segunda-feira, 22 de março de 2021

desculpabilizações

não percebo muito bem a tendência do momento, a de não ter de assumir responsabilidade por absolutamente nada. podemos ver isso com o exemplo das celebridades. anunciam que são alcoólicas, que tomaram drogas, que trataram alguém mal e recebem um quase aplauso. validado pelos média. venerado pelos média. viciados pelos média. por serem tão corajosas a admitirem as fraquezas. por se darem ao esforço de algo tão difícil. por mostrarem o lado imperfeito e humano. há um momento em que essa treta vai parar ou já caímos tão fundo na sociedade do espetáculo que é tarde demais para a salvação?

desde quando é que a admissão de asneiras que se fez torna a pessoa num quase herói? desde quando é que o facto de falar limpa tudo, apaga tudo? desde quando não há consequências de nada? chega compartilhar com a humanidade inteira e pode se ficar a mesma pessoa fabulosa. não é preciso fazer mais nada. parte-se do zero. não se perde nada. não importa o que se fez de mau ou de negativo. não importa o que se negligenciou. não importa onde se falhou. não importam as deceções que se causou. chega só admitir. todos vão se esquecer do resto no dia seguinte. que raio de mentalidade… e o que isso promove…

tudo ou quase tudo se tornou tolerável. aceitável. quase fixe. único. individual. todos ou quase todos os comentários são vistos como negativos a mais. ofendem. magoam. invadem territórios. e privacidades. não deixam as pessoas se exprimirem. matam potenciais. impedem o desenvolvimento pessoal na direção que se quer. porque há tantas maneiras de fazer as coisas quantos há indivíduos. nada de mais errado. 

na matéria de valores de base há só uma maneira certa de fazer as coisas. e cada deviação do caminho tem consequências. e repercussões. que é preciso assumir. e agir em função delas. a vida não é um videojogo em que cada um tem um número indefinido de vidas. e um número indefinido de oportunidades. e de avatares. não podemos escolher em cada momento ser outra pessoa. de nos ver sempre como a vítima do momento. somos a pessoa que construímos. lenta e cuidadosamente desde os inícios da nossa vida. somos o que não dizemos. o que não fazemos. e o que não assumimos. e essas coisas deixam uma marca em nós. para sempre.

domingo, 14 de março de 2021

quando o amor acaba

a cultura ocidental está obcecada com a maneira como o amor entra na nossa vida. livros, poemas, músicas, letras, filmes detalham a magia. o milagre. o mistério. o destino. a primeira vista com que tudo se torna claro. as palpitações. o nó na garganta. a veneração. a espera infinita por uma mensagem ou por um telefonema. a euforia quando o recebemos. as insónias. a preocupação antes do encontro. a emoção quando acontece. a sensação de vazio quando estamos sozinhos. o cinzento da vida sem a outra pessoa. uma existência reduzida. privada de tudo o que mais importa. as declarações. as exaltações. todas as coisas que aceitamos fazer em nome do amor. o único. o verdadeiro. o puro. tudo o que escolhemos não ver. ou não dizer. os sempres. os nuncas. todas as coisas parecem gravitar em volta dos quandos e dos comos do amor que aparece.

mas ficamos calados sobre a altura, igualmente fascinante e inexplicável, em que o amor desaparece. apaga-se. desvanece. dissipa-se. desmaterializa. deixa de existir. quando a pessoa que alimentava as nossas insónias torna-se completamente indiferente para nós. quando a começamos a evitar. quando nos irrita com absolutamente tudo. quando nos perguntamos se a paixão foi só uma ilusão. ou como podíamos ter-nos apaixonado em primeiro lugar. 

sempre fiquei curiosa como se podia adorar alguém, só para não o aguentar uns meses ou uns anos mais tarde. é algo que me fascina. essa decomposição tão radical. esse fim tão devastador. eu sei que o desgaste da relação nunca se faz com a mesma velocidade de ambos os lados. que as pessoas crescem e evolvem de maneira e ritmo diferentes. que temos a tendência para tomar o outro por garantido e achar que não é preciso fazer esforço nenhum quando é exatamente preciso fazê-lo. 

lembro-me uma vez ter ouvido uma conhecida dizer que ela já não precisava fazer tanto quanto as raparigas solteiras porque estava casada (ironicamente a conhecida em questão está no meio dum divorcio horrível há uns dois ou três anos). dificilmente podia estar mais errado. atrair a atenção dum homem que se conheceu há uma semana, nada mais fácil. a dum com quem se esteve numa relação durante os últimos dez anos já é muito mais complexo e desafiante. 

porque não só é preciso recomeçar todos os esforços diariamente, quase do zero. é também preciso pôr a relação primeiro. o que não significa esquecer-se das nossas necessidades e preferências. significa estabelecer um tal nível de confiança e de vulnerabilidade que sempre se está à vontade para se ser si próprio. e poder compartilhar mesmo o do que não estamos orgulhoso ou do que não gostamos a saber que a outra pessoa vai ouvir e fazer do seu melhor para perceber. tudo isso para o que construímos venha antes dos nossos interesses. 

de hoje em dia tudo isso parece trabalho a mais. a tendência é abandonar. deixar quando as coisas se tornam demasiado feias. ou complexas. porque no final das contas é mais fácil recomeçar do zero. a nossa cultura é a do consumo excessivo. e da substituição rápida das coisas que não preenchem as nossas expetativas. e construir relações e confianças requer tempo. paciência. dedicação. curiosidade. generosidade. investimentos emocionais sem uma perspetiva de retornos certos. e quando não há todas essas coisas, não há amor suficientemente grande para que não possa ser morto. mesmo o romeu e a julieta sucumbiam.