há coisas que não cabem numa mala de mulher. o leszek ensinou-me a arrumar a
trouxa com uma precisão matemática - calculadora de peso no
olho e mão cuidadosa na formação dos ângulos - mas, às vezes, simplesmente, há
coisas que não cabem. quadros enormes de poliestireno cheios de alfinetes,
blocos gigantescos, lápis, canetas e marcadores de tantas cores e
larguras que davam ciúmes às crianças de todos as escolas primárias do mundo,
diferentes tipos de tesouras, fios, inumeráveis utensílios para a máquina de
costura, livros espessos com mais desenhos do que texto, duas grandes garrafas
de água e uma infinidade de tecidos, padrões, réguas, agulhas, tiras e outras.
poucos são os escolhidos dos deuses que têm um compartimento para deixarem o equipamento
na escola. tenho de levar duas malas gigantescas todos os dias.
| com o passar do tempo, as nossas lembranças cobrem se do pó e nos deixam com saudades |
o caminho pelo metropolitano, invariavelmente o mesmo, um capuz no cabelo molhado, óculos de sol independentemente do tempo e da estação, um substituto de privacidade numa cidade que olha fixamente para todos e repara nos pontos fracos num espaço de três segundos, o passo titubeante às 8 da manhã, depois de tão poucas horas de sonho que nem devia ser permitido. a estação de metropolitano regular é a 300 metros de casa. para apanhar um metro rápido, devo andar 7 minutos, mas encurta significantemente o tempo da viagem. são quatro estações em vez de dez. pois, como o metro regular também lá pára, é sempre uma opção a mais em caso de atrasos. crónicos. é a palavra que melhor qualifica atrasos no metro nova-iorquino. crónicos. atravesso, tão rapidamente quão mo permitam os quilos a serrar nos ombros, as oito ruas que me separam do caixote de metal, onde tal como uma sardinha em lata, vou viajar na direcção do centro da metrópole. o elemento chave é de se posicionar perto da primeira carruagem, porque aumenta consideravelmente a hipótese de conseguir entrar no comboio nos primeiros vinte minutos da estadia na estação. estadia que, por princípio, não tem nada de curioso nem esplendoroso, a não ser a observação do tipo de lixo que as pessoas têm a fantasia de despejar nos trilhos e da variação do interesse que as ratazanas mostram por elas.
os nova-iorquinios são um povo que dominou na perfeição a faculdade de ignorar. ilusionistas do momento, conseguem fazer desaparecer tudo o que lhes rodeia. sem exceções. estar a 5 centímetros duma pessoa sem a ver, olhar através de caras como se fossem transparentes, como se lhes tivessem enfaixado os olhos na entrada do comboio. não que sejam menos socialmente cegos no autocarro ou na rua, mas no autocarro e na rua, pode-se fingir estar absorvido em coisas que estão a acontecer em volta ou no seu próprio passo. normalmente, uma vez parado, o homem é este tipo de criatura que repara mais e presta mais atenção. mas, pelos vistos, há exceções. não sei em que pode estar focada a concentração deles. nos anúncios que afirmam que um homem em dois tem problemas de erecção, que os percevejos são extermináveis ou que é melhor investir numa marca x de lâmpada porque duram tanto tempo que as viagens frequentes e vertiginosas ao cimo duma escada vão revelar-se desnecessárias? nunca validei empiricamente a minha hipótese que se possa apanhar o metro nova-iorquino nu sem as pessoas notarem - havia sempre muitos agentes de policia nas estações e o exibicionismo nos estados unidos é punível por lei - mas tenho poucas dúvidas sobre a sua certeza.
os nova-iorquinios são um povo que dominou na perfeição a faculdade de ignorar. ilusionistas do momento, conseguem fazer desaparecer tudo o que lhes rodeia. sem exceções. estar a 5 centímetros duma pessoa sem a ver, olhar através de caras como se fossem transparentes, como se lhes tivessem enfaixado os olhos na entrada do comboio. não que sejam menos socialmente cegos no autocarro ou na rua, mas no autocarro e na rua, pode-se fingir estar absorvido em coisas que estão a acontecer em volta ou no seu próprio passo. normalmente, uma vez parado, o homem é este tipo de criatura que repara mais e presta mais atenção. mas, pelos vistos, há exceções. não sei em que pode estar focada a concentração deles. nos anúncios que afirmam que um homem em dois tem problemas de erecção, que os percevejos são extermináveis ou que é melhor investir numa marca x de lâmpada porque duram tanto tempo que as viagens frequentes e vertiginosas ao cimo duma escada vão revelar-se desnecessárias? nunca validei empiricamente a minha hipótese que se possa apanhar o metro nova-iorquino nu sem as pessoas notarem - havia sempre muitos agentes de policia nas estações e o exibicionismo nos estados unidos é punível por lei - mas tenho poucas dúvidas sobre a sua certeza.
além disso, o metropolitano é regulado pelos direitos da selva. não faz sentido nenhum esperar até que as pessoas saiam primeiro, porque a multidão atrás não tem compaixão nenhuma pelos fracos ou os que hesitam. nem pelos falhados que não conseguem chegar a tempo a um assento. é melhor entrar a pisar nas pessoas, a dar golpes com malas e depois a olhar para todos com uma expressão de surpresa absoluta na cara porque são eles que deviam pedir desculpas por ficarem no caminho. é a única linguagem que eles percebem. os fuck you ouvem-se com regularidade se uma pessoa tocar alguém inadvertidamente com a extremidade dum cabelo ou um filo excessivamente longo dum cachecol. é com grande alívio que saio do metro para continuar a pé o caminho da escola. de tarde, vou ter de o apanhar outra vez durante quarenta minutos para ir trabalhar em brooklyn e depois de novo uma hora e meia para voltar para casa. pelo menos já vai haver menos pessoas e vou conseguir ler sem problemas. paciência.
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