sábado, 7 de junho de 2014

le mas de lila

passei a noite de ontem sentada fora, sozinha, a absorver os vestígios do calor do dia, a olhar para um céu limpo, num
le mas de lila
lugar onde o silêncio era quase completo e avassalador, a não contar alguns latidos dos cães vizinhos. eu disse que estava sozinha, mas é mentira. acompanhava-me o gato do meu anfitrião. ele estava sentado em frente da porta da casa a pensar nos assuntos de gatos quando cheguei, ficou animado ao ver-me, cheirou o meu pé doente e eu decidi que a noite era demasiado bonita para ir já para o quarto. ficávamos ambos sentados a ter silêncio e estrelas por teto. uma companhia descontraída mas confortante, em que palavras são demais. às vezes vinha para que eu o acariciasse. quase não tinha cauda por consequência dum acidente com raposas, e quando eu o acariciava, estava a perguntar-me se devia continuar com a mão até a cauda ou se era uma zona demasiado sensível. é um pouco como com os homens - nunca se sabe se se deve mencionar o que é delicado ou problemático ou não dizer nada.

gosto do cheiro da noite de verão. de o sentir penetrar pelos pulmões e preencher cada centímetro cúbico do corpo com uma meticulosidade quase religiosa, devagar, cuidadosamente. da pureza e da serenidade no ar. palpáveis. omnipresentes. da doçura que cola na pele e a invade, que cobre tudo duma camada suave. das partículas de pó a vibrar e pairar com mandrião. do cântico de cigarras. do tempo que deixa de passar e fica pendurado no espaço. das estrelas apagadas no firmamento. tão longe, mas sempre iguais a si mesmas. tranquilas e imperturbáveis, nem que seja perante a beleza do mundo nem a sua crueldade. da pausa que a vida toma nas suas tarefas e preocupações quotidianas. do casulo protector da escuridão. da solitude que às vezes se atrapalha nos pensamentos. e traz quietude. e conforto. e esperança. a duma manhã melhor. 

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