domingo, 30 de agosto de 2015

passo a passo

quando os segundos deslizam
viajar é perder-se. seguir caminhos ditados pelo coração, pelo passado, pelos estados de alma, sem mapa. é esquecer-se de todos os pontos de referência que se tinha. é não ter destino. nem objetivo. é pôr tudo em perspetiva. desencontrar para encontrar. ter saudades. procurar no fundo de si mesmo. recomeçar do zero. palpar o imprevisível. não esperar mais nada. abrir os olhos por resignação. parar. prestar atenção. roubar momentos ao tempo. deleitar-se com o cheiro do vento. lembrar-se de coisas pequenas. errar e depois ter a possibilidade de corrigir os erros. ou fazê-los de novo. escutar o imprevisível. experimentar coisas inesperadamente boas.  receber sorrisos que dão impulsos para cima. experimentar a bondade gratuita a emanar de pessoas desconhecidas. sentir o calor invadir o coração. querer que o instante dure uma eternidade. tocar nos infinitésimas momentos da vida.

gosto de descobrir modos novos que reinventam o quotidiano. realidades que parecem surreais mas são bem palpáveis. gosto de não me preocupar com o passar do tempo. de fazer tudo devagar. de me perder no horizonte. de ficar debaixo dum céu estrelado que pisca de maneira confortadora. de sentir sal e sol na pele, gotas de chuva no rosto, vento no cabelo. de mergulhar na beleza. de embebedar com a simplicidade. de preencher os pulmões com a frescura do dia e a doçura da noite. de me tornar mais leve. taciturna. de me olhar por dentro. de decidir o que quero mudar. de aprender coisas novas. de me tornar mais humilde. e melhor.

viajar é um desejo insaciável. são folêgos cortados. uma comunhão. uma fusão. uma suspensão. um silêncio cheio de tudo perante uma soberba esmagadora. algo que fica fora do tempo. e, ironicamente, fora do espaço.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

nem todas as praias são minhas

porque é que quando estou a pagar na bomba de gasolina propõem-me sempre
mesmo os cenários perfeitos têm imperfeições
um café? e quando o recuso - um sumo de laranja? e depois um cachorro-quente. seguidos de pontos que deveria querer juntar e do recibo. e como respondo não a tudo, perguntam-me depois porque é que sou tão negativa. ou se acontece que eu diga sim a algo. e quem é que me faz essas perguntas de merda?

porque nos hotéis há sempre um doce de morango pelo pequeno almoço? e mais sumo? sem falar de café. e depois, quando estou a visitar a cidade e a parar para beber algo, bombardeiam-me com mais café. e mais sumo. e bolos de queijo fresco.

detesto café. bebi dois na vida (e tinham mais leite do que café), à beira dos 18 anos e vomitei depois de ambos. já o cheiro sozinho me dá nojo. nem aguento os bolos com café (a não que seja um tiramisu com uma dose mínima) e sou uma grande fã de doces.

quanto aos sumos, as únicas bebidas doces de que gosto são a coca-cola (a versão normal que contem as doze colheres de açúcar e não a light ou a zero para pessoas que não se assumem e que estão com medo de viver, armando-se em carapaus de corrida) e o estathé al limone. tudo o resto é artificialmente e elasticamente pegajoso. não consigo beber nenhuma bebida alcoólica que contenha sumo ou refrigerantes (as de cores fantasistas, em copos chiques, com chapéus-de-sol de papel e outros acessórios ridículos) já cheiram mal. nem bebo nem como nem compro coisas que cheiram mal.

infelizmente, a fruta também é doce. das coisas doces, só gosto de chocolate. da fruta, só realmente de bananas e framboesas. o resto podia não existir. e, honestamente, o fenómeno do morango, não percebo. essa suposta sofisticação e subtilidade - combina com champanhe e coberturas de chocolate; é usado durante os preliminares em muitos filmes de soft porn (a condição que se possa juntar as palavras pornografia e sofisticação na mesma frase e a falar da mesma coisa) -  nem me aquece nem arrefece.

como me forçaram a comer queijo fresco (supostamente muito saudável mas sempre achei esse  enfoque entusiasta muito exagerado) durante a minha infância, odeio absolutamente tudo que o contenha. nem apreço muito a sua textura de cartão que passou tempo a mais debaixo da chuva nem o seu sabor insípido. evito tudo o que o contém.

