y finalmente están aquellos que suspiran contemplando el indefinible horizonte del mar. (...) sus almas encuentran mayor sosiego en el pavoroso rugir del viento. luis sepúlveda
a minha carreira de leitor iniciou de maneira insólita. como todas as grandes aventuras. apanhou-me desprevenida. esperou até ao momento mais adequado, para eu não conseguir resistir. não estava à procura de nada, fazia as coisas de maneira automática, sem pensar demais, sem acordar muita importância, sem ter expetativas. não presidiária duma rotina, mas duma situação em que não se nota as circunstâncias.
a minha carreira de leitor iniciou com lápis de cor. quando tinha cinco anos a
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| perder-se |
beata lia-me uma série de livros sobre um veterinário que falava todas as línguas dos animais que curava. claro, achei a história muito fixe, mas nessa altura apanhava aulas de desenho e o que me apetecia mais eram os desenhos não coloridos do livro. já sabia que não se devia escrever nos livros. nem com caneta, nem com lápis de cor. mas numa lógica duvidosa, e porque queria tanto dar cores aos desenhos de animais, decidi que a beata não ia folhear o livro para atrás. eu esperava até ao fim dum capítulo e depois até ao fim do capitulo seguinte e começava a colorir. a saber que era proibido. a deliciar-me com cada segundo. e olhava para os desenhos futuros, a fazer planos loucos de cores e matizes. nunca percebi porque não fui apanhada em flagrante. estava preparada para enfrentar uma tal situação e planeava reconhecer a minha culpa. mas não arrepender. não sei se as admissões de culpa sem arrependimento servem para algo, mas gostava de pensar que sim.
quando vi que o john e a sophia conseguiam aos quatro anos soletrar não só os nomes deles mas também o meu (que desobedece a lógica da grafia internacional), fiquei preocupada porque dos meus quatro anos só me lembrava das brincadeiras. disseram-me que só aprendi a ler no primeiro ano da escola.
não queríamos pressionar-te inutilmente. seja.
felizmente, mesmo sem pressão, dois anos mais tarde já lia muito e contava o tempo de leitura em tpc que não fazia, horas que não dormia ou filmes que não via. as minhas preferências evoluíram. também a intensidade da relação. houve mesmo um período em que não lia de todo. mas no final das contas, trata-se sempre da mesma coisa. uma procura. uma saudade indefinível. uma sede inapagável. uma curiosidade. um cansaço que em vez de nos fazer parar força-nos a continuar. uma peregrinação nas maravilhas da vida. no que há de mais belo, mas também de mais feio. nos limites. nas coisas das quais se pode desistir. no que não se deve abandonar. uma viagem. com a diferença que nem se tem de comprar bilhetes. nem levar bagagens. nem ir ao fim do mundo. nem conhecer precisamente o destino. uma maná que acalma os suspiros frenéticos dos que ficam à espera. um alívio acima do visível e do tangível. frações de segundos. indeléveis. inefáveis. que fazem explodir e queimar corações. pedaços infinitesimais e abrasadores que ficam por sempre. e que procuramos a vida toda para os juntarmos num tudo.
não pergunto às pessoas se leem. é uma escolha pessoal. uma preferência intima. nas coisas fundamentais não se há-de fazer perguntas. nem julgar. nem tentar fazer mudar. é sempre uma falta de respeito. são coisas ditadas por razões diversas e complexas. questioná-las significava presumir a superioridade de nossos princípios. ou de nos mesmos. era presunçoso. e vaidoso. as pessoas têm bagagens e histórico de tradições e valores diferentes. nem melhores, nem piores. diferentes. leio sempre de lápis na mão. para assinalar as frases do que gostei. faróis para os navegadores do quotidiano. pequenas pausas que deixam recarregar as baterias da vida. e quase sempre olho para a última página. caso eu não sobreviva até ao fim do livro.
gosto muito de leitura em voz alta. não porque me apetece ler às pessoas mas porque adoro que me leiam. que me contem histórias. que me guiem com pausas e entoações. que me ajustem a respiração a um ritmo que não seja o meu. que me façam descobrir coisas novas. valores e dilemas. que me encantem com pontos e virgulas. que me preencham o espaço-tempo com a paciência duma voz. uma dedicação taciturna rodeada de palavras. uma viagem ao fundo da alma. uma inclusão num mundo maior que a vida.
lês-me uma história?