domingo, 27 de dezembro de 2020

de volta à estaca zero

condenados ao embelezamento
temos quase todos essa esperança secreta de um dia conseguir reparar o passado. de chegar a um ponto em que as pessoas que nos dececionaram, magoaram ou falharam duma maneira qualquer admitam o que fizeram mal e peçam desculpa. ficamos à espera da altura em que compreendem quanto valor temos e quanto nos devem. vivemos o presente ancorados no passado, presidiários de ilusões que tudo (ou quase tudo) pode ser reparado, vítimas de fraturas emocionais anteriores. a doer. a chamar a atenção. a ditar comportamentos irracionais. a nós fechar numa mentalidade de criança. numa deceção de criança. num mecanismo onde a intervenção só pode vir de fora.  

mas não vai. porque se essas pessoas se dessem conta de quem somos, já o teriam manifestado na altura dada. não teriam falhado. e se tivessem, porque ninguém é perfeito e todos falham duma maneira ou doutra, já o teriam reparado ou tentado reparar. obcecados com o nosso sentimento de prejuízo, limitados pelo que aconteceu no passado, pensamos que todos ficamos nele. mas não é o caso. fomos só nós. as outras pessoas foram para a frente. não ligaram ao que aconteceu. fecharam o capítulo. evoluíram. não significa necessariamente que mudaram, mas acompanharam o presente e não o passado.

a única pessoa de quem pode vir a intervenção somos nós mesmos. temos é de reparar as nossas fraturas emocionais. sozinhos. dar-nos o que faltou. o que falhou. o que dececionou. o que nunca chegou. deixar de esperar que isso se faça sozinho. que a vida vai um dia querer ajustar o desequilíbrio. perceber a responsabilidade que tivemos no que aconteceu. onde nós falhámos. onde nos deixámos. onde nos dececionámos. pegar nas migalhas, nos pedaços e colá-los. torná-los. só assim é que o passado pode finalmente ficar reparado. só assim é que conseguimos sair dele e deixar os círculos viciosos. só assim é que nos podemos tornar seguros e viver no presente.

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