(ao escrever isto, propuseram-me um bolo de queijo com morango. não preciso explicar o meu espanto.)

não percebo porque é que o quotidiano segue nos seus arranjos essa ditadura do comum. porque é que ninguém me propõe chá branco? ou chocolate? ou até uma coca-cola normal? quando a peço perguntam sempre se a quero light ou zero. sinto-me rotulada sem eu ter dito nem que seja uma palavra. empurrada para seguir padrões que nem me correspondem nem apetecem.

ao insinuar às pessoas o que deveriam querer, do que deveriam gostar ou que expetativas deveriam preencher, pode-se estragar muitas coisas. coisas bonitas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

grand moment de solitude

devo pagar 14.10 pln na para-farmácia. dou um bilhete de 10 pln, uma moeda de 5 pln e uma de 0.10 pln, a esperar receber uma moeda de 1 pln em troca. recebo um punhado de moedas. olho para a rapariga. realmente?

eu: dei-lhe 4.10 pln para receber só uma moeda de 1 pln em troca.

ela, indignada: a quantia que dei está certa.

eu: não é o que eu estou a questionar. queria receber uma moeda só em vez de vinte.

um momento de silêncio. como dizem os franceses quando se sentem incompreendidos - un grand moment de solitude. fico à espera para ver a cara da rapariga iluminar-se com nem que seja uma migalha de compreensão. não acontece. o momento prolonga-se.

finalmente, ela: ah.

acho ótima a expressão que a melhor encarnação da infinidade é a estupidez humana. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

expor-se por inteiro

being powerful is like being a lady. if you have to tell people you are, you aren't. margareth thatcher

não posso dizer que não gosto do facebook, porque nunca fui à página, nem que
revelar tudo?
seja por curiosidade. redes sociais não me inspiram curiosidade nenhuma. nem gosto da ideia, nem do conceito, nem da finalidade. não devo ser suficientemente social para isso. não quero compartilhar tudo com todos. ou nem que seja tudo com poucos. há partes de mim que só são para mim. compartilhá-las seria tirar-lhes a beleza toda. não me interessa que a humanidade inteira saiba que cara tenho de biquíni. eu sei. e chega. também não quero simplificar o processo de conhecimento duma outra pessoa ou de sacrifícios que se faz para manter uma amizade numa lista de informações que pretendem resumir a minha vida atual. não me quero apresentar como fantástica.

não quero que me curtam, que me compartilhem ou que me adorem. é tudo treta. uma falsa atenção e carinho ilusório que começam e acabam num só clique. sem esforço. sem consequências. sem nada mais por detrás. achei sempre importante conseguir diferenciar a realidade da ilusão. para saber o que se tem e o que só se acha ter. o verbo gostar, como o verbo amar, não toleram imperativos. além de soarem completamente desesperados e patéticos, não resultam em nada. ama-me. gosta de mim. não são coisas que se comandam. nem pedem. nem obedecem.

não quero ser amiga de todos. não quero contactar pessoas. nem obter informações superficiais. quero encontrá-las. levar tempo. perder tempo. descobri-las. conhecê-las cada vez um pouco mais. ficar contente por isto. esforçar-me. adaptar-me. compartilhar silêncios. decidir o que lhes quero revelar e o que não porque é cedo demais.

há pessoas que já me sugeriram que, sem uma conta facebook, era como se eu não existisse. ótimo. porque quando não se existe, passa-se do lado das sombras que não interessam ninguém. e consegue-se dedicar a coisas realmente importantes. em paz e ao seu ritmo. dificilmente podia-se imaginar uma situação mais bonita.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

na junta de freguesia

vou tirar um número. 

dois homens atrás de mim dizem: como esta senhora é bonita.

volto-me. estou de chinelos, vestido de praia (porque me faz pensar no mar e ficar de excelente humor), cabelo molhado e despenteado (porque detesto penteá-lo). olho em volta de mim. não há nenhuma outra mulher. devem estar a falar de mim. olho para eles lentamente, dos pés a cabeça, depois nos olhos e pergunto: conseguem dizer algo que eu ainda não saiba ou já chegaram ao limite das vossas possibilidades?

ambos ficam de boca aberta. 

saio da sala bastante contente porque detesto elogios. são aborrecidos. não acrescentam nada à situação. não me fazem melhorar em nada. não preciso deles. já me sinto suficientemente bem comigo sozinha. não vejo a utilidade de confirmações externas. não me fazem ficar lisonjeada ou contente. nem percebo porque deveriam. pelo contrário - irritam-me. o ar que tenho só a mim diz respeito. o que tenho na cabeça também. porque é que as pessoas acham que devem interferir na relação que tenho comigo? é duma futilidade incrível. e uma perda de tempo.

não é presunção. acho patético não ser consciente do que se tem de bom e do que se tem de mau. além disso, o que penso de mim é só a minha opinião e nem me interessa que as pessoas concordem comigo ou discordem de mim.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

uma oração

somos todos presidiários. ou quase todos. de crenças. de esperanças. de desejos. de medos. de realidades alteradas. de ilusões. de cegueira. de intenções mal-calibradas. de soluções mais fáceis. da falta de vontade de recomeçar a zero. de arriscar o que já foi adquirido. de questionar o que tomávamos por certo. de se recusar a aceitar as coisas objetivamente inaceitáveis. de não concordar com os tratamentos de merda. ou simplesmente inapropriados. de exigir respeito. de querer ser valorizado.

temos todos a tendência para se mentir. para embelezar. para encontrar desculpas. para fingir que as coisas não são tão más como parecem. que os mil pedaços espalhados no chão ainda conseguem formar um todo. que o sentido nunca se perdeu. que os alvos continuam comuns. que as coisas estão bem. que estão como as queríamos. que não falta nada. que o marasmo se torna excitante com o tempo. que não há marasmo nenhum. que o que acontece é a vida. o quotidiano. o habitual. a natureza. que é perfeitamente normal acabar na mediocridade porque não se pode sempre estar a procurar a perfeição. que as desilusões resultam do facto que fomos jovens demais para avaliar a situação como mandava a lei. que não se pode ser indefinidamente feliz.

