passei a noite de ontem sentada fora, sozinha, a absorver os vestígios do calor
do dia, a olhar para um céu limpo, num
lugar onde o silêncio era quase
completo e avassalador, a não contar alguns latidos dos cães
vizinhos. eu disse que estava sozinha, mas é mentira. acompanhava-me o gato do
meu anfitrião. ele estava sentado em frente da porta da casa a pensar nos
assuntos de gatos quando cheguei, ficou animado ao ver-me, cheirou o meu pé
doente e eu decidi que a noite era demasiado bonita para ir já para o
quarto. ficávamos ambos sentados a ter silêncio e estrelas por teto. uma companhia descontraída mas confortante, em que palavras são demais. às vezes vinha
para que eu o acariciasse. quase não tinha cauda por consequência dum acidente
com raposas, e quando eu o acariciava, estava a perguntar-me se devia
continuar com a mão até a cauda ou se era uma zona demasiado sensível. é
um pouco como com os homens - nunca se sabe se se deve mencionar o que é
delicado ou problemático ou não dizer nada.
gosto do cheiro da noite
de verão. de o sentir penetrar pelos pulmões e preencher cada centímetro
cúbico do corpo com uma meticulosidade quase religiosa, devagar,
cuidadosamente. da pureza e da serenidade no ar. palpáveis.
omnipresentes. da doçura que cola na pele e a invade, que cobre tudo
duma camada suave. das partículas de pó a vibrar e pairar com mandrião. do cântico de cigarras. do tempo que deixa de passar e fica pendurado no espaço. das estrelas apagadas no firmamento. tão longe, mas sempre iguais a si mesmas. tranquilas e imperturbáveis, nem que seja perante a beleza do mundo nem a sua crueldade. da pausa que a vida toma nas suas tarefas e preocupações quotidianas. do casulo protector da escuridão. da solitude que às vezes se atrapalha nos pensamentos. e traz quietude. e conforto. e esperança. a duma manhã melhor.
Sem comentários:
Enviar um comentário