de não se importunar com o mal que nos acontece. uma convicção que se pode dissipar todas as tristezas e deceções. uma euforia sem limites que dança no ar e preenche o espaço todo, partícula por partícula, centelha por centelha, sorriso por sorriso. é formidável conseguir sentir tudo isso a fitar alguém nos olhos. perceber que se pertence à vida. uma comoção que não tem preço. que não se compra. não se vende. não se finge. que não obedece a nenhuma regra racional. uma tensão entre proximidade e mistério. um equilíbrio entre proximidade e mistério. mesmo relações feitas de confiança e de apoio precisam surpreender. apanhar desprevenido. sem isso tornam-se chatas. perdem o encanto. caem na rotina. e há rotinas que nunca são boas.

a fronteira entre o que nos agrade e o que não é muito fina. flexível. discutível. inexplicável. incompreensível. volúvel. tudo é uma questão de proporções. e também da pessoa que as escolhe e acerta, tal como um alquímico, um ilusionista. há coisas e tratamentos que nem nos irritam nem importunam só quando vierem de alguém em concreto. nessas alturas toleramos o que normalmente zanga, sem reparar, sem pestanejar. sem pensar nisso, sem ter de comprovar nada, de explicar nada.. tão forte é o encanto, a comunhão de almas. quando olhamos para o desconhecido, procuramos sempre o que já conhecemos. alguma semelhança. alguma referência. um ponto de partida. quando o encontramos é o início de um caminho. uma luz interior que se acende. um calor que invade. uma esperança que seja alguém que ajude a navegar pela vida. a torná-la mais suportável, mais divertida. que seja durante uma eternidade ou um instante. todos parecem ser fãs dos infinitos, mas os instantes também são bons.