sexta-feira, 27 de março de 2020

quando o mundo acaba

gosto de situações de crise. de adversidade. de complicações extremas.

muitas vezes uma prenda da vida
clarificam a importância das coisas. nada melhor que a pressão e o limite de tempo para se perceber o que tem valor na vida. e o que não. como se tudo se iluminasse de repente na cabeça. como se todas as dúvidas desaparecessem. como se o caminho certo se revelasse subitamente e nos convidasse para o seguirmos. como se a nossa visão do mundo estivesse claríssima. como se os nossos sentidos se tornassem mais agudos. como se adquiríssemos características animais a orientarmo-nos na escuridão dos medos, dos transtornos, com a agilidade e a segurança dum felino. até nem percebemos como antes podíamos não saber por onde ir. o que fazer. como podíamos hesitar. duvidar. pensar que as coisas eram complicadas. complexas. dificilmente discerníveis. e aqui a verdade, a realidade, de repente, e muitas vezes inesperadamente, manifesta-se. despe-se. dita tudo. pede a nossa atenção total. a nossa energia completa. mostra-nos o que temos. e o que não temos. torna-se dona do nosso destino.

as situações de crise também revelam a pessoa que somos. empurram-nos até ao extremo. cortam o fôlego e depois olham para ver como conseguimos respirar. como lutamos pelo ar. tornam-nos nus. fracos. vulneráveis. desorientados. hesitantes se fazer a coisa mais fácil ou a coisa mais certa. ampliam as qualidades. e os defeitos. mostram de que somos feitos. expõem a feiúra. ou a beleza. sempre a dar uma imagem muito clara. óbvia. no final das contas o nosso caráter expõe-se sempre melhor em duas circunstâncias: quando ninguém olha e quando não temos nada a perder. é a altura em que, para a maioria das pessoas, todas as inibições, todas as auto-correções, todas as dissimulações arrebentam. já não se consegue mais esconder a nossa construção, os nossos desejos, as nossas ansiedades. um raio x do ego. um ponto de nós já feito. impossível esconder-se. impossível fugir. só enfrentar. um momento de liberdade no fundo. que fingir sempre consome muita energia e muito controlo. e faz perder tempo no conhecimento da outra pessoa. acho melhor poder enfrentar a verdade sobre outros já no início. para não se investir em causas perdidas.

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