sexta-feira, 6 de março de 2015

garantido ou não?

parecer o que se é é mais fácil do que ser o que se parece. ricardo gomes


acabei o último khaled hosseini. gosto da escrita dele. não suaviza demais. na
o que a vida nos traz
verdade, não suaviza de todo. tem um dom para apresentar aquele momento delicado e tão humano em que as pessoas se sentem obrigadas a escolher entre fazer o que é justo e bom e o que é fácil e confortável. e, na maioria dos casos, optam pelo último. magoam. decepcionam. traem. pagam o preço durante o resto da vida. é incrível como coisas pequenas podem orientar a ordem do mundo. como o equilíbrio pode ser efémero e frágil. como os que amamos podem ser desoladores.

a vida é tão simples. somos nós que a complicamos. criamos problemas. fazemos birras. descarregamos frustrações nas outras pessoas. temos chiliques quando alguém não concorda connosco. ou não consegue adivinhar o que queremos. gravitamos em volta do planeta ego. tudo o resto é matéria escura. fingimos não ver os nossos defeitos. não queremos ajuda de ninguém. inventamos escusas inexistentes. faltam-nos tempo, dinheiro, paciência, vontade, motivação, jeito, compaixão... uma lista sem fim. maleável em função das circunstâncias.

é só ao enfrentar problemas verdadeiros que percebemos isso. o ao ter de lutar por algo que para os outros parece básico e simples. nessa altura pomos tudo em perspetiva. percebemos o que é realmente importante. enchemos o coração de humildade. valorizamos coisas pequenas. o sol e a lua. o ar a preencher os pulmões. os sorrisos acidentais. as palavras não esperadas que dão força. os gestos de pessoas que não pedem nada em troca. bondades gratuitas que apreçamos por sempre. é tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco que é preciso para abrirmos os olhos. para vermos as pessoas em volta. para sentirmos o que temos nas mãos.

na turma do leszek há um senhor que tem-de se levantar no meio da noite para apanhar dois autocarros para conseguir chegar à universidade às 8.00. onde estão as pessoas capazes de tais sacrifícios e de tal abnegação para algo de tão simples como o facto de poder ir às aulas? as que não se escondem atrás de palavras grandes e do seu encanto pessoal e escolhem enfrentar a vida? as que fazem e agem sem fanfarrices? as que valorizam o que têm? as que não fazem perguntas, não exigem nada, não julgam?

somos todos formidáveis. orgulhosos, exibimos os nossos vazios impreenchíveis na internet.

mas aqui, trata-se de levantar os olhos do computador. ou do telemóvel.

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