quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

sono

nem tudo é o que parece
o sono e eu, é uma relação complicada. sempre tem sido. uma dessas relações de amor e de ódio. com pouco amor e muito ódio. se calhar não ódio, mas poucas expetativas, ou pelo menos poucas expetativas boas. uma situação em que se fica à espera do difícil desde o início. admiro e, por uma vez posso dizê-lo, tenho ciúmes das pessoas que conseguem adormecer num lugar qualquer, deitadas ou sentadas, em camas alheias ou poltronas, com músicas e barulhos de todas as sortes, luzes acesas, outros a entrarem e saírem etc. para mim ter a hipótese de dormir faz parte dum sistema muito binário. minha cama, zero barulho, temperatura ideal, estômago cheio, luzes apagadas - se a minha cabeça não tiver outros planos e se o meu limiar de cansaço não estiver ultrapassado consigo. em todas as outras circunstâncias e configurações o sono não vem. esta complicação mantém-se há quase trinta anos, que antes não me lembro muito bem como era, mas deve ter sido mais ou menos o mesmo. 

não consigo adormecer numa cama que não seja minha, pelo menos durante as primeiras duas ou três noites (e isso se tudo correr bem). lixa-me todas as viagens de curta duração porque significa que quase não durmo. tenho o sono extremamente leve. todos os barulhos ou não me deixam adormecer ou fazem-me despertar imediatamente. incluso quando se abre a porta do quarto. por isto o meu plano ideal foi sempre: último andar, longe do elevador (se se conseguia ouvi-lo ou não foi uma coisa que sempre verifiquei ao alugar apartamentos), janela para tudo menos a rua, vizinhos calmos, nenhum bar ou restaurante ao lado. inúmeras foram as vezes em que, nas horas de madrugada, fui de pijama bater nas portas de vizinhos, fossem temporários ou mais permanentes, para exigir que baixassem o som da música, deixassem de falar tão alto ou tirassem os saltos ao andarem em casa. não posso adormecer quando estou com frio (durante a última caminhada nas montanhas todos gozaram comigo porque o meu saco de dormir pesava dois quilos, o que é enorme. era levar peso a mais ou arriscar-me a não dormir de todo durante uma semana se tivesse demasiado frio a dormir na tenda) nem dormir quando estou com demasiado calor (acabo sempre por ter uma série de pesadelos e acordar no meio de cada um). lençóis desagradáveis ao toque também me incomodam. não consigo adormecer quando estou com fome. já me aconteceu levantar-me no meio da noite ou muito muito cedo pela manhã, só para comer algo. as luzes também me molestam. prefiro quando estão apagadas e mesmo que consiga adormecer, acabo por sempre acordar uma ou duas horas mais tarde para as apagar.

e quando toda esta parte técnica está cumprida como devido: estou na minha cama, sem barulho nem fome, sem demasiado calor ou frio, com luzes apagadas, em condições que parecem ideais para o sono chegar, infelizmente não significa que vá. que uma vez os parâmetros físicos preenchidos, vem o turno dos parâmetros emocionais. difícil dizer quais são os mais chatos. se eu fizer algo muito emocionante ao fim do dia, se a minha cabeça começar a ruminar quando já estiver deitada, se estiver muito cansada ou com enxaqueca, o sono não vem. e nem ajuda fazer outra coisa, nem usar um dos truques para dormir rápido, nem mudar de cama.

e se tudo correr bem física e mentalmente, se tudo estiver alinhado como eu gosto e preciso, se não houver nenhum outro contratempo imprevisto, preciso, na mesma, duns quarenta minutos para adormecer. paciência...

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