quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

das coisas perdidas, irrecuperáveis?

há alguns anos tive uma conversa com duas senhoras na fila para a casa de banho no aeroporto de lisboa. conversas assim, em lugares inesperados e com desconhecidos, são das melhores que se pode ter. conhece-se pessoas com antecedentes, bagagens e pontos de vista completamente diferentes dos nossos. muitas vezes nunca tínhamos a ocasião de falar com elas se não fosse por essa situação. perde-se todas as inibições ao saber que nunca mais as vamos rever. liberta. desobriga. faz desconstruir os muros que nos protegem. ficar fora da caixa. ensina enfoques novos e maneiras imprevistas. ganha-se inspiração, locupletação, sabedoria. uma delícia.

nessa fila uma senhora estava com a filha de quase dois anos. e a outra estava a
para sempre?
dizer que dois ou três anos era a idade da honestidade. nessa altura as crianças sempre diziam o que achavam, quer fosse positivo ou negativo. e que depois perdíamos essa aptidão para sempre. 

não sei se isso é verdade. se se trata realmente do irrecuperável. acho que o mundo duma criança converte tudo num modo binário. classifica-se a realidade em função de ser boa ou má. adora-se ou detesta-se. o meio, o tépido, o cinzento, não existem. não importam. não interessam. quer-se sensações fortes, pontos fixos. catalogar dá uma sensação de definição das coisas, de dominação do mundo, de casulo protetor, de posse da situação.

a filha de amigos comentou há pouco que eu devia tirar os meus óculos (como não os uso sempre ela estava mais habituada a ver-me sem) porque me ficavam muito mal e estava feia. durante três segundos pensei em dizer-lhe (além do facto que os meus óculos me ficam extremamente bem, eheheh) que não se devia dizer coisas assim. que eram pouco delicadas. que podiam causar tristeza. até magoar. mas não o fiz. quantos adultos é que têm a coragem de dizer o que pensam? que não estão preocupados com a imagem que projetam, com o que as outras pessoas pensam deles, com as pontes que podem queimar, com o poder ou prestígio que podem perder, com o nível de conforto que pode desaparecer? poucos. muito poucos. então quem sou eu para obrigar uma criança a passar desse lado de meias-palavras, de omissões, de sombras, de mentiras, de pseudo cortês hipocrisia? e só porque não gostei do que ela me disse? afinal de contas, faço exatamente a mesma coisa - digo claramente quanto não gosto. e mesmo se espero ser mais delicada nas minhas críticas, de certeza não sou. também porque adultos ficam à espera de algo que lhes agrade e não que seja honesto. não vêem utilidade nenhuma na sinceridade. sinceridade significa afrontar-se. significa assumir-se. gostar de si mesmo. ficar puro. escolher o difícil. saber renunciar. não perder o enfoque. não se deixar distrair por pormenores.

na vida não há coisas para as quais seja tarde demais. o simples, o básico e o fundamental, mesmo que pareçam evidentes, são os mais difíceis para atingir. na cabeça há sempre a voz da criança que fomos. alguns deixam-na falar, ouvem-na, outros silenciam-na ou ignoram. mas está lá. e às vezes diz coisas que não se consegue aprender nem com séculos de experiência. faz voltar a uma época em que o caminho a escolher apresentava-se sozinho. a vida era simples. e a dicotomia branco/preto ditava a felicidade.

afortunados são os adultos que conseguem extrair a voz da criança que eram.

2 comentários:

  1. ótimo texto . quando criança, comentei com uma coleguinha sobre uma mulher muito gorda que estava ao nosso lado. ela disse que era sua mãe e logo percebi um constrangimento no seu olhar. neste momento entendi que deveria tomar muito cuidado com as palavras e nunca mais esqueci este momento.

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    1. obrigada. acho que um comentário honesto, é uma das melhores coisas que se possa oferecer, independentemente da idade que se tem. há pouco tempo, depois dum jantar na casa duma conhecida, onde ela estava com o cabelo não lavado há uma semana e dois centímetros de grisalho na raiz, hesitei se lhe devia dizer algo. perguntei-me o que era pior - dizer ou fingir que nada aconteceu. e decidi dizer a verdade, a pensar que se calhar ela não estava consciente do problema. eu sei que estive demasiado direta, mas a rapariga acabou por ir ao meu cabeleireiro e agora o cabelo dela é sublime.

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