quando se é criança, quer-se sempre que as coisas prossigam na mesma. o ambiente, a casa, o professor, os amigos. a continuidade do quotidiano, esse casulo protetor, envolve-nos hermeticamente. protege-nos. nada de mau pode acontecer. nada de fora do que conhecemos existe. nenhuma outra coisa garante essa leveza de coração. não é que não tenhamos imaginação, mas ela conjuga-se dentro do conhecível. do familiar. temos planos esquisitos para um futuro longínquo que supõe modificações - tornamo-nos famosos, escrevemos um livro, descobrimos o tratamento para uma doença, ganhamos galardões - mas sempre no nosso quadro habitual - vivendo na mesma cidade, falando com o mesmo professor e rodeados pelos amigos. recusamo-nos a conceber outras circunstâncias.
mas elas acontecem. nem nos damos conta de quando sucede. mas, de repente, notamos que o tempo é uma coisa que passa. que situações mudam. que o verão é sempre seguido dum outono, e depois dum inverno. que os amigos escolhem caminhos individuais. que não existe uma força gravitacional suficientemente grande para conseguirmos ficar o tempo todo com as pessoas que amamos. um dia, percebemos que a vida já não é a mesma. o ar cheira diferentemente. uma sensação desoladora. uma casa de cartas levada pelo vento. chega-se a um ponto em que mudanças se tornam inevitáveis. e apercebe-se que se tem de aproveitar os momentos quando ocorrem.
um meu professor disse uma vez, metade sério, metade brincando, que quer se tratasse duma decisão básica, de trabalho ou de relação, ele seguia sempre o mesmo padrão. perguntava-se se conseguia imaginar-se em dois anos a fazer a mesma coisa, a continuar o trabalho ou a relação. e se a resposta fosse negativa, significava que devia pôr um fim. não fazia sentido nenhum prosseguir se não se via uma possibilidade de longo prazo. achei essa atitude muito sensata. cortei partes da minha vida que não pensava cortar. apaguei relações de vários tipos, a dizer-me que como as pessoas não mudavam, ou eu ficava contente com o que tinha ou devia procurar outra coisa. recusei ofertas diferentes porque sabia que iam entrar em conflito com o meu temperamento. fiquei com pouco, mas um pouco certo. ou pelo menos tão certo quanto se possa na vida.
decisões são difíceis. ou aliás o que é difícil são as respetivas consequências. tem-se sempre essa esperança louca que, talvez, houvesse um modo de fazer sem ter de decidir ou de escolher. sem ter de avaliar emoções contrárias. sem partir o coração. mas é uma ilusão. uma mentira que enquanto se acredita nela, só serve para prolongar uma agonia. para tentar fugir ao inevitável que nos apanha em todas as esquinas.
pois, é o que nos faz. coisas pequenas. insignificantes. mas para saber o que se espera realmente da vida, dos outros e de si mesmo, para decidir o que se pode abandonar e o que não se quer perder, tem-se de passar por um número interminável de escolhas, tão triviais quanto parecem. coca-cola ou pepsi? manteiga ou margarina? mar ou montanhas? tanga ou boxer? roger moore ou sean connery? pc ou mac? cão ou gato? sexo com luzes ou sem? hobbes ou rousseau? massa ou pizza? mas quando conseguirmos responder a tudo isso, decidimos no que acreditamos na vida. e no que não. definimos as nossas verdades. os nossos limites. o caminho a seguir. pomos o universo em ordem. amor, amizade, esperança, coragem, felicidade não são coisas que percebemos bem desde o início. temos de as experimentar, pôr a prova, desfazer em pedaços, perder, para sabermos de que são feitas.
este mundo tornou-se tão materialista, tão estreito e tão tacanho que faz sufocar. mas é possível encontrar um sentido e possibilidades que não têm nada a ver com o que acontece fora de nós. há coisas que não mudam. pontos de referência. constantes que indicam caminhos certos. guiam, quando não sabemos o que fazer. faróis dum futuro duvidoso. pequenos reconfortos que nos enchem de esperança. de manhã, há sempre orvalho na terra, só se precisa dobrar-se e tocar no chão.
as coisas não podem sempre continuar na mesma. a um momento tem-se de soltar. de passar a outra coisa. de fechar uma gaveta para sempre. porque, por mais doloroso que seja for, é a única maneira de continuarmos. de crescermos como pessoas. a única maneira de nos tornarmos melhores.
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