mas só os que conseguem ser honestos e chamar as coisas pelo que são realmente conseguem ultrapassar essa pasmaceira. mesmo que seja um processo bastante desolador. os que exigem mais da vida. que não querem conformar-se. que desobedecem a rotina. que não concordam com o que recebem. que estão com uma fome constante. uma curiosidade que não morre. uma força que permite reconstruir, recriar, refazer.

a prayer for the wild of heart that are kept in cages. tennessee williams

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

fugir sem se mexer

y finalmente están aquellos que suspiran contemplando el indefinible horizonte del mar. (...) sus almas encuentran mayor sosiego en el pavoroso rugir del viento. luis sepúlveda

a minha carreira de leitor iniciou de maneira insólita. como todas as grandes aventuras. apanhou-me desprevenida. esperou até ao momento mais adequado, para eu não conseguir resistir. não estava à procura de nada, fazia as coisas de maneira automática, sem pensar demais, sem acordar muita importância, sem ter expetativas. não presidiária duma rotina, mas duma situação em que não se nota as circunstâncias. 

a minha carreira de leitor iniciou com lápis de cor. quando tinha cinco anos a
perder-se
beata lia-me uma série de livros sobre um veterinário que falava todas as línguas dos animais que curava. claro, achei a história muito fixe, mas nessa altura apanhava aulas de desenho e o que me apetecia mais eram os desenhos não coloridos do livro. já sabia que não se devia escrever nos livros. nem com caneta, nem com lápis de cor. mas numa lógica duvidosa, e porque queria tanto dar cores aos desenhos de animais, decidi que a beata não ia folhear o livro para atrás. eu esperava até ao fim dum capítulo e depois até ao fim do capitulo seguinte e começava a colorir. a saber que era proibido. a deliciar-me com cada segundo. e olhava para os desenhos futuros, a fazer planos loucos de cores e matizes. nunca percebi porque não fui apanhada em flagrante. estava preparada para enfrentar uma tal situação e planeava reconhecer a minha culpa. mas não arrepender. não sei se as admissões de culpa sem arrependimento servem para algo, mas gostava de pensar que sim.

quando vi que o john e a sophia conseguiam aos quatro anos soletrar não só os nomes deles mas também o meu (que desobedece a lógica da grafia internacional), fiquei preocupada porque dos meus quatro anos só me lembrava das brincadeiras. disseram-me que só aprendi a ler no primeiro ano da escola. não queríamos pressionar-te inutilmente. seja.

felizmente, mesmo sem pressão, dois anos mais tarde já lia muito e contava o tempo de leitura em tpc que não fazia, horas que não dormia ou filmes que não via. as minhas preferências evoluíram. também a intensidade da relação. houve mesmo um período em que não lia de todo. mas no final das contas, trata-se sempre da mesma coisa. uma procura. uma saudade indefinível. uma sede inapagável. uma curiosidade. um cansaço que em vez de nos fazer parar força-nos a continuar. uma peregrinação nas maravilhas da vida. no que há de mais belo, mas também de mais feio. nos limites. nas coisas das quais se pode desistir. no que não se deve abandonar. uma viagem. com a diferença que nem se tem de comprar bilhetes. nem levar bagagens. nem ir ao fim do mundo. nem conhecer precisamente o destino. uma maná que acalma os suspiros frenéticos dos que ficam à espera. um alívio acima do visível e do tangível. frações de segundos. indeléveis. inefáveis. que fazem explodir e queimar corações. pedaços infinitesimais e abrasadores que ficam por sempre. e que procuramos a vida toda para os juntarmos num tudo. 

não pergunto às pessoas se leem. é uma escolha pessoal. uma preferência intima. nas coisas fundamentais não se há-de fazer perguntas. nem julgar. nem tentar fazer mudar. é sempre uma falta de respeito. são coisas ditadas por razões diversas e complexas. questioná-las significava presumir a superioridade de nossos princípios. ou de nos mesmos. era presunçoso. e vaidoso. as pessoas têm bagagens e histórico de tradições e valores diferentes. nem melhores, nem piores. diferentes. leio sempre de lápis na mão. para assinalar as frases do que gostei. faróis para os navegadores do quotidiano. pequenas pausas que deixam recarregar as baterias da vida. e quase sempre olho para a última página. caso eu não sobreviva até ao fim do livro.

gosto muito de leitura em voz alta. não porque me apetece ler às pessoas mas porque adoro que me leiam. que me contem histórias. que me guiem com pausas e entoações. que me ajustem a respiração a um ritmo que não seja o meu. que me façam descobrir coisas novas. valores e dilemas. que me encantem com pontos e virgulas. que me preencham o espaço-tempo com a paciência duma voz. uma dedicação taciturna rodeada de palavras. uma viagem ao fundo da alma. uma inclusão num mundo maior que a vida.

lês-me uma história?