vou parecer pouco objetiva. e tendenciosa. mas não posso fazer nada com isto. paciência. acho que todas as estações podiam ser apagadas. todas menos uma. o verão (e o inverno mas só na altura do natal, e a primavera, mas só na altura do florescimento das árvores, então não conta). o verão. a estação ao redor da qual as outras revolvem. a primavera anuncia os dias bons. o outono a nostalgia deles. o inverno a espera. essas três estações nunca podiam existir sozinhas. não faziam sentido. não se conseguia justificar os absurdos delas. o frio. o escuro. o cinzento. o incerto. não se podia contar com nada. as aberrações. as falsas promessas. as deceções. as indignações. as dúvidas. o desespero.
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| atrapalhados no momento |
o verão, enquanto a ele, não tem nada disso. é autossuficiente. completo. inteiro. cheio. a todos os níveis possíveis. não percebe nada das insuficiências. das carências. das lacunas. não conhece a impaciência. as saudades. as ansiedades. a falta. chega e preenche tudo da sua exuberância. o corpo esquece-se da roupa e expõe a sua pele nua aos elementos. deixa-se acariciar pelo vento. pela água. pelo sol. pela areia. pelo sal. apanha cor. torna-se na sua versão mais sensual. mais exibida. mais animal. faz um com a natureza abundante. a nossa alma vai de férias. compensa o tempo que não teve antes. ignora que dia da semana é. que hora é. mas goza cada dia. cada hora. cada minuto. mergulha no presente. um presente que nunca acaba. nem para. nem avança. parece suspenso entre os arbustos com flores. apoiado pelo azul. do mar por baixo. do céu por cima. sem hipótese que caia. que vacile. que acabe. tece uma tela de serenidade. de seguranças. de certidões.
para a maioria das pessoas é só uma ilusão de algo que nunca vão conseguir. os quilos perdidos para sempre. os amantes de duas semanas cuja memória vai tornar o cinzento do quotidiano menos terno. a suspensão no tempo que nos deixa abandonar uma péssima versão de nós. um trampolim para algo que nunca vai ser, mas preferimos fingir que vai. se ultrapassar esse grau de superficialidade, das aparências, descasca-se, cuidadosamente, a essência do verão. a pô-la num guardanapo para que não fique suja no nosso bolso quando formos descobrir, intrépidos, o mundo. tapado numa outra estação. às vezes invisível. sem brilho e leveza. mas não importa. porque temos o fulgor do verão em nós.

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