segunda-feira, 13 de abril de 2015

m de mulher

si vous voulez, pour vous je ne serai rien, ou qu'une trace. andré breton

todas as coisas começam na cabeça.

o nível de conforto com o meu corpo. o aspeto que tenho. o passo com que ando na tua direcção. o tom de voz com que te falo. quanto decido alimentar a tua imaginação. se vamos para a cama. se vamos fazer amor ou foder. tudo isto. e muito mais. a sensualidade, é o que a cabeça e a autoconfiança fazem com o corpo. e nunca o inverso. um conhecimento de si mesmo, das possibilidades, das vontades, dos desejos, dos limites. uma apreciação e uma calma interior que se aprendem e se desenvolvem com o tempo. o sexo não começa na cama. é uma continuação do que aconteceu durante o dia. dos olhares, dos toques aleatórios, das palavras proferidas, dos sorrisos, dos silêncios. às vezes das raivas. 

nunca gostei de ser resumida ao físico. ou julgada por ele. é só uma imagem furtiva, um envelope da alma, que nem define, nem estabelece, nem descreve. lembro-me duma conversa que tive com o franck, que para uma rapariga era muito difícil ser oficialmente considerada como não linda. eu não sei nada sobre isso. mas fujo a todas as situações em que podia obter coisas pelo ar que tenho. não faço sorrisos débeis, não insinuo nada, não coloco a minha foto em lugar nenhum. não quero que me deixem passar, façam entrar, autorizem a não pagar, et j'en passe, por causa da cara que tenho. não me interessam as vantagens presumíveis ou possíveis. acho a coisa injusta para as pessoas menos afortunadas. passei anos a tapar o corpo com fatos masculinos, até ter descoberto que se alguém me epitomasse ao meu aspeto, era um problema dele. e que a decisão final de tirar ou não proveito do físico, só dependia de mim. o que visto só me diz respeito a mim. não preciso da confirmação ou da aprovação de ninguém. sei exatamente o que valho. é bastante triste não o saber. é importante estar consciente das próprias qualidades. e dos defeitos. não tem nada a ver com vaidade.

detesto malas. sobretudo as minúsculas em que só entram um cartão multibanco e um tampão. se calhar também um lenço de papel mas só se for habilmente e cuidadosamente dobrado. mas há algum tempo decidi comprar uma que dava com toda a roupa elegante que eu tinha. estava a hesitar entre duas quando a empregada, uma cinquentona, disse-me para eu comprar a mais escura porque era exatamente o que eu precisava. adoro ser aconselhada e guiada por mulheres emocionalmente maduras e sensatas. as que não se sentem ameaçadas porque se é mais novo, inteligente, bonito, esbelto ou bem-sucedido. as que conseguem ser felizes porque se é todas essas coisas. as que seguem um caminho próprio. que percebem o que importa na vida. que nunca ficam surpreendidas com as circunstâncias. que reagem com calma e ponderação. que sabem que poderiam de um estalo de dedos destruir um mundo todo, só para o reconstruir três minutos mais tarde, mas que nunca nem querem nem precisam fazê-lo. as que sabem o que representam e quanto valem. as que intervêm se for necessário, mas eclipsam-se, um sorriso na boca, quando se recupera o controlo da situação. as que nos tornam em pessoas melhores, sem pré-avisos nem explicações e a não pedir nada  em troca.

quando há excelência numa mulher (o que é bastante raro, porque a maioria é completamente estúpida, manipuladora, incompetente, irracional, emocional, ameaçada por um tudo e um nada, e não pensa) ultrapassa a do homem.

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